{"id":5089,"date":"2013-07-15T15:53:23","date_gmt":"2013-07-15T15:53:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5089"},"modified":"2017-08-25T00:58:33","modified_gmt":"2017-08-25T03:58:33","slug":"holocausto-brasileiro-60-mil-morreram-em-manicomio-de-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5089","title":{"rendered":"Holocausto brasileiro: 60 mil morreram em manic\u00f4mio de Minas Gerais"},"content":{"rendered":"\n<p>Livro conta hist\u00f3ria de hosp\u00edcio em Barbacena que arrecadou R$ 600 mil com venda de corpos<\/p>\n<p>\u201cMilhares de mulheres e homens sujos, de cabelos desgrenhados e corpos esqu\u00e1lidos cercaram os jornalistas. (&#8230;) Os homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabe\u00e7as raspadas e p\u00e9s descal\u00e7os. Muitos, por\u00e9m, estavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber \u00e1gua do esgoto que jorrava sobre o p\u00e1tio. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de \u00e1gua. Ainda no p\u00e1tio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no ch\u00e3o. O cheiro era detest\u00e1vel, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o acima foi presenciada pelo fot\u00f3grafo Luiz Alfredo da extinta revista O Cruzeiro em 1961 e est\u00e1 descrita no livro-reportagem Holocausto Brasileiro, da editora Gera\u00e7\u00e3o Editorial, que acaba de chegar \u00e0s livrarias de todo o Pa\u00eds. Ainda que tenha semelhan\u00e7as com um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, o caso aconteceu em um manic\u00f4mio na cidade de Barbacena, Minas Gerais, onde ocorreu um genoc\u00eddio de pelo menos 60 mil pessoas entre 1903 e 1980.<\/p>\n<p>Apesar de ser uma hist\u00f3ria recente, o fato de um epis\u00f3dio t\u00e3o macabro permanecer desconhecido pela maioria dos brasileiros inspirou a jornalista Daniela Arbex. \u201cEu me perguntei: como minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabe nada sobre isso?\u201d. A obra conta a hist\u00f3ria do maior hosp\u00edcio do Brasil, que ficou conhecido como Col\u00f4nia e leva este nome por ter abrigado atos de crueldade parecidos com os que aconteceram na Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>\u201cDei esse nome primeiro porque foi um exterm\u00ednio em massa. Depois porque os pacientes tamb\u00e9m eram enviados em vag\u00f5es de carga (ao manic\u00f4mio). Quando eles chegavam, os homens tinham a cabe\u00e7a raspada, eram despidos e depois uniformizados\u201d, explica a autora. Daniela n\u00e3o foi a \u00fanica a comparar Col\u00f4nia ao holocausto. No auge dos fatos, em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o hosp\u00edcio com a inten\u00e7\u00e3o de tentar reverter o que ocorria no local. \u201cEstive hoje num campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista. Em nenhum lugar do mundo presenciei uma trag\u00e9dia como essa\u201d, disse na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>A Col\u00f4nia foi inaugurada em 1903 e continua aberta at\u00e9 hoje, mas o per\u00edodo de maior barb\u00e1rie aconteceu entre 1930 e 1980, quando pessoas eram internadas sem terem sintomas de loucura ou insanidade. Segundo o livro-reportagem, cerca de 70% das pessoas n\u00e3o tinham diagn\u00f3stico de doen\u00e7a mental. \u201cFoi o momento mais dram\u00e1tico. A partir de 1930, os crit\u00e9rios m\u00e9dicos desapareceram. Em 1969, com a ditadura, o caso foi blindado. N\u00e3o gosto de chamar assim, mas (entre 1930 e 1980) foi um per\u00edodo negro. Foi criado para atender pessoas com defici\u00eancia mental, mas acabou sendo usado para colocar pessoas indesejadas socialmente, como gays, negros, prostitutas, alco\u00f3latras\u201d, contou.<\/p>\n<p>Interna\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia<\/p>\n<p>Daniela contou ainda que a ordem para interna\u00e7\u00e3o das pessoas na Col\u00f4nia vinha dos mais influentes da sociedade na \u00e9poca. \u201cQuem decidia \u00e9 quem tinha mais poder. Teve pessoas que foram enviadas pela canetada de delegados, coron\u00e9is, maridos que queriam se livrar da mulher para viver com a amante. N\u00e3o tinha crit\u00e9rio m\u00e9dico nenhum. Tem documento que mostra que o motivo da interna\u00e7\u00e3o de uma menina de 23 anos foi tristeza\u201d, criticou.