{"id":5196,"date":"2013-08-06T21:35:08","date_gmt":"2013-08-06T21:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5196"},"modified":"2013-08-06T21:35:08","modified_gmt":"2013-08-06T21:35:08","slug":"qsomos-otimistas-e-o-momento-de-buscar-a-pazq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5196","title":{"rendered":"&#8220;Somos otimistas: \u00e9 o momento de buscar a paz&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>por Hernando Calvo Ospina\u00a0[*]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nem em Havana deixaram seu costume de madrugar. &#8220;Levantamo-nos \u00e0s 4h30 a fim de acordar os galos para que cantem&#8221;, diz-me com sorriso Ricardo T\u00e9llez, mais conhecido como &#8220;Rodrigo Granda&#8221;. Agendaram para as 7 da manh\u00e3 a entrevista com os tr\u00eas membros do Secretariado, inst\u00e2ncia m\u00e1xima de dire\u00e7\u00e3o das FARC. Eles est\u00e3o \u00e0 frente dos di\u00e1logos da organiza\u00e7\u00e3o insurgente com a delega\u00e7\u00e3o do governo colombiano, em Havana. <\/strong><\/p>\n<p><strong>A este grande sal\u00e3o de uma casa em &#8220;El Laguito&#8221;, onde residem\u00a0<strong>[1]<\/strong> , chegam tamb\u00e9m &#8220;Iv\u00e1n M\u00e1rquez&#8221; e &#8220;Pablo Catatumbo&#8221;. Granda acende um cigarro e bebe a segunda ch\u00e1vena de caf\u00e9. M\u00e1rquez tem um grande charuto cubano na m\u00e3o, que acender\u00e1 &#8220;depois do pequeno-almo\u00e7o&#8221;. Catatumbo toma um caf\u00e9 e repete: &#8220;Se n\u00f3s os tr\u00eas vamos dizer quase o mesmo, para que entrevistar-me?&#8221; <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 a primeira vez que um jornalista consegue ter estes tr\u00eas dirigentes guerrilheiros juntos.<\/strong><\/p>\n<p><em>Hernando Calvo Ospina: Comandantes, est\u00e3o h\u00e1 sete meses a dialogar, negociando com a comiss\u00e3o do governo tendo em vista um processo de paz. Ainda est\u00e3o optimistas? <\/em><\/p>\n<p>Iv\u00e1n M\u00e1rquez: O optimismo das FARC \u00e9 dado pela determina\u00e7\u00e3o de buscar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a esta confronta\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 se aproxima dos cinquenta anos. Como eles n\u00e3o nos podem derrotar militarmente, nem n\u00f3s a eles, devemos procurar a alternativa. Al\u00e9m disso as circunst\u00e2ncias, as realidades de hoje, tanto na Col\u00f4mbia como no continente, indicam que \u00e9 o momento de buscar uma sa\u00edda incruenta. As guerras n\u00e3o s\u00e3o eternas. E neste plano fazemos todos os esfor\u00e7os que sejam necess\u00e1rios para chegar ao entendimento com o governo.<\/p>\n<p><em>HCO: O que \u00e9 que se sente ao ter t\u00e3o perto o que se caracteriza como inimigo? <\/em><\/p>\n<p>IM: Ainda que estejam sentados \u00e0 mesma mesa dois grupos com vis\u00f5es muito diferentes, quase antag\u00f3nicas, ali temos que nos tolerar para nos entendermos. Numa mesa de negocia\u00e7\u00f5es deve-se observar respeito pela contraparte, e creio que isso se faz reciprocamente. Existem momentos com discuss\u00f5es r\u00edgidas, fortes, mas logo as coisas voltam ao seu n\u00edvel pois sabemos que devemos chegar a entendimentos.<\/p>\n<p><em>HCO: As negocia\u00e7\u00f5es na guerra efectuam-se entre dois oponentes. A mim parece-me que h\u00e1 mais emotividade do vosso lado. <\/em><\/p>\n<p>IM: Tem raz\u00e3o. No governo sempre existiu a tend\u00eancia para buscar a submiss\u00e3o da guerrilha, como sin\u00f3nimo de paz, e n\u00e3o a paz atrav\u00e9s de mudan\u00e7as estruturais. Querem uma paz gr\u00e1tis para as oligarquias. N\u00f3s estamos a fazer grandes esfor\u00e7os para fazer entender que se precisa gerar uma atmosfera para a paz e que ela se pode conseguir atrav\u00e9s de transforma\u00e7\u00f5es institucionais e pol\u00edticas. N\u00f3s estamos seguros de que o mais importante para a Col\u00f4mbia \u00e9 garantir uma democracia real onde o soberano, que \u00e9 o povo, determine as pol\u00edticas estrat\u00e9gicas; onde a opini\u00e3o das pessoas seja tida em conta sem que sejam estigmatizadas e assassinadas.