{"id":5118,"date":"2013-07-19T00:05:34","date_gmt":"2013-07-19T00:05:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5118"},"modified":"2013-07-19T00:05:34","modified_gmt":"2013-07-19T00:05:34","slug":"o-golpe-de-estado-no-egito-islamismo-democracia-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5118","title":{"rendered":"O golpe de Estado no Egito: Islamismo, democracia, revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Podemos falar de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d nos seguintes casos:<\/p>\n<p>Quando uma maioria social, com interesses diversos ou n\u00e3o, e mesmo que n\u00e3o tenha programa pol\u00edtico, derruba uma ditadura.<\/p>\n<p>Quando um programa pol\u00edtico de transforma\u00e7\u00f5es radicais, pelas armas ou n\u00e3o, e com o apoio de uma maioria social, imp\u00f5e-se sobre uma \u201cdemocracia burguesa\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/outras-opinioes\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p>No Egito, houve revolu\u00e7\u00e3o, no primeiro desses sentidos, em 2011. E at\u00e9 agora n\u00e3o houve revolu\u00e7\u00e3o alguma, no segundo desses sentidos. E a derrubada, agora, de Mursi, n\u00e3o se encaixa \u2013 \u00e9 evidente \u2013 em nenhuma das duas defini\u00e7\u00f5es acima.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ditadura a derrubar no Egito (s\u00f3 uma limitada \u201cdemocracia burguesa\u201d), e n\u00e3o h\u00e1 qualquer programa pol\u00edtico de transforma\u00e7\u00f5es radicais em jogo, pelo menos que a maioria da pra\u00e7a aprove.<\/p>\n<p>Quando uma \u201cdemocracia burguesa\u201d \u00e9 derrotada por ex\u00e9rcito fascista, o resultado chama-se \u2013 tecnicamente e politicamente \u2013 \u201cgolpe de Estado\u201d. Se milh\u00f5es de pessoas, inclusive muitas das quais revolucion\u00e1rias no primeiro sentido acima, pedem golpe de Estado, nem por isso o golpe deixa de ser golpe.<\/p>\n<p>Se milhares de pessoas na pra\u00e7a n\u00e3o querem a interven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito \u2013 porque s\u00e3o revolucion\u00e1rias tamb\u00e9m no segundo sentido do termo \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, acima \u2013, o golpe de Estado anula completamente a vontade delas.<\/p>\n<p>Ex\u00e9rcito fascista que destitui e sequestra presidente eleito; que suspende a Constitui\u00e7\u00e3o; que dissolve o Parlamento; que mete na pris\u00e3o os dirigentes do partido majorit\u00e1rio; que fecha suas televis\u00f5es e seus jornais; que atira contra membros e militantes do partido majorit\u00e1rio est\u00e1 dando um golpe de Estado. Se \u00e9 apoiado por muita gente, o golpe \u00e9 mais f\u00e1cil. Se, al\u00e9m do mais, a esquerda tamb\u00e9m ap\u00f3ia o golpe e p\u00f5e-se a cham\u00e1-lo de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, ent\u00e3o, o golpe \u00e9 fac\u00edlimo.<\/p>\n<p>No mundo \u00e1rabe n\u00e3o havia nem h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para que se produza revolu\u00e7\u00e3o no segundo sentido aqui comentado. Por que era importante \u2013 crucialmente importante \u2013 que se produzissem revolu\u00e7\u00f5es no primeiro dos dois sentidos? Por dois motivos.<\/p>\n<p>Primeiro, porque o estabelecimento de uma \u201cdemocracia burguesa\u201d sob impulso dos povos permitia a forma\u00e7\u00e3o de um novo sujeito pol\u00edtico e a constru\u00e7\u00e3o, nas novas condi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, de alternativas coletivas at\u00e9 agora inexistentes e inimagin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Segundo, porque uma \u201cdemocracia burguesa\u201d traria \u00e0 luz a verdadeira rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na regi\u00e3o, favor\u00e1veis aos islamistas. Era um perigo, sim, mas tamb\u00e9m uma necessidade inescap\u00e1vel, por todas essas ditaduras haviam justificado seu poder \u2013 e a repress\u00e3o de todas as express\u00f5es pol\u00edticas, inclu\u00edda a esquerda \u2013 contra o \u201cterrorismo isl\u00e2mico\u201d, que elas mesmas alimentavam, num enlace felizmente eterno para os caudilhos, mediante a repress\u00e3o e a tirania.