{"id":5016,"date":"2013-06-25T21:35:05","date_gmt":"2013-06-25T21:35:05","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5016"},"modified":"2013-06-25T21:35:05","modified_gmt":"2013-06-25T21:35:05","slug":"as-farc-ep-e-o-acordo-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5016","title":{"rendered":"As FARC-EP e o acordo de paz"},"content":{"rendered":"\n<p>Nesta entrevista com Pablo Catacumbo, membro do Estado-Maior Central das FARC-EP explica como e por que raz\u00e3o as FARC-EP a negociar com o governo de Juan Manuel Santos: \u00abSentimos que havia a possibilidade de alcan\u00e7ar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que nunca esteve ausente da nossa abordagem estrat\u00e9gica\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Maria Jimena Duzan (MJD): <\/strong>H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o sa\u00eda das montanhas?<\/p>\n<p><strong>Pablo Catatumbo (PC):<\/strong> \u00c0 civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o venho desde as negocia\u00e7\u00f5es de Tlaxcala. Ou seja, h\u00e1 quase 25 anos. E h\u00e1 12 que n\u00e3o via Iv\u00e1n Marquez.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Voc\u00ea foi o primeiro membro do Secretariado, a dar o passo que iniciou o processo de paz. O que o levou a isso?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Certo. As explora\u00e7\u00f5es come\u00e7aram com o governo de Uribe, quando nos enviou uma carta, assinada pelo ent\u00e3o comiss\u00e1rio Frank Pearl. Naquela \u00e9poca, no entanto, consideramos que n\u00e3o era vi\u00e1vel entrar num processo de paz quando o seu mandato estava terminando.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>E por que decidiram iniciar conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias com o governo de Santos?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Porque as cartas que nos enviou e as mensagens que nos fez chegar tinham outros conte\u00fados. Al\u00e9m disso, iniciava-se um novo governo e desde o dia de sua posse o presidente disse que n\u00e3o tinha fechadas as portas da paz e que as chaves as tinha ele. Com Alfonso Cano e o secretariado analis\u00e1mos o discurso e pareceu-nos que havia nele uma mensagem. Sentimos que havia a possibilidade de alcan\u00e7ar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que nunca esteve ausente da nossa abordagem estrat\u00e9gica. O resto eu n\u00e3o posso dizer porque temos acordos de confidencialidade com o presidente, que ambos estamos a respeitar.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Qual o impacto que pode ter a poss\u00edvel reelei\u00e7\u00e3o do presidente Santos sobre o processo de paz?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Eu acho positivo. Se o presidente for reeleito, d\u00e1-se continuidade ao processo. Por outro lado, d\u00e1-lhe a oportunidade de defend\u00ea-lo, algo que ele n\u00e3o fez at\u00e9 agora, com for\u00e7a e convic\u00e7\u00e3o suficientes.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Por que diz isso?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Tem tido sempre uma mensagem dupla. Por um lado est\u00e1 \u00e1 mesa em Havana, mas, por outro, vive falando-nos de prazos. Primeiro deu-nos um e, em seguida, alargou-o at\u00e9 Novembro. E v\u00e1rias vezes deu a entender que, se isso n\u00e3o funcionar, n\u00e3o se perde nada porque voltaremos \u00e1 guerra de sempre.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>O documento escrito pelo comiss\u00e1rio para a paz, Sergio Jaramillo, defende o processo e coloca a import\u00e2ncia do fim do conflito. Voc\u00ea n\u00e3o o entende assim?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>O que fez Sergio Jaramillo? Expor de maneira clara e coerente o pensamento que tem o governo do que deveriam ser as negocia\u00e7\u00f5es de paz. Sob esse ponto de vista, parece interessante, porque antes n\u00e3o o tinham feito. Mas esclare\u00e7o, essa \u00e9 a opini\u00e3o do governo, n\u00e3o a nossa.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> E o que n\u00e3o compartilham no documento do alto comiss\u00e1rio?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Para come\u00e7ar, diferimos nos tempos. N\u00e3o queremos um processo expresso. Num confronto que tem causado tanta trag\u00e9dia no pa\u00eds e que j\u00e1 dura h\u00e1 quase 50 anos \u00e9 muito dif\u00edcil colocar prazos.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Isso quer dizer que este ano n\u00e3o haver\u00e1 fumo branco?