{"id":5281,"date":"2013-08-25T22:14:55","date_gmt":"2013-08-25T22:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5281"},"modified":"2017-08-25T00:59:17","modified_gmt":"2017-08-25T03:59:17","slug":"o-que-nao-se-diz-sobre-os-medicos-cubanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5281","title":{"rendered":"O QUE N\u00c3O SE DIZ SOBRE OS M\u00c9DICOS CUBANOS"},"content":{"rendered":"\n<p>247 &#8211; Profundo conhecedor da realidade de Cuba e membro do n\u00facleo de estudos cubanos da Universidade de Bras\u00edlia, o jornalista H\u00e9lio Doyle produziu diversas an\u00e1lises t\u00e9cnicas, e sem ran\u00e7o ideol\u00f3gico, sobre a importa\u00e7\u00e3o de 4 mil profissionais pelo governo brasileiro.<\/p>\n<p>Os textos foram cedidos ao 247 e permitem uma maior compreens\u00e3o sobre um tema que tem gerado tanto debate. Leia abaixo seus artigos:<\/p>\n<p>O QUE N\u00c3O SE DIZ SOBRE OS M\u00c9DICOS CUBANOS<\/p>\n<p>A grande imprensa brasileira, que nos \u00faltimos anos exacerbou, por incompet\u00eancia e ideologia, a superficialidade que sempre a caracterizou, tem sido coerente ao tratar da vinda de quatro mil m\u00e9dicos cubanos: limita-se a noticiar o fato e reproduzir as cr\u00edticas das associa\u00e7\u00f5es corporativas de m\u00e9dicos e dos pol\u00edticos oposicionistas. Mant\u00e9m-se fiel \u00e0 superficialidade que \u00e9 sua marca, acrescida de forte conte\u00fado ideol\u00f3gico conservador e de direita.<\/p>\n<p>N\u00e3o conta, por exemplo, que m\u00e9dicos cubanos j\u00e1 trabalharam no Brasil, atendendo a comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amap\u00e1. N\u00e3o houve nenhuma reclama\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 qualidade desse atendimento e nenhum problema com o conhecimento restrito da l\u00edngua portuguesa. Os m\u00e9dicos cubanos tiveram de deixar o Brasil por press\u00e3o do corporativismo m\u00e9dico brasileiro \u2013 liderado por doutores que gostam de trabalhar em cl\u00ednicas privadas e nas grandes cidades.<\/p>\n<p>A grande imprensa n\u00e3o conta tamb\u00e9m que h\u00e1 mais de 30 mil m\u00e9dicos cubanos trabalhando em 69 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1frica, da \u00c1sia e da Oceania, lidando com pessoas que falam ingl\u00eas, franc\u00eas, portugu\u00eas e dialetos locais. S\u00f3 no Haiti, onde a popula\u00e7\u00e3o fala franc\u00eas e o dialeto creole, h\u00e1 1.200 m\u00e9dicos cubanos \u2013 que sustentam o sistema de sa\u00fade daquele pa\u00eds e, como profissionais com alto n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o formal, aprendem rapidamente l\u00ednguas estrangeiras.<\/p>\n<p>O professor John Kirk, da Universidade Dalhousie, no Canad\u00e1, estudou a participa\u00e7\u00e3o de equipes de sa\u00fade de Cuba em v\u00e1rios pa\u00edses e \u00e9 dele a frase seguinte: \u201cA contribui\u00e7\u00e3o de Cuba, como ocorre agora no Haiti, \u00e9 o maior segredo do mundo. Eles s\u00e3o pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado\u201d. Segredo porque a imprensa internacional \u2013 especialmente a estadunidense \u2014 n\u00e3o gosta de falar do assunto.<\/p>\n<p>Kirk contesta o argumento de que os m\u00e9dicos cubanos que atendem as comunidades pobres em v\u00e1rios pa\u00edses n\u00e3o s\u00e3o eficientes por n\u00e3o dominar as \u00faltimas tecnologias m\u00e9dicas: \u201cA abordagem high-tech para as necessidades de sa\u00fade em Londres e Toronto \u00e9 irrelevante para milh\u00f5es de pessoas no Terceiro Mundo que est\u00e3o vivendo na pobreza. \u00c9 f\u00e1cil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se voc\u00ea est\u00e1 vivendo em algum lugar sem m\u00e9dicos, ficaria feliz quando chegasse algum\u201d.