{"id":547,"date":"2010-06-10T17:16:21","date_gmt":"2010-06-10T17:16:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=547"},"modified":"2017-08-22T19:54:02","modified_gmt":"2017-08-22T22:54:02","slug":"da-censura-a-arte-fotos-do-artista-ruy-santos-sao-tema-de-exposicao-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/547","title":{"rendered":"Da censura \u00e0 arte: fotos do artista Ruy Santos s\u00e3o tema de exposi\u00e7\u00e3o no Rio"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Da censura \u00e0 arte: fotos do artista Ruy Santos s\u00e3o tema de exposi\u00e7\u00e3o no Rio\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/_juE8x0zSaOg\/S962OoLgQCI\/AAAAAAAADLA\/1_p-A31YyTo\/s1600\/convite%2Bexposi%C3%A7%C3%A3o%2Bruy.jpg?w=747\" alt=\"Da censura \u00e0 arte: fotos do artista Ruy Santos s\u00e3o tema de exposi\u00e7\u00e3o no Rio\" \/>Mais de 80 mil pessoas lotaram o est\u00e1dio do Pacaembu, em S\u00e3o Paulo, em 15 de julho de 1945. E n\u00e3o foi para assistir a uma partida de futebol.<!--more--><\/p>\n<p>O grande p\u00fablico se reuniu para presenciar o emocionado discurso de Luiz Carlos Prestes, que se pronunciava pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), pela segunda vez em p\u00fablico, ap\u00f3s nove anos de pris\u00e3o durante o governo de Get\u00falio Vargas. O poeta Pablo Neruda, senador pelo Partido Comunista chileno, veio ao Brasil especialmente para o com\u00edcio e aproveitou a ocasi\u00e3o para ler o poema <em>Mensagem,<\/em> escrito em homenagem a Prestes. O momento, t\u00e3o importante para a democracia brasileira, foi captado pelas lentes do fot\u00f3grafo e cineasta Ruy Santos.<\/p>\n<p>S\u00e3o fotos desse acontecimento, mais alguns <em>portraits<\/em> de personalidades, como o pintor Portinari e o jornalista Samuel Wainer, e v\u00e1rios documentos que relatam a \u00e9poca de sua pris\u00e3o, al\u00e9m de filmes dirigidos por ele, que comp\u00f5em a exposi\u00e7\u00e3o <em>Ruy Santos: Imagens Apreendidas,<\/em> em cartaz no gabinete de fotografia do Centro Cultural de Justi\u00e7a Federal, no Centro do Rio, at\u00e9 o dia 13 de junho, com entrada gratuita. A mostra faz parte do projeto de p\u00f3s-doutorado rec\u00e9m-doutor da pesquisadora Teresa Bastos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), intitulado \u201cFotografia e comunismo: imagens da pol\u00edcia pol\u00edtica no Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro (Aperj)\u201d, apoiado pela FAPERJ. As fotos e v\u00e1rios trabalhos de Ruy Santos foram apreendidos por ocasi\u00e3o da pris\u00e3o do fot\u00f3grafo, em 1948. Paradoxalmente, embora tenha destru\u00eddo uma parte do material, a pol\u00edcia pol\u00edtica brasileira acabou por se tornar a maior guardi\u00e3 desse acervo.<\/p>\n<p>Das 45 fotografias que restaram do com\u00edcio de 1945, 17 est\u00e3o presentes na exposi\u00e7\u00e3o. Teresa fez uma sele\u00e7\u00e3o a partir do que mais representava a marca registrada de Ruy Santos: colocar o povo como protagonista da imagem e a qualidade est\u00e9tica. \u201cSua principal caracter\u00edstica \u00e9 a forma como lidava com a luz em suas fotografias. A plasticidade das imagens captadas por ele \u00e9 constru\u00edda com linhas definidas e, principalmente, por um jogo de luzes, com claro-escuro acentuado e um controle de luz na tentativa de potencializar a cena com fortes tra\u00e7os geom\u00e9tricos\u201d, explica a pesquisadora. Ela acrescenta ainda: \u201cNas fotos, o povo aparece em evid\u00eancia, seja ouvindo os discursos, seja segurando faixas, mas sempre como sujeito\/objeto das imagens. \u00c9 sua forma de evidenciar, em elementos visuais, sua import\u00e2ncia naquele momento da hist\u00f3ria.