{"id":5484,"date":"2013-09-25T16:10:21","date_gmt":"2013-09-25T16:10:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5484"},"modified":"2013-09-25T16:10:21","modified_gmt":"2013-09-25T16:10:21","slug":"guatemala-campo-de-provas-e-de-exterminio-dos-eua-e-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5484","title":{"rendered":"Guatemala: campo de provas e de exterm\u00ednio dos EUA e Israel"},"content":{"rendered":"\n<p>Pol\u00edtica de terrorismo de Estado contra os movimentos de resist\u00eancia incluiu assassinatos, torturas e desaparecimentos<\/p>\n<p>Leonardo Wexell Severo<\/p>\n<p>Nos muros da Guatemala, as fotos n\u00e3o d\u00e3o margem \u00e0 pol\u00edtica oficial do &#8220;esquecimento&#8221; \u201cNa Guatemala, o terror se transformou num espet\u00e1culo: soldados, comissionados e patrulheiros civis estupravam as mulheres diante dos maridos e dos filhos. O zelo anticomunista e o \u00f3dio racista se disseminaram no desempenho da contrainsurg\u00eancia. As matan\u00e7as eram inconcebivelmente brutais. Os soldados matavam crian\u00e7as, lan\u00e7ando-as contra rochas na presen\u00e7a dos pais. Extra\u00edam \u00f3rg\u00e3os e fetos, amputavam a genit\u00e1lia e os membros perpetravam estupros m\u00faltiplos e em massa e queimavam vivas algumas v\u00edtimas\u201d.<\/p>\n<p>O relato extra\u00eddo do livro \u201cA revolu\u00e7\u00e3o guatemalteca\u201d, (Greg Grandin, Editora UNESP, 2004), descreve os pormenores da pol\u00edtica de terrorismo de Estado promovida pelos governos dos EUA \u2013 com apoio de Israel &#8211; contra os movimentos de resist\u00eancia da na\u00e7\u00e3o maia nos anos 70 e 80.<\/p>\n<p>Vale lembrar, destaca o autor, que \u201cas pr\u00e1ticas ensaiadas na Guatemala \u2013 como as desestabiliza\u00e7\u00f5es e os esquadr\u00f5es da morte dirigidos por ag\u00eancias de intelig\u00eancia profissionalizadas \u2013 propagaram-se por toda a regi\u00e3o nas d\u00e9cadas subsequentes\u201d. E ganharam o mundo, afirmamos n\u00f3s, como o comprovam as invas\u00f5es do Iraque e da L\u00edbia, onde o n\u00famero de mercen\u00e1rios superou em muito o do ex\u00e9rcito regular. O fato destas \u201cempresas\u201d estarem entre as principais doadoras das bilion\u00e1rias campanhas eleitorais estadunidenses n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe. Assim como o fato do secret\u00e1rio de Estado norte-americano Foster Dulles, advogado\/acionista da United Fruit, ter comandado a campanha &#8211; ao lado de seu irm\u00e3o Allen Dulles, chefe da CIA \u2013 pela derrubada do presidente guatemalteco Jacobo \u00c1rbenz, consumada em 28 de junho de 1954. O motor do golpe que levou ao poder o coronel Castillo Armas foi a nacionaliza\u00e7\u00e3o de terras da \u201cFrutera\u201d e sua distribui\u00e7\u00e3o a camponeses pobres e a ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>PROPAGANDA DE GUERRA<\/strong><\/p>\n<p>No momento em que o Imp\u00e9rio retoma a propaganda de guerra contra o povo s\u00edrio e seu governo, a leitura contribui para refletirmos sobre os padr\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o. Uma \u201camn\u00e9sia oficial\u201d patrocinada pelos grandes conglomerados privados de comunica\u00e7\u00e3o para dissipar a responsabilidade estadunidense na deposi\u00e7\u00e3o de governos nacionalistas como o de \u00c1rbenz. Ali, lembra Grandin, \u201ca CIA se serviu de pr\u00e1ticas tomadas de