{"id":5387,"date":"2013-09-09T22:43:42","date_gmt":"2013-09-09T22:43:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5387"},"modified":"2013-09-09T22:43:42","modified_gmt":"2013-09-09T22:43:42","slug":"dez-mil-mortes-em-dez-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5387","title":{"rendered":"Dez mil mortes em dez anos"},"content":{"rendered":"\n<p>A\u00a0<strong>OAB\/RJ<\/strong> lan\u00e7ou no dia 27 deste m\u00eas a campanha \u201cDesaparecidos da Democracia\u201d, em que divulga o resultado da pesquisa comandada pelo soci\u00f3logo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/504509-o-solo-das-milicias-e-a-generalizada-corrupcao-na-policia-fluminense-entrevista-especial-com-michel-misse\" target=\"_blank\"><strong>Michel Misse<\/strong><\/a>, da\u00a0<strong>UFRJ<\/strong>, cujos resultados mostram que mais de dez mil pessoas foram mortas sob suspeita de confronto com a pol\u00edcia fluminense entre os anos de 2001 e 2011. O objetivo da campanha \u00e9 pressionar o Estado a divulgar os dados sobre essas mortes para que seja formado um banco de dados com todas as informa\u00e7\u00f5es, desde o nome dos policiais envolvidos at\u00e9 depoimentos de parentes das v\u00edtimas. Esses dados ser\u00e3o analisados por uma equipe multidisciplinar para posteriormente criar propostas para definir os protocolos de a\u00e7\u00e3o policial, melhorar o sistema de Justi\u00e7a Criminal e, com isso, fortalecer a democracia.<\/p>\n<p>A reportagem foi publicada por\u00a0<strong>Carta Maior<\/strong>, 06-09-2013.<\/p>\n<p>Segundo\u00a0<strong>Michel Misse<\/strong>, a pol\u00edcia fluminense mata mais do que a de muitos pa\u00edses. Nos Estados Unidos, onde a pol\u00edcia \u00e9 conhecida pela trucul\u00eancia, s\u00e3o mortos anualmente em confronto uma m\u00e9dia de 300 pessoas para uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 314 milh\u00f5es (uma morte para cada 1.050.000 pessoas). J\u00e1 no Rio de Janeiro s\u00e3o mil mortes para 16 milh\u00f5es de habitantes (uma morte para cada 16.000 pessoas).\u00a0<strong>Misse<\/strong> afirma que nem mesmo em outros pa\u00edses latino-americanos com violento hist\u00f3rico de guerras civis e tr\u00e1fico de drogas, como Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, isso ocorre. Para o soci\u00f3logo, a falta de indigna\u00e7\u00e3o da sociedade frente a esse quadro causa tanta preocupa\u00e7\u00e3o quanto os pr\u00f3prios dados.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Superintendente Estadual de Igualdade Racial<\/strong>,\u00a0<strong>Marcelo Dias<\/strong>, disse que o resultado da pesquisa aponta para o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2373&amp;secao=284\" target=\"_blank\">racismo existente no Brasil<\/a>, j\u00e1 que a maior parte dos mortos em suspeita de confronto com a pol\u00edcia e os desaparecidos \u00e9 composta de negros, jovens e pobres. \u201cHoje como a\u00a0<strong>PM<\/strong> faz o que fez [contra os manifestantes] no Centro e na Zona Sul a sociedade se indigna, mas quando a\u00a0<strong>OAB<\/strong> vai para a Mar\u00e9 participar do protesto contra os 10 mortos durante uma opera\u00e7\u00e3o policial ela \u00e9 criticada. Essa \u00e9 uma sociedade racista\u201d, defende.<\/p>\n<p><strong>Mortes n\u00e3o investigadas<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da quantidade de mortos, outros dados resultantes da pesquisa s\u00e3o alarmantes. No ano de 2007 tivemos o maior pico de mortes decorrentes de confronto com a pol\u00edcia, contabilizando 1330 v\u00edtimas em todo o estado, e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/518101-numero-de-mortes-em-conflitos-por-terras-cresce-103-em-todo-o-pais-entre-2011-e-2012\" target=\"_blank\">902 apenas no munic\u00edpio do Rio de Janeiro<\/a>. Ap\u00f3s esse ano o n\u00famero de mortes cai, enquanto o n\u00famero de desaparecidos aumenta. At\u00e9 2007, segundo informa\u00e7\u00f5es repassadas pelo Estado, cerca de 60% dos desaparecidos retornavam a seus lares. Ap\u00f3s essa data o Estado muda a forma de operacionalizar esses dados, e n\u00e3o temos mais a porcentagem de retorno.