{"id":5256,"date":"2013-08-21T01:01:40","date_gmt":"2013-08-21T01:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5256"},"modified":"2013-08-21T01:01:40","modified_gmt":"2013-08-21T01:01:40","slug":"zumbis-vampiros-e-capitalismo-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5256","title":{"rendered":"Zumbis, vampiros e capitalismo global"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8220;Monsters of the Market&#8221;, <\/em><a href=\"http:\/\/resistir.info\/jf\/monsters_resenha.html#notas\" target=\"_blank\">[1]<\/a> de David McNally, \u00e9 um livro importante para compreender o mundo dos nossos dias. O seu autor dispensa \u00f3culos cor-de-rosa e \u00e9 animado por uma paix\u00e3o de lucidez e eticismo. Assim, produziu este livro original e bem escrito, que alia a an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o actual do planeta \u2013 da Europa e da \u00c1frica em particular \u2013 com as suas manifesta\u00e7\u00f5es reflexas nas superestruturas das sociedades que padecem as agruras da globaliza\u00e7\u00e3o. Vivemos, como diz o autor, na era do &#8220;capitalismo zumbi&#8221; e de &#8220;bancos zumbis&#8221;, com vampiros a actuarem no palco central. Como escreve Marx, &#8220;O capital \u00e9 trabalho morto que, tal como o vampiro, vive apenas para sugar o trabalho vivo&#8221;. O mundo actual \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p>A historiografia corrente costuma caracterizar os mitos como meras supersti\u00e7\u00f5es de um mundo ultrapassado, coisa de gente inculta e atrasada. Grande erro, pois eles s\u00e3o mais actuais do que nunca e reproduzem-se ou adaptam-se aos acontecimentos correntes. \u00c9 o que demonstra o autor com a sua an\u00e1lise do famoso cl\u00e1ssico\u00a0<em>Frankenstein <\/em>, de Mary Shelley. O seu enorme \u00eaxito liter\u00e1rio no s\u00e9culo XIX n\u00e3o por acaso coincidiu com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. A sua disseca\u00e7\u00e3o (palavra adequada) do romance de Shelley mostra como este correspondia aos processos sociais que ent\u00e3o se verificavam, com o desmembramento dos corpos e das mentes da classe que fora despojada durante as\u00a0<em>enclosures <\/em>do s\u00e9c. XVIII. Transformada em mercadoria, esta classe estava a ser consumida nas f\u00e1bricas da \u00e9poca \u2013 quase sempre em condi\u00e7\u00f5es atrozes. Ao mesmo tempo a legisla\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica sofria modifica\u00e7\u00f5es tendentes a criminalizar a pobreza, aplicando-lhe inclusive penas pesadas de trabalhos for\u00e7ados. Nem depois de mortos os pobres escapavam \u00e0 sanha da classe dominante: os que morriam nos trabalhos for\u00e7ados ou enforcados eram entregues aos &#8220;anatomistas&#8221; a fim de serem dissecados. O\u00a0<em>Frankenstein <\/em>de Mary Shelley tem essa realidade social como pano de fundo.<\/p>\n<p>Nas artes pl\u00e1sticas, a famosa\u00a0<em>A li\u00e7\u00e3o de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, <\/em>de Rembrandt, antecede esta afirma\u00e7\u00e3o de poder de classe. N\u00e3o por acaso, este Dr. Tulp era o burgomestre e um dos homens ricos da cidade. A imagem mostra os rostos inteligentes e com interesse cient\u00edfico dos burgueses que assistiam \u00e0 li\u00e7\u00e3o, ao passo que o do pobre dissecado (condenado \u00e0 forca por roubar um casaco) aparece convenientemente na sombra. Os espect\u00e1culos (pagos) de disseca\u00e7\u00e3o p\u00fablica eram comuns na \u00e9poca. McNally apresenta a sequ\u00eancia deste teatro do poder: &#8220;O Acto Um era a execu\u00e7\u00e3o p\u00fablica do criminoso condenado. O Acto Dois consistia na disseca\u00e7\u00e3o p\u00fablica do criminoso enforcado na v\u00e9spera, a qual podia perdurar at\u00e9 cinco dias. O Acto Tr\u00eas envolvia um banquete semi-privado da Guilda dos Cirurgi\u00f5es-Anatomistas na noite em que se conclu\u00eda a disseca\u00e7\u00e3o. Finalmente, o Acto Final consistia num desfile com tochas a seguir ao banquete. Como observamos aqui, cerim\u00f3nias cuidadosamente orquestradas de poder de classe&#8221;.