<\/p>\n<p>A normaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abria a esperan\u00e7a de uma \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o do islamismo\u201d atrav\u00e9s do exerc\u00edcio do governo, como aconteceu\u00a0em parte em T\u00fanis\u00a0e tamb\u00e9m no Egito antes da derrubada de Mursi. A busca do confronto a qualquer pre\u00e7o, e a estrat\u00e9gia de persegui\u00e7\u00e3o e derrubada por qualquer meio, s\u00f3 pode abortar, por assim dizer, \u201co amadurecimento do fracasso\u201d do projeto islamista, que \u00e9 inevit\u00e1vel, mas que se deve produzir num marco democr\u00e1tico, se n\u00e3o quisermos voltar ao tr\u00e1gico \u201cdia da marmota\u201d que h\u00e1 d\u00e9cadas cobre a regi\u00e3o de sangue e subjuga seus povos.<\/p>\n<p>A esquerda, desgra\u00e7adamente, se prestou a esse jogo no qual s\u00f3 o \u201cancien regime\u201d pode vencer.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro motivo pelo qual a esquerda deveria compreender a necessidade de respeitar as regras do jogo que ela pr\u00f3pria contribuiu para estabelecer, com as revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>No mundo \u00e1rabe \u2013 e na Tun\u00edsia e no Egito, de modo bem claro \u2013 h\u00e1 dois marcos hegem\u00f4nicos paralelos: um, das classes populares, modelado pelo Isl\u00e3 pol\u00edtico; e outro, das classes m\u00e9dias e altas, modelado pela direita laica.<\/p>\n<p>Durante as ditaduras, a esquerda, reprimida, isolada, presa entre os dois marcos, declarou-se vencida no territ\u00f3rio das classes populares, que lhe era natural; e acabou assimilada \u00e0 direita laica, nem tanto porque tenha pactuado com ela \u2013 o que v\u00e1rias vezes fez \u2013, mas, mais, porque acabou distanciada da rua e embalsamada no \u00e2mbar de um elitismo \u2013 se n\u00e3o de classe \u2013 cultural e intelectual.<\/p>\n<p>Um amigo que h\u00e1 anos deixou o partido Nahda, profundamente enojado, para tratar de elaborar um projeto de \u201cislamismo da liberta\u00e7\u00e3o\u201d, segundo o modelo da \u201cteologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d, sempre reprova \u00e0 Frente Popular da Tun\u00edsia o seu distanciamento elitista da cultura popular; e, evocando Ch\u00e1vez expressamente, afirma que a Tun\u00edsia s\u00f3 ser\u00e1 comunista quando, em vez de empenhar em esvazi\u00e1-las, os comunistas se puserem a pregar comunismo nas mesquitas.<\/p>\n<p>Isso se aplica a toda a regi\u00e3o e, claro, tamb\u00e9m e sobretudo ao Egito.<\/p>\n<p>Construir um novo marco hegem\u00f4nico de esquerda no mundo \u00e1rabe pressup\u00f5e a normaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do islamismo, seu desgaste controlado e sua radicaliza\u00e7\u00e3o \u2013 na dire\u00e7\u00e3o da esquerda \u2013 a partir do interior da cultura popular.<\/p>\n<p>Golpe de Estado baseado unicamente no anti-islamismo (que conte, portanto, com as for\u00e7as muito mais poderosas e provadamente nefastas da direita laica) n\u00e3o apenas n\u00e3o \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o no segundo sentido evocado acima: o golpe tamb\u00e9m aborta a revolu\u00e7\u00e3o no primeiro sentido acima, condi\u00e7\u00e3o de qualquer mudan\u00e7a profunda que se queira fazer no futuro. Foi o que se passou na Arg\u00e9lia em 1992, com resultado que todos conhecemos bem. Agora, pode ser muito pior.<\/p>\n<p>Todos citamos frequentemente a famosa frase de Marx: a hist\u00f3ria repete-se duas vezes, a primeira como trag\u00e9dia e a segunda como farsa. N\u00e3o. A hist\u00f3ria repete-se muitas vezes: a primeira como trag\u00e9dia, a segunda como cat\u00e1strofe, a terceira como inferno, a quarta como apocalipse. N\u00e3o vejo o que a esquerda poderia ganhar com essa sequ\u00eancia mortal&#8230;<\/p>\n<p>Postado:<a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2013\/07\/o-golpe-de-estado-no-egito-islamismo.html\" target=\"_blank\">http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2013\/07\/o-golpe-de-estado-no-egito-islamismo.html<\/a><\/p>\n<p>Traduzido pelo pessoal da <strong>Vila Vudu<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nSantiago Alba Rico\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5118\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5118","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ky","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5118"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5118\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}