{"id":5035,"date":"2013-06-29T01:49:16","date_gmt":"2013-06-29T01:49:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5035"},"modified":"2013-06-29T01:49:16","modified_gmt":"2013-06-29T01:49:16","slug":"organizar-estudar-e-lutar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5035","title":{"rendered":"Organizar, Estudar e Lutar!"},"content":{"rendered":"\n<p>(Eis a f\u00f3rmula de L\u00eanin para se inserir revolucionariamente na Luta de Classes)<\/p>\n<p>Compreender o cen\u00e1rio atual, seus atores pol\u00edticos, organizar as massas em jornadas que de fato representem vit\u00f3rias de classe e ou ac\u00famulo de experi\u00eancia revolucion\u00e1ria e a consecutiva altera\u00e7\u00e3o no n\u00edvel da consci\u00eancia pol\u00edtica s\u00e3o as express\u00f5es dial\u00e9ticas da necess\u00e1ria luta ideol\u00f3gica e org\u00e2nica que os comunistas devem travar nesse momento.<\/p>\n<p>As recentes manifesta\u00e7\u00f5es do Congresso brasileiro e do Senado aprovando 75% dos royaltes da explora\u00e7\u00e3o do Petr\u00f3leo para a educa\u00e7\u00e3o e 25% para a sa\u00fade e a avalia\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter de urg\u00eancia pelo Senado da aprova\u00e7\u00e3o da Lei do Passe Livre para estudantes do ensino secundarista, s\u00e3o iniciativas do parlamento que tentam dar respostas r\u00e1pidas ao clamor das massas, principalmente aos setores mais organizados e que despertaram a onda de manifesta\u00e7\u00f5es por todo o pa\u00eds, caso da juventude em especial.<\/p>\n<p>Mas no v\u00e1cuo desse processo que vem das manifesta\u00e7\u00f5es das ruas e que ainda est\u00e1 em aberto, \u00e9 muito prov\u00e1vel que os setores mais conservadores e parcela dos liberais que momentaneamente d\u00e3o apoio ao Governo Dilma, ir\u00e3o se articular para atrav\u00e9s da bandeira da reforma pol\u00edtica promover emendas que restrinjam mais ainda a possibilidade de partidos de esquerda conseguirem ter alguma participa\u00e7\u00e3o no Poder, seja via congresso ou c\u00e2maras municipais e ou estaduais.<\/p>\n<p>Ao ouvir a entrevista do Presidente do STF, o Ministro Joaquim Barbosa, ficou claro o destaque em torno da proposta do voto distrital, forma de reduzir a participa\u00e7\u00e3o do eleitorado de um estado a uma sess\u00e3o espec\u00edfica apenas e o mandato revog\u00e1vel (desde que o distinto parlamentar n\u00e3o se condicione a determinadas regras de conduta que ser\u00e3o estabelecidas pelo pr\u00f3prio congresso) presumindo-se da\u00ed que aqueles parlamentares que se envolverem com manifesta\u00e7\u00f5es consideradas desordeiras ou com movimentos classificados como \u201cterroristas\u201d segundo o PL 728\/2011 que tramita no congresso, poder\u00e3o vir a perder os seus direitos.<\/p>\n<p>Ora, a Lei da Ficha Limpa, em tese, barraria pol\u00edticos desonestos, fraudadores, corruptos e que sofriam algum tipo de processo ou foram condenados em processos c\u00edveis ou penais por crimes dessa natureza. No entanto, sabemos de muitos casos de bandidos e corruptos pertencentes \u00e0 alta burguesia que puderam se candidatar, ao mesmo tempo em que n\u00e3o foram poucos os militantes de movimentos sociais, como os sem-terra, por exemplo, que por estarem respondendo a processos por \u201cinvas\u00e3o de terras\u201d, movido por latifundi\u00e1rios, tamb\u00e9m tiveram seus direitos pol\u00edticos restringidos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista politico h\u00e1 uma diferen\u00e7a abismal entre uma situa\u00e7\u00e3o e outra !