{"id":5427,"date":"2013-09-15T17:50:10","date_gmt":"2013-09-15T20:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5427"},"modified":"2017-08-25T00:04:49","modified_gmt":"2017-08-25T03:04:49","slug":"desindustrializacao-desemprego-e-pobreza-assombram-a-italia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5427","title":{"rendered":"Desindustrializa\u00e7\u00e3o, desemprego e pobreza assombram a It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"\n<p>Ter\u00e7a, 10 de Setembro de 2013<\/p>\n<p>Para os oper\u00e1rios da Firem de Modena, da Dometic de Forli, da Hydronic-Lift de Mil\u00e3o, e de outras vinte e duas pequenas f\u00e1bricas metal\u00fargicas espalhadas no norte da It\u00e1lia, o fim das f\u00e9rias do ver\u00e3o revelou uma tr\u00e1gica realidade: os patr\u00f5es, na calada da noite, mandaram desmontar os equipamentos para encaixot\u00e1-los com destino \u00e0 China, Pol\u00f4nia, S\u00e9rvia, Eslov\u00eania, Marrocos e Vietn\u00e3. Pa\u00edses onde o custo da m\u00e3o-de-obra \u00e9 quatro vezes menor que a italiana.<\/p>\n<p>A maior parte das f\u00e1bricas italianas que optaram por volatilizar seus equipamentos \u00e9 filial de multinacionais europ\u00e9ias que est\u00e3o \u00e0 beira da fal\u00eancia, por causa da retra\u00e7\u00e3o de seus produtos no mercado italiano, ou s\u00e3o pequenas ind\u00fastrias que, desde 2010, nunca foram pagas pelas prefeituras, os governos regionais e as entidades governamentais com quem assinaram contratos. Al\u00e9m disso, s\u00e3o amea\u00e7adas de &#8220;apreens\u00e3o judicial&#8221; pela Ag\u00eancia das Entradas (receita italiana) por n\u00e3o terem pagado os impostos.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, o afugentamento das ind\u00fastrias \u00e9 uma consequ\u00eancia negativa do modelo industrial que foi imposto, primeiro, pelos governos da Democracia Crist\u00e3 e, depois, legitimado, durante uma d\u00e9cada, pela direita chefiada por Silvio Berlusconi. De fato, a primeira onda de desindustrializa\u00e7\u00e3o aconteceu no Sul e no Centro-Sul da It\u00e1lia, entre 1992 e 2003, quando as m\u00e1fias (Cosa Nostra na Sic\u00edlia, N&#8217;Drangueta na Cal\u00e1bria e Camorra na Camp\u00e2nia) multiplicaram seus tent\u00e1culos no sistema banc\u00e1rio e na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A segunda, realizada a partir de 2008, foi precedida pela fuga dos capitais, que, segundo as estimativas da pol\u00edcia financeira, chegou a 610 milh\u00f5es de euros (2,5 bilh\u00f5es de reais). Capitais que na sua maioria foram depositados nos para\u00edsos fiscais das ilhas Cayman, ilhas Virgens, Jersey, Liechtenstein, Monte Carlo, Bahamas e Qatar, para financiar opera\u00e7\u00f5es financeiras especulativas.<\/p>\n<p>Um contexto que se tornou mais degenerativo quando a oposi\u00e7\u00e3o questionou o governo Berlusconi por tentar encobrir as escandalosas fal\u00eancias do grupo Parmalat e do Banco de Roma, entre outras, e quando a revista Espresso veiculou uma reportagem sobre os neg\u00f3cios obscuros e as propriedades adquiridas pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, e o presidente do Parlamento, Giorgio Fini, nas Ilhas Virgens e em Monte Carlo. Exemplos que incentivaram ainda mais a exporta\u00e7\u00e3o clandestina de capitais e, sobretudo, a corrup\u00e7\u00e3o e a frauda\u00e7\u00e3o da receita.<\/p>\n<p>Pobreza absoluta e relativa<\/p>\n<p>Damiano Zecchinato, prefeito de Vigonovo \u2013 pequena cidade da regi\u00e3o Veneto, com apenas 10.078 moradores (3.875 fam\u00edlias) \u2013, decidiu aliviar a pobreza absoluta na sua cidade, informando os gerentes de supermercados e de lojas de alimenta\u00e7\u00e3o que a prefeitura de Vigonovo pagaria os alimentos roubados pelos velhos, os jovens e os estrangeiros que os furtavam por n\u00e3o terem nada a comer. A iniciativa do prefeito Zecchinato escandalizou grande parte da m\u00eddia, que o chamou de &#8220;oportunista alpinista midi\u00e1tico&#8221;, mas conseguiu, finalmente, visualizar uma faceta da crise socioecon\u00f4mica que hoje \u2013 mesmo se o governo tenta dissimular \u2013 apresenta sinais evidentes do prisma da fome na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Segundo as estat\u00edsticas do ISTAT (Sistema Estat\u00edstico Nacional), em janeiro de 2013, a It\u00e1lia tinha uma popula\u00e7\u00e3o de 59.685.227 pessoas, das quais 4.300.760 (7,4%) de nacionalidade estrangeira. Dessas, hoje, 1.725.766 (6,8% das fam\u00edlias) vivem em &#8220;pobreza absoluta&#8221;, tendo uma renda mensal que n\u00e3o excede os 400,00 euros (1.150 reais), enquanto 3.232.564 pessoas (12,7% das fam\u00edlias) vivem