<\/p>\n<p>A literatura sobre monstros e vampiros ganha impulso precisamente no princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX numa sociedade brutalmente dividida pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Data dessa \u00e9poca a Revolu\u00e7\u00e3o dos Luditas, que aterrorizou a classe dominante brit\u00e2nica entre 1811-17 e acabou por ser afogada em sangue ap\u00f3s a revolta de Abril de 1812 em numerosas cidades inglesas. Para sufoc\u00e1-la, os governantes precisaram enviar 35 mil homens armados \u00e0s \u00e1reas rebeladas. Na verdade, &#8220;a literatura de terror nasceu precisamente do\u00a0<em>terror de uma sociedade dividida <\/em>e do desejo de cur\u00e1-la&#8221;. Tanto o monstro como o vampiro, que vieram ser conhecidos como o\u00a0<em>Frankenstein <\/em>de Shelley e o\u00a0<em>Dr\u00e1cula <\/em>(de John Polidori), nasceram na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>Shelley n\u00e3o era uma revolucion\u00e1ria. O seu\u00a0<em>Frankenstein <\/em>queria ser uma advert\u00eancia \u00e0 classe dominante brit\u00e2nica sobre as consequ\u00eancias de manter uma sociedade dividida e sobre os riscos de uma vingan\u00e7a sangrenta. Ela retrata o seu monstro como um ser inteligente e com capacidades lingu\u00edsticas, o que destaca a sua humanidade e demarca-o radicalmente da classe dos zumbis \u2013 mortos-vivos sem pensamento, bons apenas para obedecer ordens e trabalhar. O seu Frankenstein pertence \u00e0 classe trabalhadora pois labora \u00e0 noite, de forma oculta, para proporcionar alimento e combust\u00edvel ao Dr. Lacey e sua fam\u00edlia. \u00c9 um trabalho invis\u00edvel, n\u00e3o reconhecido, oculto. Assim, enquanto a economia pol\u00edtica dominante na \u00e9poca enfatizava a magia do mercado, regulada pela famosa m\u00e3o invis\u00edvel de Adam Smith, Shelley p\u00f5e em primeiro plano os trabalhos invis\u00edveis que sustentam a vida econ\u00f3mica. Ela esbo\u00e7a o trabalho excedente, trabalho acima e al\u00e9m daquele exigido para a subsist\u00eancia pr\u00f3pria, atrav\u00e9s do qual a Criatura ajuda seus vizinhos. \u00c9 uma r\u00e9plica deliberada \u00e0 teoria econ\u00f3mica burguesa, uma par\u00f3dia \u00e0 met\u00e1fora de Smith.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/jf\/imagens\/the_anatomy_lesson.jpg?w=747\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p>A literatura e o cinema modernos est\u00e3o cheios de monstros, tais como vampiros, lobisomens, zumbis, etc. No entanto, estes personagens s\u00e3o p\u00e1lidos substitutos dos verdadeiros pois s\u00e3o formatados, distorcidos e sujeitos aos c\u00f3digos da ind\u00fastria cultural. Trata-se, como diz o autor de &#8220;bestas domesticadas, seres derivados do inconsciente colectivo a fim de produzir personagens inofensivos para consumo em massa&#8221;. Contudo, acrescenta, &#8220;s\u00f3 fitando horrores frontalmente e insistindo no seu car\u00e1cter sist\u00e9mico, n\u00e3o acidental, \u00e9 que a teoria suporta compromissos radicais. Eis porque no\u00a0<em>Capital <\/em>de Marx abundam descri\u00e7\u00f5es pormenorizadas dos ultrajes monstruosos do capital: f\u00e1bricas nas quais Dante teria considerado ultrapassados os piores horrores no seu Inferno; o implac\u00e1vel tr\u00e1fico de carne humana; a transforma\u00e7\u00e3o do sangue de crian\u00e7as em capital; a mutila\u00e7\u00e3o do corpo e da mente dos trabalhadores; a extirpa\u00e7\u00e3o, escraviza\u00e7\u00e3o e sepultamento em minas das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas; a convers\u00e3o da \u00c1frica numa reserva para a ca\u00e7a de peles negras; o vampiro que n\u00e3o ir\u00e1 embora enquanto permanecer um \u00fanico m\u00fasculo, tend\u00e3o ou gota de sangue a ser explorado. Nomear estes horrores \u00e9 tamb\u00e9m efectuar uma contra-magia \u00e0 feiti\u00e7aria do capital. Pois os grandes poderes de ilus\u00e3o do capital jazem no modo como torna invis\u00edvel sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o monstruosa&#8221;.