<\/p>\n<p>O Governo Dilma est\u00e1 acuado pelas press\u00f5es que v\u00eam das ruas e tentar\u00e1 dar respostas at\u00e9 determinados limites a essas reivindica\u00e7\u00f5es, sem contudo alterar a l\u00f3gica perversa da macroeconomia em curso h\u00e1 mais de dez anos e que em grande medida \u00e9 a respons\u00e1vel direta pela fal\u00eancia do sistema p\u00fablico e aumento das contradi\u00e7\u00f5es sociais a que a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 submetida. Um dos elementos desse processo \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do super\u00e1vit prim\u00e1rio, que mesmo tendo diminu\u00eddo nesse primeiro semestre em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo do ano passado, ainda \u00e9 alt\u00edssimo. Al\u00e9m disso, nada foi feito na contram\u00e3o do processo de aprofundamento das rela\u00e7\u00f5es capitalistas e da superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas temos que avaliar alguns aspectos desse cen\u00e1rio \u201cnovo\u201d que se instalou no pa\u00eds desde o in\u00edcio da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Destaquei entre aspas a ideia de novo, como alguns colunistas tem redigido por a\u00ed, pois sempre ocorreram manifesta\u00e7\u00f5es de rua no pa\u00eds nesses \u00faltimos anos, por\u00e9m, com singularidades muito espec\u00edficas (campanhas salariais, reivindica\u00e7\u00f5es locais, protestos de determinados grupos sociais) sem contudo atingir uma conota\u00e7\u00e3o nacional e ampla como o que ocorre nesse momento.<\/p>\n<p>Ao contingente de indigna\u00e7\u00e3o contra tantas arbitrariedades, muitas delas amplamente divulgadas em ve\u00edculos televisivos, outras sentidas no dia a dia da classe trabalhadora, somou-se a volumosa propaganda feita pela m\u00eddia \u00e0s passeatas promovidas pelo MPL (Movimento pelo Passe Livre) em S\u00e3o Paulo contra o aumento das passagens de \u00f4nibus, feita no governo petista e assim como em 1992, que ap\u00f3s dar destaque \u00e0 onda de passeatas na avenida Paulista puxadas pela UNE e UBES, a imprensa conseguiu proliferar como rastilho de p\u00f3lvora manifesta\u00e7\u00f5es em toda a parte e com significados muito parecidos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 bom que se entenda que a proximidade entre o Movimento do Fora Collor e as atuais manifesta\u00e7\u00f5es de rua ficam apenas no quesito divulga\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia, pois no resto possuem muitas e significativas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Primeiro, em 1992, a UNE e a UBES (unificada pouco antes) eram as duas principais entidades estudantis e que se prestaram a impulsionar nas ruas as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es pelo impeachment de Fernando Collor, abalado por uma sequ\u00eancia de den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o veiculadas pela m\u00eddia e que alimentaram o sentimento de revolta da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro dado necess\u00e1rio para se destacar \u00e9 que naquele epis\u00f3dio havia um foco central que era a quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o no Governo Federal e em um determinado momento chegou-se at\u00e9 a haver uma disputa pol\u00edtica entre as for\u00e7as de esquerda que participavam dos protestos em rela\u00e7\u00e3o aos rumos que deveriam ser dados p\u00f3s-impeachment, pois um setor defendia o arrefecimento das manifesta\u00e7\u00f5es e o di\u00e1logo com o rec\u00e9m empossado presidente Itamar, acreditando em um pacto entre classes e outros defendiam a radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento com a amplia\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica nem uma e nem outra, pois nem se radicalizou mais as manifesta\u00e7\u00f5es &#8211; e nesse sentido as entidades de classe (CUT, UNE e UBES) tiveram papel preponderante -, tampouco houve o t\u00e3o sonhado pacto governamental.<\/p>\n<p>Sanada a quest\u00e3o do posto mandat\u00e1rio da rep\u00fablica, a mesma m\u00eddia que alardeou as manifesta\u00e7\u00f5es e promoveu o denuncismo, subsumiu o movimento no espectro da ordem e da moralidade instauradas com a posse de Itamar.