{"id":5527,"date":"2013-10-07T12:38:34","date_gmt":"2013-10-07T12:38:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5527"},"modified":"2013-10-07T12:38:34","modified_gmt":"2013-10-07T12:38:34","slug":"pre-sal-e-o-embate-geopolitico-estrategico-a-maior-privatizacao-da-historia-politica-do-brasil-entrevista-especial-com-ildo-sauer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5527","title":{"rendered":"Pr\u00e9-sal e o embate geopol\u00edtico estrat\u00e9gico. A maior privatiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. Entrevista especial com Ildo Sauer"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201c\u00c9 um absurdo que um pa\u00eds, sem saber quanto tem de petr\u00f3leo, coloque em leil\u00e3o um campo com gigantesca dimens\u00e3o\u201d, declara o engenheiro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNenhum pa\u00eds do mundo faz o que o Brasil est\u00e1 fazendo: leiloar aos poucos o acesso da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo de campos cujo total \u00e9 desconhecido\u201d, adverte\u00a0<strong>Ildo Sauer<\/strong>, em entrevista concedida \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>, ao comentar o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/524077-a-indignacao-dos-brasileiros-com-o-leilao-do-petroleo-do-campo-de-libra\" target=\"_blank\">leil\u00e3o do Campo de Libra<\/a>, anunciado para 21 de outubro deste ano. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a iniciativa da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u00e9 equivocada, porque \u201cn\u00e3o faz sentido\u201d colocar em leil\u00e3o o<strong>Campo de Libra<\/strong>, que, \u201csegundo a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/523928-ausencia-de-gigantes-petroliferas-em-leilao-do-campo-de-libra-frustra-anp\" target=\"_blank\">Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo \u2013 ANP<\/a>, pode ter entre 8 e 12 bilh\u00f5es de barris, apesar de haver estimativas de que possa chegar a 15 bilh\u00f5es de barris. Se os dados forem esses, trata-se da maior descoberta do pa\u00eds\u201d. De acordo com ele, o \u201cBrasil n\u00e3o sabe se tem 50 bilh\u00f5es, 100 bilh\u00f5es ou 300 bilh\u00f5es de barris. Se o pa\u00eds tiver 100 bilh\u00f5es, estar\u00e1 no grupo de pa\u00edses de grandes reservas, se tiver 300 bilh\u00f5es, ser\u00e1 o dono da maior reserva do mundo, porque 264 bilh\u00f5es \u00e9 o volume de barris da Ar\u00e1bia Saudita\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone,\u00a0<strong>Sauer<\/strong>explica como ocorreu o processo de investiga\u00e7\u00e3o da camada pr\u00e9-sal e as raz\u00f5es que levam o Estado brasileiro a optar pelo leil\u00e3o, ao inv\u00e9s de contratar a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/524068-libra-por-que-nao-a-petrobras\" target=\"_blank\">Petrobras<\/a> para explorar as novas reservas petrol\u00edferas. \u201cA minha perplexidade e apreens\u00e3o \u00e9 de que o\u00a0<strong>Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica<\/strong>, comandado pela\u00a0<strong>Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/strong>, deliberou colocar esse campo em leil\u00e3o. Parece-me que essa decis\u00e3o \u00e9 baseada em problemas da macroeconomia, das contas externas e do d\u00e9ficit p\u00fablico, que tem sofrido uma deteriora\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel nas contas\u201d, menciona. E dispara: \u201cAt\u00e9 agora, a estrat\u00e9gia brasileira est\u00e1 completamente equivocada, e Libra \u00e9 apenas a cabe\u00e7a de ponte, \u00e9 o in\u00edcio de um processo de deteriora\u00e7\u00e3o e de um papel subalterno que o Brasil est\u00e1 cumprindo nesse embate global entre os pa\u00edses que det\u00eam reservas e recursos e aqueles que querem se apropriar deles pagando o m\u00ednimo poss\u00edvel. Petr\u00f3leo n\u00e3o \u00e9 pizza, n\u00e3o \u00e9 boi, n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio qualquer\u201d.<\/p>\n<p>Ex-diretor executivo da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong>, respons\u00e1vel pela\u00a0<strong>\u00c1rea de Neg\u00f3cios de G\u00e1s e Energia<\/strong>, entre 2003 e 2007,\u00a0<strong>Sauer<\/strong>assegura que, caso a\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> fosse contratada para explorar o\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong>, seria poss\u00edvel pagar o investimento da explora\u00e7\u00e3o em no m\u00e1ximo tr\u00eas anos, garantindo uma produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo por 30 anos, com uma \u201cprodu\u00e7\u00e3o um pouco superior a 1 milh\u00e3o, 1,5 milh\u00e3o de barris por dia, que daria um excedente proporcionalmente menor, mas mesmo assim chegaria a algo entre 35, 40 bilh\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer<\/strong> alerta que, quando se trata de petr\u00f3leo, \u201cum lucro enorme est\u00e1 em disputa\u201d, e o \u201cgoverno americano quer