{"id":5097,"date":"2013-07-15T16:29:07","date_gmt":"2013-07-15T16:29:07","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5097"},"modified":"2013-07-15T16:29:07","modified_gmt":"2013-07-15T16:29:07","slug":"boaventura-desculpe-presidente-evo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5097","title":{"rendered":"Boaventura: \u201cDesculpe, Presidente Evo\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Esperei uma semana que o Governo do meu pa\u00eds lhe pedisse formalmente desculpas pelo ato de pirataria a\u00e9rea e de terrorismo de Estado que cometeu, juntamente com a Espanha, a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia, ao n\u00e3o autorizar a escala t\u00e9cnica do seu avi\u00e3o no regresso \u00e0 Bol\u00ed\u00advia depois de uma reuni\u00e3o em Moscou, ofendendo a dignidade e a soberania do seu pa\u00eds e pondo em risco a sua pr\u00f3pria vida. N\u00e3o esperava que o fizesse, pois conhe\u00e7o e sofro o colapso di\u00e1rio da legalidade nacional e internacional em curso no meu pa\u00eds e nos pa\u00ad\u00edses vizinhos, a mediocridade moral e pol\u00edtica das elites que nos governam, e o ref\u00fagio prec\u00e1rio da dignidade e da esperan\u00e7a nas consci\u00eancias, nas ruas e nas pra\u00e7as, depois de h\u00e1 muito terem sido expulsas das institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o pediu desculpa. Pe\u00e7o eu, cidad\u00e3o comum, envergonhado por pertencer a um pa\u00eds e a um continente que s\u00e3o capazes de cometer esta afronta e de o fazer de modo impune, j\u00e1 que nenhuma inst\u00e2ncia internacional se atreve a enfrentar os autores e os mandantes deste crime internacional.<\/p>\n<p>O meu pedido de desculpas n\u00e3o tem qualquer valor diplom\u00e1tico mas tem um valor talvez ainda superior, na medida em que, longe de ser um ato individual, \u00e9 a express\u00e3o de um sentimento coletivo, muito mais vasto do que pode imaginar, por parte de cidad\u00e3os indignados que todos os dias juntam mais raz\u00f5es para n\u00e3o se sentirem representados pelos seus representantes. O crime cometido contra si foi mais uma dessas raz\u00f5es. Alegramo-nos com seu regresso em seguran\u00e7a a casa e vibramos com a calorosa acolhida que lhe deu o seu povo ao aterrar em El Alto. Creia, senhor Presidente, que, a muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, muitos de n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1, embebidos no ar m\u00e1gico dos Andes.<\/p>\n<p>O senhor Presidente sabe melhor do que qualquer de n\u00f3s que se tratou de mais um ato de arrog\u00e2ncia colonial no seguimento de uma longa e dolorosa hist\u00f3ria de opress\u00e3o, viol\u00eancia e supremacia racial. Para a Europa, um Presidente \u00edndio \u00e9 sempre mais \u00edndio do que Presidente e, por isso, \u00e9 de esperar que transporte droga ou terroristas no seu avi\u00e3o presidencial. Uma suspeita de um branco contra um \u00ed\u00adndio \u00e9 mil vezes mais cred\u00ed\u00advel que a suspeita de um \u00ed\u00adndio contra um branco. Lembra-se bem que os europeus, na pessoa do Papa Paulo III, s\u00f3 reconheceram que a gente do seu povo tinha alma humana em 1537 (bula\u00a0Sublimis\u00a0Deus), e conseguiram ser t\u00e3o ignominiosos nos termos em que recusaram esse reconhecimento durante d\u00e9cadas como nos termos em que finalmente o aceitaram. Foram precisos 469 anos para que, na sua pessoa, fosse eleito presidente um ind\u00ed\u00adgena num pa\u00ed\u00ads de maioria ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Mas sei que tamb\u00e9m est\u00e1 atento \u00e0s diferen\u00e7as nas continuidades. A humilha\u00e7\u00e3o de que foi v\u00ed\u00adtima foi um ato de arrog\u00e2ncia colonial ou de subservi\u00eancia colonial? Lembremos um outro \u201cincidente\u201d recente entre governantes europeus e latino-americanos. Em 10 de novembro de 2007, durante a XVII C\u00fapula\u00a0Iberoamericana, realizada no Chile, o Rei de Espanha, desagradado pelo que ouvia do saudoso Presidente Hugo Ch\u00e1vez,\u00a0dirigiu-se-lhe\u00a0intempestivamente e mandou-o calar. A frase \u201cPor\u00a0qu\u00e9\u00a0no te\u00a0callas\u201d ficar\u00e1 na hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es internacionais como um s\u00ed\u00admbolo cruelmente revelador das contas por saldar entre as pot\u00eancias\u00a0ex-colonizadoras\u00a0e as suas ex-col\u00f4nias. De\u00a0facto, n\u00e3o se imagina um chefe de Estado europeu a dirigir-se nesses termos publicamente a um seu cong\u00eanere europeu, quaisquer que fossem as raz\u00f5es.<\/p>\n<p>O senhor Presidente foi v\u00ed\u00adtima de uma agress\u00e3o ainda mais humilhante, mas n\u00e3o lhe escapar\u00e1 o\u00a0facto\u00a0de que, no seu caso, a Europa n\u00e3o agiu espontaneamente. F\u00ea-lo a mando dos EUA e, ao faz\u00ea-lo, submeteu-se \u00e0 ilegalidade internacional imposta pelo imperialismo norte-americano, tal como, anos antes, o fizera ao autorizar o sobrevoo do seu espa\u00e7o a\u00e9reo para voos clandestinos da CIA, transportando suspeitos a caminho de Guant\u00e1namo, em clara viola\u00e7\u00e3o do direito internacional. Sinais dos tempos, senhor Presidente: a arrog\u00e2ncia colonial europeia j\u00e1 n\u00e3o pode ser exercida sem subservi\u00eancia colonial. Este continente est\u00e1 a ficar demasiado pequeno para poder ser grande sem ser aos ombros de outrem. Nada disto absolve as elites europeias. Apenas aprofunda a dist\u00e2ncia entre elas e tantos europeus, como eu, que veem na Bol\u00ed\u00advia um pa\u00eds amigo e respeitam a dignidade do seu povo e a legitimidade das suas autoridades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos \u00e9 doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/mundo\/america-latina\/desculpe-presidente-evo-morales\/\" target=\"_blank\">http:\/\/outraspalavras.net\/mundo\/america-latina\/desculpe-presidente-evo-morales\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nBoaventura\u00a0de Sousa\u00a0Santos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5097\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-5097","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1kd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5097\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}