empr\u00e9stimo \u00e0 psicologia social, a Hollywood e \u00e0 ind\u00fastria publicit\u00e1ria para erodir a lealdade\u201d e gerar avers\u00f5es, numa \u201ccampanha de desinforma\u00e7\u00e3o concertada\u201d em favor da United Fruit, grande latifundi\u00e1ria e tamb\u00e9m propriet\u00e1ria das rodovias, ferrovias e portos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Com riqueza de dados e cita\u00e7\u00f5es, a obra desnuda os meandros da participa\u00e7\u00e3o de Israel como coringa ianque ao longo da agress\u00e3o, desde o come\u00e7o dos anos 70, at\u00e9 o per\u00edodo \u201cmais cruel da repress\u00e3o\u201d, entre 1982 e 1983, com a chegada ao poder do general Efrain R\u00edos Montt. \u00c9 neste momento, recorda o autor, \u201cquando os massacres se tornaram simultaneamente mais precisos e mais horrendos\u201d. Em recente visita \u00e0 Guatemala, pudemos ouvir in\u00fameros relatos de sindicalistas sobre tais sev\u00edcias. Como n\u00e3o comparar com a pr\u00e1tica nazi-israelense dos ventres abertos \u00e0 ponta de baioneta, quando lembramos os 30 anos do massacre do campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila? Como esquecer dos soldados sionistas, em pleno s\u00e9culo 21, praticando tiro ao alvo nos olhos das crian\u00e7as palestinas, vazados pelas balas de a\u00e7o revestidas com borracha?<\/p>\n<p><strong>O GENOCIDA R\u00cdOS MONTT<\/strong><\/p>\n<p>Em maio de 2013, no julgamento em que R\u00edos Montt foi condenado por \u201cgenoc\u00eddio\u201d pelas atrocidades cometidas, a ju\u00edza Jazm\u00edn Barrios possibilitou que 149 mulheres da etnia ixil rememorassem o horror dos \u201cestupros coletivos\u201d praticados contra suas aldeias h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. \u201cO primeiro que perguntaram foi se d\u00e1vamos comida aos guerrilheiros. Respondi que sequer os conhecia. Na casa estava minha filha, de uns 17 anos, e dois dos seus irm\u00e3os pequenos. Os soldados arrancaram sua roupa, separaram suas pernas com for\u00e7a e come\u00e7aram a estupr\u00e1-la em frente \u00e0s crian\u00e7as, que choravam de medo\u201d.<\/p>\n<p>A contund\u00eancia da narrativa de senhoras de 50 a 60 anos amplificou o circo de horrores que transborda dos informes da Recupera\u00e7\u00e3o da Mem\u00f3ria Hist\u00f3rica (Remhi) da Confer\u00eancia Episcopal Guatemalteca (CEG), e da Comiss\u00e3o de Esclarecimento Hist\u00f3rico, patrocinada pela ONU. \u201cOs estupros foram utilizados como instrumento de tortura e escravid\u00e3o sexual, com a viola\u00e7\u00e3o reiterada da v\u00edtima\u201d. \u201cSe tens marido, ent\u00e3o te estupram entre cinco e dez soldados. Se \u00e9s solteira s\u00e3o 15 ou 20\u201d. \u201cMeu tio ia por um caminho com sua filha e uma neta, quando uma patrulha militar conseguiu agarrar as meninas. A crian\u00e7a de sete anos mataram, porque foram tantos os soldados que passaram sobre ela&#8230;\u201d. \u201cAlguns soldados estavam doentes de s\u00edfilis ou de gonorreia. A ordem foi que estes passassem por \u00faltimo, quando os s\u00e3os j\u00e1 tivessem estuprado\u201d.<\/p>\n<p>Soam rid\u00edculas as alega\u00e7\u00f5es de que tantos e t\u00e3o flagrantes abusos tenham sido a\u00e7\u00f5es individuais e \u00e9 ris\u00edvel o empenho das ag\u00eancias internacionais de not\u00edcia \u2013 as mesmas que blindaram os crimes perpetrados &#8211; para que seja esquecido o entranhado envolvimento dos EUA e do atual presidente guatemalteco, Otto P\u00e9rez Molina, no passado que n\u00e3o passou.