{"id":5383,"date":"2013-09-09T12:45:47","date_gmt":"2013-09-09T12:45:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5383"},"modified":"2017-09-08T18:22:08","modified_gmt":"2017-09-08T21:22:08","slug":"mulheres-do-pkk-libertar-nos-como-mulheres-para-libertar-a-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5383","title":{"rendered":"MULHERES DO PKK: \u201cLibertar-nos como mulheres para libertar a sociedade\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Rengin-.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>POR LEANDRO ALBANI para Resumen Latinoamericano, do Curdist\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nem v\u00edtimas e nem na segunda linha, mas sim guerrilheiras e em permanente liberta\u00e7\u00e3o. Assim s\u00e3o as mulheres que integram a guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK). Isto pode ser comprovado ap\u00f3s percorrer os v\u00e1rios acampamentos da insurg\u00eancia nas montanhas de Kandil, ao norte do Iraque. Uma das primeiras surpresas \u00e9 observar que a quantidade de comandantes mulheres quase supera em n\u00famero a dos comandantes homens. N\u00e3o \u00e9 um capricho. No PKK e nas organiza\u00e7\u00f5es que dependem do partido, todos os postos de dire\u00e7\u00e3o s\u00e3o compartilhados atrav\u00e9s de copresid\u00eancias.<\/p>\n<p>Distribuir as responsabilidades e os trabalhos nos acampamentos n\u00e3o parece algo imposto ou r\u00edgido. Simplesmente na cozinha ou na hora de lavar pratos e copos, homens e mulheres se re\u00fanem e o fazem. Algo que n\u00e3o difere quando chega o momento de deslocarem-se \u00e0 frente de batalha e combater, como agora acontece no norte da S\u00edria, regi\u00e3o assediada por mercen\u00e1rios e membros da Frente Al Nusra, filial local do Al Qaeda.<\/p>\n<p>Rengin Botan, com apenas 37 anos, \u00e9 parte do Conselho do Comando Geral da Uni\u00e3o de Autodefesas do Povo (UAP), organiza\u00e7\u00e3o que agrupa guerrilheiros e guerrilheiras. Antes de falarmos com Rengin, a comandante Berit\u00e1n comenta que essa mulher magra, que sorri sempre e que transmite uma fragilidade coberta de ternura, \u00e9 uma das comandantes mais respeitadas da insurg\u00eancia. O mesmo diz Mehmet Al\u00ed Dogan, antrop\u00f3logo que me acompanha. \u201cQuando ela d\u00e1 uma ordem, homens e mulheres obedecem prontamente. Ela sempre est\u00e1 na linha de frente, nunca na retaguarda\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA sociedade curda n\u00e3o est\u00e1 desenvolvida, existem muitas tradi\u00e7\u00f5es arcaicas. A estrutura feudal \u00e9 dominante e n\u00e3o permite \u00e0s mulheres libertarem-se. Nestas tradi\u00e7\u00f5es, a mulher da casa \u00e9 o orgulho da fam\u00edlia, por\u00e9m esse orgulho passa entre suas pernas. O homem, que tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima do sistema colonial, em lugar de tomar uma posi\u00e7\u00e3o de rebeldia contra o sistema, mata sua mulher para descarregar sua raiva\u201d, resume, sem meias palavras, a comandante Rengin.<\/p>\n<p>Nas conversas, guerrilheiras e guerrilheiros concordam que as mulheres do Oriente M\u00e9dio sofrem mais com a repress\u00e3o patriarcal imposta pelo sistema, \u00e0 qual soma-se a influ\u00eancia do Isl\u00e3 mais reacion\u00e1rio, que se complementa com o capitalismo. Por isso, dentro da insurg\u00eancia classifica\u00e7\u00f5es como esposa, m\u00e3e ou irm\u00e3 n\u00e3o s\u00e3o utilizadas. Preferem o simples \u201ccamarada\u201d. Dessa maneira, buscam varrer as condi\u00e7\u00f5es impostas pela \u201cmodernidade capitalista\u201d, segundo define a guerrilha.