&#8221; Sob as lentes de Ruy Santos, a multid\u00e3o aparece enquadrada, registra-se a profus\u00e3o de faixas onde se l\u00ea &#8220;O povo quer elei\u00e7\u00f5es&#8221;. &#8220;De abstrato e an\u00f4nimo, o povo tem o rosto, desfila, espera e l\u00ea a <em>Tribuna Popular,<\/em> enquanto aguarda o discurso dos l\u00edderes\u201d, prossegue.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de retratar um momento importante de manifesta\u00e7\u00e3o popular, as fotos revelam um per\u00edodo muito espec\u00edfico da hist\u00f3ria, em que o PCB esteve na legalidade, p\u00f4de se comunicar e mostrar seus principais representantes. &#8220;Para a pol\u00edcia pol\u00edtica aquele acontecimento foi \u00f3timo, pois todas as lideran\u00e7as e personalidades filliadas ao partido sa\u00edram finalmente &#8216;da toca&#8217;. Assim, os inimigos vermelhos, como eram chamados os comunistas na \u00e9poca Vargas, puderam ser identificados e posteriormente presos.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Encontros Poss\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Para Teresa, no entanto, o principal atrativo da exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o fato hist\u00f3rico em si, mas a constru\u00e7\u00e3o que se faz dele. &#8220;A mostra tem um olhar especial e prop\u00f5e aos visitantes um encontro diferente. Pretendemos instigar encontros poss\u00edveis atrav\u00e9s dos arquivos. Se invertermos a maneira de olhar e colocarmos o arquivo em primeiro plano, interpondo-se sobre o real imaginado do passado, ele pode criar tempos e construir contextos. Desta maneira, as imagens deixam de nos impor uma mem\u00f3ria do passado para se tornarem recortes do tempo\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Teresa tem observado que as fotografias quase nunca s\u00e3o protagonistas de pesquisas, mas sim um complemento, uma ilustra\u00e7\u00e3o do que se est\u00e1 escrito. \u201cComo sou pesquisadora e professora de fotografia, meu olhar se volta para as imagens e sua hist\u00f3ria, e a narrativa se constr\u00f3i a partir delas.\u201d<\/p>\n<p>Da exposi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do jornal <em>Di\u00e1rio Carioca,<\/em> de 28 de abril de 1948, que traz a not\u00edcia da pris\u00e3o de Ruy Santos, uma vitrine exp\u00f5e a carta escrita por um delegado da Divis\u00e3o de Pol\u00edcia Pol\u00edtica e Social (DPS), que, segundo Teresa, representa uma prova do envio do roteiro do document\u00e1rio <em>Vinte e quatro anos de luta: como se formou o Partido Comunista do Brasil<\/em> para a censura, de onde nunca mais retornou. H\u00e1 ainda um artigo assinado por Jorge Amado, datado de 23 de agosto de 1946, no qual o escritor baiano enaltece o document\u00e1rio, dizendo que \u201co filme \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o do bom cinema, de arte cinematogr\u00e1fica, verdadeira, colocada a servi\u00e7o do povo. Arte revolucion\u00e1ria, para usar uma express\u00e3o que muitos querem esquecer\u201d. Com o document\u00e1rio, no qual Luiz Carlos Prestes foi filmado ainda na cadeia, o fot\u00f3grafo recebeu convite para representar o Brasil como membro efetivo da diretoria da Uni\u00e3o Mundial dos Documentaristas, em Praga, Tchecoslov\u00e1quia.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, poucos sabem que Ruy Santos \u00e9 considerado um dos maiores diretores de fotografia do cinema brasileiro. Para conhecer um pouco mais sobre o artista, a exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m incluiu uma mostra de filmes, seguida de debates, com participa\u00e7\u00e3o de Hernani Heffener, pesquisador de cinema e conservador chefe da cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), Jos\u00e9 Carlos Monteiro, cr\u00edtico e professor do Departamento de Cinema e V\u00eddeo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), entre outros.