{"id":5083,"date":"2013-07-15T02:15:41","date_gmt":"2013-07-15T02:15:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5083"},"modified":"2013-07-15T02:15:41","modified_gmt":"2013-07-15T02:15:41","slug":"elas-marcadas-para-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5083","title":{"rendered":"Elas, marcadas para morrer"},"content":{"rendered":"\n<p>A partir de hoje, a Adital reproduz \u00e0s sextas-feiras mat\u00e9ria especial da Ag\u00eancia P\u00fablica sobre as hist\u00f3rias de dez mulheres cujas vidas est\u00e3o amea\u00e7adas por lutarem pelos seus direitos e pela preserva\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Nas diversas placas de sinaliza\u00e7\u00e3o ao longo das rodovias que ligam os munic\u00edpios do sudeste e do sul do Par\u00e1, raras s\u00e3o as que n\u00e3o ostentam marcas de balas. Atirar nas placas pode ser o insuitado passatempo de quem trafega por aquelas estradas, sem maiores consequ\u00eancias. Mas as marcas tamb\u00e9m sinalizam muito do esp\u00edrito que sempre marcou a coloniza\u00e7\u00e3o daquela parte do estado, piv\u00f4 de conflitos agr\u00e1rios, assassinatos de lideran\u00e7as rurais e n\u00famero um em \u00edndices de desmatamento e trabalho escravo.<\/p>\n<p>Segundo a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), ocorreram no estado do Par\u00e1, entre 1964 e 2010, 914 assassinatos de trabalhadores rurais, religiosos e advogados por quest\u00f5es de terra. Desse total, 654 ocorreram no sul e sudeste do Par\u00e1. &#8220;Muitos dos trabalhadores rurais assassinados, n\u00e3o conhecemos os rostos e nem sabemos os seus nomes. Em muitos desses casos a pol\u00edcia negou o registro das den\u00fancias formalizadas por sindicalistas e familiares das v\u00edtimas, e negou tamb\u00e9m o resgate dos corpos onde foram assassinados\u201d, diz o advogado da CPT em Marab\u00e1 Jos\u00e9 Batista Afonso.<\/p>\n<p>A CPT divulgou no in\u00edcio do ano uma lista com o nome de 38 pessoas amea\u00e7adas de morte no sul e sudeste do Par\u00e1 por causa de sua luta pela posse da terra. Dez s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Num dossi\u00ea que smi\u00fa\u00e7a a viol\u00eancia no sul e sudeste do Par\u00e1, a CPT avalia a viol\u00eancia que vitimou centenas de trabalhadores rurais, dirigentes sindicais, religiosos, advogados e parlamentares que lutam pela terra e pela reforma agr\u00e1ria, remonta principalmente o governo militar que, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, come\u00e7ou a investir na ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. O sul e sudeste do estado do Par\u00e1, regi\u00e3o de expressiva concentra\u00e7\u00e3o de riquezas minerais e naturais, foi talvez onde esse processo se efetivou de maneira mais contundente.<\/p>\n<p>Para explorar as riquezas, o governo construiu estradas, como a Transamaz\u00f4nica, a BR-222, a BR-158, mas construiu tamb\u00e9m hidrel\u00e9tricas, como Tucuru\u00ed, e estimulou e financiou a implanta\u00e7\u00e3o de grandes projetos para explorar as riquezas ali existentes, como o Projeto Ferro Caraj\u00e1s. &#8220;Ao mesmo tempo incentivou a vinda de grandes empresas e pecuaristas do Centro-Sul do Brasil para investir na cria\u00e7\u00e3o de gado bovino. N\u00e3o s\u00f3 concedeu terras, mas cr\u00e9ditos subsidiados pela pol\u00edtica de incentivos fiscais da Superintend\u00eancia de Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia (SUDAM). Esses grupos econ\u00f4micos, especialmente aqueles que investiram na implanta\u00e7\u00e3o da pecu\u00e1ria extensiva passaram a expulsar, de forma muito violenta, os povos ind\u00edgenas e diversos pequenos agricultores que h\u00e1 muito tempo ocupavam da regi\u00e3o\u201d, enfatiza o dossi\u00ea da CPT.<\/p>\n<p>A novidade da viol\u00eancia atual \u00e9 que as mulheres est\u00e3o cada vez mais na linha de tiro, alvo de amea\u00e7as. Algumas convivem com essa marca h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Outras come\u00e7aram a sentir mais recentemente o peso da sina de estarem marcadas para morrer.<\/p>\n<p>Em comum, essas mulheres carregam a consci\u00eancia da luta que travam; sentem medo, modificaram h\u00e1bitos, convivem com a incerteza cotidiana. Houve quem decidisse se afastar da luta sindical, com medo das amea\u00e7as cada vez mais constantes. Outras permanecem, sabendo ser esse o destino a seguir.