dobrar a espinha dorsal da\u00a0<strong>OPEP<\/strong>, fazer com que haja novamente uma superprodu\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, que o pre\u00e7o caia e que os benef\u00edcios do uso do petr\u00f3leo voltem a ser apropriados pelos pa\u00edses consumidores, ou seja, os pa\u00edses desenvolvidos\u201d. E acentua: \u201cA a\u00e7\u00e3o brasileira parece que \u00e9 absolutamente ing\u00eanua ou destitu\u00edda de conhecimento do embate geopol\u00edtico estrat\u00e9gico em que est\u00e1 se dando esse teatro de opera\u00e7\u00f5es em torno do petr\u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/515064-mp-579-um-remedio-para-os-males-brasileiros-entrevista-com-ildo-sauer\" target=\"_blank\">Ildo Sauer<\/a> \u00e9 graduado em\u00a0<strong>Engenharia Civil<\/strong> pela\u00a0<strong>Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS<\/strong>, mestre em<strong>Engenharia Nuclear e Planejamento Energ\u00e9tico<\/strong> pela\u00a0<strong>Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ<\/strong> e doutor em<strong>Engenharia Nuclear<\/strong> pelo\u00a0<strong>Massachusetts Institute of Technology<\/strong>. Atualmente \u00e9 professor titular da\u00a0<strong>Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como ocorreu o processo de descoberta da camada pr\u00e9-sal, e como ficou definida que ocorreria a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer \u2013<\/strong> H\u00e1 tempo a\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> vinha investigando a possibilidade de haver petr\u00f3leo na camada\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/523936-estamos-preparados-para-o-pre-sal-e-o-gas-de-xisto\" target=\"_blank\">pr\u00e9-sal<\/a> e, para tal, ela buscou parcerias nacionais e internacionais, centros de pesquisa, empresas, para trabalhar na \u00e1rea de elabora\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o das imagens captadas da camada pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>A ideia se consolidou em 2005, quando se descobriu que abaixo do\u00a0<strong>Campo de Parati<\/strong>, que tem uma camada de 300 metros de sal, havia petr\u00f3leo leve, ou seja, um pequeno \u201cbols\u00e3o\u201d do pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>Foi isso que deu confian\u00e7a \u00e0 diretoria da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> para, em 2006, autorizar a reentrada de investiga\u00e7\u00e3o para averiguar se havia ou n\u00e3o mais po\u00e7os de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Na primeira tentativa de investiga\u00e7\u00e3o, chegou-se ao sal sem encontrar petr\u00f3leo. Por conta disso, houve uma longa discuss\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, e a diretoria da Petrobras autorizou a reentrada da plataforma da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/507784-chevronetransoceantentaramchegaraopre-saldizprocurador\" target=\"_blank\">TransOcean<\/a> no Campo \u2014 a um custo de 264 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2014, que perfurou os 3 km de sal e encontrou petr\u00f3leo leve. Estava, ent\u00e3o, nesse momento, confirmado o modelo geol\u00f3gico do pr\u00e9-sal, assim como uma nova realidade muito alvissareira e auspiciosa para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A not\u00edcia foi repassada ao presidente da Rep\u00fablica em 2006, mas mesmo assim o governo federal manteve o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/519832-exploracao-estrangeira-de-petroleo-no-brasil-trara-um-prejuizo-de-um-trilhao-de-dolares-entrevista-especial-com-paulo-metri\" target=\"_blank\">leil\u00e3o de petr\u00f3leo<\/a>, o qual posteriormente foi anulado na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A\u00ed h\u00e1 um paradoxo que \u00e9 importante sacar: de um lado a Petrobras avan\u00e7ou em suas pesquisas e comunicou ao presidente da Rep\u00fablica, \u00e0 \u00e9poca\u00a0<strong>Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/strong>, e \u00e0 presidente do\u00a0<strong>Conselho Nacional de Pol\u00edticas Energ\u00e9ticas<\/strong>, que naquele tempo era a\u00a0<strong>Senhora Rousseff<\/strong>, que est\u00e1vamos tendo um contexto petrol\u00edfero no pa\u00eds, mas o governo decidiu leiloar o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><strong>Primeiros po\u00e7os de petr\u00f3leo<\/strong><\/p>\n<p>Em 2006, descobriu-se o primeiro po\u00e7o de petr\u00f3leo, em seguida, o segundo, que confirmou e permitiu delimitar a extens\u00e3o do\u00a0<strong>Campo de Tupi<\/strong>, algo em torno de cinco a oito bilh\u00f5es de barris.