<\/p>\n<p>No discurso europeu, o fetiche emergiu como um meio de marcar os africanos como primitivos que supersticiosamente atribuem poderes divinos a coisas brutas. Mas, como recorda McNally, &#8220;num acto poderosamente ir\u00f3nico de invers\u00e3o, o jovem Marx inverteu a acusa\u00e7\u00e3o de devo\u00e7\u00e3o ao fetiche sobre a classe dominante europeia, declarando que era ela que se curvava perante objectos: como o ouro, no caso dos colonizadores espanh\u00f3is das Am\u00e9ricas&#8221;. E na sua mania da pilhagem de coisas como ouro e prata, o seu fetichismo ganhou propor\u00e7\u00f5es assassinas, transformando-se numa &#8220;religi\u00e3o do desejo n\u00e3o sensual&#8221;. Nos dias de hoje este fetichismo tornou-se hiper-fetichismo como no caso do capital fict\u00edcio. Uma ac\u00e7\u00e3o \u00e9 um peda\u00e7o de papel que confere ao seu possuidor uma min\u00fascula parte dos lucros futuros de uma companhia \u2013\u00a0<em>se <\/em>se materializarem. E com o actual paroxismo de financiariza\u00e7\u00e3o, os derivativos, erigiu-se toda uma estrutura de hiper-fetichismo que cresce de modo exponencial. As pessoas acreditam freneticamente nas propriedades m\u00e1gicas destes peda\u00e7os de papel (ou dos seus equivalentes electr\u00f3nicos) que se tornariam cada vez mais valiosos. Isto d\u00e1 origem, tamb\u00e9m, \u00e0s teoriza\u00e7\u00f5es de uma (suposta) economia p\u00f3s-moderna na qual j\u00e1 n\u00e3o se aplicam as distin\u00e7\u00f5es entre o real e o fict\u00edcio. Tais teorizadores e os que neles acreditam por vezes arrebentam, como se v\u00ea nos instrutivos colapsos da Enron em Dezembro de 2001 (a 7\u00aa maior companhia dos EUA) e do banco de investimento Salomon Brothers no fim de 2008. Por muita fraude que tenha havido (e houve) tais desastres radicam numa patologia sist\u00e9mica e n\u00e3o na corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Vampiros africanos na era da globaliza\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>&#8220;De v\u00e1rias partes da \u00c1frica sub-saariana chegam hoje inquietantes contos de vampiros e zumbis e do extraordin\u00e1rio interc\u00e2mbio entre os vivos e os mortos. Toda uma enorme quantidade de lendas populares, cultura oral que se propaga, v\u00eddeos e fic\u00e7\u00e3o barata descreve processos de acumula\u00e7\u00e3o m\u00e1gica que atravessam o mundo do oculto. Na Nig\u00e9ria, jornais cont\u00eam relatos de passageiros de taxis-motocicletas os quais, depois de porem os capacetes nas cabe\u00e7as, transformam-se em zumbis e come\u00e7am a cuspir dinheiro das suas bocas, como se se tornassem m\u00e1quinas multibanco humanas. Nos Camar\u00f5es, abundam rumores de trabalhadores-zumbis a labutar em planta\u00e7\u00f5es invis\u00edveis numa obscura economia nocturna. Est\u00f3rias semelhantes v\u00eam da \u00c1frica do Sul e da Tanz\u00e2nia, incluindo contos de zumbis em tempo parcial, capturados durante as suas horas de sono, s\u00f3 para acordarem exaustos ap\u00f3s a sua explora\u00e7\u00e3o nocturna. Enquanto o trabalho \u00e9 visto como possu\u00eddo, dizem que o dinheiro \u00e9 encantado. Autoridades congolesas, por exemplo, falam de d\u00f3lares &#8220;ferozes&#8221;, segregados dentro dos lares dos seus possuidores, cujo crescimento s\u00fabito e descontrolado esmaga seu enredado propriet\u00e1rio. Mercadorias tamb\u00e9m partilham estes poderes bizarros de expans\u00e3o; no Sudoeste do Congo, por exemplo, florescem contos de pessoas possu\u00eddas e devoradas por diamantes&#8221;, conta o autor, acrescentando muitas outras est\u00f3rias.<\/p>\n<p>Na verdade, estas f\u00e1bulas m\u00edticas reflectem algo mais. Elas emanam de um sentimento popular profundo, reac\u00e7\u00e3o a uma realidade que n\u00e3o lhe \u00e9 compreens\u00edvel. Elas s\u00e3o mais do que simples lendas da cultura popular, correspondem \u00e0 realidade de uma explora\u00e7\u00e3o cujos mecanismos e l\u00f3gicas n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis (ex.: como puderam surgir novos-ricos sem trabalho vis\u00edvel, qual a legitimidade dessa riqueza?). Os temores, ansiedades e valores que exprimem permeiam as vidas di\u00e1rias do povo, definindo tanto a posi\u00e7\u00e3o social quanto as possibilidades (restritas) de ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Trata-se de est\u00f3rias acerca da viol\u00eancia da desigualdade e da polariza\u00e7\u00e3o social. A penetra\u00e7\u00e3o devastadora do capitalismo em \u00c1frica, com monetariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, a corrup\u00e7\u00e3o das elites, as consequ\u00eancias selvagens dos programas de ajustamento estrutural, a pandemia da SIDA destr\u00f3i o modo de vida tradicional africano. Mas em meio a estes contos populares de horror encontram-se imagens recorrentes da acumula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do desmembramento corporal e da desencarna\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as marcas da incorpora\u00e7\u00e3o no mundo do capitalismo reflectidas na superestrutura mental.