{"id":5121,"date":"2013-07-19T18:26:54","date_gmt":"2013-07-19T18:26:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5121"},"modified":"2013-07-19T18:26:54","modified_gmt":"2013-07-19T18:26:54","slug":"o-legado-manchado-de-mandela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5121","title":{"rendered":"O legado manchado de Mandela"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>John Pilger<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Quando era correspondente na \u00c1frica do Sul nos anos 60, quem ocupava a resid\u00eancia do primeiro-ministro em Cape Town era o simpatizante nazi Johannes Vorster. Trinta anos depois, enquanto eu esperava \u00e0 porta, era como se os guardas n\u00e3o tivessem mudado. O meu BI foi verificado por afric\u00e2nderes brancos com a confian\u00e7a de homens com um emprego seguro. Um deles tinha um exemplar de\u00a0<em>Long Walk to Freedom <\/em>, a autobiografia de Nelson Mandela. &#8220;\u00c9 muito inspirador&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Mandela havia terminado a sua sesta da tarde e estava sonolento; tinha os bot\u00f5es por atar. Usava uma camisa amarelo vivo e atravessou a sala devagar. &#8220;Bem-vindo de volta&#8221;, disse, radiante, o primeiro presidente de uma \u00c1frica do Sul democr\u00e1tica. &#8220;Deve compreender que ter sido expulso do meu pa\u00eds foi uma grande honra&#8221;. A gra\u00e7a e o encanto do homem faz-nos sentir bem. Riu-se discretamente quanto \u00e0 sua eleva\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade. &#8220;N\u00e3o era esse o emprego que eu pretendia&#8221;, disse ironicamente.<\/p>\n<p>No entanto, ele j\u00e1 estava bem habituado a entrevistas cerimoniosas e eu fui admoestado v\u00e1rias vezes \u2013 &#8220;esqueceu-se completamente do que eu disse&#8221; e &#8220;j\u00e1 lhe expliquei essa quest\u00e3o&#8221;. Sem tolerar qualquer cr\u00edtica ao Congresso Nacional Africano (CNA), revelou porque \u00e9 que milh\u00f5es de sul-africanos v\u00e3o chorar a sua morte mas n\u00e3o o seu &#8220;legado&#8221;.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe porque \u00e9 que n\u00e3o se tinham mantido as reivindica\u00e7\u00f5es que ele e o CNA tinham feito na altura da sua liberta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o em 1990. O governo de liberta\u00e7\u00e3o, havia prometido Mandela, assumiria a economia apartheid, incluindo os bancos, e &#8220;\u00e9 impens\u00e1vel uma altera\u00e7\u00e3o ou modifica\u00e7\u00e3o das nossas perspectivas quanto a essa quest\u00e3o&#8221;. Uma vez no poder, foi abandonada a pol\u00edtica oficial do partido para acabar com a pobreza da maior parte dos sul-africanos, o Programa de Reconstru\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento (PRD), e um dos seus ministros gabou-se que a pol\u00edtica do CNA era thatcherita.<\/p>\n<p>&#8220;Pode p\u00f4r-lhe o r\u00f3tulo que quiser&#8221;, respondeu, &#8220;\u2026mas, para este pa\u00eds, a privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica fundamental&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 o oposto do que o senhor disse em 1994&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Temos que pensar que cada processo incorpora uma mudan\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Poucos sul-africanos comuns tinham consci\u00eancia de que este &#8220;processo&#8221; come\u00e7ara no maior segredo dois anos antes da liberta\u00e7\u00e3o de Mandela, quando o CNA no ex\u00edlio fez um acordo com importantes membros da elite afric\u00e2nder em reuni\u00f5es na Mells Park House, uma casa imponente perto de Bath. Os pioneiros foram as empresas que tinham apoiado o apartheid.<\/p>\n<p>Mais ou menos pela mesma altura, Mandela estava a efectuar as suas negocia\u00e7\u00f5es secretas. Em 1982, foi transferido da Ilha Robben para a pris\u00e3o Pollsmoor, onde podia receber e conversar com pessoas. O objectivo do regime apartheid era dividir o CNA entre os &#8220;moderados&#8221; com quem se podia &#8220;negociar&#8221; (Mandela, Thabo Mbeki e Oliver Tambo) e os da vanguarda dos sub\u00farbios que lideravam a Frente Democr\u00e1tica Unida (FDU). A 5 de Julho de 1989, Mandela saiu da pris\u00e3o para se encontrar com P.W. Botha, o presidente da minoria branca, conhecido por Groot Krokodil (Grande Crocodilo). Mandela sentiu-se encantado por Botha ter servido o ch\u00e1.