{"id":5444,"date":"2013-09-18T14:35:18","date_gmt":"2013-09-18T14:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5444"},"modified":"2013-09-18T14:35:18","modified_gmt":"2013-09-18T14:35:18","slug":"de-hiroshima-a-siria-o-inimigo-cujo-nome-nao-ousamos-pronunciar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5444","title":{"rendered":"De Hiroshima \u00e0 S\u00edria: O inimigo cujo nome n\u00e3o ousamos pronunciar"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Na minha parede est\u00e1 a primeira p\u00e1gina do\u00a0<em>Daily Express <\/em>de 5 de Setembro de 1945 e as palavras: &#8220;Escrevo isto como uma advert\u00eancia ao mundo&#8221;. Assim come\u00e7ava a reportagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Wilfred_Burchett\" target=\"_blank\">Wilfred Burchett<\/a> de Hiroshima. Foi o furo do s\u00e9culo. Devido \u00e0 sua jornada perigosa e solit\u00e1ria que desafiou as autoridades de ocupa\u00e7\u00e3o estado-unidenses, Burchett foi posto no pelourinho, inclusive pelos seus colegas incorporados [a actuarem junto \u00e0s for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o dos EUA]. Ele advertiu que um acto de assass\u00ednio em massa premeditado numa escala gigantesca lan\u00e7ara uma nova era de terror.<\/p>\n<p>Agora, quase diariamente confirma-se o que ele disse. A criminalidade intr\u00ednseca do bombardeamento at\u00f3mico fica patente atrav\u00e9s dos US National Archives e das d\u00e9cadas subsequentes de militarismo camuflado como democracia. O psicodrama da S\u00edria exemplifica isto. Ainda mais uma vez somos mantidos ref\u00e9ns da perspectiva de um terrorismo cuja natureza e hist\u00f3ria \u00e9 negada at\u00e9 pela maior parte dos cr\u00edticos liberais. A grande coisa proibida de mencionar \u00e9 que o mais perigoso inimigo da humanidade reside do outro lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>A farsa de John Kerry e as piruetas de Barack Obama s\u00e3o tempor\u00e1rias. O acordo de paz da R\u00fassia sobre armas qu\u00edmicas ser\u00e1, no devido tempo, tratado com o desprezo que todos os militares reservam \u00e0 diplomacia. Com a Al-Qaida agora entre os seus aliados, e os golpistas armados pelos EUA seguros no Cairo, os EUA pretendem esmagar os \u00faltimos estados independentes no M\u00e9dio Oriente. A S\u00edria primeiro, a seguir o Ir\u00e3o. &#8220;Esta opera\u00e7\u00e3o [na S\u00edria]&#8221;, disse em Junho o antigo ministro franc\u00eas dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Roland Dumas, &#8220;remete-nos a tempos distantes. Ela foi preparada, pr\u00e9-concebida e planejada&#8221;.<\/p>\n<p>Quando o p\u00fablico est\u00e1 &#8220;psicologicamente marcado&#8221;, como descreveu o rep\u00f3rter do Channel 4 Jonathan Rugman a hostilidade esmagadora do povo brit\u00e2nico a um ataque \u00e0 S\u00edria, refor\u00e7ar o que \u00e9 proibido mencionar torna-se urgente. Seja Bashar al-Assad ou os &#8220;rebeldes&#8221; que tenham utilizado g\u00e1s nos sub\u00farbios de Damasco, s\u00e3o os Estados Unidos e n\u00e3o a S\u00edria os mais prol\u00edficos utilizadores do mundo destas armas terr\u00edveis. Em 1970, o Senado relatou: &#8220;Os EUA despejaram sobre o Vietname uma quantidade de produtos qu\u00edmicos t\u00f3xicos (dioxina) equivalente a seis libras [2,72 kg] por cada habitante&#8221;. Isto foi a Opera\u00e7\u00e3o Inferno\u00a0<em>(Operation Hades), <\/em>posteriormente rebaptizada com o nome mais amistoso de Operation Ranch Hand: a origem do que m\u00e9dicos vietnamitas chamam um &#8220;ciclo de cat\u00e1strofe fetal&#8221;. Vi gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as com suas habituais deformidades monstruosas. John Kerry, com o seu pr\u00f3prio registo de guerra ensopado em sangue, as recordar\u00e1. Vi-as tamb\u00e9m no Iraque, onde os EUA utilizaram ur\u00e2nio empobrecido\u00a0<em>(depleted uranium) <\/em>e f\u00f3sforo branco, tal como fizeram os israelenses em Gaza, despejando-o sobre escolas e hospitais das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Para eles, nenhuma &#8220;linha vermelha&#8221; de Obama. Para eles, nenhum psicodrama decisivo.<\/p>\n<p>O debate repetitivo sobre se &#8220;n\u00f3s&#8221; dever\u00edamos &#8220;actuar&#8221; contra ditadores seleccionados (isto \u00e9, apoiar os EUA e seus ac\u00f3litos em ainda outra orgia de matan\u00e7a a\u00e9rea) faz parte da nossa lavagem cerebral. Richard Falk, professor em\u00e9rito de direito internacional e Relator Especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Palestina, descreve isto como &#8220;um \u00e9cran legal\/moral farisaico, unilateral, com imagens positivas de valores ocidentais e a inoc\u00eancia descrita como amea\u00e7ada, validando uma campanha de viol\u00eancia pol\u00edtica irrestrita&#8221;. Isto &#8220;\u00e9 t\u00e3o amplamente aceite de modo a ser virtualmente incontest\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 a grande mentira: o produto de &#8220;realistas