<\/p>\n<p>Uma das imagens da monstruosidade do mercado \u2013 o zumbi \u2013 \u00e9 um produto da experi\u00eancia africana que foi reprocessado, primeiro no Haiti, a seguir descoberto e adaptado por Hollywood para ser finalmente transformado outra vez nos recentes contos populares africanos. Na figura do trabalhador-zumbi encontram-se tra\u00e7os do circuito global do capital. Os actuais contos de zumbis s\u00e3o portanto\u00a0<em>f\u00e1bulas da modernidade, <\/em>n\u00e3o podem ser tratadas como &#8220;tradicionais&#8221; ou &#8220;pr\u00e9-modernos&#8221; como pretende o preconceito colonialista de que os africanos seriam pr\u00e9-hist\u00f3ricos, gente fora da hist\u00f3ria. Tais preconceitos t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de justificar um apartheid global.<\/p>\n<p>A economia capitalista mundial \u00e9 opaca, mesmo nos pa\u00edses desenvolvidos do Ocidente poucos a entendem. Mas na cultura tradicional africana a concep\u00e7\u00e3o de riqueza \u00e9 um jogo de soma zero: se um alde\u00e3o tem 10 galinhas e o vizinho tem 20, este tem dobro de &#8220;riqueza&#8221;. Por isso, a moderna economia globalizada \u2013 que na \u00c1frica tem um car\u00e1cter sobretudo extractivista \u2013 \u00e9 um mist\u00e9rio incompreens\u00edvel dentro do quadro mental tradicional. Assim, as lendas com zumbis e vampiros s\u00e3o um ensaio de &#8220;explica\u00e7\u00e3o&#8221; de algo n\u00e3o apreens\u00edvel. A riqueza dos novos-ricos n\u00e3o pode ser explicada pelo simples roubo dos seus vizinhos porque nem mesmo toda a riqueza da aldeia chegaria para atingir os n\u00edveis que ostentam.<\/p>\n<p>A moderna literatura africana reflecte os limites estabelecidos pelo imagin\u00e1rio africano tradicional e as novas realidades impostas pela globaliza\u00e7\u00e3o, com rela\u00e7\u00f5es impessoais e mediadas pelo dinheiro. O autor cita a historiadora\u00a0<a href=\"http:\/\/history.ufl.edu\/directory\/current-faculty\/luise-white\/\" target=\"_blank\">Luise White<\/a> , a qual afirma que &#8220;os vampiros emergiram no imagin\u00e1rio africano s\u00f3 no s\u00e9culo XX, quando a crescente penetra\u00e7\u00e3o de imperativos capitalistas provocou novos modos de compreender e retratar os perigos da vida di\u00e1ria&#8221;. Na verdade, argumenta ela, &#8220;as est\u00f3rias de vampiros envolveram esfor\u00e7os complexos para penetrar os mist\u00e9rios dos processos de trabalho capitalistas&#8221;.<\/p>\n<p>No ano 2000, recorda o autor, a \u00c1frica sub-saariana estava a enviar US$337 milh\u00f5es por dia para o Ocidente a t\u00edtulo de reembolso de d\u00edvida. Trata-se da sua sujei\u00e7\u00e3o a uma recoloniza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica promovida pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. Assim, n\u00e3o \u00e9 de admirar que o folclore e a cultura de massa imaginem as corpora\u00e7\u00f5es globais como sugadoras do sangue do subcontinente.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o McNally afirma: &#8220;A sociedade de mercado capitalista abunda em monstros. Mas nenhuma destas esp\u00e9cies grotescas domina tanto a imagina\u00e7\u00e3o moderna como o vampiro e o zumbi. De facto, estas duas criaturas precisam ser pensadas em conjunto, pois interconectam momentos da dial\u00e9ctica monstruosa da modernidade. Tal como Victor Frankenstein e seu Criador, o vampiro e o zumbi s\u00e3o d\u00faplices, p\u00f3los ligados da sociedade dividida. Se os vampiros s\u00e3o os pavorosos seres que podem possuir-nos e transformar-nos em seus d\u00f3ceis servos, os zumbis representam a nossa auto-imagem assombrada, advertindo-nos que podemos j\u00e1 estar sem vida, como agentes impotentes de poderes alheios&#8221;.