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que o neoliberalismo tenha sido interrompido.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o foram as entidades de classe a organizarem e protocolarem as pautas das manifesta\u00e7\u00f5es, mas, ao contr\u00e1rio, foram movimentos alternativos aos Partidos de Esquerda e \u00e0s grandes entidades de classe (estas \u00faltimas hoje em sua grande maioria fazendo parte da base de apoio ao governo) a impulsionar tais manifesta\u00e7\u00f5es que encontram no senso comum e na aus\u00eancia de uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de corte mais classista o ambiente prop\u00edcio para o discurso moralista e os preconceitos tipicamente pequeno-burgueses contra os partidos e entidades de classe.<\/p>\n<p>Nesse ponto \u00e9 importante destacar que essas entidades de classe, em especial a CUT e a UNE, possuem significativa responsabilidade pela aus\u00eancia de uma cultura de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica da juventude e mesmo de parcela da classe trabalhadora, pois se apagaram enquanto movimentos aut\u00f4nomos e combativos, agregando-se como correias de transmiss\u00e3o das pol\u00edticas do governo substituindo a combatividade e independ\u00eancia de classe por cargos e exclusividade em projetos financiados pela estrutura do Estado.<\/p>\n<p>O fruto disso pode-se verificar em uma gera\u00e7\u00e3o de jovens que desconfiam dos sindicatos e que n\u00e3o se veem representados pelas entidades estudantis ligadas \u00e0 UNE e \u00e0 UBES.<\/p>\n<p>Quanto aos partidos, h\u00e1 uma evidente degenera\u00e7\u00e3o desse tipo de estrutura organizativa no pa\u00eds, aos olhos da popula\u00e7\u00e3o em geral, mas o uso do preconceito aos partidos em geral tem como epicentro as contradi\u00e7\u00f5es expostas por tantos oportunistas do PT e do PC do B que, uma vez no poder, nada fizeram para romper com as causas das contradi\u00e7\u00f5es do sistema capitalista, servindo como exemplo pelos discursos de direita e por setores oportunistas que s\u00e3o contra a presen\u00e7a de partidos marxistas nos movimentos, como forma de recha\u00e7ar qualquer possibilidade de participa\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios nessas movimenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ter claro que, diante da crise do sistema capitalista que se aprofunda em todo o mundo e que, parece, ser\u00e1 mais implac\u00e1vel com os pa\u00edses em \u201cascens\u00e3o\u201d, n\u00e3o interessa \u00e0 burguesia o crescimento da influ\u00eancia da esquerda marxista junto \u00e0s inevit\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es de rua, pois isso seria altamente perigoso \u00e0s pretens\u00f5es das investidas contra direitos trabalhistas e mesmo contra as medidas de austeridade que inevitavelmente ir\u00e3o ser aplicadas no pa\u00eds com o desenvolvimento da recess\u00e3o econ\u00f4mica e as imposi\u00e7\u00f5es dos organismos financeiros internacionais.<\/p>\n<p>Quando digo inevit\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 porque inauguramos no cen\u00e1rio pol\u00edtico do pa\u00eds uma nova etapa de organiza\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o das lutas sociais.<\/p>\n<p>Retomando como par\u00e2metro de amplo movimento de massas ocorrido nesse pa\u00eds, ao contr\u00e1rio de 1984 que tinha como pano de fundo as \u201cDiretas J\u00e1\u201d ou 1992 o \u201cFora Collor\u201d, o que marca a atualidade desse movimento de massas \u00e9 a amplitude das reivindica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde o pre\u00e7o das passagens de \u00f4nibus, at\u00e9 a presen\u00e7a do Deputado evang\u00e9lico Marcos Feliciano na presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos do Congresso, desde quest\u00f5es relativas \u00e0 desmilitariza\u00e7\u00e3o da PM, a defesa da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, da luta espec\u00edfica contra governos locais \u00e0 ado\u00e7\u00e3o da pena de morte no Brasil!