<\/p>\n<p>\u201cFoi um servi\u00e7o completo, com planejamento at\u00e9 o \u00faltimo detalhe\u201d, relata Hector Gramajo, l\u00edder militar guatemalteco, lembrando que as zonas de resist\u00eancia popular \u00e0 entrega do pa\u00eds ao estrangeiro eram apontadas como \u201cvermelhas\u201d. Nelas, a luta deveria ser \u201csem quartel: todos deveriam ser executados e as aldeias arrasadas\u201d. (Schirmer, J. The Guatemalan military Project: a violence called democracy. Philadelphia: University of Pensylvania, Press, 1998).<\/p>\n<p><strong>AS MENTIRAS DE REAGAN<\/strong><\/p>\n<p>Foi durante a administra\u00e7\u00e3o do presidente estadunidense Ronald Reagan, lembra Greg Grandin, que \u201co governo da Guatemala cometeu suas piores atrocidades\u201d. \u201cCom a ascens\u00e3o de R\u00edos Montt ao poder e o in\u00edcio da campanha de terra arrasada, o governo Reagan passou a fazer um vigoroso lobby pela retomada da ajuda militar\u201d, destaca o autor, \u201cconquanto um documento liberado da CIA deixe claro que, j\u00e1 em fevereiro de 1982, os analistas norte-americanos estivessem cientes das crescentes viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos\u201d. Em dezembro de 1982, no \u201cauge da sanguinol\u00eancia\u201d, o presidente cowboy encontrou-se em Honduras com R\u00edos Montt, \u201co general do Ex\u00e9rcito que, na qualidade de chefe do Estado, presidia a pior fase do genoc\u00eddio\u201d e declarou que este era \u201cinjusti\u00e7ado\u201d pelos cr\u00edticos e estava \u201ctotalmente comprometido com a democracia\u201d (The New York Times, 5.12.1982).<\/p>\n<p>Em janeiro de 1983, de olho na venda de armamentos ao pa\u00eds e no apoio da ditadura guatemalteca aos \u201ccontras\u201d &#8211; mercen\u00e1rios que combatiam a revolu\u00e7\u00e3o sandinista na Nicar\u00e1gua -, o porta-voz do Departamento de Estado, John Hughes, comemora que R\u00edos Montt havia conseguido um \u201cdecl\u00ednio extraordin\u00e1rio\u201d nos abusos cometidos.<\/p>\n<p>Apesar do forte bloqueio, as informa\u00e7\u00f5es sobre os crimes come\u00e7aram a fugir do controle. Mesmo dentro dos EUA, a opini\u00e3o p\u00fablica passou a pressionar contra o apoio ao regime fascista. Ent\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o israelense como \u201ctesta-de-ferro\u201d na Guatemala caiu como uma luva para \u201ccontornar a proibi\u00e7\u00e3o\u201d votada pelo Congresso.<\/p>\n<p>Obviamente, v\u00e1rias empresas estadunidenses tamb\u00e9m se utilizaram de artif\u00edcios para desrespeitar a decis\u00e3o que defendia a vida, mas contrariava os seus neg\u00f3cios. \u201cLeon Kopyt, o presidente da Mass Transit Systems Corporation da Filad\u00e9lfia, contou a um jornalista que fazia anos que sua empresa fornecia ao governo guatemalteco miras laser de fuzil, embora a solicita\u00e7\u00e3o de venda desses produtos tivesse sido indeferida pelo Office of Munitions. A Mass Transit driblou a proibi\u00e7\u00e3o do Congresso simplesmente comprando as miras laser de uma empresa estrangeira e revendendo-as ao ex\u00e9rcito guatemalteco. Por sua pr\u00f3pria natureza, \u00e9 dif\u00edcil determinar a extens\u00e3o dessas linhas de suprimento militar il\u00edcito\u201d, relata o autor.