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Eu n\u00e3o gostaria de cair nesses cen\u00e1rios. Preferimos lembrar ao governo, que h\u00e1 quest\u00f5es muito importantes em que ainda n\u00e3o h\u00e1 acordo, como acontece com a propriedade da terra na Col\u00f4mbia. O latif\u00fandio \u00e9 o que historicamente nos levou para a guerra. Se recordar, este conflito come\u00e7ou quando Lopez Pumarejo disse que os camponeses tinham direito \u00e0s suas terras, e imediatamente o poder latifundi\u00e1rio lhe caiu em cima. Assim come\u00e7ou a guerra.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Voc\u00ea pede ao governo para defender o processo, mas demoraram seis meses a discutir o primeiro ponto. A esse ritmo n\u00e3o v\u00e3o acabar nunca.<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Eu concordo que o processo precisa de avan\u00e7ar. Mas para isso ter\u00e1 que haver vontade de ambos os lados. O governo disse que tem linhas vermelhas e sabe at\u00e9 onde ir. Isso, se n\u00e3o for bem explicado, presta-se a conjecturas. \u00c9 parecido com o que Uribe chamava os inamov\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> No Congresso est\u00e1-se discutindo uma proposta para suspender o processo de paz durante a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Parece-lhe vi\u00e1vel?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Pode ser bem intencionada, mas falta sustent\u00e1-la mais e pode tornar o processo invi\u00e1vel. Repito: tem havido progressos, mas n\u00e3o os suficientes. O governo prop\u00f4s-se devolver as terras a quem as tiraram, mas isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma reforma agr\u00e1ria, muito menos uma revolu\u00e7\u00e3o. Apenas um acto de justi\u00e7a elementar e mesmo assim incompleto, uma vez que a expropria\u00e7\u00e3o foi de 8 milh\u00f5es de hectares e apenas prop\u00f5em devolver 2 milh\u00f5es. Para que haja uma revolu\u00e7\u00e3o no campo, ao menos ter\u00edamos que mudar a injusta concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra. Assim, quando dizem que a propriedade privada n\u00e3o ir\u00e1 ser afectada, pensamos que estas s\u00e3o as linhas vermelhas de que o presidente Santos fala.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Ningu\u00e9m duvida que h\u00e1 concentra\u00e7\u00e3o de terras. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 direito \u00e1 propriedade privada e o governo tem sido muito claro em que n\u00e3o se vai tocar nesse assunto \u00e0 mesa. Ser\u00e1 que voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam linhas vermelhas que n\u00e3o os est\u00e3o deixando avan\u00e7ar?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Eu esclare\u00e7o. N\u00f3s n\u00e3o estamos falando em expropriar todos os latif\u00fandios. Apenas que se apliquem os instrumentos administrativos e as leis que existem para p\u00f4r limites a essa concentra\u00e7\u00e3o. Propomos, portanto, que, se h\u00e1 40 milh\u00f5es de hectares de pecu\u00e1ria extensiva, pelo menos metade seja afecta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Tamb\u00e9m sobre o tema das Zonas de Reserva Rurais, pedimos para legalizar os 9 milh\u00f5es e meio de hectares de terra que est\u00e3o em processo de constitui\u00e7\u00e3o, mas o governo recusa, argumentando que s\u00e3o apenas 3 milh\u00f5es e meio.<\/p>\n<p>Quando entrei na guerrilha, San Vicente de Cagu\u00e1n n\u00e3o existia, a zona do La Uribe e El Pato eram mata. O General Rojas havia implementado uma reforma agr\u00e1ria para dar terra aos camponeses, mas na floresta, e eles vieram com seus machados para derrubar a montanha. Estes s\u00e3o os agricultores que hoje est\u00e3o reclamando que lhes legalizem as suas terras. Isso aconteceu at\u00e9 nos Estados Unidos, quando se povoou o Oeste, mas a Col\u00f4mbia \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds onde se tem que fazer uma guerra para registar uma terra que j\u00e1 \u00e9 deles de facto.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Se o processo de paz se concretizar, voc\u00ea quereria chegar ao Congresso?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Mar\u00eda Jimena \u2026 Se o meu objectivo fosse chegar ao Congresso n\u00e3o teria necessidade de passar 40 anos a monte. Se eu lutei tantos anos n\u00e3o foi para se tornar apenas um parlamentar. Para isso, eu teria entrado para um partido tradicional e me teria tornado mais um cliente. Temos um enorme desejo de paz, mas seria injusto para o pa\u00eds que uma guerra que j\u00e1 custou tanto, termine sem uma mudan\u00e7a m\u00ednima nas condi\u00e7\u00f5es sociais do povo. E seria um acto irrespons\u00e1vel por parte dos guerrilheiros colombianos buscarem s\u00f3 benef\u00edcios pessoais.