<\/p>\n<p>Trata-se de uma descoberta gigantesca para o tipo de campo que se vinha descobrindo no Brasil, na camada p\u00f3s-sal. A partir da\u00ed come\u00e7amos a entender que o p\u00f3s-sal possivelmente tamb\u00e9m seria petr\u00f3leo formado no pr\u00e9-sal e que, ao se romper a camada de sal por causa dos movimentos pr\u00f3ximos da costa, o petr\u00f3leo migrasse para cima e sofresse transforma\u00e7\u00f5es, se tornando mais pesado por conta desse processo, retendo-se em camadas imperme\u00e1veis superiores acima do sal, formando aqueles bols\u00f5es de petr\u00f3leo de menor dimens\u00e3o, que s\u00e3o do p\u00f3s-sal, os quais tinham garantido a ef\u00eamera autossufici\u00eancia do Brasil em 2006. Entretanto, tal descoberta foi t\u00e3o festejada quanto abandonada por causa da\u00a0<strong>Pol\u00edtica Energ\u00e9tica Brasileira<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o ao etanol e \u00e0s pol\u00edticas da expans\u00e3o da frota de ve\u00edculos. Hoje o Brasil importa petr\u00f3leo e derivados, ou seja, h\u00e1 um preju\u00edzo para a\u00a0<strong>Petrobras<\/strong>. De qualquer maneira, o p\u00f3s-sal e o pr\u00e9-sal t\u00eam essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2007, foi constru\u00eddo o segundo po\u00e7o, o qual permitiu dimensionar o\u00a0<strong>Campo de Tupi<\/strong>. Em novembro de 2007, foi feita a retirada de 42 blocos do entorno de\u00a0<strong>Tupi<\/strong>, mas mantido o leil\u00e3o, apesar de ter sido desaconselhado pelo\u00a0<strong>Clube de Engenharia<\/strong>, pelos dirigentes da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> e pelos movimentos sociais. Todos diziam que o governo deveria esperar para dimensionar as reservas do pr\u00e9-sal, concluir o processo explorat\u00f3rio e avaliar o que fazer com tais reservas.<\/p>\n<p><strong>Estrat\u00e9gia<\/strong><\/p>\n<p>Em qualquer lugar do mundo, quando se descobre uma nova prov\u00edncia petrol\u00edfera ou mineral, se faz um esfor\u00e7o para dimension\u00e1-la. Mas isso at\u00e9 hoje n\u00e3o foi feito no Brasil, e \u00e9 um dos primeiros problemas que temos em rela\u00e7\u00e3o ao<strong>Campo de Libra<\/strong>. Deveria ter sido feita a conclus\u00e3o do processo explorat\u00f3rio, que significava simplesmente concluir as s\u00edsmicas. A\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> poderia ser contratada para fazer isso. Nenhum pa\u00eds do mundo faz o que o Brasil est\u00e1 fazendo: leiloar aos poucos o acesso da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo de campos cujo nem o total do pr\u00e9-sal \u00e9 conhecido, nem dos campos individuais. O\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong> est\u00e1 indo a leil\u00e3o com apenas um po\u00e7o, o que n\u00e3o permite delimitar com precis\u00e3o qual \u00e9 o volume de petr\u00f3leo existente. Ningu\u00e9m vende uma fazenda cheia de bois sem contar o n\u00famero de bois. Quer dizer, n\u00e3o faz sentido colocarmos em leil\u00e3o o\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong>, que, segundo a\u00a0<strong>Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo \u2013 ANP<\/strong>, pode ter entre 8 e 12 bilh\u00f5es de barris, apesar de haver estimativas de que possa chegar a 15 bilh\u00f5es de barris. Se os dados forem esses, trata-se da maior descoberta do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Por que a decis\u00e3o de leiloar esses campos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer \u2013<\/strong> A decis\u00e3o \u00e9 da\u00a0<strong>Senhora Rousseff<\/strong>, que preside o\u00a0<strong>Conselho Nacional de Pol\u00edticas Energ\u00e9ticas<\/strong>. Deu na veneta dela reunir o\u00a0<strong>Conselho<\/strong>, composto pelos ministros a ela subordinados, e presidentes de \u00f3rg\u00e3os pela presid\u00eancia nomeados, que est\u00e3o l\u00e1 para referendar as vontades do pr\u00edncipe, ou nesse caso, da princesa. Ent\u00e3o, \u00e9 um absurdo que um pa\u00eds, sem saber quanto tem de petr\u00f3leo, coloque em leil\u00e3o um campo com essa gigantesca dimens\u00e3o de petr\u00f3leo. O governo nem sequer se deu ao trabalho de concluir a explora\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Libra<\/strong>, quando deveria ter conclu\u00eddo os dados do pr\u00e9-sal como um todo para sabermos se temos os 50 bilh\u00f5es de barris mais ou menos j\u00e1 confirmados com a sucess\u00e3o de descobertas dos v\u00e1rios campos, desde\u00a0<strong>Parati<\/strong>,<strong> Tupi<\/strong>,<strong> Libra<\/strong>,<strong> Franco<\/strong> e todos os outros que vieram depois e j\u00e1 foram anunciados.<\/p>\n<p>Ao longo de 60 anos de p\u00f3s-sal, que se completam no dia 3 de outubro, a<strong> Petrobras<\/strong> descobriu cerca de 20 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo, produziu cinco bilh\u00f5es, est\u00e1 produzindo cerca de 700 milh\u00f5es de barris por ano nos \u00faltimos tempos \u2013 a produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 estagnada nesse patamar de dois milh\u00f5es de barris por dia. Hoje a estatal tamb\u00e9m tem reservas convencionais de p\u00f3s-sal da ordem de 15 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Obviamente, quando num leil\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 precis\u00e3o nem certifica\u00e7\u00e3o do volume de petr\u00f3leo, isso \u00e9 precificado contra quem leiloa. Ningu\u00e9m vai oferecer algo ao governo se n\u00e3o tiver certeza do produto que pretende comprar. Ent\u00e3o, nesse sentido, h\u00e1 uma s\u00e9rie de movimentos sociais apoiados por pesquisadores e professores, que est\u00e3o buscando o caminho das manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e da\u00a0<strong>Justi\u00e7a<\/strong> para impedir esse leil\u00e3o, o qual n\u00e3o conv\u00e9m ao interesse p\u00fablico e nacional.