{"id":5453,"date":"2013-09-19T22:51:53","date_gmt":"2013-09-19T22:51:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5453"},"modified":"2013-09-19T22:51:53","modified_gmt":"2013-09-19T22:51:53","slug":"uma-vida-dedicada-a-um-ideal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5453","title":{"rendered":"Uma vida dedicada a um ideal"},"content":{"rendered":"\n<p>Em depoimento a historiadores, ex-deputado Armando Ziller relembra carreira pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da <a href=\"http:\/\/www.almg.gov.br\/consulte\/legislacao\/completa\/completa.html?ano=2013&amp;num=5437&amp;tipo=RAL\" target=\"_blank\" title=\"Ir para Resolu\u00e7\u00e3o 5.437, de 2013\">Resolu\u00e7\u00e3o 5.437, de 2013<\/a>, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) restitui simbolicamente o mandato do deputado estadual Armando Ziller.\u00a0O ato n\u00e3o \u00e9 a primeira iniciativa da Assembleia de Minas para resgatar a trajet\u00f3ria do ex-parlamentar, que teve o mandato cassado em 1948, durante o governo de Eurico Gaspar Dutra.\u00a0Em 2000, foi lan\u00e7ada a Colet\u00e2nea Mem\u00f3ria Pol\u00edtica de Minas, organizada a partir de entrevistas realizadas com personalidades da vida p\u00fablica mineira, mesclando a hist\u00f3ria pessoal dos entrevistados e os acontecimentos pol\u00edticos. Ziller \u00e9 retratado no terceiro volume da s\u00e9rie, dispon\u00edvel na biblioteca da Assembleia.<\/p>\n<p>Ainda segundo o relato de Ziller, foi com o livro sagrado que ele aprendeu um dos princ\u00edpios basilares da vertente ideol\u00f3gica, \u201cpor tudo em comum\u201d. Sua ades\u00e3o ao partido se deve, sobretudo, \u00e0 ideia de que a socializa\u00e7\u00e3o da propriedade, das riquezas e das oportunidades era a solu\u00e7\u00e3o proposta inclusive pela B\u00edblia. Para ele, a religi\u00e3o deveria se colocar a servi\u00e7o do povo, \u201ctinha que resolver os problemas do povo\u201d.O pol\u00edtico mineiro, na verdade, nasceu no Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1908. Mas antes mesmo de concluir sua vida escolar deixou o litoral para subir as montanhas e fazer os estudos secund\u00e1rios em Juiz de Fora (Zona da Mata). De 1932 at\u00e9 sua morte, em 1992, militou no Partido Comunista Brasileiro. Em depoimento aos historiadores, ele contou que, ao decidir abra\u00e7ar a bandeira comunista, nem ao menos tinha ouvido falar em qualquer de suas lideran\u00e7as. \u201cN\u00e3o foi o Lenin que me trouxe para o comunismo, foi a B\u00edblia. Na primeira vez em que ouvi falar de comunismo, perguntei: &#8216;O que \u00e9 isso?&#8217; Me explicaram. Eu disse: &#8216;Mas \u00e9 isso que eu estou querendo!&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto o pr\u00f3prio Lenin forjava uma Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ateia e via a religi\u00e3o como uma ferramenta de aliena\u00e7\u00e3o, Ziller encontrou sua motiva\u00e7\u00e3o nela. Embora o PCB tenha encontrado um devoto fiel, Armando Ziller n\u00e3o botava f\u00e9 em uma carreira pol\u00edtica. Em seus depoimentos, ele explicou que n\u00e3o tinha a inten\u00e7\u00e3o de concorrer a um mandato eletivo, mas que \u201cfoi sendo arrastado pelos acontecimentos\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 sob o efeito da guerra fria, no dia 7 de maio de 1947 o PCB teve seu registro cassado, para conter o avan\u00e7o da \u201conda vermelha\u201d. Em seguida, o Minist\u00e9rio do Trabalho decretou a interven\u00e7\u00e3o nos sindicatos. O partido apelou ainda para o Judici\u00e1rio, requerendo\u00a0<em>habeas corpus<\/em>para o livre funcionamento das suas sedes, mas o pedido foi negado. Na esteira da exclus\u00e3o do partido, vieram a cassa\u00e7\u00e3o dos mandatos de todos os parlamentares que haviam sido eleitos pelo PCB. Em outubro de 1947, o presidente da Rep\u00fablica Eurico Gaspar Dutra rompeu as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas do Brasil com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.Armando Ziller explicou aos entrevistadores da colet\u00e2nea que, em 1945 o partido contabilizava 5 mil filiados e que este n\u00famero chegou a 180 mil em 1947. De acordo com ele, o PCB tinha avan\u00e7ado e pretendia concorrer em todas as elei\u00e7\u00f5es. \u201cEu n\u00e3o sabia pedir voto\u201d, confessou o ent\u00e3o candidato que, apesar de desconfiar do pr\u00f3prio \u00eaxito, obteve 2.145 votos naquele pleito. Foi o quarto mais votado em Belo Horizonte na elei\u00e7\u00e3o de 1946.