<\/p>\n<p>Uma das poucas que conseguiram alguma aten\u00e7\u00e3o nacional para o seu p\u00e9riplo foi La\u00edsa Santos Sampaio. Irm\u00e3 da extrativista Maria do Esp\u00edrito Santo, assassinada em Nova Ipixuna, a 580 quil\u00f4metros de Bel\u00e9m em 2011, La\u00edsa \u00e9 o &#8220;alvo da vez\u201d no munic\u00edpio. Ela e o marido, Jos\u00e9 Maria Gomes Sampaio, o Z\u00e9 Rondon, est\u00e3o sendo amea\u00e7ados de morte desde o assassinato de Maria e Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Ribeiro da Silva. La\u00edsa j\u00e1 n\u00e3o dorme tranquilamente e n\u00e3o pode sair de casa sem acompanhamento. A rotina pessoal mudou, desorganizando toda sua fam\u00edlia, a rela\u00e7\u00e3o com os filhos e o trato da lavoura e do extrativismo dentro do seu lote de terra. A Comiss\u00e3o Pastoral da Terra acredita que as amea\u00e7as t\u00eam sido feitas por pessoas que provavelmente fizeram parte do cons\u00f3rcio de propriet\u00e1rios de terras, madeireiros e carvoeiros que assassinou Jos\u00e9 e Maria. As amea\u00e7as de morte foram registradas na Delegacia de Conflitos Agr\u00e1rios do Sudeste do Par\u00e1 (DECA). Pouco mudou.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o saio mais desacompanhada\u201d, diz Regina Maria Gon\u00e7alves Chaves. Regina \u00e9 presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do munic\u00edpio de Eldorado dos Caraj\u00e1s. No dia 15 de junho de 2012 um grupo de fazendeiros invadiu a sede do Sindicato e a amea\u00e7ou diretamente. &#8220;Deixaram um recado: estariam com grupos armados \u00e0 espera de qualquer tentativa de ocupa\u00e7\u00e3o por parte dos movimentos sociais\u201d, diz ela. Dias depois, pessoas estranhas foram vistas rondando a sede do sindicato e \u00e0 procura de Regina na casa dos familiares dela.<\/p>\n<p>Em Breu Branco, pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio de Tucuru\u00ed, a 480 quil\u00f4metros da capital, Graciete Souza Machado convive com uma bala alojada a apenas dois cent\u00edmetros da coluna vertebral. O alvo era o pai, Francisco Alves de Macedo, l\u00edder comunit\u00e1rio que defendia posseiros que ocuparam a fazenda Castanheira. Francisco Alves foi morto por pistoleiros &#8220;Eu sou amea\u00e7ada de morte desde 2010. N\u00e3o temos liberdade para sair de casa com nossas crian\u00e7as. Vivemos totalmente inseguros e com muito medo, pois a qualquer momento, como aconteceu com o meu pai, pode acontecer comigo. Tenho muito medo\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Mudam as personagens, mas as hist\u00f3rias s\u00e3o semelhantes.<\/p>\n<p>&#8220;As mulheres se tornaram lideran\u00e7as que acabaram tomando \u00e0 frente da luta, muitas vezes s\u00e3o respons\u00e1veis pelo sustento da fam\u00edlia\u201d, diz a advogada da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, V\u00e2nia Maria Santos, 29 anos. Ela atribui a continuidade dos padr\u00f5es de viol\u00eancia \u00e0 impunidade. &#8220;Da amea\u00e7a \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca coisa\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Nos assentamentos, acampamentos, periferias dos munic\u00edpios, nas entidades sindicais, uma dezena de mulheres segue sua vida, \u00e0 espera do assassino, cumprindo pena for\u00e7ada. \u00c9 a hist\u00f3ria delas que a P\u00fablica, em parceria com o jornal Di\u00e1rio do Par\u00e1, conta a partir dessa semana.<\/p>\n<p>* A s\u00e9rie Marcadas para Morrer \u00e9 uma parceria da Ag\u00eancia P\u00fablica com o Di\u00e1rio do Par\u00e1, com reportagem de Ismael Machado e fotos de Antonio C\u00edcero, reproduzida com a autoriza\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/p>\n<p>http:\/\/www.adital.com.br\/site\/noticia.asp?boletim=1&#038;lang=PT&#038;cod=76345<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nIsmael Machado*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5083\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-5083","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1jZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5083"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5083\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}