<\/p>\n<p>Ou seja, no v\u00e1cuo de uma plataforma m\u00ednima de reivindica\u00e7\u00f5es, o movimento se tornou o esteio de diversas pautas, algumas sem a devida aten\u00e7\u00e3o dada por centrais e sindicatos e muitas inclusive tipicamente conservadoras e reacion\u00e1rias e que v\u00e3o tentando \u201cdisputar\u201d cora\u00e7\u00f5es e mentes daqueles que assistem e ou se envolvem nas passeatas.<\/p>\n<p>Inevit\u00e1veis tamb\u00e9m porque, com a ampla divulga\u00e7\u00e3o dos atos de rua desde o Amap\u00e1 at\u00e9 o RS e com a facilidade com que os manifestantes convocam e divulgam em redes socais os atos, sem necessariamente pedir licen\u00e7a ao sindicato A ou ao Partido B, impulsionados pela indigna\u00e7\u00e3o e pela resposta com que os governos deram a redu\u00e7\u00e3o (ren\u00fancia fiscal) das passagens de \u00f4nibus em diversas cidades, mais e mais atos de rua ir\u00e3o ocorrer nos pr\u00f3ximos meses e com certeza no ano de 2014, quando Copa do Mundo e elei\u00e7\u00f5es gerais ser\u00e3o os palcos dessas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, ao meu ver, ter claro que nesse momento estamos diante de uma poss\u00edvel di\u00e1spora em curso nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua.<\/p>\n<p>De um lado h\u00e1 movimentos sociais, suprapartid\u00e1rios e alguns se autodenominando apartid\u00e1rios, como \u00e9 o caso do MPL, que por terem essas caracter\u00edsticas tentaram reunir os descontentes contra a ordem e tentaram dar um sentido program\u00e1tico e ideol\u00f3gico \u00e0s a\u00e7\u00f5es de rua. Nesse contexto, entendo que os Partidos do campo marxista devem procurar estabelecer di\u00e1logos t\u00e1ticos no sentido de aprofundar a caracteriza\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica e social n\u00e3o como fen\u00f4meno moral ou democr\u00e1tico (aus\u00eancia de ou caduquice do atual modelo), mas como efeito dial\u00e9tico da crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Esse campo guarda ainda contatos e di\u00e1logos com os atingidos pelas contradi\u00e7\u00f5es do sistema e s\u00e3o mais fact\u00edveis de poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es conjuntas contra a ordem capitalista, mesmo que n\u00e3o haja ainda uma mesma estrat\u00e9gia para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>De outro lado, a Direita transvestida de oposi\u00e7\u00e3o tenta sequestrar a indigna\u00e7\u00e3o da juventude em especial, alimentando o preconceito \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de esquerda em geral, com discursos e ou slogans tipicamente fascistas e n\u00e3o raro com repress\u00e3o f\u00edsica a todo e qualquer militante de esquerda que esteja participando das manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Creio que mesmo com a diminui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o dessas organiza\u00e7\u00f5es ou mesmo de seus ecos junto as movimenta\u00e7\u00f5es de rua, pois setores que comp\u00f5em o grupo configurado acima j\u00e1 identificaram essa a\u00e7\u00e3o oportunista da Direita e a todo tempo recha\u00e7am esses grupos fascistas e seu ufanismo nacionalista, as provoca\u00e7\u00f5es ainda continuar\u00e3o, alimentando-se do senso comum at\u00e9 que consigam ter um corte pr\u00f3prio ideol\u00f3gico e org\u00e2nico junto as massas, em especial a juventude.<\/p>\n<p>Isso pode significar, no futuro pr\u00f3ximo, a\u00e7\u00f5es de rua tipicamente fascistas e conservadoras, instrumentalizadas por partidos de Direita que nesse momento est\u00e3o fora do poder administrativo do Estado brasileiro e mesmo a cria\u00e7\u00e3o de entidades de massas com discurso anti-partid\u00e1rio e n\u00e3o apartid\u00e1rio tendo como princ\u00edpios os ideais da p\u00e1tria e a moralidade judaico crist\u00e3.