liberais&#8221; na pol\u00edtica, na academia e nos media anglo-americanos os quais nomeiam-se a si pr\u00f3prios como os administradores da crise do mundo, ao inv\u00e9s de causadores de uma crise. Despindo a humanidade do estudo de na\u00e7\u00f5es e congelando-a com jarg\u00e3o que serve des\u00edgnios do poder ocidental, eles marcam estados &#8220;falhados&#8221;, &#8220;patifes&#8221;\u00a0<em>(&#8220;rogue&#8221;) <\/em>ou &#8220;mal\u00e9ficos&#8221;\u00a0<em>(&#8220;evil&#8221;) <\/em>para &#8220;interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>Um ataque \u00e0 S\u00edria ou ao Ir\u00e3o ou a qualquer outro &#8220;dem\u00f3nio&#8221; dos EUA inspirar-se-ia numa variante da moda, a &#8220;Responsabilidade de proteger&#8221;<em>(&#8220;Responsability to Protect, ou R2P), <\/em>cujo fan\u00e1tico pregador p\u00fablico \u00e9 o antigo ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros australiano Gareth Evans, co-presidente de um &#8220;Global Centre&#8221; com sede em Nova York. Evans e seus lobbistas generosamente financiados desempenham um papel vital e insiste com a &#8220;comunidade internacional&#8221; para atacar pa\u00edses onde &#8220;o Conselho de Seguran\u00e7a rejeita uma proposta ou deixa de tratar num per\u00edodo de tempo razo\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Evans tem antecedentes. Ele aparece no meu filme de 1994\u00a0<em>Morte de uma na\u00e7\u00e3o (Death of a Nation) <\/em>a elevar sua ta\u00e7a de champanhe ao seu hom\u00f3logo indon\u00e9sio quando voavam sobre Timor Leste num avi\u00e3o australiano, tendo acabado de assinar um tratado que pirateava o petr\u00f3leo e o g\u00e1s daquele pa\u00eds abatido, onde o tirano da Indon\u00e9sia, Suharto, matou ou esfaimou um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob o &#8220;fraco&#8221; Obama, o militarismo ascendeu talvez como nunca antes. Sem um \u00fanico tanque sobre o relvado da Casa Branca, verificou-se um golpe militar em Washington. Em 2008, enquanto seus devotos liberais secavam os olhos, Obama aceitou todo o Pent\u00e1gono do seu antecessor, George Bush: suas guerras e crimes de guerra. Quando a constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda por um emergente estado policial, aqueles que destru\u00edram o Iraque com pavor e choque, e acumularam montanhas de escombros no Afeganist\u00e3o e reduziram a L\u00edbia a um pesadelo hobbesiano, est\u00e3o a dominar toda a administra\u00e7\u00e3o estado-unidense. Por tr\u00e1s da sua fachada decorada, mais antigos soldados dos EUA est\u00e3o a matar-se a si pr\u00f3prios do que a morrer sobre campos de batalha. No ano passado, 6.500 veteranos acabaram com as suas pr\u00f3prias vidas. Arriem mais bandeiras.<\/p>\n<p>O historiador Norman Pollack chama a isto &#8220;fascismo liberal&#8221;. &#8220;Para os que marcham a passo de ganso&#8221;, escreveu ele, &#8220;substitui a aparentemente mais in\u00f3cua militariza\u00e7\u00e3o da cultura total. E para o l\u00edder bomb\u00e1stico, temos o reformador falhado, alegremente a trabalhar no planeamento e execu\u00e7\u00e3o do assass\u00ednio, sorrindo o tempo todo&#8221;. Toda ter\u00e7a-feira, o &#8220;humanit\u00e1rio&#8221; supervisiona pessoalmente uma rede mundial de terror com drones que corrompem pessoas, aqueles que as resgatam e as choram. Nas zonas de conforto do Ocidente, o primeiro l\u00edder negro da terra da escravid\u00e3o ainda se sente bem, como se a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia representasse um avan\u00e7o social, pouco importando o seu rastro de sangue. Esta rever\u00eancia a um s\u00edmbolo quase destruiu o movimento anti-guerra nos EUA: a fa\u00e7anha singular de Obama.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e3-Bretanha, os diversionismos da falsifica\u00e7\u00e3o de imagem e da pol\u00edtica de identidade n\u00e3o tiveram \u00eaxito completo. Uma como\u00e7\u00e3o j\u00e1 principiou, embora a consci\u00eancia do povo devesse acelerar-se. Os ju\u00edzes de Nuremberg foram sucintos: &#8220;Cidad\u00e3os individuais t\u00eam o dever de violar leis internas para impedir crimes contra a paz e a humanidade&#8221;. As pessoas comuns da S\u00edria, e de incont\u00e1veis outros pa\u00edses, e o nosso auto-respeito, n\u00e3o merecem nada menos neste momento.<\/p>\n<p>11\/Setembro\/2013<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<em>The Guardian <\/em>e em\u00a0<a href=\"http:\/\/johnpilger.com\/articles\/from-hiroshima-to-syria-the-enemy-whose-name-we-dare-not-speak\" target=\"_blank\">johnpilger.com\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor John Pilger\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5444\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5444","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1pO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5444"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5444\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}