{"id":5120,"date":"2013-07-19T00:10:47","date_gmt":"2013-07-19T00:10:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5120"},"modified":"2013-07-19T00:10:47","modified_gmt":"2013-07-19T00:10:47","slug":"henri-alleg-comunista-e-revolucionario-exemplar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5120","title":{"rendered":"HENRI ALLEG, COMUNISTA E REVOLUCION\u00c1RIO EXEMPLAR"},"content":{"rendered":"\n<p>Esperava a not\u00edcia da morte de Henri Alleg.<\/p>\n<p>Faleceu ontem, quarta feira, mas sa\u00edra praticamente da vida no ano passado quando, em f\u00e9rias numa ilha grega, sofreu um avc. O seu c\u00e9rebro foi tao atingido que a recupera\u00e7\u00e3o era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ficou semi hemipl\u00e9gico e passou os \u00faltimos meses numa clinica, caminhando para o fim numa exist\u00eancia quase vegetativa. Reconhecia os filhos, dizia algumas palavras, mas o seu discurso tornara-se ca\u00f3tico.<\/p>\n<p>Ligou-me a esse homem uma amizade t\u00e3o profunda que sinto dificuldade em a definir.<\/p>\n<p>Aos 90 anos passou uma semana em V.N de Gaia, comigo e a minha companheira, e pronunciou ent\u00e3o na Universidade Popular do Porto uma confer\u00eancia sobre a Arg\u00e9lia e os acontecimentos que abalavam o Isl\u00e3o africano. Pelo saber hist\u00f3rico e lucidez impressionou quantos ent\u00e3o o ouviram.<\/p>\n<p>Admirava-o h\u00e1\u00a0muito quando o conheci na Bulgaria,em l986, durante um Congresso Internacional. A empatia foi imediata, abrindo a porta a uma amizade que se refor\u00e7ou a cada ano.<\/p>\n<p>Henri, apos o 25 de Abril, foi correspondente de L\u2019 Humanit\u00e9 em Lisboa. N\u00e3o tive ent\u00e3o oportunidade de o encontrar. Mas no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo visitou Portugal muitas vezes. A Editora Caminho publicou tr\u00eas livros seus (SOS Am\u00e9rica, O Grande Salto\u00a0 Atr\u00e1s e O Seculo do Drag\u00e3o) e a Editora Mareantes lan\u00e7ou a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa de La Question ( A Tortura),o livro que o tornou famoso e contribuiu para apressar o fim da guerra da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>Amava Portugal, especialmente o Alentejo da Margem Esquerda do Guadiana, e admirava muito o Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Participou em Portugal de diferentes Encontros Internacionais e, numa das suas visitas a Lisboa, foi recebido pela Comiss\u00e3o dos Neg\u00f3cios Estrangeiros da Assembleia da Republica, debateu ali com deputados de todos os partidos grandes problemas do nosso tempo, e foi depois aplaudido pelo plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Recordo tamb\u00e9m o interesse excecional suscitado pela sua passagem pelo Brasil e Cuba, onde o acompanhei nas suas visitas \u00e0queles pa\u00edses.<\/p>\n<p>A complexidade do sentimento de admira\u00e7\u00e3o que Henri Alleg me inspirava levou-me a escrever sobre ele e os seus livros mais p\u00e1ginas do que ao longo da vida dediquei a qualquer outro escritor. Elas aparecem em livros meus e em artigos publicados em jornais e revistas de muitos pa\u00edses. Evito portanto repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Recordo que ao ler\u00a0La Grande Aventure d\u2019Alger Republicain o choque &#8211; \u00e9 a palavra- foi tao forte que\u00a0 sugeri numa conferencia que o estudo desse livro deveria figurar no programa de todas as Faculdades de Jornalismo do mundo.<\/p>\n<p>O que encontrei de\u00a0diferente em Henri Alleg?<\/p>\n<p>Refletindo sobre o fasc\u00ednio que aquele homem exercia sobre mim, conclui que a admira\u00e7\u00e3o nascia da firmeza das suas op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, de uma coragem espartana e de um eticismo rar\u00edssimo.<\/p>\n<p>Mais de uma vez lhe disse que via nele o modelo dos bolcheviques do ano 17.<\/p>\n<p>Henri apareceu-me como o comunista integral, puro, quase perfeito. N\u00e3o conheci outro com quem me identificasse tao harmoniosamente no debate de ideias.