<\/p>\n<p>A minha perplexidade e apreens\u00e3o \u00e9 de que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/524024-por-que-o-leilao-de-libra-golpeia-o-pais\" target=\"_blank\">Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica<\/a>, comandado pela<strong>Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/strong>, deliberou colocar esse campo em leil\u00e3o. Parece-me que essa decis\u00e3o \u00e9 baseada em problemas da macroeconomia, das contas externas e do d\u00e9ficit p\u00fablico, que tem sofrido uma deteriora\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel nas contas. De modo que essa proposta de pedir 15 milh\u00f5es de reais de pagamento de b\u00f4nus para assinatura \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tem sentido, pois s\u00f3 piora o resultado final do leil\u00e3o, na medida em que algu\u00e9m precisa, de antem\u00e3o, pagar um valor t\u00e3o grande.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como avalia a modalidade de contrato de partilha de produ\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer \u2013<\/strong> A lei da partilha de produ\u00e7\u00e3o foi sancionada pelo presidente\u00a0<strong>Lula<\/strong> nos \u00faltimos dias de seu governo, se n\u00e3o no \u00faltimo. Ele, ao longo de oito anos, alegremente exercitou o modelo da concess\u00e3o, o qual dizia, enquanto candidato \u00e0 presid\u00eancia, combater e alterar, apesar de o manter intacto e inalterado durante seu governo. De todo modo, acabou criando o modelo de contrato de partilha. Este modelo tem uma \u00fanica v\u00e1lvula de escape que \u00e9 interessante para a na\u00e7\u00e3o, ou seja, uma cl\u00e1usula que permite a contrata\u00e7\u00e3o direta da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> sem licita\u00e7\u00e3o. Por que o governo n\u00e3o est\u00e1 exercitando essa op\u00e7\u00e3o? \u00c9 preciso perguntar. Por que o governo tamb\u00e9m n\u00e3o cumpre aquelas cl\u00e1usulas que s\u00e3o princ\u00edpios b\u00e1sicos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que exigem impessoalidade, publicidade, efici\u00eancia e moralidade?<\/p>\n<p>O modelo de contrato de partilha de produ\u00e7\u00e3o adotado no Brasil prev\u00ea o seguinte: o governo pode contratar diretamente a Petrobras e, de forma transparente, negociar com ela, ou seja, negociar como se daria a produ\u00e7\u00e3o, em que ritmo, quais parceiros a\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> poderia ter em raz\u00e3o da dificuldade financeira pela qual est\u00e1 passando. Essa dificuldade financeira foi criada pelo pr\u00f3prio governo, ao impor \u00e0\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> uma esp\u00e9cie de ass\u00e9dio moral, onde a estatal n\u00e3o est\u00e1 cumprindo a lei, porque a lei manda praticar pre\u00e7os competitivos. Hoje parte da gasolina, do diesel, do g\u00e1s natural est\u00e1 sendo importada a pre\u00e7os superiores aos de venda interna, causando preju\u00edzo. A Petrobras est\u00e1 descapitalizada por esse longo processo que vem ocorrendo desde 2008 para c\u00e1, e nesse momento a empresa est\u00e1 comprometida com um plano de investimento estrat\u00e9gico de longo prazo bastante grande. \u00c9 nesse contexto que o governo decide fazer o<strong> leil\u00e3o de Libra<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Leil\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico<\/strong><\/p>\n<p>O governo n\u00e3o est\u00e1 leiloando somente o\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong> sem saber a sua dimens\u00e3o, mas est\u00e1 leiloando outro patrim\u00f4nio p\u00fablico, que \u00e9 a capacita\u00e7\u00e3o de a pr\u00f3pria\u00a0<strong>Petrobras<\/strong>, que foi constru\u00edda ao longo de seis d\u00e9cadas, operar. A empresa pode ter um eventual parceiro, que vir\u00e1 a ser um mero s\u00f3cio financeiro, mas que poder\u00e1 ter at\u00e9 70% do volume de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o procedimento que o governo est\u00e1 adotando? O leil\u00e3o vai definir qual \u00e9 a fra\u00e7\u00e3o do \u00f3leo lucro, depois de deduzir todas as despesas de investimento. Eu estimo que esse\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong> ter\u00e1 entre 15 e 22 plataformas, ao custo de tr\u00eas a quatro bilh\u00f5es de d\u00f3lares cada uma, e teremos algo entre 60 e 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, mas