{"id":5175,"date":"2013-08-02T07:26:01","date_gmt":"2013-08-02T07:26:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5175"},"modified":"2013-08-02T07:26:01","modified_gmt":"2013-08-02T07:26:01","slug":"amarildo-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5175","title":{"rendered":"Amarildo, presente!"},"content":{"rendered":"\n<p>Pedreiro desapareceu no dia 14 de junho ap\u00f3s ser detido pelos policiais da UPP da Rocinha portando todos os seus documentos<\/p>\n<p><em>30\/07\/2013<\/em><\/p>\n<p><em>Anne Vigna,<\/em><\/p>\n<p><em>da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apublica.org\/\" target=\"_blank\">P\u00fablica<\/a><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso passar muito tempo junto \u00e0 fam\u00edlia de Amarildo para entender que a UPP da Rocinha se envolveu em um problema bem grande. Amarildo n\u00e3o \u00e9 uma pessoa que poderia desaparecer sem que sua fam\u00edlia perguntasse por ele, n\u00e3o \u00e9 o pai de quem os filhos esqueceriam facilmente, n\u00e3o \u00e9 o sobrinho, tio, primo, irm\u00e3o, marido por quem ningu\u00e9m perguntaria: onde est\u00e1 Amarildo?<\/p>\n<p>Neste peda\u00e7o bem pobre da Rocinha, onde nasceu, cresceu, viveu e desapareceu Amarildo, \u201cmuitos s\u00e3o de nossa fam\u00edlia\u201d, diz Arildo, seu irm\u00e3o mais velho, apontando os quatro lados da casa. Em uma caminhada pela comunidade na companhia de um sobrinho de Amarildo, a rep\u00f3rter da\u00a0<em>P\u00fablica<\/em> conheceu algumas primas, depois umas sobrinhas, tomou um caf\u00e9 com as tias l\u00e1 em cima, de onde desceu acompanhada de irm\u00e3os e filhos de Amarildo. De todos ouviu a descri\u00e7\u00e3o de Amarildo como \u201cum cara do bem\u201d que, por desgra\u00e7a, tornou-se famoso \u2013 e n\u00e3o por sua caracter\u00edstica mais marcante, o bom cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As casas s\u00e3o ligadas por escadas antigas, feitas possivelmente por seus av\u00f3s que vieram da zona rural de Petr\u00f3polis para o Rio com os tr\u00eas filhos ainda bem pequenos. \u201cA Rocinha nessa \u00e9poca ainda era mato e poucas casas de madeira, uns barracos como se diz, e nada mais\u201d, diz Eunice, irm\u00e3 mais velha de Amarildo.<\/p>\n<p>A curiosidade da rep\u00f3rter sobre o passado da fam\u00edlia \u00e9 o suficiente par que ela pegue o telefone, para ligar para uma tia av\u00f3, \u201ca \u00fanica que pode saber alguma coisa sobre a hist\u00f3ria \u00e9 ela\u201d, diz. A tia-av\u00f3, que tamb\u00e9m vive na Rocinha, confirma por telefone o que Eunice j\u00e1 sabia: a \u201ctatarav\u00f3 era escrava, possivelmente em uma fazenda de Petr\u00f3polis, mas n\u00e3o se sabe mais do que isso\u201d.<\/p>\n<p>Eunice diz ter retomado as origens familiares ao fazer de sua casa um centro de Umbanda. \u00c9 aqui, na parte debaixo da casa, a mais silenciosa, que ela recebe as pessoas que querem saber de seu irm\u00e3o. \u201cTemos a mesma m\u00e3e, mas nosso pai n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Minha m\u00e3e gostava de variar\u201d, comenta, rindo.<\/p>\n<p>Ali, na casa constru\u00edda por ela, moram pelo menos 10 pessoas, entre crian\u00e7as e adultos. Na cozinha, as panelas s\u00e3o grandes como numerosas s\u00e3o as bocas. No primeiro quarto, tr\u00eas mulheres comem sentadas na cama. Em outro quarto, duas sobrinhas est\u00e3o em frente ao computador, trabalhando na p\u00e1gina do Facebook feita para Amarildo, seguindo os cartazes virtuais de \u201conde est\u00e1 Amarildo?\u201d que v\u00eam de v\u00e1rias partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Entre onze irm\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00e3e de Amarildo teve 12 filhos e trabalhou muito tempo como empregada dom\u00e9stica na casa de uma atriz famosa do bairro do Leblon. \u201cEssa atriz quis adotar um de n\u00f3s mas a minha m\u00e3e nunca quis\u201d, lembra o irm\u00e3o Arildo, 3 anos mais velho do que ele. Sobre o pai de ambos, n\u00e3o se sabe onde nasceu, apenas que era pescador, com barco na Pra\u00e7a XV, no centro do Rio, onde conheceu a sua esposa. Os netos n\u00e3o se lembram como nem quando, mas ele se acidentou em um naufr\u00e1gio e acabou morrendo em consequ\u00eancia de um ferimento na perna. Amarildo tinha um ano e meio. Mas, adulto, Amarildo, tinha paix\u00e3o pela pesca. \u201cEra a \u00fanica coisa que ele fazia na vida, quando n\u00e3o estava trabalhando ou nos ajudando: ia pescar sozinho ou com um primo nas rochas de Sao Conrado. Voltava com muitos peixes\u201d, conta orgulhoso, Anderson, o mais velho dos seus seis filhos.