<\/p>\n<p>O autor de\u00a0<em>Monsters of the Market, <\/em>um professor americano que conhece bem a Nig\u00e9ria, tem uma erudi\u00e7\u00e3o prodigiosa tanto da literatura, da hist\u00f3ria e da sociologia ocidentais como da cultura tradicional africana. Ele fez a fa\u00e7anha not\u00e1vel de conseguir combinar tudo isso nesta obra, a qual cont\u00e9m percep\u00e7\u00f5es extremamente agudas das realidades africanas assim como da nossa pr\u00f3pria realidade ocidental. Este livro ensina, e muito. \u00c9 preciso que seja publicado em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo Um:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; A dissecar o corpo que faz o trabalho \u00e1rduo:\u00a0<em>Frankenstein, <\/em>anatomia pol\u00edtica e a ascens\u00e3o do capitalismo<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; &#8220;Salve meu corpo dos cirurgi\u00f5es&#8221;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; A cultura da disseca\u00e7\u00e3o: anatomia, coloniza\u00e7\u00e3o e ordem social<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Anatomia pol\u00edtica, trabalho assalariado e destrui\u00e7\u00e3o dos baldios\u00a0<em>(commons) <\/em>ingleses<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Anatomia da economia cad\u00e1ver<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Monstros da rebeli\u00e3o<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Jacobinos, irlandeses e luditas: Monstros rebeldes na era do\u00a0<em>Frankenstein <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Os direitos dos monstros: horror e sociedade dividida<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo Dois:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Monstros de Marx: O capital-vampiro e o mundo de pesadelo do capitalismo tardio<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Dial\u00e9ctica e a vida dupla da mercadoria<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; O espectro do valor e o fetichismo das mercadorias<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; &#8220;Como se possu\u00eddo pelo amor&#8221;: o capital vampiro e o corpo que labuta<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Trabalho-zumbi e os &#8221; ultrajes monstruosos &#8221; do capital<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Dinheiro: segunda natureza do capitalismo<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Capital que &#8220;nasce de si pr\u00f3prio&#8221; e a alquimia do dinheiro<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Dinheiro selvagem: as economias ocultas da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista tardia<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Enron: estudo de caso na economia oculta do capitalismo tardio<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; &#8220;O capital vem ao mundo a gotejar sangue por todos os seus poros&#8221;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo Tr\u00eas:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Vampiros africanos na era da globaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Parentesco e acumula\u00e7\u00e3o: da velha feiti\u00e7aria para a nova<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Zumbis, vampiros e espectros do capital: as novas economias ocultas do capitalismo globalizante<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Fetiches africanos e o fetichismo das mercadorias<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; O morto-vivo: trabalhadores-zumbis na era da globaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Capitalismo vampiro na \u00c1frica Sub-Saariana<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Acumula\u00e7\u00e3o encantada, estradas da fome e os infind\u00e1veis condenados da Terra<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Conclus\u00e3o: Beleza feia: Sonhos monstruosos de utopia<\/p>\n<p>[1] <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/David_McNally_(professor)\" target=\"_blank\">David McNally<\/a><strong> , <\/strong><a href=\"http:\/\/www.haymarketbooks.org\/pb\/Monsters-of-the-Market\" target=\"_blank\"><em>Monsters of the Market \u2013 Zombies, Vampires and Global Capitalism<\/em><\/a><strong> , Haymarket Books, Chicago, 2012, 296 p., ISBN 978-1-60846-233-9<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta resenha encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor Jorge Figueiredo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5256\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5256","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1mM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5256"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5256\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}