<\/p>\n<p>Entre 2005 e 2007 foram instaurados 707 casos de auto de resist\u00eancia com autoria reconhecida, desses foram obtidos registros de 510, mas apenas 355 viraram inqu\u00e9ritos policiais. S\u00f3 19 foram encaminhados para a justi\u00e7a, 16 foram arquivados, tr\u00eas denunciados pelo\u00a0<strong>Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/strong>, dois pronunciados (den\u00fancia aceita pelo juiz) e apenas um foi julgado pelo j\u00fari, resultando em condena\u00e7\u00e3o. Sobre esse quadro,<strong> Misse<\/strong> diz que a maioria dos casos n\u00e3o \u00e9 investigada, que n\u00e3o h\u00e1 nem per\u00edcia, e afirma: \u201cN\u00e3o uso a palavra impunidade, isso seria um exagero. N\u00f3s n\u00e3o sabemos o que aconteceu. Os sistemas da Pol\u00edcia Civil, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual e dos tribunais n\u00e3o conversam entre si\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que mortes e desaparecimentos de suspeitos tomam espa\u00e7o nas p\u00e1ginas de jornais do Rio de Janeiro. Em 18 de novembro de 1884 o caso de\u00a0<strong>Castro Maltta<\/strong> causou um alvoro\u00e7o na imprensa da \u00e9poca. Foi publicado no<strong> Jornal do Commercio<\/strong> que Castro Malta, \u201cdesordeiro conhecido na<strong> Pra\u00e7a da Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d, havia sido preso por perturbar o sossego p\u00fablico. Seis dias depois o mesmo jornal publicava em sua sess\u00e3o de obitu\u00e1rios o sepultamento de um\u00a0<strong>Castro Mattos<\/strong>. A fam\u00edlia, preocupada com o desaparecimento de Maltta, procurou o jornal\u00a0<strong>O Paiz<\/strong>, com a suspeita de que o Castro Mattos que havia sido enterrado poderia ser seu parente. Come\u00e7ou ent\u00e3o uma s\u00e9rie de exuma\u00e7\u00f5es e diferentes vers\u00f5es \u2013 ora Malta era um capoeirista e desordeiro, ora Malta era um pacato trabalhador \u2013 publicadas nos jornais. Ao final nunca foi esclarecido de quem era o corpo enterrado e onde estava o corpo de Carlos Maltta. O caso at\u00e9 virou tema para um conto de\u00a0<strong>Alu\u00edsio Azevedo<\/strong>, publicado em seu folhetim\u00a0<strong>A Semana<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Marcelo Chalr\u00e9u<\/strong>, presidente da\u00a0<strong>Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB\/RJ<\/strong>, v\u00ea tamb\u00e9m uma semelhan\u00e7a entre o grande n\u00famero de mortes por auto de resist\u00eancia e de desaparecidos com o per\u00edodo da ditadura militar: \u201cH\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre o Estado ditatorial e a democracia repressora, s\u00f3 que agora sofisticaram o desaparecimento. Me causa esp\u00e9cie a n\u00e3o regulamenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje do crime de desaparecimento for\u00e7ado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Paulo Jorge Ribeiro<\/strong>, soci\u00f3logo da\u00a0<strong>PUC<\/strong> do Rio de Janeiro e um dos organizadores da pesquisa sobre mortos e desaparecidos, \u00e9 preciso recorrer \u00e0 psican\u00e1lise para entender o descaso da sociedade: \u201cSe um indiv\u00edduo n\u00e3o se responsabiliza por suas a\u00e7\u00f5es ele vira um c\u00ednico. E nossa sociedade, se responsabiliza?\u201d, pergunta. Para ele, nossa sociedade \u00e9 estruturalmente desigual e racista, onde alguns indiv\u00edduos s\u00e3o t\u00e3o invis\u00edveis que n\u00e3o s\u00e3o considerados nem como \u201cn\u00e3o cidad\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p><strong>Paulo<\/strong> afirma que existe uma ideologia que defende que somos um pa\u00eds pac\u00edfico, ideologia essa que ignora todo o sangue que correu no pa\u00eds entre os\u00a0<strong>s\u00e9culos XVIII<\/strong> e\u00a0<strong>XIX<\/strong>, e continua a correr at\u00e9 hoje. \u201cCreio que enfrentar a mem\u00f3ria \u00e9 compreender, \u00e9 enfrentar nossos pr\u00f3prios fantasmas. Olhe para nossos pa\u00edses vizinhos e veja como eles tratam a mem\u00f3ria do per\u00edodo ditatorial, o cinema chileno e argentino s\u00e3o bons exemplos disso\u201d, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5387\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-5387","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1oT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5387","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5387"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5387\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}