<\/p>\n<p><em>HCO: Talvez me equivoque, mas parece-me que em v\u00e1rios momentos o presidente Juan Manuel Santos quis lan\u00e7ar-se para tr\u00e1s. <\/em><\/p>\n<p>Rodrigo Granda: N\u00e3o creio que se lance para tr\u00e1s, mas sim que parece acovardado. \u00c9 como se tivesse medo do ex-presidente \u00c1lvaro Uribe, dos criadores de gado, do poder narco-paramilitar e do sector cavern\u00edcola nas For\u00e7as Armadas. Santos acovarda-se apesar de ter o apoio de um sector importante dos industriais, dos banqueiros e das Igrejas. Por exemplo: segundo relat\u00f3rios que dispomos, Sarmiento Angulo, um dos homens mais poderosos da Col\u00f4mbia, est\u00e1 com o processo de di\u00e1logo\u00a0<strong>[2]<\/strong> . As pesquisas dizem que 87% dos colombianos tamb\u00e9m desejam a paz. A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em favor da paz \u00e9 indiscut\u00edvel. Fora do uribismo ningu\u00e9m mais fala em guerra. Mas parece que Santos n\u00e3o quer enfrentar esses sectores liderados por Uribe, ent\u00e3o faz-se de valente conosco militarmente e assume posi\u00e7\u00f5es intransigentes que n\u00e3o permitem o correcto desenvolvimento dos di\u00e1logos.<\/p>\n<p>Sabemos que Uribe tem preparados 13 mil paramilitares, que extra-oficialmente s\u00e3o conhecidos como o &#8220;ex\u00e9rcito anti-restitui\u00e7\u00e3o de terras&#8221;. Ser\u00e1 que as For\u00e7as Armadas e Santos n\u00e3o o sabem? Claro que sim! \u00c9 a isso que teme Santos? Ou \u00e9 que ele o assume com parte de uma poss\u00edvel manobra contra n\u00f3s?<\/p>\n<p><em>HCO: \u00c9 claro que Uribe tenta torpedear as negocia\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 que quer voltar \u00e0 presid\u00eancia? <\/em><\/p>\n<p>RG: Deseja-o para se blindar, porque tem medo de ser enviado a Miami por narcotr\u00e1fico; ou ao Tribunal Penal Internacional de Haia por crimes de Lesa Humanidade. A ele conv\u00e9m-lhe que as negocia\u00e7\u00f5es fracassem para se apresentar perante o pa\u00eds como a solu\u00e7\u00e3o. Ainda que o &#8220;problema&#8221; da guerrilha n\u00e3o o tenha resolvido em oito anos de governo.<\/p>\n<p>Pablo Catatumbo: De qualquer maneira, Santos e Uribe t\u00eam a mesma ideia das negocia\u00e7\u00f5es: processo de paz por submiss\u00e3o. Est\u00e3o cegos, surdos e bem errados, ainda que se creiam muito inteligentes. E \u00e9 a\u00ed onde n\u00f3s devemos continuar com sabedoria para demonstrar-lhes que est\u00e3o bem equivocados e que assim a guerra continuar\u00e1.<\/p>\n<p><em>HCO: Pela declara\u00e7\u00f5es que fizeram, mais documentos que li, voc\u00eas est\u00e3o a pedir reformas nas institui\u00e7\u00f5es estatais e a moderniza\u00e7\u00e3o do mesmo Estado, o que pode ser contradit\u00f3rio para uma guerrilha comunista, marxista-leninista. <\/em><\/p>\n<p>IM: Na mesa n\u00e3o estamos a colocar mudan\u00e7as radicais nas estruturas pol\u00edticas nem econ\u00f3micas do Estado. Ali n\u00e3o se fala de socialismo nem de comunismo. O que buscamos \u00e9 gerar condi\u00e7\u00f5es para chegar a um entendimento com o governo. Um espa\u00e7o onde encontremos as diferentes vis\u00f5es. Sabemos que por isso algumas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, n\u00e3o s\u00f3 colombianas, j\u00e1 dizem que nos tornamos uma guerrilha reformista.<\/p>\n<p>Fizemos propostas m\u00ednimas, como as cem do sistema agr\u00e1rio, como disse muito bem n\u00e3o s\u00e3o outra coisa sen\u00e3o um projecto de moderniza\u00e7\u00e3o do campo colombiano, mas \u00e9 que l\u00e1 ainda estamos a viver no feudalismo. Imagine que ainda assim encontr\u00e1mos resist\u00eancias do governo.