poder\u00e1 entrar no ritmo de produ\u00e7\u00e3o algo em torno de um a dois milh\u00f5es de barris por dia, se for tomada a decis\u00e3o microecon\u00f4mica de produzir o quanto antes mais petr\u00f3leo, como querem todos aqueles que operam em raz\u00e3o do regime financeiro, a qual \u00e9 inadequada para a explora\u00e7\u00e3o desse petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, exaurindo 15 bilh\u00f5es de barris em 20 anos, ser\u00e1 poss\u00edvel ter uma m\u00e9dia de dois bilh\u00f5es de barris por dia, que gerariam um excedente econ\u00f4mico t\u00edpico, cujo custo est\u00e1 em torno de 15 d\u00f3lares. Com o custo de capital, mais opera\u00e7\u00e3o, mais os 15% de royalties, chegaremos a 30 d\u00f3lares de custo. De maneira que o excedente de 70 d\u00f3lares por barril, a um pouco mais de 700 milh\u00f5es de barris por ano, dois milh\u00f5es por dia, significa um excedente de 50 bilh\u00f5es. Portanto, em um ano ou dois, \u00e9 poss\u00edvel pagar o investimento com esse ritmo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o ritmo de produ\u00e7\u00e3o for mais lento, no caso de estender a produ\u00e7\u00e3o por 30 anos, ter\u00edamos uma produ\u00e7\u00e3o um pouco superior a um milh\u00e3o, 1,5 milh\u00e3o de barris por dia, que daria um excedente proporcionalmente menor, mas mesmo assim chegaria a algo entre 35, 40 bilh\u00f5es, o que novamente permitiria pagar em dois anos e meio, tr\u00eas anos, todo o investimento. A partir da\u00ed, sim, entra o \u00f3leo lucro.<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, da maior privatiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. O governo do\u00a0<strong>PT<\/strong>, que foi eleito se contrapondo \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es e \u00e0 privat\u00e1ria anterior, est\u00e1 agora promovendo o maior leil\u00e3o da hist\u00f3ria. Tendo um excedente econ\u00f4mico de 50 bilh\u00f5es por ano, ao longo de 20 anos, isso d\u00e1 um trilh\u00e3o de d\u00f3lares. Esse \u00e9 um valor extraordinariamente elevado para ser tratado com a displic\u00eancia com que o governo est\u00e1 tratando e com a desinforma\u00e7\u00e3o junto ao<strong>Congresso Nacional<\/strong>, \u00e0 m\u00eddia e \u00e0 sociedade. Mas o mais grave \u00e9 outro problema: a aus\u00eancia de uma estrat\u00e9gia para o pa\u00eds se inserir no mercado internacional de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do Brasil no cen\u00e1rio geopol\u00edtico? O pa\u00eds est\u00e1 atento ao significado pol\u00edtico e econ\u00f4mico da camada pr\u00e9-sal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer \u2013<\/strong> Nossa proposta \u00e9 que, primeiro, se delimite o volume de petr\u00f3leo, de forma que, sabendo quanto petr\u00f3leo se tem, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma estrat\u00e9gia nacional de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso lembrar que o conceito de royalties original \u00e9 \u201cuma retribui\u00e7\u00e3o ao soberano por ele abrir m\u00e3o de um recurso natural que n\u00e3o estar\u00e1 mais dispon\u00edvel\u201d. O soberano, de acordo com a\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/strong>, \u00e9 a na\u00e7\u00e3o brasileira. O artigo 20 da\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong> diz que os recursos do subsolo, incluindo a\u00ed o petr\u00f3leo e outros recursos minerais, pertencem \u00e0 na\u00e7\u00e3o. O artigo 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o garante aos brasileiros direitos sociais, acesso a educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia e outros. O governo diz que n\u00e3o consegue cumprir os direitos sociais porque n\u00e3o possui recursos, mas n\u00e3o considera os recursos que est\u00e3o assegurados \u00e0\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>pelo artigo 20. Ent\u00e3o, o caminho mais razo\u00e1vel \u00e9 delimitar as reservas de petr\u00f3leo, fazer um plano nacional de desenvolvimento econ\u00f4mico e social, saber quanto o governo precisa investir todos os anos em educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, sa\u00fade p\u00fablica, reforma urbana, mobilidade, informatiza\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o ambiental, ci\u00eancia e tecnologia, infraestrutura produtiva e, acima de tudo, em um programa que assegure ao Brasil, \u00e0 medida que o petr\u00f3leo for se exaurindo, capacidade suprir as necessidades energ\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Tendo um plano nacional nessa dimens\u00e3o, seria poss\u00edvel estimar qual a produ\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo necess\u00e1rio para financiar esse plano. Mas isso \u00e9 o contr\u00e1rio do que o governo est\u00e1 fazendo. As den\u00fancias de espionagem dos Estados Unidos junto \u00e0\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> e ao governo federal se vincula diretamente a