<\/p>\n<p>Harun, comandante do PKK, sintetiza desta forma: \u201cNo Oriente M\u00e9dio existe um prov\u00e9rbio que diz que a mulher tem nome, por\u00e9m n\u00e3o existe. Nas sociedades origin\u00e1rias, de onde viemos, n\u00e3o havia Estado-Na\u00e7\u00e3o e a mulher participava naturalmente da sociedade. A mulher que participa em nossa luta insurgente prova que existe e como ser humano, sem falar de igualdade, \u00e9 um ator ativo como todos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Contra o sexismo<\/strong><\/p>\n<p>No livro \u201cConfederalismo democr\u00e1tico\u201d, o dirigente m\u00e1ximo do PKK, Abdullah Ocalan, aponta que um dos pilares do Estado-Na\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u201csexismo\u201d. Neste texto, analisa que as mulheres s\u00e3o exploradas e utilizadas como reserva de for\u00e7a de trabalho barata. Por sua vez, tanto Ocalan como os guerrilheiros e as guerrilheiras consultados, destacam que a liberta\u00e7\u00e3o da mulher n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada uma vez conquistada a revolu\u00e7\u00e3o. No PKK sabem que essa liberta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 conquistada no furor da luta cotidiana, com fuzis nas m\u00e3os, forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e com a convic\u00e7\u00e3o de uma sociedade\u00a0mais justa.<\/p>\n<p>\u201cCada mulher tem suas raz\u00f5es para participar na luta, por\u00e9m quando nos reunimos nos transformamos em uma s\u00f3 mulher\u201d, comenta Rengin. \u201cPodemos ver a liberta\u00e7\u00e3o de uma sociedade segundo o n\u00edvel de liberta\u00e7\u00e3o da mulher. Esta filosofia \u00e9 nosso princ\u00edpio: temos que nos libertar como mulheres para libertar a sociedade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Caminho da liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCada participa\u00e7\u00e3o das mulheres na guerrilha \u00e9 uma express\u00e3o que demonstra que existimos e que buscamos nos libertar. Uma mulher guerrilheira est\u00e1 na montanha porque se sente totalmente livre e porque vive uma ruptura com sua hist\u00f3ria\u201d, assegura Rengin Botan.<\/p>\n<p>Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, dentro do PKK a quest\u00e3o da mulher tomou um impulso que segue em desenvolvimento. Muitos dos combatentes assinalam que a postura de Ocalan de respaldo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina foi desestabilizadora para come\u00e7ar a acabar com o machismo das fileiras revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edtica ao machismo<\/strong><\/p>\n<p>O comandante Harum explica que sempre \u201cfazemos uma cr\u00edtica radical ao machismo. Onde quer que o homem esteja, seja numa empresa ou numa fam\u00edlia, tem o poder e domina\u00e7\u00e3o total. A luta do PKK \u00e9 para transformar o homem machista num homem normal. A mulher n\u00e3o pode ter um lugar na sociedade sem a transforma\u00e7\u00e3o do homem machista\u201d.<\/p>\n<p>Quando foi criada a insurg\u00eancia, recorda a comandante Rengin, \u201ca atitude dos companheiros homens era que a mulher apenas podia lutar nos espa\u00e7os democr\u00e1ticos e legais, ou fazer a comida, por\u00e9m n\u00e3o podia entrar na guerrilha. Apesar deste obst\u00e1culo, ingressamos na guerrilha e participamos nas frentes de combate. Nesse momento n\u00e3o era f\u00e1cil, t\u00ednhamos que demonstrar que pod\u00edamos resistir fisicamente, comandar um grupo e fazer a\u00e7\u00f5es. Quando viram que as mulheres podiam fazer tudo, come\u00e7aram a aceit\u00e1-las. Temos muitas comandantes hero\u00ednas que se sacrificaram por uma maioria de companheiros homens. Agora, gra\u00e7as a nossa pr\u00e1tica, o