<\/p>\n<p><strong>Ruy Santos: vida e obra<\/strong><\/p>\n<p>Ruy Borges dos Santos nasceu em 11 de agosto de 1916, no Rio de Janeiro, onde passou grande parte de sua vida. Na adolesc\u00eancia, apaixonado por cinema, conquistou seu primeiro cargo no mundo que tanto o fascinava, como laboratorista de Paulo Benedetti, um dos mais importantes cinegrafistas e t\u00e9cnicos de laborat\u00f3rio do cinema brasileiro. Em 1939, Ruy passou a trabalhar no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Get\u00falio Vargas. E, na d\u00e9cada de 1940, o fot\u00f3grafo ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde desempenhou a fun\u00e7\u00e3o de fot\u00f3grafo, cineasta e militante.<\/p>\n<p>O que parece um pouco controverso \u2013 o fato de Ruy Santos ter trabalhado no DIP e logo depois ingressar no PCB \u2013, na realidade, como conta Teresa, era um tanto comum, pois o DIP representava uma possibilidade de se trabalhar com cultura e adquirir experi\u00eancia na \u00e1rea. \u201cRuy atribui sua veia documental \u00e0 passagem pelo DIP, onde aprendeu e experimentou muito como fot\u00f3grafo. Posteriormente, utilizou toda essa experi\u00eancia no Partido Comunista Brasileiro\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em sua incurs\u00e3o pelo cinema, al\u00e9m de document\u00e1rios, Ruy Santos dirigiu, produziu, escreveu roteiros e fez a fotografia de filmes de fic\u00e7\u00e3o. Ele se tornou um dos principais diretores de fotografia do cinema nacional, al\u00e9m de desempenhar fun\u00e7\u00f5es de c\u00e2mera. Dentre os filmes que fotografou, destacam-se <em>O malandro e a granfina <\/em>(1947); <em>Estrela da manh\u00e3<\/em> (1848-1950, tamb\u00e9m como roteirista) e <em>O vampiro de Copacabana<\/em> (1975).<\/p>\n<p>Sua pris\u00e3o aconteceu em 1948, ano seguinte \u00e0 entrada do PCB novamente na ilegalidade, em 1947. Ruy Santos foi preso pela pol\u00edcia pol\u00edtica brasileira \u201cpara averigua\u00e7\u00f5es\u201d e grande parte do seu acervo foi apreendida. O artista, que re\u00fane em sua bagagem uma centena de filmes entre curtas, m\u00e9dias e longas das mais variadas propostas, morreu em 7 de mar\u00e7o de 1989 em Cabo Frio, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A pesquisadora Teresa Bastos pretende dar continuidade \u00e0 pesquisa. Para ela, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 recuperar os filmes que ainda est\u00e3o dispersos e analisar a condi\u00e7\u00e3o das pel\u00edculas. \u201cEste \u00e9 um projeto que acredito ser muito importante. Grande parte das obras de Ruy Santos est\u00e1 dispersa. Pretendo conseguir, num \u00e2mbito de projeto maior, recuper\u00e1-las e coloc\u00e1-las \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, e, com isso, contribuir para que o trabalho de Ruy Santos seja conhecido e apreciado\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a exposi\u00e7\u00e3o, acesse: <a href=\"http:\/\/pesquisafotografica.blogspot.com\/2010\/05\/ruy-santos-imagens-apreendidas-ate-13.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/pesquisafotografica.blogspot.com\/2010\/05\/ruy-santos-imagens-apreendidas-ate-13.html<\/a><\/p>\n<p><em>V\u00eddeo: Com\u00edcio do PCB com Prestes em S\u00e3o Paulo 1945 https<wbr \/>:\/\/youtu.be\/0zuKbtMuru4<\/em><\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0zuKbtMuru4?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Mais de 80 mil pessoas no est\u00e1dio do Pacaembu: o fot\u00f3grafo aproveitava a incid\u00eancia da luz para formar imagens geom\u00e9tricas\n\n\n\n\n\n\n\n\nDanielle Kiffer\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/547\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-547","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8P","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}