esse problema geopol\u00edtico e estrat\u00e9gico. O governo parece que n\u00e3o se deu conta da dimens\u00e3o que isso tem. Fazer o controle do ritmo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para manter o pre\u00e7o do produto. E quem tem de reter essa capacidade de definir o ritmo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o governo federal. Na medida em que se outorga o contrato de concess\u00e3o ou de partilha, que tem cl\u00e1usulas predefinidas sobre o ritmo de produ\u00e7\u00e3o, o cons\u00f3rcio opera segundo a l\u00f3gica microecon\u00f4mica e busca retirar, o quanto antes, o maior volume de recursos financeiros poss\u00edvel daquele contrato de concess\u00e3o ou de partilha, que neste caso pode se transformar num verdadeiro problema internacional.<\/p>\n<p><strong>Petr\u00f3leo no cen\u00e1rio mundial<\/strong><\/p>\n<p>Volto ao ponto fundamental. At\u00e9\u00a0<strong>1960<\/strong>, grande parte dos recursos de petr\u00f3leo do mundo estava na m\u00e3o das companhias de petr\u00f3leo multinacionais, comandadas pelas conhecidas sete irm\u00e3s: 84% do petr\u00f3leo estavam na m\u00e3o delas; 14%, da\u00a0<strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong>; e 2%, das empresas nacionais. Em 1960 foi criada a\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo &#8211; OPEP<\/strong>, que fez duas tentativas e transferiu o excedente econ\u00f4mico que ia para as empresas em dire\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses que detinham as reservas. Hoje, no mundo, mais de 90% das reservas de petr\u00f3leo conhecidas est\u00e3o em m\u00e3os de Estados nacionais, que t\u00eam ou empresas 100% estatais, ou empresas h\u00edbridas, como \u00e9 o caso da Petrobras.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o sabe se tem 50 bilh\u00f5es, 100 bilh\u00f5es ou 300 bilh\u00f5es de barris. Se o pa\u00eds tiver 100 bilh\u00f5es, estar\u00e1 no grupo de pa\u00edses de grandes reservas, se tiver 300 bilh\u00f5es, ser\u00e1 o dono da maior reserva do mundo, porque 264 bilh\u00f5es \u00e9 o volume de barris da Ar\u00e1bia Saudita. A Venezuela passa disso, se formos considerar o petr\u00f3leo ultrapesado. De petr\u00f3leo convencional normal, a Venezuela se encontra no patamar de 80 a 120 bilh\u00f5es de barris, onde se encontra a L\u00edbia, o Iraque, o Ir\u00e3, os Emirados \u00c1rabes, que s\u00e3o os pa\u00edses do segundo bloco.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia russa<\/strong><\/p>\n<p>A R\u00fassia passou por um processo semelhante ao que o Brasil est\u00e1 passando agora. O governo\u00a0<strong>Boris I\u00e9ltsin<\/strong> fez um modelo de entrega do petr\u00f3leo aos grandes grupos econ\u00f4micos, como\u00a0<strong>Lula<\/strong> e\u00a0<strong>Dilma<\/strong> tentaram com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/noticias-anteriores\/16055-eike-batista-quer-explorar-no-pre-sal-\" target=\"_blank\">Eike Batista<\/a>, mas n\u00e3o deu muito certo, porque ele encontrou petr\u00f3leo, mas n\u00e3o soube produzir. De toda forma, o controle das reservas mundiais e do ritmo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 feito em coordena\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>OPEP<\/strong> com a R\u00fassia. A\u00a0<strong>OPEP<\/strong> produz cerca de 25 milh\u00f5es de barris e coloca isso no mercado, junto com a R\u00fassia. Ambas produzem o volume de petr\u00f3leo necess\u00e1rio para suprir grande parte da demanda, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma interna de v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a\u00a0<strong>OPEP<\/strong> conseguiu, no choque de\u00a0<strong>1963-1969<\/strong>, aumentar o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, mas fracassou, porque a\u00a0<strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong> vendia petr\u00f3leo fora do controle para obter moeda forte e conseguir superar o bloqueio da Guerra Fria. Al\u00e9m disso, o M\u00e9xico tamb\u00e9m vendia para outros pa\u00edses, e algumas na\u00e7\u00f5es n\u00e3o cumpriam as cotas determinadas pela<strong>OPEP<\/strong>.<\/p>\n<p>Apesar disso, de 2005 para c\u00e1, a\u00a0<strong>OPEP<\/strong>, junto com a R\u00fassia, est\u00e1 mantendo o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o num patamar que tem permitido manter o pre\u00e7o do petr\u00f3leo acima de 80 d\u00f3lares, 100 d\u00f3lares, que seria o pre\u00e7o pelo qual \u00e9 poss\u00edvel obter um substituto, que seria, nesse caso, a liquefa\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o, que custa muito e polui. Esse pre\u00e7o regulador \u00e9 mais ou menos compreendido como um patamar sustent\u00e1vel desde que a\u00a0<strong>OPEP<\/strong> mantenha a coordena\u00e7\u00e3o. Se o Brasil entrar rendendo dois milh\u00f5es de barris por dia, mais o excedente que a pr\u00f3pria Petrobras est\u00e1 prevendo no plano dela, e o que o senhor\u00a0<strong>Batista<\/strong>, antes de fracassar, previa, o pa\u00eds estar\u00e1 cumprindo um papel de desestruturar a coordena\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 contra o interesse dos exportadores de petr\u00f3leo. Ali\u00e1s, \u00e9 isso que est\u00e1 na base do acordo feito pela senhora\u00a0<strong>Rousseff<\/strong> com o senhor\u00a0<strong>Obama<\/strong>, em mar\u00e7o de 2011, e anunciado pela\u00a0<strong>Casa Branca<\/strong>, dentro de um documento de estrat\u00e9gia para garantir a seguran\u00e7a energ\u00e9tica do\u00a0<strong>Premium Secure Energy Supply<\/strong>.