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> E entre esses benef\u00edcios pessoais o de n\u00e3o ir para a cadeia depois de todos os crimes que cometeram \u00e9 um dos que lhes interessa?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> O que n\u00f3s pensamos \u00e9 que a proposta de Santos n\u00e3o \u00e9 generosa a esse respeito. O M-19 obteve amnistia, constitui\u00e7\u00e3o, circunscri\u00e7\u00e3o eleitoral especial, minist\u00e9rios e at\u00e9 mesmo not\u00edcias. Tudo isso lhes foi dado acabando com a tomada do Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a. Para as FARC-EP, que \u00e9 uma guerrilha muito mais importante, oferecem-nos um quadro jur\u00eddico em que n\u00f3s temos que ir para a cadeia. Quantos anos? Pergunta um. Poucos, a\u00ed uns quatro a oito, dizem eles. Isso n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Nem tem l\u00f3gica pedir esses benef\u00edcios judiciais sem terem esclarecido como v\u00e3o resolver o problema das v\u00edtimas.<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00f3s j\u00e1 dissemos que vamos dar a cara \u00e1s v\u00edtimas. O que acontece \u00e9 que quando dizemos que tamb\u00e9m somos v\u00edtimas, muitos o interpretam como uma maneira c\u00ednica de dizer que n\u00e3o temos nenhuma responsabilidade. N\u00e3o \u00e9 verdade. O que acontece, ainda que muitos o n\u00e3o queiram aceitar, \u00e9 que n\u00f3s tamb\u00e9m somos v\u00edtimas. Cada um dos representantes da FARC-EP em Havana, para al\u00e9m dos andam no mato, tem uma trag\u00e9dia para contar.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> No seu caso, eu julgo que sua irm\u00e3 foi sequestrada por Carlos Casta\u00f1o em 1998.<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Minha irm\u00e3 nem sequer era de esquerda, era uma jovem normal. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria que ela me escreveu antes de desaparecer: Casta\u00f1o tinha concebido uma estrat\u00e9gia para humilhar os comandantes e retaliar contra n\u00f3s e decidiu sequestrar alguns dos nossos familiares.<\/p>\n<p>No meu caso, primeiro tentou sequestrar a minha m\u00e3e, uma outra irm\u00e3 e a m\u00e3e do meu filho. Quando n\u00e3o conseguiu, avan\u00e7ou contra a minha irm\u00e3 Yanette. Ela tinha um relacionamento com um homem casado que estava em processo de div\u00f3rcio. Ele disse-lhe que ia vender um apartamento e ia dar esse dinheiro a ela. Eram 28 milh\u00f5es de pesos<\/p>\n<p>Os Casta\u00f1o, que se haviam infiltrado, sabiam desses milh\u00f5es na conta da minha irm\u00e3 e assumiram que eram \u201d dinheiro maldito das FARC\u201d, como escreveu na sua carta. Quando a levaram a Casta\u00f1o, minha irm\u00e3 foi acusada de ser uma fachada para o dinheiro de Pablo Catatumbo, quando eu n\u00e3o tenho mais que uma tenda para fazer o meu cambuche.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>\u00c9 verdade que a sua irm\u00e3 e Carlos Casta\u00f1o se apaixonaram?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Como podia ser verdade? Como \u00e9 que a ia sequestrar e de repente se apaixonar por ela? O que aconteceu depois foi que Casta\u00f1o nos pressionou para negociarmos. Ele deu-me raz\u00f5es, mas eu disse que n\u00e3o iria falar com ele, que n\u00e3o estava com medo. Foi uma decis\u00e3o que tom\u00e1mos todos n\u00f3s no secretariado, porque n\u00e3o era s\u00f3 a minha irm\u00e3, mas a m\u00e3e e a irm\u00e3 de Ivan, o irm\u00e3o de Alfonso, a irm\u00e3 de Simon Trinidad.<\/p>\n<p>Algum tempo depois os Casta\u00f1o decidiram libert\u00e1-los a todos, mas ela teve que ir para o ex\u00edlio na Costa Rica. A\u00ed se estabeleceu, mas sempre com o sonho de voltar para Cali, onde estavam o seu filho e o seu namorado. Um dia, recebeu um telefonema dos Casta\u00f1o na qual lhe diziam que se quisesse voltar, combinaria com eles. Embora a fam\u00edlia lhe dissesse que n\u00e3o viesse ela insistiu, alegando que queria ver seus filhos e que n\u00e3o devia nada. Veio, e quando chegou ao Panam\u00e1, saiu do avi\u00e3o e at\u00e9 agora n\u00e3o ouvimos falar mais dela.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Voc\u00eas admitem ter sequestrado e assassinado o pai de Carlos Casta\u00f1o?