<\/p>\n<p>As varas de pescar de bambu, que ele mesmo fazia, est\u00e3o encostadas em casa desde o dia 14 de julho, um domingo, quando os policias da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora da Rocinha o levaram \u201cpara verifica\u00e7\u00e3o\u201d. Ele tinha acabado de limpar os peixes trazidos do mar e Bete, apelido de Elizabete, sua esposa h\u00e1 mais de 20 anos, esperou que ele voltasse da UPP para fritar os peixes \u201ccomo tantos domingos\u201d, ela conta, o olhar perdido. Foram 20 anos de uni\u00e3o, seis filhos, a vida dividida em um \u00fanico c\u00f4modo que servia de dormit\u00f3rio, cozinha e sala.<\/p>\n<p>Semanas ap\u00f3s o desaparecimento do marido, Bete se esfor\u00e7a para conseguir contar como conheceu o \u201cmeu homem\u201d, ela diz, evocando a lembran\u00e7a do jovem que se sentou ao lado dela em um banco em Ipanema: \u201cEu n\u00e3o sa\u00eda muito desde que cheguei de Natal (Rio Grande do Norte) para trabalhar como empregada em uma fam\u00edlia. No domingo, ia caminhar um pouco no bairro. Ele veio conversar comigo, nos conhecemos, e ele me trouxe para a casa de sua m\u00e3e aqui na Rocinha. Nunca mais sa\u00ed\u201d, conta.<\/p>\n<p>Bete trouxe os dois filhos que vieram com ela do Nordeste sem criar problema com Amarildo. \u201cEle adora crian\u00e7as\u201d, ela diz. O que as duas menorzinhas da fam\u00edlia confirmam: \u201c\u00c9 o tio Amarildo que nos leva para a praia de de S\u00e3o Conrado, ele que nos ensinou a nadar\u201d. Ela apenas sorri, sempre fumando, e sem disfar\u00e7ar a tristeza conta que est\u00e1 preocupada com a filha mais nova, de 5 anos. \u201cEla sempre estava com o pai\u201d, suspira. No come\u00e7o, Bete lhe disse que o pai tinha ido viajar e que, por hora, ele n\u00e3o voltaria. A pequena conserva a esperan\u00e7a de filha que sempre acreditou nas palavras do pai, e ele lhe prometeu um bolo grande no pr\u00f3ximo anivers\u00e1rio.<\/p>\n<table border=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/amarildo_reproducao_publica_0.gif?resize=660%2C390\" border=\"0\" width=\"660\" height=\"390\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong><em>O sobrinho Robinho, a quem Amarildo salvou de um inc\u00eandio quando tinha 11 anos &#8211; Foto: P\u00fablica<\/em><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u201c<strong>Era um menino e pulou no fogo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Aos 11 anos, Amarildo se tornou o her\u00f3i da comunidade ao se meter em um barraco em chamas para salvar o sobrinho de 4 anos. \u201cEra um menino, e pulou no fogo. Me salvou e tamb\u00e9m tentou salvar a minha irm\u00e3, que tinha 8 anos. N\u00e3o conseguiu tir\u00e1-la de l\u00e1, ela morreu, e eu fiquei meses no hospital\u201d, lembra Robinho, hoje com 34 anos, a pele marcada pelas cicatrizes desta noite de inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Aqui, Amarildo \u00e9 conhecido por todos como \u201cBoi\u201d, por ser um homem forte que carregava as pessoas que precisavam de socorro para descer as escadas e chegar com urg\u00eancia a um hospital. \u201cUns dias antes de desaparecer, ele carregou no colo uma vizinha, e a salvou. \u00c9 uma \u00f3tima pessoa, sempre ajudava os outros \u2013 numa emerg\u00eancia ou numa mudan\u00e7a\u201d, conta a cunhada Simone, sem conter as l\u00e1grimas. \u201cEu tenho muita saudade dele, principalmente do seu sorriso. Meu marido n\u00e3o fala nada, mas eu o conhe\u00e7o, est\u00e1 com muita raiva. Na primeira noite, ficou debru\u00e7ado na janela a noite toda, esperando o irm\u00e3o voltar\u201d, diz, emocionada.<\/p>\n<p>Toda a fam\u00edlia est\u00e1 com raiva. E dessa vez ningu\u00e9m quer ficar quieto, mesmo sabendo dos riscos da den\u00fancia. V\u00e1rios familiares foram amea\u00e7ados por policiais. \u201cPor que foram atr\u00e1s dele? Estamos voltando \u00e0 ditadura?