<\/p>\n<p>Entre os pontos acordados pelos presidentes, nos interessa o ponto em que eles concordaram em compartilhar o desenvolvimento dos vastos recursos do pr\u00e9-sal. O mesmo documento diz que o governo americano tamb\u00e9m est\u00e1 negociando com o\u00a0<strong>M\u00e9xico<\/strong> a abertura do\u00a0<strong>Golfo do M\u00e9xico<\/strong>, na parte mexicana. O governo americano vai colocar em produ\u00e7\u00e3o a sua plataforma continental, de forma que o programa de biocombust\u00edveis, o programa de ci\u00eancia energ\u00e9tica e mudan\u00e7a do paradigma tecnol\u00f3gico da mobilidade, fazem parte de uma iniciativa do governo americano com o objetivo final de quebrar a\u00a0<strong>OPEP<\/strong> e fazer com que a antiga ordem volte a imperar, onde o petr\u00f3leo tem o pre\u00e7o bem mais baixo do que tem hoje.<\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o custo da produ\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo no Brasil est\u00e1 em torno de 15 d\u00f3lares. Na Ar\u00e1bia Saudita, o custo \u00e9 menos de um d\u00f3lar. De maneira que isso est\u00e1 gerando um excedente econ\u00f4mico da ordem de quase 100 d\u00f3lares o barril. O mundo que produz hoje consome cerca de 30 bilh\u00f5es de barris por ano, ao ritmo de quase 85 milh\u00f5es de barris por dia. Isso gera um excedente econ\u00f4mico entre 2 e 3 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em um\u00a0<strong>PIB<\/strong> mundial de 65 trilh\u00f5es. Portanto, um lucro enorme est\u00e1 em disputa. Hoje esse dinheiro sai dos pa\u00edses que consomem e vai para os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo. O governo americano quer dobrar a espinha dorsal da\u00a0<strong>OPEP<\/strong>, fazer com que haja novamente uma superprodu\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, que o pre\u00e7o caia e que os benef\u00edcios do uso do petr\u00f3leo voltem a ser apropriados pelos pa\u00edses consumidores, ou seja, os pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o quadro geopol\u00edtico que n\u00f3s nos encontramos, e a a\u00e7\u00e3o brasileira parece que \u00e9 absolutamente ing\u00eanua ou destitu\u00edda de conhecimento do embate geopol\u00edtico estrat\u00e9gico em que est\u00e1 se dando esse teatro de opera\u00e7\u00f5es em torno do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><strong>Brasil na geopol\u00edtica mundial<\/strong><\/p>\n<p>Vejo com muita preocupa\u00e7\u00e3o a forma com que o governo vem conduzindo o problema do\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong>, e a estrat\u00e9gia global do pr\u00e9-sal brasileiro. Provavelmente, o cen\u00e1rio que expus sobre o petr\u00f3leo, o seu papel, a sua apropria\u00e7\u00e3o social no processo produtivo da sociedade urbana e industrial que n\u00f3s constru\u00edmos no \u00faltimo s\u00e9culo, prev\u00ea que o petr\u00f3leo deve ter mais valor daqui para frente, dada a dificuldade de substitu\u00ed-lo em comiss\u00f5es de produtividade adequadas por outros recursos, como o carv\u00e3o e as renov\u00e1veis, que t\u00eam um pre\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o bastante elevado, em torno de 80 a 100 d\u00f3lares por barril. N\u00e3o havendo outras possibilidades no momento, \u00e9 poss\u00edvel que o petr\u00f3leo mantenha um pre\u00e7o elevado no futuro, desde que se tenham duas coisas: reservas certificadas, que n\u00f3s poderemos ter, e tecnologia e capacidade produtiva no entorno do complexo da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong>. Tendo essas duas coisas, \u00e9 melhor produzir apenas para fazer os investimentos naquelas prioridades que citei antes: educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, sa\u00fade p\u00fablica, reforma urbana, reforma agr\u00e1ria, ci\u00eancia de tecnologia, prote\u00e7\u00e3o ambiental e transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, e fazer parceria com pa\u00edses que dependem de petr\u00f3leo e que podem nos ajudar, como a China, a \u00cdndia e outros que poder\u00e3o nos ajudar no processo de moderniza\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva brasileira. Ou seja, \u00e9 melhor deixar o petr\u00f3leo nas reservas de maneira certificada.