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Embora eu n\u00e3o fosse o comandante na \u00e9poca, nem estava nessa zona, sim, \u00e9 verdade que o pai foi retido pelas FARC, mas n\u00e3o executado. Aparentemente, morreu numa tentativa de resgate, quando se estava a proceder \u00e0 sua liberta\u00e7\u00e3o. Mas, sabe, n\u00e3o guardo rancores. Eu entendo que este \u00e9 um conflito que nos afectou a todos n\u00f3s. Por isso falamos de v\u00edtimas do conflito, incluindo as fam\u00edlias dos soldados, dos guerrilheiros\u2026<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> \u2026 as dos deputados do Valle, mortos pelas FARC ou as dos Turbay Cote, que tiveram o mesmo destino.<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Sim, os pol\u00edticos. Na verdade, eu n\u00e3o tive nenhum envolvimento directo em qualquer dessas duas opera\u00e7\u00f5es, mas entendo que deve ser um drama imenso e terr\u00edvel, que n\u00e3o podemos negar e que, a seu tempo devemos tratar como organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>No caso dram\u00e1tico do assass\u00ednio dos 11 deputados do Valle, est\u00e3o dispostos a assumir a responsabilidade?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Estou-lhe dizendo que a\u00ed h\u00e1 uma responsabilidade que devemos tratar enquanto organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> A irm\u00e3 dos Turbay Cote, em entrevista ao El Tiempo, diz perdoar somente se disserem a verdade. O que voc\u00ea responde?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Eu acho um gesto de toler\u00e2ncia e nobreza de sua parte. Mas repito: nesse tema das v\u00edtimas h\u00e1 que colocar sobre a mesa todo o problema. Levantemo-lo, mas completo!<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Um casal espanhol acaba de ser sequestrado em La Guajira. Voc\u00eas negaram t\u00ea-los. Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de acreditar que n\u00e3o continuam a sequestrar?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Volto a repetir: as FARC deram ordens para todas as nossas frentes para n\u00e3o deter pessoas. E, definitivamente, a reten\u00e7\u00e3o desse par de cidad\u00e3os espanh\u00f3is n\u00e3o foi obra das FARC.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Hoje est\u00e1 em Havana, mas amanh\u00e3 voc\u00ea pode voltar para a montanha para lutar numa guerra que est\u00e3o perdendo. N\u00e3o teme acabar como Alfonso Cano?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Que n\u00f3s estejamos perdendo essa guerra \u00e9 relativo. O certo \u00e9 que nem o ex\u00e9rcito foi capaz de nos derrotar, nem n\u00f3s fomos capazes de vencer a guerra. Continuar este conflito n\u00e3o pode ser bom para o pa\u00eds. Pergunta-me se eu tenho medo da morte e eu respondo: quando algu\u00e9m assume um compromisso revolucion\u00e1rio deve assumir as consequ\u00eancias. A n\u00f3s, revolucion\u00e1rios, n\u00e3o nos move o desejo de preservar a vida, sen\u00e3o para defender os nossos ideais. Por isso Che Guevara disse que somos uma esp\u00e9cie rara. E quanto \u00e0 morte de Alfonso, eu acho que mand\u00e1-lo matar foi o pior erro de Santos. Ele era o grande homem da paz.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Essa imagem altru\u00edsta dos rebeldes em armas contrasta com o que t\u00eam feito durante tantos anos de guerra. S\u00e3o uma guerrilha cada vez mais aliada com o narcotr\u00e1fico e que sujeita civis a extors\u00e3o e sequestro, ao recrutamento de menores e p\u00f5e minas terrestres.<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>Olhe, um Ex\u00e9rcito que lutou, que sofreu uma guerra como a que temos sofrido, se fosse integrado por traficantes de drogas, h\u00e1 muito que teria quebrado. N\u00f3s suport\u00e1mos oito anos de Plano Patriota, al\u00e9m de dois anos de luta com este Ex\u00e9rcito de Santos. E digo-lhe uma coisa: n\u00e3o \u00e9 verdade que este governo tenha abrandado o combate. A intensidade do confronto \u00e9 igual ou maior do que com Uribe. Eu venho da frente dessa guerra.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Como se sente sentado em frente do general Mora e do general Naranjo?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Cumprimentamo-nos cordialmente. N\u00f3s nunca entendemos isto como uma luta pessoal. Vemo-los como advers\u00e1rios, num confronto pol\u00edtico em que eles se encontram de um lado e n\u00f3s do outro. Um destes dias ouvi dizer ao General Naranjo que, quando se respeita o inimigo, \u00e9-se respeitado. Eu acho que \u00e9 uma boa frase.