<\/p>\n<p>Constituinte\u00a0\u2013 Antes de ser cassado em janeiro de 1948, Ziller participou entusiasticamente da elabora\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o do Estado. J\u00e1 nos primeiros meses na ALMG, o militante contrariou o ditado popular de que \u201cuma andorinha s\u00f3 n\u00e3o faz ver\u00e3o\u201d. Ele relatou que o Comit\u00ea Nacional do Partid\u00e3o construiu um projeto para a constituinte federal, que foi adaptado para o \u00e2mbito estadual. Segundo ele, a apresenta\u00e7\u00e3o do texto aos colegas de Parlamento causou surpresa. \u201cEles t\u00eam um deputado s\u00f3 e, ainda assim, apresentaram um projeto!\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs constituintes deram valor ao trabalho do partido. Mimeografamos o projeto e demos uma c\u00f3pia para cada deputado. Foi bonito&#8230;\u201d, comemorou Ziller. Os discursos e proposi\u00e7\u00f5es do deputado foram bastante explorados pelos historiadores. Esses destacaram os pronunciamentos e projetos do deputado a respeito da quest\u00e3o fundi\u00e1ria, que costumavam \u201ccolocar fogo no Plen\u00e1rio\u201d e marcaram a trajet\u00f3ria do parlamentar.<\/p>\n<p>Em depoimento para a colet\u00e2nea, dois discursos foram lembrados em especial. Em outubro de 1947, Ziller defendeu proposi\u00e7\u00e3o que estabelecia impostos progressivos sobre terras improdutivas e alertou sobre o constante \u00eaxodo rural, que estava \u201cinchando\u201d a Capital mineira e propiciando o surgimento de favelas.<\/p>\n<p>Para o deputado, a medida tinha como objetivo for\u00e7ar as propriedades rurais a se tornarem produtivas. \u201cEsse \u00e9 o verdadeiro interesse da reforma agr\u00e1ria\u201d, salientou. De acordo com ele, os parlamentares do setor reagiram com f\u00faria. \u201cDeputados que n\u00e3o se levantavam por nada, naquele dia se levantaram\u201d.<\/p>\n<p><strong>Piano, violino, martelo e foice<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00fasica uniu Armando Ziller a Filomena Mellilo. Ele a conheceu ainda em Itarar\u00e9 (SP). O pai da mo\u00e7a era propriet\u00e1rio de um cinema, onde os jovens se encontravam para exercitar m\u00fasica cl\u00e1ssica. Como havia praticado anos antes violino em um semin\u00e1rio, foi convidado a se juntar ao grupo. Dentre eles, estava Filomena. \u201cFui, toquei e deu certo. E ela era pianista. Piano e violino combinam.\u201d<\/p>\n<p>O desejo de casar com Filomena falou mais alto e o levou a pleitear uma vaga na \u201ccidadela do capitalismo\u201d. Depois de sucessivos fechamentos do neg\u00f3cio da fam\u00edlia (estabelecimentos de ensino), o pai, Jo\u00e3o Ziller, sugeriu que ele fizesse o concurso do Banco do Brasil. Ele reagiu perplexo \u00e0 proposta. \u201cO que eu vou fazer l\u00e1 dentro?\u201d. Ziller considerava a institui\u00e7\u00e3o \u201ca raiz de todo mal\u201d, o \u201ccaixa-forte\u201d do capitalismo. Mas resolveu disputar o cargo para ter condi\u00e7\u00e3o \u201cde tirar a mo\u00e7a de casa\u201d.<\/p>\n<p>Em 1933, Ziller \u00e9 nomeado para trabalhar na segunda maior ag\u00eancia banc\u00e1ria do Brasil, a de Santos. \u201cNa manh\u00e3 do dia seguinte em que cheguei, apresentei-me ao banco; de tarde entrei para o sindicato\u201d. A partir da\u00ed, dividiu-se entre as atividades do partido e do movimento sindicalista. Ele chegou a presidir o Sindicato dos Banc\u00e1rios de Curitiba e de Belo Horizonte e a Federa\u00e7\u00e3o dos Banc\u00e1rios. Liderou importantes greves, como a nacional de 1934. A pauta reivindicava desde o fim do nazismo at\u00e9 a jornada de trabalho de seis horas para os profissionais da categoria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ter aderido \u00e0 ideologia comunista devido \u00e0 B\u00edblia, Ziller coleciona outras particularidades que eram motivo de estranhamento por parte de seus pares tanto no movimento comunista como no sindicalista. Ele declarou aos organizadores da colet\u00e2nea que n\u00e3o considerava o banqueiro como inimigo. \u201cNunca tratei o patr\u00e3o como inimigo. A classe dele \u00e9 inimiga da minha, mas isso n\u00e3o quer