<\/p>\n<p><strong>PARCERIA SANGUIN\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p>De uma ou de outra forma, \u201ca opera\u00e7\u00e3o militar israelense-guatemalteca se iniciou plenamente em 1974, quando os dois pa\u00edses firmaram um acordo sobre armas\u201d. (Rubenberg, C. A. Israel and Guatemala: arms, advice anda counterinsurgency, Middle East Report, May-June, 1986)<\/p>\n<p>Assim, \u201cem quest\u00e3o de meses\u201d, chegaram ao pa\u00eds avi\u00f5es, carros blindados, fuzis de artilharia, submetralhadoras Uzi e fuzis de assalto Galil, assim como t\u00e9cnicos e instrutores militares israelenses. Quando os EUA cortaram parte da ajuda em 1977, Israel passou a ser o principal fornecedor de armamento e tecnologia militar da Guatemala (Lusane, C. Israeli Arms in Central America, Covert Action, winter, 1984).<\/p>\n<p>\u201cA partir de 1977, Israel mandou para a Guatemala onze avi\u00f5es de transporte Arava, dez tanques, 120 mil toneladas de muni\u00e7\u00e3o, tr\u00eas barcos patrulheiros Tair, um novo sistema t\u00e1tico de r\u00e1dio e um grande carregamento de morteiros de 81 mil\u00edmetros, bazucas, granadas e submetralhadoras Uzi. E, em 1982, as tropas guatemaltecas receberam, em Puerto Barrios, dez tanques no valor de 34 milh\u00f5es de d\u00f3lares. A CIA e o Pent\u00e1gono providenciaram para que a carga chegasse da B\u00e9lgica, passando pela Rep\u00fablica Dominicana\u201d (Nairn, A, The Guatemala connection, The Progressive, maio 1986).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nessa d\u00e9cada, aponta Greg Grandin, o governo israelense ajudou a instalar a Ind\u00fastria Militar Guatemalteca, em Alta Verapaz, para fabricar muni\u00e7\u00f5es para os fuzis Galil \u2013 que j\u00e1 monopolizavam o pa\u00eds &#8211; e as submetralhadoras Uzi. Em 1979, t\u00e9cnicos da Tadiran Israel Eletronics instalaram um centro de computa\u00e7\u00e3o na capital do pa\u00eds, que se integrou ao Centro Regional de Telecomunica\u00e7\u00f5es e come\u00e7ou a funcionar em 1980. Em 1981, foi aberta a Escola de Transmiss\u00f5es e Eletr\u00f4nica do Ex\u00e9rcito, \u201cconstru\u00edda e financiada por Israel e dotada de pessoal israelense, para treinar militares em tecnologia de contrainsurg\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Nesta toada, em 1992, havia pelo menos trezentos peritos em intelig\u00eancia israelense no pa\u00eds centro-americano, entre \u201cespecialistas em seguran\u00e7a e comunica\u00e7\u00f5es e pessoal de treinamento militar\u201d. (The New York Times, 17.4.1982).<\/p>\n<p>O resultado da parceria EUA-Israel na Guatemala n\u00e3o poderia ser outro que n\u00e3o o \u201cterror em escala industrial\u201d. \u201cNo curso de duas d\u00e9cadas, at\u00e9 o t\u00e9rmino da guerra em 1996, o Estado havia matado duzentas mil pessoas, feito desaparecer com 40 mil e torturado n\u00e3o se sabe quantos milhares mais\u201d, aponta Greg Grandin.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, mais do que em laborat\u00f3rio, a Guatemala foi convertida \u2013 como enfatiza o autor &#8211; em \u201ccampo de exterm\u00ednio da Guerra Fria\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5484\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5484","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1qs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5484"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5484\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}