<\/p>\n<p>Ainda nesse assunto, haver\u00e1 sem sombra de d\u00favidas um pseudo-revigoramento, mesmo que plastificado e imposto pelas circunstancias, dos chamados movimentos sociais da ordem, ou seja, aqueles sindicatos e entidades de classe que estiveram ausentes das ruas e se transformaram em correntes de transmiss\u00e3o das pol\u00edticas do Governo. Estes t\u00eam tentado nesse momento participar das passeatas, mas guardam profundas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos outros movimentos sociais e partidos de esquerda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas e responsabilidades ao Governo Federal, advogando inclusive o clima de golpe institucional contra a presidente da rep\u00fablica e a a\u00e7\u00e3o direta do PSDB e DEM como art\u00edfices desse poss\u00edvel processo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que vivemos uma fase onde a luta de classes no Brasil atingiu um elevado e rico processo de efervesc\u00eancia, onde todos os setores t\u00eam se manifestado e os atores pol\u00edticos se apresentam com todas as suas potencialidades.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que as a\u00e7\u00f5es de &#8220;vandalismo&#8221; e enfrentamento contra as for\u00e7as de repress\u00e3o do Estado ocorreram em outras grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massas em 1984 e 1992 e acontecem esporadicamente em outras tantas manifesta\u00e7\u00f5es de rua que ocorrem sempre em que h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o repressiva da PM e ou a exaust\u00e3o de qualquer perspectiva de atendimento de negocia\u00e7\u00e3o com os governos locais. Mas dessa vez \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Nunca antes foram vistas tantas a\u00e7\u00f5es cong\u00eaneres como nas atuais manifesta\u00e7\u00f5es e curiosamente com a mesma intensidade e com o mesmo modus operandi.<\/p>\n<p>Apenas vivendo a realidade dos confrontos de rua \u00e9 que conseguimos identificar ao menos tr\u00eas tipos distintos de manifestantes que provocam os t\u00e3o divulgados atos de vandalismo que passaram a ser ultimamente as cenas mais destacadas das manifesta\u00e7\u00f5es e que possuem um porqu\u00ea dessa divulga\u00e7\u00e3o, que mais abaixo tentaremos identificar.<\/p>\n<p>Mas quanto aos chamados \u201cv\u00e2ndalos\u201d podemos classificar em :<\/p>\n<p>a) Os movimentos pol\u00edticos organizados que necessariamente n\u00e3o possuem a mesma origem e identidade ideol\u00f3gica, chegando mesmo a serem antag\u00f4nicos (alguns agrupamentos de orienta\u00e7\u00e3o anarquista e skinheads);<\/p>\n<p>b) O l\u00fampen de aluguel a servi\u00e7o de Partidos e ou pol\u00edticos de Direita e que est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o ao Governo Federal formado principalmente por membros de torcidas organizadas e mercen\u00e1rios de artes marciais que se prestam a agitar os manifestantes mais jovens e propensos ao enfrentamento como forma de esvair sua revolta e a reprimir os militantes de esquerda.<\/p>\n<p>c) E parte da juventude trabalhadora, que aproveita o ensejo das manifesta\u00e7\u00f5es para exprimir sua revolta e repulsa ao sistema que os oprime e descrimina, atrav\u00e9s justamente da quebradeira e da viol\u00eancia direta contra tudo aquilo que representa o Estado ou a ordem social.