<\/p>\n<p><em>HCO: O que se firmou at\u00e9 agora entre as partes? <\/em><\/p>\n<p>RG: Aqui firmaram-se algumas coisas, mas n\u00e3o s\u00e3o firmas definitivas porque nada est\u00e1 acordado at\u00e9 que tudo esteja acordado. Existem pontos nos quais n\u00e3o conseguimos nos por de acordo e os deix\u00e1mos para volt\u00e1-los a discutir mais adiante. Do contr\u00e1rio n\u00e3o se avan\u00e7a.<\/p>\n<p><em>HCO: Di\u00e1logos em Havana e fortes confronta\u00e7\u00f5es militares na Col\u00f4mbia&#8230; <\/em><\/p>\n<p>RG: \u00c9 o governo que n\u00e3o quer um cessar-fogo, portanto o facto de dialogar debaixo de fogo vale para as duas partes.<\/p>\n<p>N\u00f3s sustentamos fortes combates di\u00e1rios, numa m\u00e9dia de tr\u00eas por dia. Fizemos grandes ac\u00e7\u00f5es de car\u00e1cter militar que eles escondem da na\u00e7\u00e3o. Agora, ambas as partes decidiram que tudo o que passe fora da mesa n\u00e3o se deve reflectir ali.<\/p>\n<p>Temos dado mostras de vontade, como foi a tr\u00e9gua unilateral na altura do Natal, ainda que tenhamos tido de nos defender das agress\u00f5es do ex\u00e9rcito. E o que tamb\u00e9m se escondeu \u00e9 que nesse mesmo lapso de tempo as transnacionais puderam aumentar seus lucros, pois n\u00e3o tiveram nossa press\u00e3o. Por isso \u00e9 que um dos motivos essenciais para acabar com as guerrilhas, seja como for, \u00e9 para que as transnacionais possam roubar o que quiserem com absoluta tranquilidade.<\/p>\n<p><em>HCO: Qual \u00e9, at\u00e9 o momento, a principal intransig\u00eancia do governo nas negocia\u00e7\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p>IM: Sem lugar a d\u00favidas, \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o de n\u00e3o tocar a propriedade do latif\u00fandio, cuja maior parte foi obtida atrav\u00e9s do despojo violento. Isso lhes provoca medo. Seus representantes, nas conversas connosco, disseram-no que se poderiam &#8220;desencadear os dem\u00f3nios do paramilitarismo&#8221;. T\u00eam medo dos criadores de gado e latifundi\u00e1rios, em tocar-lhes um ter\u00e7o dos 30 milh\u00f5es de hectares que possuem, ainda que nem vacas por l\u00e1 passem.<\/p>\n<p>Mas uma reforma agr\u00e1ria sem tocar na grande propriedade n\u00e3o \u00e9 reforma. \u00c0 propriedade da terra h\u00e1 que por limites. O governo nem sequer pensou em aplicar uma tributa\u00e7\u00e3o como forma de castigo para dissuadir a posse de terras improdutivas. Quando propusemos gravar essas grandes propriedades, o governo responde que n\u00e3o h\u00e1 recenseamento confi\u00e1vel, pois n\u00e3o se sabe onde est\u00e3o nem a sua extens\u00e3o. Ent\u00e3o sugere que deve fazer-se primeiro um cadastro, o qual pode demorar de 7 a 10 anos. O que n\u00e3o dizem \u00e9 que durante este tempo os latifundistas podem arrendar ou vender essas terras \u00e0s transnacionais, que \u00e9 a estrat\u00e9gia em curso.<\/p>\n<p><em>HCO: Se o governo colombiano se decidiu a negociar com as FARC foi porque Washington esteve de acordo. Voc\u00eas sabem que n\u00e3o \u00e9 um exagero meu. Qual \u00e9 a atitude pol\u00edtica actualmente? <\/em><\/p>\n<p>IM: Recentemente 62 congressistas dos Estados Unidos, dentre eles dois republicamos, encabe\u00e7ados por Jim McGovern, subscreveram uma carta de apoio aos di\u00e1logos. Esta missiva foi enviada ao secret\u00e1rio de Estado John Kerry. Este gesto foi saudado por n\u00f3s. Mas tamb\u00e9m a Casa Branca e o Departamento de Estado exprimiram seu apoio. Claro, l\u00e1 tamb\u00e9m h\u00e1 divis\u00f5es de interesses pois o conflito colombiano gera dinheiro. As poderosas empresas construtoras de armamento n\u00e3o querem perder esse neg\u00f3cio.