<\/p>\n<p>O problema dos que contestam a vinda de m\u00e9dicos estrangeiros e, em especial dos cubanos, \u00e9 que as pessoas que passam anos ou toda a vida sem ver um m\u00e9dico ficar\u00e3o muito felizes quando receberem a aten\u00e7\u00e3o que os corporativistas do Brasil lhes negam e tentam impedir.<\/p>\n<p>SOCIALISMO E GUERRA FRIA<\/p>\n<p>Duas informa\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 vinda de m\u00e9dicos cubanos para o Brasil e que podem ser \u00fateis aos que querem ir al\u00e9m do que diz a grande imprensa:<\/p>\n<p>&#8211; Cuba \u00e9 um pa\u00eds socialista e por isso, gostemos ou n\u00e3o, as coisas n\u00e3o funcionam exatamente como em um pa\u00eds capitalista. Como \u00e9 um pa\u00eds socialista, h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o de manter baixos os \u00edndices de desigualdade econ\u00f4mica e social. Por isso nenhuma empresa ou governo estrangeiro contrata trabalhadores cubanos diretamente, em Cuba ou no exterior (nesse caso quando a contrata\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de um acordo entre estados). Todos s\u00e3o contratados por empresas estatais que recebem do contratante estrangeiro e pagam os sal\u00e1rios aos trabalhadores, sem grande discrep\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao que recebem os que trabalham em empresas ou organismos cubanos. Os m\u00e9dicos que trabalham no exterior recebem mais do que os que trabalham em Cuba. Mas algo como nem muito que seja um desincentivo aos que ficam, nem t\u00e3o pouco que n\u00e3o incentive os que saem.<\/p>\n<p>&#8211; O governo dos Estados Unidos tem um programa especial para atrair m\u00e9dicos cubanos que trabalham no exterior. Eles s\u00e3o procurados por funcion\u00e1rios estadunidenses e lhes s\u00e3o oferecidas in\u00fameras vantagens para \u201cdesertar\u201d, como visto de entrada, passagem gratuita, permiss\u00e3o de trabalho e dispensa de formalidades para exercer a atividade. Os que atuam na Am\u00e9rica Latina s\u00e3o os mais procurados e uma condi\u00e7\u00e3o para serem aceitos no programa \u00e9 que critiquem o sistema pol\u00edtico cubano e digam que os m\u00e9dicos no exterior s\u00e3o oprimidos e mantidos quase como escravos. Os que aceitam as ofertas dos Estados Unidos, os que emigram para outros pa\u00edses ou ficam no pa\u00eds que os recebe depois de terminado o contrato representam cerca de 3% dos efetivos. \u00a0No Brasil, mantida essa m\u00e9dia, pode-se esperar que at\u00e9 120 dos quatro mil m\u00e9dicos cubanos \u201cdesertem\u201d.<\/p>\n<p>UM SISTEMA IRREAL<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o a seguir \u00e9 do New England Journal of Medicine: \u201cO sistema de sa\u00fade cubano parece irreal. H\u00e1 muitos m\u00e9dicos. Todo mundo tem um m\u00e9dico de fam\u00edlia. Tudo \u00e9 gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba disp\u00f5e de recursos limitados, seu sistema de sa\u00fade resolveu problemas que o nosso [dos EUA] n\u00e3o conseguiu resolver ainda. Cuba disp\u00f5e agora do dobro de m\u00e9dicos por habitante do que os EUA\u201d.