{"id":5023,"date":"2013-06-27T00:22:26","date_gmt":"2013-06-27T00:22:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5023"},"modified":"2013-06-27T00:22:26","modified_gmt":"2013-06-27T00:22:26","slug":"pode-ser-a-gota-dagua-enfrentar-a-direita-avancando-a-luta-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5023","title":{"rendered":"Pode ser a gota d\u2019\u00e1gua: enfrentar a direita avan\u00e7ando a luta socialista"},"content":{"rendered":"\n<p>O mundo se move sob nossos p\u00e9s, as velhas formas se rompem, surgem novas e as contradi\u00e7\u00f5es que se acumulavam explodem buscando o caminho necess\u00e1rio, encontrando sua forma de express\u00e3o.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o social que abalou o pa\u00eds brotou do terreno escondido das contradi\u00e7\u00f5es. L\u00e1 para onde se costuma exilar as contradi\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas: a mis\u00e9ria, a dissid\u00eancia, a alteridade, a fei\u00fara, a viol\u00eancia. Germinaram no terreno do invis\u00edvel, escondido e escamoteado pela neblina ideol\u00f3gica e o marketing cosm\u00e9tico que epidermicamente encobre a carne pobre da ordem capitalista com grossas camadas de justificativa hip\u00f3crita, de cinismo laudat\u00f3rio de uma sociabilidade moribunda.<\/p>\n<p>As autoridades, os especialistas, soci\u00f3logos, politic\u00f3logos e jornalistas est\u00e3o perdidos dando raz\u00e3o \u00e0 dissertativa atribu\u00edda \u00e0 Marx segundo a qual \u201ca hist\u00f3ria s\u00f3 surpreende quem de hist\u00f3ria nada entende\u201d. Declamam seu espanto querendo acreditar na extrema novidade, pois s\u00f3 isto explicaria sua brutal ignor\u00e2ncia. No terreno da hist\u00f3ria nada \u00e9 absolutamente novo.<\/p>\n<p>Se h\u00e1\u00a0algo que \u00e9\u00a0muito conhecido para quem n\u00e3o se limita ao presentismo, ou foucaultianamente \u00e0\u00a0al\u00e9a singular do acontecimento, \u00e9\u00a0a insurrei\u00e7\u00e3o, a explos\u00e3o de massas. Caso tenham preconceitos contra nossa tradi\u00e7\u00e3o marxista e se recusem a ler as brilhantes an\u00e1lises de L\u00eanin em\u00a0Os ensinamentos da insurrei\u00e7\u00e3o de Moscou, ou de Trotski em\u00a0A arte da insurrei\u00e7\u00e3o, pode se remeter aos estudos de Freud em\u00a0A psicologia de massas e an\u00e1lise do ego, ou a magistral an\u00e1lise de Sartre em\u00a0A critica da raz\u00e3o dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>As massas explodem em uma din\u00e2mica que altera profundamente o comportamento dos indiv\u00edduos isolados que pacificamente se dirigiam diariamente ao matadouro do capital, em ordem, pacificamente, saindo de suas casas humildes, pegando \u00f4nibus superlotados e prec\u00e1rios, sendo humilhados pela pol\u00edcia, vivendo de seus pequenos sal\u00e1rios, vendo a orgia ostensiva do consumo e tendo que \u201csubviver\u201d\u00a0com o que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Os jovens do Movimento Passe Livre (MPL) est\u00e3o de parab\u00e9ns por uma luta que n\u00e3o vem de agora (lembremos Goi\u00e2nia e Florian\u00f3polis) e por conseguir dar consist\u00eancia a esta luta e ao confronto que os levou a dobrar a prepot\u00eancia dos que afirmavam de in\u00edcio que a tarifa n\u00e3o seria rebaixada. As manifesta\u00e7\u00f5es contra o aumento da passagem, no entanto, s\u00e3o apenas o desencadeador de algo muito maior. O movimento funcionou como um catalisador de um profundo descontentamento que estava soterrado pela propagando oficial.<\/p>\n<p>Analisemos, ent\u00e3o, as determina\u00e7\u00f5es mais profundas que se apresentam nesta explos\u00e3o social.