<\/p>\n<p>A esse \u00faltimo grupo cabe uma aten\u00e7\u00e3o redobrada da esquerda, pois essa gama de jovens tem experimentado diretamente na escola dos enfrentamentos de rua, uma li\u00e7\u00e3o primorosa da luta de classes, ou seja, o embate contra as for\u00e7as de repress\u00e3o do Estado capitalista, mas infelizmente canalizam sua revolta e indigna\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00f5es poucos consequentes e muito pouco construtivas para consolidar de fato uma conduta revolucion\u00e1ria; ao contr\u00e1rio, acabam jogando \u201c\u00e1gua no moinho\u201d daqueles que tentam desqualificar as manifesta\u00e7\u00f5es perante os olhos da chamada opini\u00e3o p\u00fablica, construindo assim o patamar para justificar as a\u00e7\u00f5es repressivas do Estado contra as futuras e inevit\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es que ocorreram, seja l\u00e1 quem forem os governantes eleitos em 2014.<\/p>\n<p>Haver\u00e1, sem sombra de d\u00favidas, uma forte tend\u00eancia a aumentar a criminaliza\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais e tentativa de desmoralizar atos de rua perante a opini\u00e3o p\u00fablica, na tentativa de combater ideologicamente as express\u00f5es que se manifestam, vindas principalmente dos setores da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O grau de viol\u00eancia e agressividade, ora estimulado pela Direita para causar uma sensa\u00e7\u00e3o de instabilidade pol\u00edtica contra o Governo Federal, ora para desqualificar o pr\u00f3prio movimento, possui uma contradi\u00e7\u00e3o in loco que foge ao controle da m\u00eddia que tanto explorou esses epis\u00f3dios inicialmente, pois demonstra o grau de radicalidade que parcela dos manifestantes atingiram e mesmo que tentam canaliz\u00e1-la eleitoreiramente contra o Governo Federal, sabe-se bem que esses epis\u00f3dios representam um potencial perigo para a manuten\u00e7\u00e3o do status quo da sociabilidade do capital caso parte desses manifestantes forem organizados com o mesmo \u00edmpeto e coragem a enfrentarem as pol\u00edticas, governos e estruturas sociais que os exploram.<\/p>\n<p>Enfim, o Governo Federal tenta fazer do lim\u00e3o uma limonada, ou seja, emplacar algumas medidas que possam diminuir a cobran\u00e7a nas ruas (como \u00e9 o caso do Passe Livre) e mesmo antecipar reformas que estariam previstas mas n\u00e3o encontravam condi\u00e7\u00f5es internas satisfat\u00f3rias ou c\u00f4modas, como \u00e9 o caso da chamada Reforma Pol\u00edtica. Tenta se antecipar frente \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o de direita, mas poder\u00e1 fazer o jogo do \u201cquem d\u00e1 mais\u201d, leiloando essas medidas para mitigar o apoio da burguesia e do mercado financeiro internacional para continuarem no poder.<\/p>\n<p>Aos movimentos sociais progressistas e que n\u00e3o possuem \u201crabo preso\u201d com os governos sociais-liberais do PT e aliados e tampouco nutrem ilus\u00f5es com a teoria de disputar o governo \u00e0 esquerda nesse momento de crise, como advogam algumas organiza\u00e7\u00f5es que acreditam que o atual governo e mesmo o PT poder\u00e3o ter uma postura mais popular e progressista frente \u00e0s press\u00f5es das massas, cabe manter o movimento vivo e depurar nas contradi\u00e7\u00f5es vividas nas ruas e com a din\u00e2mica que se dar\u00e1 nos pr\u00f3ximos meses, as reais necessidades de altera\u00e7\u00e3o da ordem, das reivindica\u00e7\u00f5es paliativas e dos grupos oportunistas de fato, que se infiltram para fins outros que n\u00e3o seja a radicaliza\u00e7\u00e3o da luta de classes a um patamar de ruptura com o sistema, organiza\u00e7\u00e3o do povo e fomenta\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia de classe revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a pequena-burguesia reformista, os agrupamentos fascistas e a direita liberal, ser\u00e3o sem d\u00favidas desmascarados.<\/p>\n<p>Mas ainda continuo compreendendo que cabe aos partidos revolucion\u00e1rios um papel destacado nesse processo e sou pessimista quando leio ou escuto avalia\u00e7\u00f5es de intelectuais e ou setores movimentistas e ou espontane\u00edstas que pregam o preconceito ideol\u00f3gico aos marxistas e em especial \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es leninistas.