dizer que ele seja meu inimigo\u201d. Mesmo em tempo de posicionamentos radicais e pontos de vista petrificados, Ziller dizia acreditar no di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Essa tamb\u00e9m \u00e9 a vis\u00e3o de Ant\u00f4nio de Faria Lopes, companheiro de Ziller no sindicato dos banc\u00e1rios e ex-deputado estadual por Minas, eleito em 1982. Lopes contou que era um rapaz franzino quando ingressou no Banco do Brasil. Conheceu o dirigente sindical aos 22 anos em 1959, na ag\u00eancia de Belo Horizonte. \u201cOfereci-me para ajud\u00e1-lo a distribuir um comunicado do sindicato. Ele me olhou com desconfian\u00e7a, mas logo nos tornamos amigos\u201d.<\/p>\n<p>Para o amigo, uma das virtudes de Armando era sua capacidade ret\u00f3rica e sua coer\u00eancia. Lopes lembrou os gestos peculiares adotados por Ziller nos processos de negocia\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o lugar onde se sentar se tornava uma estrat\u00e9gia persuasiva para o experiente sindicalista. \u201cArmando confiava na palavra dos outros e sempre mantinha a dele\u201d, lembra Lopes, que ainda enfatizou que as conquistas prometidas a Ziller, nas reuni\u00f5es do sindicato com os banqueiros, eram cumpridas \u00e0 risca \u201csem precisar colocar no papel\u201d.<\/p>\n<p>O filho do comunista convicto, Arnaldo Ziller, tamb\u00e9m afirmou que a coer\u00eancia era uma das virtudes mais admir\u00e1veis do pai. Ele recordou que Armando teve oportunidade de se filiar a outros partidos, mas que ele n\u00e3o aceitou oferta alguma. \u201cPara meu pai, a resposta para o fim das desigualdades sociais era o comunismo. Ele n\u00e3o se sentiu no direito de desistir do ideal comunista nem mesmo por um cargo pol\u00edtico. Ele colocava esse ideal acima at\u00e9 mesmo de sua vontade, e muitas vezes adotou determinada conduta para manter-se fiel \u00e0 proposta do partido\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p><strong>Desmoralizar \u00e9 verbo reflexivo<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Lopes rememorou momentos dif\u00edceis na vida de ambos. Com a ascens\u00e3o do regime militar, eles foram julgados e condenados em 13 agosto de 1965. O motivo da condena\u00e7\u00e3o: eram l\u00edderes do sindicato dos banc\u00e1rios. Ant\u00f4nio Lopes foi condenado a 18 anos de pris\u00e3o e foi demitido do Banco do Brasil. Ziller j\u00e1 se encontrava na Europa, onde se exilou.<\/p>\n<p>Antes da Lei da Anistia (Lei Federal 6.683, de 1979), eles foram obrigados a conviver com a injusti\u00e7a e a persegui\u00e7\u00e3o. Lopes chegou a cumprir um ano e meio de pris\u00e3o em Juiz de Fora. Armado Ziller n\u00e3o p\u00f4de ao menos dizer adeus ao filho Armando Ziller J\u00fanior, que faleceu quando ele ainda estava no ex\u00edlio. Lopes foi readmitido pelo Banco do Brasil em 1980 e contou que Ziller foi aposentado, pois j\u00e1 contava com 72 anos ao regressar ao Pa\u00eds.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, Armando Ziller se dedicou a trazer o Partido Comunista para a legalidade, o que ocorreu com a redemocratiza\u00e7\u00e3o em 1985. O PCB foi fundado em 1922 e \u00e9 considerado o partido mais antigo do Pa\u00eds. Mesmo depois da cis\u00e3o da legenda, Ziller continuou militando, at\u00e9 sua morte em 17 de maio de 1992.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o de Ziller que marcou Lopes se resume a um a frase: \u201cDesmoralizar \u00e9 verbo reflexivo\u201d. O enunciado, segundo o amigo, foi dito por Ziller a um companheiro do sindicato que se queixava de ser v\u00edtima de uma tentativa de desmoraliza\u00e7\u00e3o. &#8220;Armando acreditava que s\u00f3 o pr\u00f3prio sujeito \u00e9 capaz de denegrir a sua imagem, que qualquer desvio de car\u00e1ter se reflete no indiv\u00edduo que a pratica, e ningu\u00e9m precisa apont\u00e1-lo&#8221;, recordou Lopes. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 mais homens como Ziller&#8221;, arrematou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nArmando Ziller\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5453\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-5453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1pX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5453\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}