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar as manifesta\u00e7\u00f5es expressam um descontentamento que germinava e que era alimentado pela a\u00e7\u00e3o que queria neg\u00e1-lo, isto \u00e9, pela arrog\u00e2ncia de um discurso oficial que insistia em afirmar que tudo ia bem: a economia estava bem, n\u00e3o porque garantia a produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida, mas por que permitia a reprodu\u00e7\u00e3o do capital com taxas de lucros aceit\u00e1veis, o Brasil escapara do pior da crise internacional a golpes de pesados subs\u00eddios \u00e0s empresas monopolistas, a infla\u00e7\u00e3o estava \u201centorno do centro da meta\u201d, o Brasil recebia eventos esportivos e se transformava em um canteiro de obras, os trabalhadores apassivados e suas entidades amortecidas pelo transformismo e pela democracia de coopta\u00e7\u00e3o se rendiam ao consumo via endividamento, a governo se regozijava com \u00edndices de aceita\u00e7\u00e3o que pareciam s\u00f3lidos.<\/p>\n<p>Acontece aqui um velho e conhecido fen\u00f4meno. A vida real n\u00e3o combina com o discurso ideol\u00f3gico. A infla\u00e7\u00e3o entorno da meta explodia na hora das compras, de pagar o aluguel, de pagar as contas, de pegar um \u00f4nibus. As delicias do consumo voltavam na forma de d\u00edvidas impag\u00e1veis. O acesso ao ensino vira o pesadelo da falta de condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia. O emprego desejado se transforma em doen\u00e7a ocupacional. O orgulho de receber eventos esportivos internacionais se apresenta na farra do boi de gastos enquanto a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a moradia, os transportes ficam \u00e0s moscas.<\/p>\n<p>O estopim foi o aumento das passagens e aqui se apresenta um elemento altamente esclarecedor. Nas primeiras experi\u00eancias de governos municipais do PT o enfrentamento da quest\u00e3o do transporte se deu atrav\u00e9s da municipaliza\u00e7\u00e3o deste servi\u00e7o. Em S\u00e3o Paulo chegou-se a falar e tarifa zero no governo de Erundina. Em uma segunda gera\u00e7\u00e3o de governos petistas, todas as empresas municipais foram devolvidas aos empres\u00e1rios que exploravam o setor (e explorar \u00e9 um termo preciso). Coincidentemente os empres\u00e1rios do transporte se tornaram uma das principais fontes de financiamento das campanhas deste partido.<\/p>\n<p>Entendendo que a explos\u00e3o \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel como forma de manifesta\u00e7\u00e3o de um profundo descontentamento, sabemos que \u00e9 mais que isso. Representa, tamb\u00e9m, o esgotamento de uma forma que tem sido muito eficaz de dom\u00ednio e controle pol\u00edtico. Cultivamos um fetiche pela forma democr\u00e1tica como se ela em si mesmo fosse a solu\u00e7\u00e3o enfim encontrada pela humanidade para superar um dilema hist\u00f3rico da ordem burguesa que a acompanha desde o nascimento e que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o dentro da sociedade capitalista: o abismo entre sociedade e Estado.<\/p>\n<p>A sociedade se representa atrav\u00e9s de pol\u00edticos eleitos que formam as esferas decis\u00f3rias, legislativas ou executivas, por meio do voto que transfere o poder para um conjunto de pessoas que supostamente expressam as diferentes posi\u00e7\u00f5es e interesses existentes na sociedade. Abstrai-se, desta forma, o quanto os reais interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos em jogo deformam esta suposta l\u00edmpida representa\u00e7\u00e3o resultando na consagra\u00e7\u00e3o do poder das classes dominantes, confirmando a dura descri\u00e7\u00e3o e Montesquieu segundo a qual \u201ca Rep\u00fablica \u00e9 uma presa; e sua for\u00e7a n\u00e3o passa do poder de alguns cidad\u00e3os e da licen\u00e7a de todos\u201d, ou na ainda mais incisiva afirma\u00e7\u00e3o de Marx (e depois L\u00eanin): a democracia \u00e9 o direito dos explorados escolher a cada quatro anos quem os representar\u00e1 e esmagar\u00e1 no governo.<\/p>\n<p>Desta maneira \u00e9\u00a0compreens\u00edvel o espanto daqueles que acreditavam que estava tudo bem em uma sociedade marcada pelas contradi\u00e7\u00f5es da forma capitalista e de sua express\u00e3o pol\u00edtica, ignorando as profundas e conhecidas contradi\u00e7\u00f5es que tal ordem gera inevitavelmente.