<\/p>\n<p>\u00c9 de lamentar que\u00a0M\u00e9moire Alg\u00e9rienne n\u00e3o tenha sido traduzido para o portugu\u00eas. Nesse livro de mem\u00f3rias, que \u00e9 muito mais do que isso, Henri, nos cap\u00edtulos finais, permite ao leitor imaginar o sofrimento do comunista que acompanha o r\u00e1pido afastamento, apos a independ\u00eancia, dos dirigentes da FLN dos princ\u00edpios e valores que tinham conduzido os revolucion\u00e1rios argelinos \u00e0 vit\u00f3ria sobre o colonialismo franc\u00eas. Pagou um alto pre\u00e7o pela autenticidade com que se distanciou do poder em\u00a0Alger Republicain, o seu di\u00e1rio, fechado por Houari Boumedienne, her\u00f3i da luta pela independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Pesado foi tamb\u00e9m o pre\u00e7o que pagou em Fran\u00e7a, onde, apos o regresso \u00e0 Europa, foi secret\u00e1rio de Reda\u00e7\u00e3o de\u00a0L\u2019 Humanit\u00e9, ent\u00e3o \u00f3rg\u00e3o do CC do Partido Comunista Franc\u00eas.<\/p>\n<p>Henri Alleg denunciou desde o in\u00edcio a vaga do euro comunismo que atingiu os partidos franc\u00eas, italiano e espanhol, entre outros.<\/p>\n<p>Criticou com frontalidade a estrat\u00e9gia que levou o PCF a participar em governos do Partido Socialista que praticaram pol\u00edticas neoliberais.<\/p>\n<p>No belo livro que escreveu sobre a destrui\u00e7\u00e3o da URSS e a reimplanta\u00e7\u00e3o do capitalismo na R\u00fassia fustigou os intelectuais que, renunciando ao marxismo, passaram em r\u00e1pida metamorfose a defensores do capitalismo e a posi\u00e7\u00f5es antissovi\u00e9ticas. N\u00e3o hesitou mesmo em criticar o pr\u00f3prio secret\u00e1rio-geral do PCF,Robert Hue, considerando a orienta\u00e7\u00e3o imprimida ao PCF como incompat\u00edvel com as suas tradi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de organiza\u00e7\u00e3o marxista-leninista.<\/p>\n<p>Mas, contrariamente a outros camaradas, travou o seu combate de comunista dentro do Partido como militante.<\/p>\n<p>Tive a oportunidade em Fran\u00e7a, de registar,em assembleias comunistas a que assisti, o enorme respeito que Henri Alleg inspirava quando tomava a palavra. Verifiquei que mesmo dirigentes por ele criticados admiravam a clareza, o fundamento e a dignidade do seu discurso critico.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, apesar de uma sa\u00fade fr\u00e1gil, compareceu em programas de televis\u00e3o, voltou a Portugal e revisitou a Arg\u00e9lia onde foi recebido com entusiasmo e emo\u00e7\u00e3o. Nos EUA as suas confer\u00eancias suscitaram debates ideol\u00f3gicos de uma profundidade incomum, com a participa\u00e7\u00e3o de comunistas e acad\u00e9micos progressistas. E quase at\u00e9 ao AVC que o abateu, percorreu a Fran\u00e7a, respondendo a convites de Federa\u00e7\u00f5es Comunistas e outras organiza\u00e7\u00f5es. A juventude, sobretudo, aclamava- o com ternura e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A morte da companheira, Gilberte Serfaty, em 2010, foi para ele um golpe demolidor.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o mais posso sentir a alegria de viver\u2026\u00bb &#8211; respondeu-me quando o interroguei sobre o peso da solid\u00e3o. Ela, argelina, era tamb\u00e9m uma comunista excecional. Contribuiu muito para organizar com o\u00a0Partido a sua fuga rocambolesca da pris\u00e3o francesa de Rennes, para onde fora transferido da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando ia a Fran\u00e7a, instalava-me na sua casa de Palaiseau,nos sub\u00farbios de Paris. Henri, que era umgourmet e um grande cozinheiro, recebia-me com aut\u00eanticos banquetes e preparava um maravilhoso couscous, acompanhado de vinhos argelinos.<\/p>\n<p>Na \u00faltima visita a Palaiseau antes da sua doen\u00e7a, minha companheira e eu participamos de um jantar inesquec\u00edvel. Eramos cinco: n\u00f3s, Henri, Gilberte e o filho, Jean Salem, j\u00e1 entao um fil\u00f3sofo marxista de prest\u00edgio internacional.<\/p>\n<p>Recordo que nessa noite passamos o mundo em revista. Henri irradiava energia; amargurado com o presente cinzento da humanidade, falou do futuro com a esperan\u00e7a de um jovem bolchevique.<\/p>\n<p>Repito: Henri Alleg foi um revolucion\u00e1rio e um comunista exemplar.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia,18 de julho de 2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" MIGUEL URBANO RODRIGUES\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5120\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-5120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1kA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}