<\/p>\n<p><em>HCO: Voc\u00eas est\u00e3o decididos a abandonar a luta armada. O que o governo tem a oferecer-lhe para que isso se consiga? E voc\u00eas, em que se transformariam? <\/em><\/p>\n<p>RG: O presidente Santos, durante a troca de cartas inicial que teve conosco, disse-nos que desejava abrir as comportas para uma democracia real no pa\u00eds. Isso nos chamou a aten\u00e7\u00e3o, porque nunca dissemos que a luta seria o \u00fanico caminho para mudar o pa\u00eds. Levantamo-nos em armas, e continuamos com elas, porque com viol\u00eancia nos fecharam as portas \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se se abre a possibilidade de fazer pol\u00edtica legal, sem a amea\u00e7a permanente do assassinato, em igualdade de condi\u00e7\u00f5es e fazem-se reformas pol\u00edticas que possam por o pa\u00eds no rumo da democracia participativa, subscrevemos. Porque poder-se-ia criar uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel ao movimento revolucion\u00e1rio, que encaminhe as transforma\u00e7\u00f5es radicais necess\u00e1rias. N\u00f3s aceitamos esse repto.<\/p>\n<p>PC: \u00c9 preciso construir um movimento de massas forte que imponha as mudan\u00e7as, pois o estabelecimento n\u00e3o presenteia. Essa \u00e9 uma tarefa nossa, dos militantes de esquerda e dos democratas. A sabedoria est\u00e1 em articular um bloco de poder que aglutine todos n\u00f3s que estamos por uma nova Col\u00f4mbia. Esse \u00e9 o repto, e n\u00e3o \u00e9 pequeno.<\/p>\n<p>Mas repare, enquanto falamos disso na mesa de negocia\u00e7\u00f5es continua a repress\u00e3o por todo o pa\u00eds. O governo n\u00e3o variou minimamente o tratamento do protesto social: estigmatiza-o, associando-o \u00e0s guerrilhas para pode-lo criminalizar e combater a tiros. E se existe algo que temos muito claro \u00e9 que n\u00e3o estamos dispostos a repetir a experi\u00eancia da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, em que assassinaram quase 4 mil militantes e dirigentes\u00a0<strong>[3]<\/strong> .<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, quando n\u00e3o se manipula, n\u00e3o mente: os violentos foram eles. Quando o recordamos aos enviados do governo nestas negocia\u00e7\u00f5es dizem-nos que n\u00e3o est\u00e3o a\u00ed para saber disso. Por que? Por lhes dar medo ou vergonha? Se n\u00e3o se conhece a hist\u00f3ria da viol\u00eancia pol\u00edtica na Col\u00f4mbia, como vamos saber porque cheg\u00e1mos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o actual e como resolv\u00ea-la?<\/p>\n<p>IM: H\u00e1 tr\u00eas pontos na agenda a tratar: garantias para exercer a actividade pol\u00edtica, a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a cessa\u00e7\u00e3o de fogo bilateral e definitiva. Neste \u00faltimo se falar\u00e1 do abandono de armas e em que condi\u00e7\u00f5es. Mas entenda-se bem: n\u00e3o \u00e9 entrega de armas. N\u00e3o podemos estender-nos agora nestes pontos enquanto n\u00e3o se discutirem na mesa, e ser\u00e3o dos \u00faltimos na agenda.<\/p>\n<p><em>HCO: E que vai acontecer ao paramilitarismo? <\/em><\/p>\n<p>IM: Tem que ser erradicado de maneira definitiva, porque sem isso n\u00e3o haveria nenhuma certeza para uma organiza\u00e7\u00e3o insurgente que se incorpora \u00e0 vida pol\u00edtica legal. Essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para poder chegar a um acordo de paz. E \u00e9 o governo quem tem de dar a ordem aos seus generais para deter essa estrat\u00e9gia contra-insurgente do estado.