<\/p>\n<p>Uma contradi\u00e7\u00e3o, no entanto, encontra sempre uma forma particular para se expressar. A forma como se expressaram as contradi\u00e7\u00f5es descritas tamb\u00e9m \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>O \u00faltimo per\u00edodo pol\u00edtico foi marcado por uma profunda despolitiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e dos movimentos reivindicativos da classe trabalhadora. Em dez anos de governo os trabalhadores n\u00e3o foram uma vez sequer chamados a participar ativa e independentemente da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas em defesa de seus interesses e no terreno que lhe \u00e9\u00a0pr\u00f3prio: as ruas, as pra\u00e7as, a cidade. Optou-se por uma governabilidade sustentada por alian\u00e7as de c\u00fapula nos limites da ordem pol\u00edtica existente e do presidencialismo de coaliz\u00e3o, mantendo seus m\u00e9todos, isto \u00e9, oferta de cargos, libera\u00e7\u00e3o de verbas e facilidades. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que em dez anos n\u00e3o se tenha implementado uma reforma pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em nenhum momento no qual uma demanda das massas trabalhadoras (reforma agr\u00e1ria, previd\u00eancia, direitos trabalhistas, garantia de servi\u00e7os p\u00fablicos, etc.) que se chocava com a resist\u00eancia dos setores conservadores foi resolvida chamando os trabalhadores a se manifestar e inverter a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as. Pelo contr\u00e1rio, via de regra, as solu\u00e7\u00f5es conservadoras foram propostas pelo governo que se\u00a0 pretendia popular e se pedia \u00e0s massas que se calassem e dessem, como prova de sua infinita paci\u00eancia, mais um voto de confian\u00e7a em suas lideran\u00e7as que deles se alienavam.<\/p>\n<p>Quando os trabalhadores se chocavam com a orienta\u00e7\u00e3o governista, como na \u00faltima greve dos professores e dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais, s\u00e3o tratados com arrog\u00e2ncia e prepot\u00eancia.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o nos espanta que a explos\u00e3o social se d\u00ea\u00a0da forma como se deu e traga os elementos contradit\u00f3rios que expressa: despolitizada e sem dire\u00e7\u00e3o, ainda que com alvos precisamente definidos: os governos e aquilo que representa a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>A despolitiza\u00e7\u00e3o se expressa de varias formas, mas duas delas se apresentam com mais evidentes: a viol\u00eancia e antipartidarismo. Comecemos pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 forma violenta que tanto espanta os ardorosos defensores da ordem temos que constatar que ela n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea. H\u00e1 pelo menos tr\u00eas vertentes da viol\u00eancia. Uma delas, difusa e desorganizada, \u00e9 aquela que expressa a raiva e o \u00f3dio contra uma ordem que oprime, n\u00e3o por acaso esta se dirige contra as express\u00f5es desta ordem, seja os pr\u00e9dios p\u00fablicos que abrigam as institui\u00e7\u00f5es da ordem pol\u00edtica burguesa (sedes de governo, parlamentos, pr\u00e9dios do judici\u00e1rio, etc.), mas tamb\u00e9m os monop\u00f3lios da imprensa, da televis\u00e3o, assim como os templos do consumo ostensivo. Esta manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel e at\u00e9, em certa medida, justificada. Marx e Engels, ao analisar a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1850 (Mensagem do Comit\u00ea Central \u00e0 Liga dos Comunistas) dizem a respeito:<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3\u00a0n\u00e3o devem opor-se aos chamados excessos, aos atos de vingan\u00e7a popular contra indiv\u00edduos odiados ou contra edif\u00edcios p\u00fablicos que o povo s\u00f3\u00a0possa relembrar com \u00f3dio, n\u00e3o somente devem admitir tais atos , mas assumir sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixemos aos pat\u00e9ticos novos defensores da \u201cordem e da tranq\u00fcilidade\u201d\u00a0 a defesa do fetiche do patrim\u00f4nio p\u00fablico, uma vez que \u00e9\u00a0esta \u201cordem\u201d \u00e9 que tem garantido \u00e0s classes dominantes e seus aliados de plant\u00e3o a \u201ctranq\u00fcilidade\u201d para saquear e depredar o verdadeiro patrim\u00f4nio p\u00fablico.