\u201d, pergunta a prima, Michelle. \u201cEle trabalhou toda a vida, quando n\u00e3o trabalhava, nos ajudava, ou ia pescar para a sua fam\u00edlia. Ninca se meteu com ningu\u00e9m\u201d, comenta, revoltada.<\/p>\n<p>Boi era pedreiro havia 30 anos e ganhava meio sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas. \u201cPor isso, \u00e0s vezes carregava sacos de areia aos s\u00e1bados para ganhar um pouco mais\u201d, comenta Anderson, mostrando os tijolos que o pai comprou com o dinheiro extra para fazer um puxadinho no segundo andar na casa: \u201cNa verdade, ele ia ter que voltar a fazer a funda\u00e7\u00e3o aqui de casa porque est\u00e1 caindo, eu e meu irm\u00e3o \u00edamos ajudar\u201d, detalha.<\/p>\n<p>\u201cEle era meu pai, irm\u00e3o, amigo, era tudo para mim\u201d, diz, escondendo as l\u00e1grimas quando chega a irm\u00e3 mais nova, de 13 anos.<\/p>\n<p>Os familiares vivem em suspense, \u00e0 espera das not\u00edcias que n\u00e3o chegam. N\u00e3o desistem: organizam-se como podem com vizinhos, amigos e outras v\u00edtimas da pol\u00edcia. Negaram uma oferta do governo do Estado do Rio de Janeiropara entrar no programa de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 testemunha. Preferiram continuar na Rocinha, sua comunidade. Na pr\u00f3xima quinta-feira, dia 1 de agosto, far\u00e3o mais uma manifesta\u00e7\u00e3o na Rocinha, onde estar\u00e3o presentes familiares de outros desaparecidos por obra de outros policiais em outras favelas. \u201cTemos que lutar para que essa impunidade n\u00e3o continue. Queremos justi\u00e7a por Amarildo e para todos n\u00f3s que convivemos agora com essa pol\u00edcia\u201d, revolta-se a sobrinha Erika.<\/p>\n<p>Aos 43 anos, Amarildo desapareceu sem que a fam\u00edlia tenha direito sequer a uma explica\u00e7\u00e3o oficial, como tantos outros de tantas favelas brasileiras v\u00edtimas de viol\u00eancia policial. Mas dessa vez, ningu\u00e9m vai se calar. Onde est\u00e1 Amarildo?<\/p>\n<table border=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/onde_est%C3%A1_amarildo_Ant%C3%B4nio-Carlos-Costa.gif?resize=660%2C390\" border=\"0\" width=\"660\" height=\"390\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong><em>Foto: Ant\u00f4nio Carlos Costa\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>Como levaram Amarildo<\/strong><\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Paz Armada, que mobilizou 300 policiais, entrou na Rocinha nos dias 13 e 14 de julho para prender suspeitos sem passagem pela pol\u00edcia depois de um arrast\u00e3o ocorrido nas proximidades da favela. Segundo a pol\u00edcia, 30 pessoas foram presas, entre elas Amarildo. Segundo uma testemunha contou \u00e0 reporter Elenilce Bottari, do\u00a0<em>Globo<\/em>, ele foi levado por volta das 20 horas do dia 14, portando todos os seus documentos: \u201cEle estava na porta da birosca, j\u00e1 indo para casa, quando os policiais chegaram. O Cara de Macaco (como \u00e9 conhecido um dos policiais da UPP) meteu a m\u00e3o no bolso dele.<\/p>\n<p>Ele reclamou e mostrou os documentos. O policial fingiu que ia checar pelo r\u00e1dio, mas quase que imediatamente se virou para ele e disse que o Boi tinha que ir com eles\u201d, disse a testemunha.<\/p>\n<p>Assim que soube, Bete foi \u00e0 base da UPP no Parque Ecol\u00f3gico e chegou a ver o marido l\u00e1 dentro. \u201cEle me olhou e disse que o policial estava com os documentos dele. Ent\u00e3o eles disseram que j\u00e1, j\u00e1 ele retornaria para casa e que n\u00e3o era para a gente esperar l\u00e1. Fomos para casa e esperamos a noite inteira. Depois, meu filho procurou o comandante, que disse que Amarildo j\u00e1 tinha sido liberado, mas que n\u00e3o dava para ver nas imagens das c\u00e2meras da UPP porque tinha ocorrido uma pane. Eles acham que pobre tamb\u00e9m \u00e9 burro\u201d, contou Bete ao Globo.<\/p>\n<p>O caso est\u00e1 sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15\u00aa DP (G\u00e1vea), ainda sem conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/14528<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5175\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-5175","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1lt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5175"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5175\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}