<\/p>\n<p><em>HCO: Voc\u00eas est\u00e3o decididos a pedir perd\u00e3o pela parte do sofrimento que causaram nesta guerra? <\/em><\/p>\n<p>PC: Temos cometido erros, alguns graves, \u00e9 certo. Mas diga o que disser a propaganda, a agress\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi uma estrat\u00e9gia das FARC. Ao contr\u00e1rio, temo-la defendido do ex\u00e9rcito e dos seus paramilitares, principalmente no campo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho problema em dizer a uma senhora, a uma fam\u00edlia: &#8220;sinto a dor que lhe provoc\u00e1mos com a morte do seu ser querido&#8221;. Mas isto \u00e9 muito mais complexo. H\u00e1 que pedir perd\u00e3o? Muito bem. Ent\u00e3o que se sentem conosco as associa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que financiaram a guerra e os paramilitares; que venham todas as institui\u00e7\u00f5es do Estado, pois elas est\u00e3o enquadradas para a repress\u00e3o e a impunidade; tamb\u00e9m os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, porque reproduziram as estigmatiza\u00e7\u00f5es dos organismos de seguran\u00e7a que antecederam os assassinatos e massacres; os partidos pol\u00edticos de direita tamb\u00e9m devem sentar-se e apresentar suas grandes responsabilidades; os ex-presidentes da rep\u00fablica que deram as ordens. Nem a Igreja cat\u00f3lica pode esquivar-se a suas culpas! E n\u00e3o podem ficar fora desse acto de responsabilidades os governos dos Estados Unidos, Israel, certos pa\u00edses da Europa e os demais que apoiaram os diferentes governos criminosos da Col\u00f4mbia. Sentados todos, sim podemos ver quem foram os terroristas e assassinos do povo.<\/p>\n<p><em>HCO: Voc\u00eas apontam, e com raz\u00e3o, o governo, suas For\u00e7as Armadas e os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o como respons\u00e1veis da guerra psicol\u00f3gica e de propaganda contra a insurg\u00eancia. Mas creio que um importante sector da chamada intelectualidade se irritou com a luta armada que at\u00e9 ontem apoiavam. <\/em><\/p>\n<p>PC: A maioria de intelectuais na Col\u00f4mbia, e certamente no mundo, sofrem de covardia, de acomoda\u00e7\u00e3o ou ambos. Quase todos deixaram-se enfiar pelo sistema na matriz da mentira, e utilizam-nos para &#8220;teorizar&#8221;, criar e repetir falsidades. Muitos andam a fazer discursos contra a manipula\u00e7\u00e3o dos media, mas quando o sistema arranca em campanha contra um objectivo, eles come\u00e7am a atuar como os papagaios.<\/p>\n<p>No caso colombiano, o sistema enfiou-lhes na cabe\u00e7a que as guerrilhas s\u00e3o culp\u00e1veis de tudo. Apesar de que muitos deles acreditavam-se, ou acreditam-se, de esquerda, entraram no coro de que somos respons\u00e1veis pela viol\u00eancia, pelo narcotr\u00e1fico, pela pobreza, pela alta da gasolina e das bananas. Asseguro-lhe que se amanh\u00e3 os p\u00e1ssaros deixassem de cantar, esses &#8220;intelectuais&#8221; repetir\u00e3o o que disser o governo e seus media: a guerrilha \u00e9 culpada. Ca\u00edram em tal pobreza investigativa e de racioc\u00ednio que suas an\u00e1lises e teorias n\u00e3o suportam o m\u00ednimo debate, pelo menos conosco. Bem, eles pensam que se debaterem conosco depois os matamos. Nem sequer s\u00e3o capazes de dar-se conta de que se assim fosse, na Col\u00f4mbia j\u00e1 restariam pouqu\u00edssimos &#8220;intelectuais&#8221;. O c\u00e9rebro n\u00e3o lhes d\u00e1 para observar que aqueles que guardam sua independ\u00eancia intelectual e pol\u00edtica s\u00e3o os que o governo aponta como amigos ou c\u00famplices da subvers\u00e3o.<\/p>\n<p><em>HCO: Devo reconhecer, e \u00e9 j\u00e1 para terminar, que n\u00e3o sou muito optimista com estes di\u00e1logos. Creio que a Col\u00f4mbia e os colombianos merecem uma paz com justi\u00e7a social, mas conhe\u00e7o o estado colombiano, conhe\u00e7o os Estados Unidos que s\u00e3o o seu sustent\u00e1culo e quem decide no final. Oxal\u00e1 que essa longa noite que o terrorismo do Estado colombiano imp\u00f4s se detenha e finalmente amanhe\u00e7a. Desejo-o de todo cora\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p>PC: Repare, as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Am\u00e9rica Latina mudaram. Quem ia imaginar o que se passou na Venezuela e na Bol\u00edvia com a chegada de Ch\u00e1vez e de Evo? Quem ia imaginar que outros governos