<\/p>\n<p>Decerto que o hegemonismo professado por algumas dessas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, al\u00e9m de comprometer o debate e convencimento ideol\u00f3gico, condi\u00e7\u00e3o sine qua non para se estabelecer qualquer in\u00edcio de a\u00e7\u00e3o t\u00e1tica em uma frente de massas, respeito e confian\u00e7a necess\u00e1rios, acaba servindo de exemplo para a desconfian\u00e7a e ou preconceito, que nessa altura do campeonato s\u00f3 atende \u00e0s for\u00e7as conservadoras ou aos colaboradores de classe, que querem manter ainda alguma influ\u00eancia nos movimentos s\u00f3cias e depois vender-se como porta-vozes para a elite em nome da democracia.<\/p>\n<p>Ao meu ver estamos diante de um cen\u00e1rio onde os revolucion\u00e1rios t\u00eam que buscar dialogar com esses movimentos sociais de novo tipo, que mesmo n\u00e3o tendo acento junto ao operariado, representam setores significativos da sociedade e que v\u00eam sofrendo cada vez mais as contradi\u00e7\u00f5es do sistema e compreendendo na luta direta que travam contra os governos e os organismos pol\u00edticos e ou financeiros do sistema a realidade das contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, substanciadas nas condutas pr\u00e1ticas ( leis, manejo dos recursos p\u00fablicos, posicionamento do parlamento, acordos esp\u00farios etc,etc).<\/p>\n<p>Dar um sentido de classe a estas contradi\u00e7\u00f5es, demonstrar a necessidade da unidade pol\u00edtica como forma de avan\u00e7ar e unificar as lutas diversas contra o mesmo monstro capitalista, politizar o debate sob pautas mais abrangentes e que desmascarem o Estado e a democracia burguesa, assim como os seus agentes, s\u00e3o algumas das tarefas que os comunistas e demais revolucion\u00e1rios possuem nesse momento.<\/p>\n<p>Alian\u00e7a se faz sob as trincheiras da luta contra o mesmo inimigo e nesse sentido passos importantes est\u00e3o sendo dados em diversas capitais do pa\u00eds, onde o preconceito aos partidos de esquerda e a desconfian\u00e7a est\u00e3o dando lugar a importantes a\u00e7\u00f5es conjuntas entre partidos revolucion\u00e1rios e os movimentos aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>O pronunciamento em defesa da esquerda e contra o antipartidarismo, feito pelo MPL ap\u00f3s a Prefeitura de S\u00e3o Paulo ter retornado as tarifas aos patamares anteriores, foi uma importante manifesta\u00e7\u00e3o no sentido da unidade pol\u00edtica progressista que ajudou a combater o preconceito incutido em muitos ativistas.<\/p>\n<p>A tentativa de organiza\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es em BH atrav\u00e9s do COPAC (Comit\u00ea Popular dos Atingidos pela Copa) que re\u00fane diversos movimentos setoriais e agrupamentos anticapitalistas tamb\u00e9m \u00e9 uma importante a\u00e7\u00e3o no sentido de tentar organizar e coordenar as legitimas manifesta\u00e7\u00f5es de rua ora em curso, que at\u00e9 o momento estavam sendo disputadas pela Direita liberal e pelos fascistas de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas dentro desse processo todo cabe \u00e0s esquerdas a tentativa de firmar uma necess\u00e1ria frente pol\u00edtica, anticapitalista e anti-imperialista, a fim de garantir n\u00e3o apenas a interven\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica contra a hegemonia conservadora que pode se efetuar sobre os movimentos de massas, mas a retomada de uma agenda program\u00e1tica com conte\u00fado socialista e que possibilite avan\u00e7os reais rumo a perspectiva do Poder Popular.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Bezerra.<\/p>\n<p>Professor EBTT de Filosofia-Instituto Federal e membro do CC do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5035\"> 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