em &#8220;pobreza relativa&#8221;, desfrutando de uma renda mensal de no m\u00e1ximo 950 euros (2.650 reais). Se considerarmos que um aluguel de &#8220;casa popular&#8221; (cozinha, um quarto e uma sala) no sub\u00farbio perif\u00e9rico de Roma ou de Mil\u00e3o n\u00e3o se encontra por menos de 400 euros (1.150 reais); que uma passagem metro\/\u00f4nibus custa 1,50 euro (4,5 reais); que um quilo de carne bovina de segunda qualidade custa 10 euros (35 reais); e que a gasolina subiu at\u00e9 1,95 euro o litro (5,60 reais), \u00e9 evidente que as fam\u00edlias de oper\u00e1rios ou de funcion\u00e1rios p\u00fablicos com dois ou tr\u00eas filhos, mesmo com um sal\u00e1rio de 1200 euros, vivem na &#8220;pobreza relativa&#8221;, \u00e0 causa do alto custo de vida que penaliza, sobretudo, os trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dizer que em 2003 havia poucos milhares de indiv\u00edduos considerados &#8220;indigentes&#8221;. Por\u00e9m, o crescimento da pobreza absoluta se deu com a subida do desemprego, que no setor privado foi violenta, sobretudo a partir de 2009. De fato, em julho de 2013 havia 22.509.000 trabalhadores com carteira assinada. Nesse per\u00edodo, 433.000 trabalhadores (1,9%) foram desempregados e nenhum deles foi reintegrado no trabalho fabril. Por isso, o ex\u00e9rcito dos desempregados chegou a 3.076.430 e 39,5% desse contingente \u00e9 formado por jovens (homens e mulheres) entre 18 e 30 anos. Al\u00e9m disso, as estat\u00edsticas oficiais n\u00e3o avaliam mais a categoria dos chamados &#8220;desempregados cr\u00f4nicos&#8221;, formada pelos trabalhadores ou funcion\u00e1rios considerados &#8220;velhos&#8221;, por estarem entre os 50 e 62 anos, e aqueles que, apesar de estarem na faixa et\u00e1ria dos 40, n\u00e3o procuram mais trabalho.<\/p>\n<p>Desempregados que com mais frequ\u00eancia buscam uma ocupa\u00e7\u00e3o na economia \u2018submersa\u2019, para trabalharem ao lado dos imigrados estrangeiros (inclusive os clandestinos), sem nenhuma garantia contratual e com sal\u00e1rios de no m\u00e1ximo 500 euros. Uma situa\u00e7\u00e3o que testemunha de forma dram\u00e1tica como as leis dos mercados e a l\u00f3gica pol\u00edtica dos governos neoliberais barbarizaram o mundo do trabalho, empurrando grande parte da sociedade italiana para os limites da indig\u00eancia e da mis\u00e9ria. De fato, o que mais cresceu nos \u00faltimos tr\u00eas anos foi a economia submersa e a economia ilegal, ambas monitoradas pelos c\u00edrculos mafiosos que, hoje, controlam a maior parte dos sub\u00farbios e das periferias das grandes cidades italianas.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio inquietante que obriga a classe pol\u00edtica italiana a se tornar cada vez mais &#8220;europe\u00edsta&#8221;, isto \u00e9, mais dependente da pol\u00edtica econ\u00f4mica ditada pela Uni\u00e3o Europeia e mais atrelada aos programas financeiros da Troika (Banco Central Europeu, FMI, Banco Mundial). Por isso, o governo do reformista Enrico Letta (PD), depois de ter anulado a taxa IMU sobre todo tipo de resid\u00eancias (inclusive as mans\u00f5es e os palacetes dos ricos), para garantir o apoio do PDL de Berlusconi e dos centristas de Mario Monti, deve, urgentemente, encontrar 9,2 bilh\u00f5es de euros e, assim, evitar o default.<\/p>\n<p>Diante desse problema, o &#8220;democrata&#8221; Giampiero D&#8217;Alia, ministro da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, teve a brilhante id\u00e9ia de &#8220;desempregar&#8221; 108.000 funcion\u00e1rios p\u00fablicos e, consequentemente, n\u00e3o renovar os contratos tempor\u00e1rios de 150.000 profissionais, que na sua maioria trabalham na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o. Uma solu\u00e7\u00e3o que, em Bruxelas, ser\u00e1 ovacionada por Angela Merkel e David Cameron, mas que ampliar\u00e1 ainda mais o cen\u00e1rio da pobreza e das diferen\u00e7as sociais na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa de TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do Correio da Cidadania.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAchille Lollo, de Roma, para o Correio da Cidadania\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5427\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[101],"tags":[],"class_list":["post-5427","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c114-italia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1px","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5427","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5427"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5427\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}