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, a estrat\u00e9gia brasileira est\u00e1 completamente equivocada, e<strong> Libra<\/strong> \u00e9 apenas a cabe\u00e7a de ponte, \u00e9 o in\u00edcio de um processo de deteriora\u00e7\u00e3o e de um papel subalterno que o Brasil est\u00e1 cumprindo nesse embate global entre os pa\u00edses que det\u00eam reservas e recursos e aqueles que querem se apropriar deles pagando o m\u00ednimo poss\u00edvel. Petr\u00f3leo n\u00e3o \u00e9 pizza, n\u00e3o \u00e9 boi, n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio qualquer. O petr\u00f3leo cumpriu o seu papel estrat\u00e9gico no sistema de acumula\u00e7\u00e3o em torno da hegemonia do sistema capitalista ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, permitiu avan\u00e7os extraordin\u00e1rios, um mundo de 7 bilh\u00f5es de habitantes com uma estrutura extraordin\u00e1ria de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo brasileiro parece n\u00e3o entender a dimens\u00e3o do problema, ou, por ingenuidade, por incompet\u00eancia, est\u00e1 cometendo algo que chamo de crime de responsabilidade contra o interesse nacional ao iniciar o processo de leil\u00e3o; ou seja, a maior privatiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do pa\u00eds, muito superior a todas as privat\u00e1rias dos governos anteriores, em um lance s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; A presidente da Petrobras alegou que n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es financeiras para explorar sozinha o Campo de Libra. A empresa precisa de uma parceria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ildo Sauer \u2013<\/strong> Vamos falar a verdade. Isso \u00e9 tudo jogo de cena para criar confus\u00e3o! N\u00e3o falta dinheiro para quem tem reserva de petr\u00f3leo e tem capacidade tecnol\u00f3gica. Nenhuma empresa tem dinheiro diretamente. Quem tem dinheiro s\u00e3o os bancos, o sistema financeiro e a\u00a0<strong>China<\/strong>, que hoje det\u00e9m reservas da maior monta do mundo em fun\u00e7\u00e3o do seu processo de produ\u00e7\u00e3o, exporta\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o, que financia grande parte da d\u00edvida americana, por exemplo. Ent\u00e3o, n\u00e3o falta dinheiro no mundo.<\/p>\n<p>O poss\u00edvel s\u00f3cio da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> \u00e9 um mero s\u00f3cio financeiro, que ir\u00e1 aportar um montante que for definido no leil\u00e3o, o qual pode chegar at\u00e9 70%. \u00c9 poss\u00edvel investir em outro modelo. Por isso, propomos definir uma estrat\u00e9gia brasileira em primeiro lugar, e, posteriormente, quando se decidir produzir petr\u00f3leo, chamar a Petrobras, contrat\u00e1-la, definir seus eventuais parceiros de maneira aberta e transparente, negociar as condi\u00e7\u00f5es, por exemplo, com um parceiro chin\u00eas. As empresas chinesas seriam o parceiro ideal para esse processo, assim como empresas indianas ou outras mais.<\/p>\n<p>Como disse,\u00a0<strong>Libra<\/strong>, na minha estimativa, vai custar entre 60 e 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Al\u00e9m disso, o governo precisa construir a cadeia produtiva brasileira. Infelizmente o governo n\u00e3o se planeja, n\u00e3o expande a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos, a expans\u00e3o da capacidade industrial brasileira, das \u00e1reas de servi\u00e7os. N\u00e3o adianta criar essa situa\u00e7\u00e3o que temos hoje: as empresas prometem conte\u00fado nacional, n\u00e3o cumprem, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/522936-gas-de-xisto-cientistas-brasileirose-os-proximos-leiloes-da-anp\" target=\"_blank\">ANP<\/a> as multa e acabou! Falta planejamento no pa\u00eds em todos os n\u00edveis: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, infraestrutura, nas cadeias produtivas da \u00e1rea de energias, etc. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que opera no dia a dia no improviso. E isso ficou claro com a decis\u00e3o de tentar queimar o\u00a0<strong>Campo de Libra<\/strong>para resolver um pequeno problema econ\u00f4mico das contas externas e das d\u00edvidas p\u00fablicas. De maneira que o problema financeiro \u00e9 um mito que inventaram; n\u00e3o falta dinheiro para quem tem reserva de petr\u00f3leo certificada. O n\u00edvel de endividamento da\u00a0<strong>Petrobras<\/strong> \u00e9 facilmente resolv\u00edvel mediante um modelo diferente de neg\u00f3cio, porque a lei permite. A lei n\u00e3o \u00e9 boa, ela poderia ser melhor, mas tem suficiente espa\u00e7o para fazer uma pol\u00edtica que garanta o interesse nacional e o interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p><em>(Por Patricia Fachin)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5527\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-5527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c35-o-petroleo-tem-que-ser-nosso"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1r9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5527\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}