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Se \u00e9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 sequestros e que nada t\u00eam a ver com o narcotr\u00e1fico, algo dif\u00edcil de acreditar, como est\u00e3o ent\u00e3o a financiar a guerra?<\/p>\n<p><strong>PC: <\/strong>A quest\u00e3o da reten\u00e7\u00e3o para fins econ\u00f3micos est\u00e1 definitivamente cancelada. O que eu lhe quero dizer \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o somos traficantes.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Porque entrou para a guerrilha?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Eu tornei-me guerrilheiro depois de uma conversa com Jaime Bateman, que na \u00e9poca era da rede urbana das FARC. A partir dessa conversa eu fiquei convencido de que o caminho estava na luta armada. Entrei para a guerrilha, verifiquei que o meu irm\u00e3o j\u00e1 pertencia a ela e, em seguida, com Carlos Pizarro e \u00c1lvaro Fayad. Embora estes dois tenham desertado para fundar a M-19, eu n\u00e3o o fiz, porque sempre tenho seguido a pol\u00edtica das FARC. No entanto, respeitei muito Pizarro. Outra coisa \u00e9 Navarro e companhia. Eles abandonaram os ideais de Pizarro e Bateman. Navarro nunca foi um revolucion\u00e1rio e Petro acho que nem sequer guerrilheiro foi.<\/p>\n<p><strong>MJD: <\/strong>Voc\u00eas dizem que sempre tiveram um desejo de paz, mas Pastrana ficou esperando com uma cadeira vazia por Marulanda, que nunca veio.<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Pastrana comprometeu-se a acabar com os grupos paramilitares. Mas n\u00e3o o fez. E Marulanda, que era desconfiado, duas vezes se levantou da mesa por causa da quest\u00e3o dos massacres paramilitares. Marulanda foi perdendo a confian\u00e7a. Essa foi a verdade. Marulanda queria a paz. Pois se at\u00e9 mandou fazer uma casa no Cagu\u00e1n com piscina e acho que nem sabia nadar.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Acha que desta vez v\u00e3o assinar o fim do conflito?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> H\u00e1 que construir uma forte convic\u00e7\u00e3o em ambos os lados de que este processo \u00e9 poss\u00edvel. N\u00f3s vamos empenhar-nos totalmente nesse prop\u00f3sito. Mas desde o in\u00edcio dissemos muito claramente que o nosso n\u00e3o \u00e9 uma reabilita\u00e7\u00e3o, nem \u00e9 um processo semelhante ao do M-19. Estamos falando de um fim do conflito, mas que nos leve \u00e0 justi\u00e7a social. O presidente sabe disso e ficou isso claro desde as primeiras cartas que troc\u00e1mos. Eu vou-lhe dizer uma coisa: os processos de paz n\u00e3o t\u00eam funcionado no pa\u00eds por uma raz\u00e3o muito simples.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Qual?<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> A de que n\u00f3s n\u00e3o nos entendemos. Quando falamos de paz, o sistema compreende desmobiliza\u00e7\u00e3o. E para n\u00f3s, a paz significa justi\u00e7a social e algumas reformas e garantias de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Esse desencontro \u00e9 o que temos que superar. Por isso lhe digo: h\u00e1 progressos e temos que ser optimistas, mas sobretudo h\u00e1 que n\u00e3o nos levantarmos da mesa.<\/p>\n<p><strong>MJD:<\/strong> Mas \u00e9 que voc\u00eas s\u00e3o especialistas em n\u00e3o deixar a mesa. Conv\u00e9m-lhes o estatuto dado pela negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>PC:<\/strong> Podemos ir avan\u00e7ando na quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem encerrar o primeiro ponto, o da terra. Pode haver v\u00e1rias quest\u00f5es sobre as quais concordamos, mas h\u00e1 uma em que n\u00e3o estamos de acordo: o governo fala em referendo para referendar o que combinarmos e n\u00f3s falamos de uma constituinte. Mas \u00e9 para isso que estamos aqui, n\u00e3o para impor condicionamentos mas para encontrar formas que nos permitam chegar a um acordo.<\/p>\n<p><em>Este texto foi publicado na revista Semana<\/em><\/p>\n<p><em> <\/p>\n<p>*Jornalista da revista colombiana Semana<\/p>\n<p> <\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Guilherme Coelho<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2902\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2902<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMaria Jimena Duzan*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5016\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-5016","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1iU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5016"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5016\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}