na Am\u00e9rica Latina chegariam a exigir aos Estados Unidos o respeito \u00e0 soberania? Existem coisas imprevis\u00edveis, como foi o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia existe uma acumula\u00e7\u00e3o de fome, exclus\u00e3o, injusti\u00e7as e repress\u00e3o. Chega um momento em que a gente n\u00e3o aguenta mais. Existe uma acumula\u00e7\u00e3o de processos larvares que podem saltar a qualquer momento. Existe uma ebuli\u00e7\u00e3o que poderia explodir amanh\u00e3 mesmo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso a problem\u00e1tica colombiana n\u00e3o \u00e9 uma ilha. Os pa\u00edses vizinhos est\u00e3o a pressionar o governo porque j\u00e1 est\u00e3o cansados de serem afectados pelo conflito. A Venezuela tem uns 4 milh\u00f5es de deslocados; o Equador quase dois milh\u00f5es. Acreditamos que existam de 13 a 15 milh\u00f5es de colombianos nos pa\u00edses lim\u00edtrofes, ou seja, a ter\u00e7a parte da popula\u00e7\u00e3o colombiana. E estes pa\u00edses devem dar-lhes habita\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. At\u00e9 quando? A isso some-se os gastos para resguardar as fronteiras. Tudo porque o Estado colombiano insiste em n\u00e3o negociar um conflito que n\u00e3o vai ganhar! Temos pedido aos representantes desses pa\u00edses que exijam ao colombiano que fa\u00e7a a paz para que regressem os compatriotas.<\/p>\n<p>Somos optimistas. Os revolucion\u00e1rios devem ser optimistas, at\u00e9 nas piores situa\u00e7\u00f5es. E acreditamos que a paz chegar\u00e1 \u00e0 Col\u00f4mbia porque a merecemos. A outra perspectiva \u00e9 a guerra total. Por isso digo que \u00e9 o momento, ainda que n\u00e3o seja f\u00e1cil. Este processo de paz \u00e9 demasiado complexo, mas acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel. Insistimos em lutar pela paz e por isso n\u00e3o vamos cruzar os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Tenho esperan\u00e7a sim, apesar de ao poder e \u00e0 oligarquia colombiana fazer-lhe falta grandeza e humildade para come\u00e7ar a solucionar este conflito.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1) \u00c9 conhecido como &#8220;El Laguito&#8221; um conjunto residencial em Havana. Suas casas, quase todas de dois pisos, est\u00e3o separadas por \u00e1rvores e jardins. No centro h\u00e1 um pequeno lago. Desde Novembro de 2012, neste ambiente sereno alojam-se as delega\u00e7\u00f5es das FARC e do governo colombiano.<\/p>\n<p>2) Segundo a revista\u00a0<em>Forbes <\/em>(edi\u00e7\u00e3o 2012), Luis Carlos Sarmiento Angulo figura como o primeiro multimilion\u00e1rio da Col\u00f4mbia e ocuparia a 64\u00ba lugar no mundo.<\/p>\n<p>3) A Uni\u00e3o Patri\u00f3tica nasceu em 1985, em consequ\u00eancia dos di\u00e1logos entre o governo de Belisario Betancur e as FARC. Segundo sentenciou a justi\u00e7a colombiana, houve um &#8220;genoc\u00eddio pol\u00edtico&#8221; contra ela.<\/p>\n<p><strong>[*] Jornalista colombiano residente em Fran\u00e7a. \u00a0Colaborador de\u00a0<em>Le Monde Diplomatique <\/em>e de\u00a0<em>La Pluma. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.es.lapluma.net\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5072:qsomos-optimistas-es-el-momento-de-buscar-la-pazq&amp;catid=116:debates&amp;Itemid=490\" target=\"_blank\">www.es.lapluma.net\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta entrevista encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\u2013 Entrevista dos comandantes do Secretariado das FARC em Havana\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5196\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-5196","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1lO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5196"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5196\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}