<\/p>\n<p>Men\u00e7\u00f5es elogiosas ao sistema de sa\u00fade cubano e a seus profissionais s\u00e3o frequentes em publica\u00e7\u00f5es especializadas e ditas por autoridades m\u00e9dicas e organiza\u00e7\u00f5es internacionais, como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, a Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade e o Unicef. Mas mesmo assim, querendo negar a realidade, m\u00e9dicos e pol\u00edticos brasileiros insistem em negar o \u00f3bvio, chegando ao absurdo de dizer que nossa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 correndo riscos ao ser atendida pelos cubanos.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, os indicadores de sa\u00fade em Cuba s\u00e3o os melhores da Am\u00e9rica Latina e est\u00e3o \u00e0 frente dos de muitos pa\u00edses desenvolvidos. A mortalidade infantil, por exemplo (4,8 por mil), \u00e9 menor do que a dos Estados Unidos. Ali\u00e1s, para os que gostam de dizer que Cuba estava melhor antes da revolu\u00e7\u00e3o de 1959, naquela \u00e9poca era de 60 por mil. A expectativa de vida dos cubanos \u00e9 tamb\u00e9m elevada: 78,8 anos.<\/p>\n<p>Outro ali\u00e1s quanto aos saudosistas: em 1959, Cuba tinha seis mil m\u00e9dicos, sendo que tr\u00eas mil correram para os Estados Unidos quando viram que n\u00e3o haveria mais lugar para o sistema privado de sa\u00fade e que os doutores elitistas e da elite perderiam seus privil\u00e9gios. Hoje tem 78 mil m\u00e9dicos, um para cada 150 habitantes, uma das melhores m\u00e9dias do mundo. Isso permite a Cuba manter mais de 30 mil m\u00e9dicos no exterior. Desde 1962, m\u00e9dicos cubanos j\u00e1 estiveram trabalhando em 102 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em 2012 formaram-se em Cuba 5.315 m\u00e9dicos cubanos em 25 faculdades p\u00fablicas e 5.694 estrangeiros, que estudam de gra\u00e7a na Escola Latino-americana de Medicina (Elam). A Elam recebe estudantes de 116 pa\u00edses, inclusive dos Estados Unidos, e j\u00e1 formou 24 mil estrangeiros.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos cubanos se formam ap\u00f3s seis anos de gradua\u00e7\u00e3o, incluindo um de internato, e mais tr\u00eas ou quatro anos de especializa\u00e7\u00e3o. Os generalistas, que atendem no sistema M\u00e9dico da Fam\u00edlia (um m\u00e9dico e um enfermeiro para 150 a 200 fam\u00edlias, e que moram na comunidade que atendem) s\u00e3o preparados para atuar em cl\u00ednica geral, pediatria, ginecologia-obstetr\u00edcia e fazer pequenas cirurgias.<\/p>\n<p>Dos quatro mil m\u00e9dicos que v\u00eam para o Brasil, todos t\u00eam especializa\u00e7\u00e3o em medicina de fam\u00edlia, 42% j\u00e1 trabalharam em pelo menos dois pa\u00edses e 84% t\u00eam mais de 16 anos de atividade. Grande parte j\u00e1 atuou em pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa, na \u00c1frica e em Timor-Leste. Foi em Timor, a prop\u00f3sito, que ocorreu o fato seguinte: o embaixador estadunidense exigiu do ent\u00e3o presidente Xanana Gusm\u00e3o que expulsasse os m\u00e9dicos cubanos. Xanana perguntou quantos m\u00e9dicos dos Estados Unidos havia no Timor-Leste e quantos o pa\u00eds mandaria para substituir os mais de duzentos cubanos que estavam l\u00e1. Diante da resposta, de que havia apenas um, que atendia os diplomatas norte-americanos, e que n\u00e3o viria mais nenhum, Xanana, simplesmente, disse que os cubanos ficariam. E est\u00e3o l\u00e1 at\u00e9 hoje. Falando portugu\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"24 de Agosto de 2013 \u2013 Brasil 247\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5281\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-5281","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1nb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5281\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}