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0uma segunda vertente da viol\u00eancia. Jovens das periferias, dos bairros pobres, das \u00e1reas para onde se expulsou os restos inc\u00f4modos desta ordem de acumula\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, que s\u00e3o cotidianamente agredidos e violentados, estigmatizados, explorados e aviltados, que agora, aproveitando-se do mar revolto das manifesta\u00e7\u00f5es expressam seu leg\u00edtimo \u00f3dio contra esta sociedade hip\u00f3crita e de sua ordem de cemit\u00e9rios. Sua forma violenta em saques e depreda\u00e7\u00f5es assustam, \u00e9 verdade, mas a consci\u00eancia c\u00ednica de nossa \u00e9poca passou a assumir como normal as chacinas, a viol\u00eancia policial. Pseudointelectuais chegaram a justificar como normal que a policia entre nas favelas e invada casas sem mandato, prenda, torture e mate em nome da \u201cordem\u201d; ou seja, a viol\u00eancia s\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel contra pobres, contra bandidos, contra marginais, mas \u00e9 inadmiss\u00edvel contra lixeiras, pontos de \u00f4nibus, bancos e vitrines.<\/p>\n<p>H\u00e1\u00a0uma terceira viol\u00eancia e esta n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0espont\u00e2nea e emocional como as duas primeiras: a extrema direita. Ela, l\u00e1 dos esgotos para onde foi jogada pela hist\u00f3ria recente, se sentia tamb\u00e9m ofendida e agredida, evidente que n\u00e3o pela ordem burguesa e capitalista que sempre defendeu, mas pelo irrespir\u00e1vel ar democr\u00e1tico que acertava as contas com nosso passado tenebroso, como a den\u00fancia contra o golpe de 1964 e seus sujeitos, com as comiss\u00f5es da verdade, mas sobretudo o mal estar desta extrema direta com um regime pol\u00edtico que permite a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e sua express\u00e3o, mesmo nos prec\u00e1rios limites de uma democracia representativa de coopta\u00e7\u00e3o. Assim como os movimentos sociais e de classe se despolitizam, a direita tamb\u00e9m. Para a extrema direita n\u00e3o interessa que a atual forma pol\u00edtica permita aos monop\u00f3lios seus gigantescos lucros e \u00e0 burguesia sua pornogr\u00e1fica concentra\u00e7\u00e3o de riquezas. A burguesia que j\u00e1 se serviu da trucul\u00eancia para garantir as condi\u00e7\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o de capital, hoje se serve da ordem e tranquilidade democr\u00e1tica para os mesmos fins e neste contexto n\u00e3o h\u00e1 fun\u00e7\u00e3o clara para seus antigos c\u00e3es de guarda.<\/p>\n<p>Estes n\u00e3o suportam nos ver andando com nossas camisetas que lembram nossos m\u00e1rtires, nossas bandeiras que recolhem o sangue de todos que lutaram, nossas firmes convic\u00e7\u00f5es que nos mant\u00eam nas lutas di\u00e1rias ao lado dos trabalhadores em defesa da vida, mas com o olhar certeiro no futuro necess\u00e1rio e urgente que supere a ordem do capital por uma alternativa socialista. Por isso nos atacam, usam das manifesta\u00e7\u00f5es para acertar suas contas com a esquerda, de forma organizada, intencional e, certamente, com apoio formal ou informal das aparatos de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o da extrema direita encontra respaldo na despolitiza\u00e7\u00e3o das massas, principalmente na express\u00e3o gritante do antipartidarismo. No entanto, neste caso temos que ter cautela ao analisar os fatos. O