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de 1994, terminou o apartheid racista e o apartheid econ\u00f3mico conheceu um novo rosto. Durante a d\u00e9cada de 80, o regime de Botha ofereceu generosos empr\u00e9stimos a empres\u00e1rios negros, permitindo-lhes fundar empresas fora dos bantust\u00f5es. Surgiu rapidamente uma nova burguesia negra, juntamente com um compadrio excessivo. Os chef\u00f5es do CNA mudaram-se para mans\u00f5es em &#8220;propriedades de golfe e campo&#8221;. Enquanto as disparidades entre brancos e negros diminu\u00edam, aumentavam entre negros e negros.<\/p>\n<p>O refr\u00e3o familiar de que a nova riqueza &#8220;chegaria a todos&#8221; e &#8220;criaria emprego&#8221; perdeu-se em duvidosos acordos de fus\u00e3o e de &#8220;reestrutura\u00e7\u00e3o&#8221; que reduziram postos de trabalho. Para as empresas estrangeiras, um rosto negro na direc\u00e7\u00e3o era a garantia de que nada tinha mudado. Em 2001, George Soros disse no F\u00f3rum Econ\u00f3mico de Davos, &#8220;a \u00c1frica do Sul est\u00e1 nas m\u00e3os do capital internacional&#8221;.<\/p>\n<p>Nos sub\u00farbios, o povo sentiu poucas altera\u00e7\u00f5es e foi sujeito a despejos como na era do apartheid; alguns sentiram a nostalgia da &#8220;ordem&#8221; do antigo regime. As realiza\u00e7\u00f5es p\u00f3s-apartheid na vida quotidiana des-segregacionista na \u00c1frica do Sul, incluindo nas escolas, foram suplantadas pelos extremos e pela corrup\u00e7\u00e3o do &#8220;neoliberalismo&#8221; a que o CNA se dedicou. Isso levou directamente a crimes estatais como o massacre de 34 mineiros em Marikana em 2012, que fez recordar o vergonhoso massacre de Sharpeville mais de cinquenta anos antes. Foram ambos protestos contra a injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Mandela fomentou rela\u00e7\u00f5es de compadrio com brancos ricos do mundo empresarial, incluindo os que tinham beneficiado com o apartheid. Considerou que isso fazia parte da &#8220;reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221;. Porventura, ele e o seu querido CNA estiveram em luta e no ex\u00edlio tanto tempo que estavam dispostos a aceitar e a pactuar com as for\u00e7as que tinham sido inimigas do povo. Havia os que queriam de facto uma mudan\u00e7a radical, incluindo uns quantos do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sacp.org.za\/index.php\" target=\"_blank\">Partido Comunista da \u00c1frica do Sul<\/a> , mas foi a poderosa influ\u00eancia do cristianismo mission\u00e1rio que provavelmente deixou a marca mais indel\u00e9vel. Os liberais brancos no pa\u00eds ou fora dele apreciaram isso, ignorando ou bendizendo a relut\u00e2ncia de Mandela em formular uma vis\u00e3o coerente, como fizeram\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/africa\/c_lopes_pereira.html\" target=\"_blank\">Am\u00edlcar Cabral<\/a> ou o Pandita Nehru.<\/p>\n<p>Ironicamente, Mandela parece ter mudado depois de aposentado, alertando o mundo para os perigos p\u00f3s 11\/Set de George W. Bush e de Tony Blair. A sua descri\u00e7\u00e3o de Blair como &#8220;o ministro dos estrangeiros de Bush&#8221; foi maliciosamente atempada; Thabo Mbeki, o seu sucessor, estava a chegar a Londres para se encontrar com Blair. Pergunto a mim pr\u00f3prio o que \u00e9 que ele faria com a recente &#8220;peregrina\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e0 sua cela de Robben Island, feita por Barack Obama, o carcereiro implac\u00e1vel de Guantanamo.<\/p>\n<p>Mandela pareceu-me extremamente af\u00e1vel. Quando a minha entrevista acabou, deu-me uma palmadinha no ombro como a dizer que eu estava perdoado por t\u00ea-lo contraditado. Fomos at\u00e9 ao seu Mercedes prateado, onde a sua cabe\u00e7a grisalha desapareceu no meio de um grupo de homens brancos com armas enormes e arames nas orelhas. Um deles deu uma ordem em africanner e desapareceu.<\/p>\n<p>11\/Julho\/2013<\/p>\n<p><strong>O filme\u00a0<em>Apartheid Did Not Die, <\/em>de John Pilger, pode ser visto em\u00a0<a href=\"http:\/\/johnpilger.com\/videos\/apartheid-did-not-die\" target=\"_blank\">johnpilger.com\/videos\/apartheid-did-not-die<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/07\/11\/mandelas-tarnished-legacy\/\" target=\"_blank\">www.counterpunch.org\/2013\/07\/11\/mandelas-tarnished-legacy\/<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Do apartheid ao neoliberalismo na \u00c1frica do Sul\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5121\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5121","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1kB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5121","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5121"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5121\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}