<\/p>\n<p>Ao chegarem ao manic\u00f4mio, os internados tinham uma rotina \u201cdesumana\u201d. Eles dormiam juntos em salas grandes sem cama. Todos tinham que se deitar sobre o ch\u00e3o do c\u00f4modo, que era coberto apenas por capim. Acordavam por volta das 5h da manh\u00e3 e eram enviados para os p\u00e1tios, onde ficavam at\u00e9 19h, todos os dias. \u201cBarbacena \u00e9 uma cidade muita fria. At\u00e9 hoje tem temperatura muito baixa para os padr\u00f5es brasileiros. Pessoas eram mantidas nuas nos p\u00e1tios em total ociosidade. Pensa bem que condi\u00e7\u00e3o sub-humana\u201d, disse a jornalista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a alimenta\u00e7\u00e3o na Col\u00f4nia era prec\u00e1ria, o que causou a desnutri\u00e7\u00e3o e, consequentemente, o desenvolvimento de doen\u00e7as em v\u00e1rios dos \u201cpacientes\u201d. \u201cEles tinham uma alimenta\u00e7\u00e3o muito pobre, de pouca qualidade nutritiva. Muitas pessoas passavam fome. Tem hist\u00f3rias de gente que em momento de desespero comeu ratos ou pombas vivas. (&#8230;) As pessoas acabavam tendo sede e bebiam urina ou esgoto porque tinha fossas no p\u00e1tio. N\u00e3o tinha nenhuma privacidade. At\u00e9 1979 era assim, faziam xixi e coco na frente de todo mundo&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>O fato dos homens, mulheres e at\u00e9 crian\u00e7as ficarem pelados o tempo todo criava um clima de promiscuidade no manic\u00f4mio. H\u00e1 relatos de mulheres que foram estupradas por funcion\u00e1rio. \u201cConsegui depoimentos nesse sentido de (estupro e abuso sexual), mas n\u00e3o consegui provar. Tem um caso de uma mulher que disse ter engravidado de um funcion\u00e1rio. Certo \u00e9 que havia uma promiscuidade incr\u00edvel. As pessoas eram mantidas nuas, dormindo juntas nessas condi\u00e7\u00f5es. Crian\u00e7as eram mantidas no meio dos adultos\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es insalubres, o hosp\u00edcio chegou a ter 5.000 pessoas ao mesmo tempo, enquanto a capacidade original era para 200 pacientes. Nesses per\u00edodos de maior lota\u00e7\u00e3o, 16 pessoas morriam todos os dias. \u201cN\u00e3o era uma coisa determinada, n\u00e3o existia uma ordem (para matar). As coisas foram se banalizando. Um funcion\u00e1rio via que outro fazia tal coisa com o paciente e repetia. As pessoas deixaram as coisas acontecerem. N\u00e3o tinha essa coisa de vamos fazer com essa finalidade. Era exatamente por omiss\u00e3o\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Venda de corpos<\/p>\n<p>Mas a morte dava lucro. A autora do livro conta que encontrou registros de venda de 1.853 corpos, entre 1969 e 1980, para faculdades de medicina. \u201cO que a gente n\u00e3o sabia e conseguimos descobrir, com a ajuda da coordena\u00e7\u00e3o do Museu da Loucura, foi que 1.853 corpos foram vendidos para 17 faculdades de medicina do Pa\u00eds. O pre\u00e7o m\u00e9dio era de 50 cruzeiros. D\u00e1 um total de R$ 600 mil reais, se atualizarmos a moeda. Tem documento da venda de corpos. De janeiro a junho de um determinado ano, por exemplo, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) recebeu 67 pe\u00e7as, como eles mencionavam os corpos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, o mercado deixou de comprar tantos cad\u00e1veres. Os funcion\u00e1rios passaram, ent\u00e3o, a decompor os corpos dos mortos com \u00e1cido no p\u00e1tio da Col\u00f4nia, diante dos pr\u00f3prios pacientes, para comercializar tamb\u00e9m as ossadas.<\/p>\n<p>O caos estabelecido na Col\u00f4nia foi descoberto pela revista O Cruzeiro, que publicou em 1961 uma reportagem de den\u00fancia de Jos\u00e9 Franco e Luiz Alfredo, entrevistado por Daniela Arbex no livro. A autora conta que, na \u00e9poca, houve como\u00e7\u00e3o em torno do caso, mas as condi\u00e7\u00f5es continuaram as mesmas no hosp\u00edcio. \u201cNa \u00e9poca, o (ex-presidente) J\u00e2nio Quadros estava no poder. Ele falou que ia mandar dinheiro para a Col\u00f4nia, falaram que ia fazer acontecer e nada. N\u00e3o foi feito nenhum tipo de interven\u00e7\u00e3o que fizessem os absurdos cessarem. De 1961 at\u00e9 1979, a situa\u00e7\u00e3o continuou t\u00e3o grave quanto\u201d, explica.<\/p>\n<p>As \u201catrocidades\u201d no hosp\u00edcio s\u00f3 come\u00e7aram a diminuir quando a reforma psiqui\u00e1trica ganhou f\u00f4lego em Minas Gerais, em 1979. Hoje, o manic\u00f4mio \u00e9 mantido pela Funda\u00e7\u00e3o Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) e conta com 160 pacientes do per\u00edodo em que o local parecia mais um \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d. Ningu\u00e9m nunca foi punido pelo genoc\u00eddio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRenan Truffi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5089\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-5089","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1k5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5089\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}