comportamento contra os partidos \u00e9 compreens\u00edvel, ainda que n\u00e3o justificado. Compreens\u00edvel por dois motivos: as massas, gra\u00e7as a triste experi\u00eancia petista, est\u00e3o cansadas de partidos que usam as demandas populares para eleger seus vereadores, deputados e presidentes que depois voltam as costas para estas demandas para fazer seus jogos e alian\u00e7as para manter em seus cargos; tamb\u00e9m, acertadamente, n\u00e3o podem aceitar que certos partidos pulem na frente de manifesta\u00e7\u00f5es e movimentos para tentar dirigi-los sem a legitimidade de ter constru\u00eddo organicamente as lutas.<\/p>\n<p>Tal atitude, portanto, compreens\u00edvel, \u00e9 injustific\u00e1vel pelo fato que ao mirar os partidos de esquerda erra pelo fato que foram os militantes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais que mantiveram no pior momento da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7a desfavor\u00e1vel as lutas entorno das demandas populares, por moradia, na luta pela terra, contra a reforma da previd\u00eancia, contra as privatiza\u00e7\u00f5es, em defesa da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade p\u00fablicas, contra os gastos com os eventos esportivos, contra as remo\u00e7\u00f5es. E o fizeram em um contexto em que as massas estavam submetidas a um profundo apassivamento e no qual o transformismo do PT em partido da ordem isolava a esquerda e a estigmatizava. Neste sentido os partidos de esquerda como o PCB, o PSTU, o PSOL e outras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, assim como os movimentos sociais e sindicatos, n\u00e3o precisam pedir licen\u00e7a a ningu\u00e9m para participar de lutas e manifesta\u00e7\u00f5es sociais, conquistaram legitimamente este direito na luta, com sua coer\u00eancia e compromisso.<\/p>\n<p>Para onde v\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es? Alguns ingenuamente, ou de forma interesseira, acreditam que a mera exist\u00eancia da a\u00e7\u00e3o independente de massas configura em si mesma um fator positivo de transforma\u00e7\u00e3o. Infelizmente, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos traz elementos para questionar esta tese, alguns exemplos da hist\u00f3ria muito recente. Quando da derrocada do leste europeu advinda do desmonte da URSS, muitos saudaram como a possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que retomasse o rumo interrompido das experi\u00eancias socialistas, mas o que vimos foi a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Agora sa\u00fadam a chamada \u201cprimavera \u00e1rabe\u201d, mas o que temos visto, e a L\u00edbia e o Egito s\u00e3o exemplos paradigm\u00e1ticos, \u00e9\u00a0o aproveitamento dos monop\u00f3lios na partilha do botim de pa\u00edses estrat\u00e9gicos isolando mais uma vez os setores populares.<\/p>\n<p>O sentido e futuro das manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o em disputa e temo em dizer que a esquerda est\u00e1\u00a0perdendo esta disputa para um sentido perigosamente de direita e conservador. Recentemente afirmei que a experi\u00eancia pol\u00edtica do \u00faltimo per\u00edodo, ao contr\u00e1rio do que alguns esperavam, havia produzido um desmonte na consci\u00eancia de classe e\u00a0 se expressava em uma virada conservadora no senso comum. Este processo ficou evidente nas manifesta\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da inten\u00e7\u00e3o de seus originais promotores. O produto multifacetado das contradi\u00e7\u00f5es mescla nas manifesta\u00e7\u00f5es elementos de bom senso e senso comum, criticas difusas \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es mais evidentes da sociabilidade burguesa em que estamos inseridos ao lado de reafirma\u00e7\u00f5es de valores pr\u00f3prios desta mesma ordem, o que seria natural se entendermos o processo de despolitiza\u00e7\u00e3o descrito.