PKK aceita o fato de que, nas \u00e1reas de guerra, uma mulher comete menos erros que um homem. O homem, porque vem de uma hist\u00f3ria machista, \u00e0s vezes se sente mais forte e seguro, por\u00e9m a mulher \u00e9 mais atenta e analisa ponto por ponto\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os espa\u00e7os da mulher<\/strong><\/p>\n<p>No PKK as estruturas organizativas t\u00eam espa\u00e7os particulares para as mulheres. Das 15 escolas de forma\u00e7\u00e3o, 4 s\u00e3o exclusivas para mulheres, onde discutem e analisam suas problem\u00e1ticas. Tamb\u00e9m existem acampamentos e unidades guerrilheiras formadas por mulheres.<\/p>\n<p>Em 1993, se formou a primeira unidade guerrilheira de mulheres, que teve o total apoio de Ocalan. \u201cCriamos esta forma\u00e7\u00e3o porque quer\u00edamos sair completamente da dire\u00e7\u00e3o do homem\u201d, explica Rengin Botan. \u201cA mulher tem argumentos e raz\u00f5es particulares que o homem n\u00e3o pode dar respostas. O nascimento desta unidade permitia uma vida social mais equilibrada e exemplar, e para n\u00f3s foi uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSomos uma organiza\u00e7\u00e3o onde as mulheres t\u00eam suas pr\u00f3prias estruturas\u201d, assinala Harun. \u201cIsto permite \u00e0 mulher existir e participar. Quando n\u00f3s criamos o partido talvez n\u00e3o existissem essas defini\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, por\u00e9m a maneira de lutar nos permitiu chegar a estas resolu\u00e7\u00f5es. Muitas mulheres que s\u00e3o l\u00edderes marcaram o partido. Na guerrilha existe forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar, e grupos guerrilheiros para homens e mulheres. Quando os ocidentais escutam isto pensam que \u00e9 algo arcaico, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 no sentido tradicional, mas porque as mulheres e os homens necessitam falar de suas particularidades e ter seus espa\u00e7os. Homens e mulheres est\u00e3o juntos em cada espa\u00e7o de luta. Temos um partido de mulheres, colunas de mulheres, e outras formas de organiza\u00e7\u00f5es. As mulheres se organizam a n\u00edvel regional, nacional e confederal. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o de Comunidades do Curdist\u00e3o (UCK), as mulheres obtiveram 63% dos votos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm geral estamos juntos e quando uma regi\u00e3o necessita uma unidade decidimos quantos homens e mulheres v\u00e3o. Tamb\u00e9m existem brigadas de mulheres que est\u00e3o combatendo na Turquia. Se decide segundo as necessidades e a regi\u00e3o. Em cada comiss\u00e3o estamos juntos, por\u00e9m nas unidades guerrilheiras podemos estar separados, existem acampamentos de mulheres e homens, por\u00e9m quando vamos \u00e0 frente de combate nos misturamos\u201d, finaliza Rengin Botan.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/?p=214\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/?p=214<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nPOR LEANDRO ALBANI para Resumen Latinoamericano, do Curdist\u00e3o\nNem v\u00edtimas e nem na segunda linha, mas sim guerrilheiras e em permanente liberta\u00e7\u00e3o. Assim s\u00e3o as mulheres que integram a guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK). Isto pode ser comprovado ap\u00f3s percorrer os v\u00e1rios acampamentos da insurg\u00eancia nas montanhas de Kandil, ao norte do Iraque. Uma das primeiras surpresas \u00e9 observar que a quantidade de comandantes mulheres quase supera em n\u00famero a dos comandantes homens. N\u00e3o \u00e9 um capricho. 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