<\/p>\n<p>Quando os adeptos do espontaneismo alardeiam a virtude de uma manifesta\u00e7\u00e3o sem dire\u00e7\u00e3o e que hostiliza partidos se esquecem \u00e9 que se voc\u00ea n\u00e3o tem uma estrat\u00e9gia, n\u00e3o se preocupe, voc\u00ea faz parte da estrat\u00e9gia de algu\u00e9m. Al\u00e9m da evidente efici\u00eancia dos monop\u00f3lios da comunica\u00e7\u00e3o, o \u201cpartido da pena\u201d nos termos de Marx, em pautar o movimento selecionando as bandeiras que interessa \u00e0 ordem (luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, nacionalismo, diminui\u00e7\u00e3o de impostos, etc.), outros elementos muito perigosos se apresentam.<\/p>\n<p>Um cartaz na manifesta\u00e7\u00e3o no Rio dizia: se o povo precisar as For\u00e7as Armadas est\u00e3o prontas para ajudar. Significativamente os militantes antipartido n\u00e3o destru\u00edram esta faixa, talvez porque n\u00e3o sabem que existe al\u00e9m do partido da pena o \u201cpartido da espada\u201d.\u00a0 Em nota dos clubes militares da marinha, ex\u00e9rcito e aeron\u00e1utica, os militares depois de afirmar que as manifesta\u00e7\u00f5es expressam majoritariamente a indigna\u00e7\u00e3o com o descaso das autoridades com as aspira\u00e7\u00f5es da sociedade e que diante da dos v\u00edcios e omiss\u00f5es que se repetem chegou a hora de se \u201cmanifestar clamorosamente\u201d\u00a0e n\u00e3o aceitar \u201cser conduzido, resignadamente, como grupo ing\u00eanuo\u201d dando \u201cum basta \u00e0 impostura e \u00e0 impunidade\u201d. A nota dos militares termina com uma clara provoca\u00e7\u00e3o e cita Vandr\u00e9: \u201cquem sabe faz a hora, n\u00e3o espera acontecer\u201d.<\/p>\n<p>A direita s\u00f3 germina e cresce no vazio deixado pela esquerda. A ilus\u00e3o de um desenvolvimento capitalista capaz de resolver as demandas populares e garantir lucros aos capitalistas, sustentado por um governo de coaliz\u00e3o com a burguesia desarma os trabalhadores e a direita ocupa o terreno. H\u00e1 um evidente cheiro de golpe no ar. A embaixadora dos EUA que estava na Nicar\u00e1gua na \u00e9poca dos contras, na Bol\u00edvia quando da tentativa de dividir o pais, no Paraguai quando do golpe contra Lugo, chegou ao Brasil.<\/p>\n<p>Ao prefaciar o livro sobre de Leandro Konder sobre o fascismo republicado em 2009, dizia alertando para a atualidade do risco desta alternativa contra aqueles que achavam que este fen\u00f4meno estaria condenado ao passado:<\/p>\n<p>Capital monopolista em crise, imperialismo, ofensiva anticomunista, criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, decad\u00eancia cultural, hegemonia da pol\u00edtica pequeno-burguesa em detrimento da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria do proletariado, irracionalismo, neo-positivismo, misticismo, chauvinismos nacionalistas acompanhados ou n\u00e3o de racismo&#8230; N\u00e3o se enganem. S\u00f3 posso alertar, como certa feita o fez Marx: \u201cesta f\u00e1bula trata de ti\u201d.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o de massas deu o recado: olha s\u00f3\u00a0meu cora\u00e7\u00e3o, ele \u00e9\u00a0um pote at\u00e9\u00a0aqui de m\u00e1goa, qualquer desaten\u00e7\u00e3o, fa\u00e7a n\u00e3o&#8230; pode ser a gota d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>*Mauro Iasi \u00e9 membro do Comit\u00ea Central do PCB, professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ e pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio. \u00c9 autor do livro\u00a0O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Iasi*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5023\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[119],"tags":[],"class_list":["post-5023","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c132-passe-livre"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1j1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5023"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5023\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}