{"id":5534,"date":"2013-10-07T23:36:32","date_gmt":"2013-10-07T23:36:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5534"},"modified":"2013-10-07T23:36:32","modified_gmt":"2013-10-07T23:36:32","slug":"dependencia-e-revolucao-socialista-a-contribuicao-de-ruy-mauro-marini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5534","title":{"rendered":"Depend\u00eancia e Revolu\u00e7\u00e3o Socialista: a contribui\u00e7\u00e3o de Ruy Mauro Marini"},"content":{"rendered":"\n<p>Ainda pouco conhecido no Brasil, Ruy Mauro Marini foi um dos maiores cr\u00edticos do nacional-desenvolvimentismo. O resgate da sua obra e milit\u00e2ncia \u00e9 uma necessidade te\u00f3rico-pol\u00edtica para os comunistas brasileiros, hoje envoltos na luta contra uma nova etapa do capitalismo dependente, que alguns analistas chamam de neodesenvolvimentismo.<\/p>\n<p>Nascido em 1932 em Barbacena, Minas Gerais, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1950, tendo estudado no curso de Direito na UFRJ, n\u00e3o conclu\u00eddo, e depois na Escola Brasileira de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, ligada \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, onde teve contato com as ideias desenvolvimentistas da CEPAL (Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina, ligada \u00e0 ONU). Em 1958, obteve bolsa de estudos para cursar o Instituto de Estudos Pol\u00edticos da Universidade de Paris.<\/p>\n<p>No contexto mundial das lutas de liberta\u00e7\u00e3o nas Am\u00e9ricas, \u00c1sia e \u00c1frica, as teorias do desenvolvimento, em voga nos centros imperialistas, come\u00e7aram a se revelar a Marini como forma de mistificar a explora\u00e7\u00e3o capitalista e como instrumento de domestica\u00e7\u00e3o dos povos do Terceiro Mundo, que se levantavam contra o imperialismo. Com isso, Marini, influenciado pelas ideias marxistas, afastava-se das perspectivas apontadas pela CEPAL, segundo a qual seria poss\u00edvel aos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina avan\u00e7arem no rumo de um capitalismo nacional aut\u00f4nomo, com vistas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do \u201catraso\u201d econ\u00f4mico decorrente das trocas comerciais desiguais entre os pa\u00edses da periferia e do centro (mercadorias prim\u00e1rias por industriais).<\/p>\n<p>A Teoria da Depend\u00eancia<\/p>\n<p>As ideias desenvolvimentistas ganharam for\u00e7a no Brasil na d\u00e9cada de 1950. Impulsionadas pelas crescentes urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o, ganharam f\u00f4lego com a pol\u00edtica adotada pelo governo JK sintetizada no Plano de Metas, pela qual se dava vaz\u00e3o a implanta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de bens de consumo dur\u00e1veis, al\u00e9m da expans\u00e3o da infraestrutura. Mas a op\u00e7\u00e3o de JK pela ampla abertura ao capital estrangeiro colocou por terra a defesa do \u201ccapitalismo nacional aut\u00f4nomo\u201d, projeto que, segundo os desenvolvimentistas, convergiria os interesses da burguesia e da classe trabalhadora por meio do aumento do emprego e da distribui\u00e7\u00e3o da renda. A burguesia brasileira se tornou, de fato, s\u00f3cia minorit\u00e1ria do capital internacional e abandonou, de vez, qualquer projeto de uma revolu\u00e7\u00e3o nacional-democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Tal avalia\u00e7\u00e3o, divergente das teses ent\u00e3o dominantes no interior da esquerda brasileira, foi difundida pelo coletivo de que Marini fez parte. Ainda na Fran\u00e7a, ele entrou em contato com o grupo que editava, no Brasil, a revista Movimento Socialista, da juventude do Partido Socialista Brasileiro, que, mais tarde, formaria a Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Marxista &#8211; Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (POLOP). Esta corrente, com bases no Rio, S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte, seria a express\u00e3o de uma esquerda revolucion\u00e1ria que discordava das teses nacional-democr\u00e1ticas defendidas ent\u00e3o pelo PCB e proporia, de forma isolada nos anos 1960, a bandeira estrat\u00e9gica da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista no Brasil, sem a etapa democr\u00e1tico-burguesa.<\/p>\n<p>Em 1962, Marini foi convidado para dar aulas na rec\u00e9m-fundada UnB, onde conviveu com Andr\u00e9\u00a0Gunder Frank, Theot\u00f4nio dos Santos e V\u00e2nia Bambirra. Ali nasceu a chamada Teoria da Depend\u00eancia, fazendo frente \u00e0s teses dualistas (atraso x desenvolvimento) presentes tanto nas an\u00e1lises dos partidos comunistas quanto da CEPAL a respeito da realidade latino-americana. A nova teoria rejeitava categoricamente a ideia do desenvolvimento capitalista para superar o atraso econ\u00f4mico dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, afirmando, pelo contr\u00e1rio, que a independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina frente ao imperialismo somente ocorreria com a supress\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas, n\u00e3o com a sua expans\u00e3o. Esta, no fundo, representaria o desenvolvimento do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>O Brasil e o subimperilaismo<\/p>\n<p>Com o golpe de 1964, Marini foi para o M\u00e9xico e para o Chile, retornando ao M\u00e9xico ap\u00f3s a derrubada do governo socialista de Allende. Neste per\u00edodo, produziu textos fundamentais para a compreens\u00e3o de suas teses, como Subdesenvolvimento e Revolu\u00e7\u00e3o (1969) e Dial\u00e9tica da Depend\u00eancia (1973), onde aparece a categoria de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, que parte da ideia segundo a qual as perdas de mais-valia sofridas pelas burguesias latino-americanas em virtude do interc\u00e2mbio desigual levam-nas a \u201cagudizar os m\u00e9todos de extra\u00e7\u00e3o do trabalho excedente\u201d, pela combina\u00e7\u00e3o de baixos sal\u00e1rios com a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho, muitas vezes obtida com a extens\u00e3o das jornadas.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m neste per\u00edodo que Marini come\u00e7ou a dar corpo \u00e0\u00a0 outra categoria fundamental de sua an\u00e1lise sobre o capitalismo dependente: o subimperialismo. Com esta categoria Marini tratava de compreender a entrada do capitalismo dependente na fase monopolista, o que se deu em especial ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra Mundial. Isso acarretava uma mudan\u00e7a na divis\u00e3o internacional do trabalho, com a emerg\u00eancia de centros intermedi\u00e1rios de acumula\u00e7\u00e3o. Entre estes, se destacava o Brasil, que passou a adotar em certos per\u00edodos uma pol\u00edtica de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica\u201d frente ao imperialismo. Da\u00ed que sua an\u00e1lise j\u00e1 apontasse para a cr\u00edtica do subimperialismo brasileiro na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, na medida em que as burguesias locais, associadas diretamente ao capital internacional, buscavam ampliar a acumula\u00e7\u00e3o com a expans\u00e3o, para o exterior, das empresas baseadas no Brasil.<\/p>\n<p>As formula\u00e7\u00f5es de Marini foram criticadas por autores como Jos\u00e9\u00a0 Serra e F. H. Cardoso, que o acusavam de \u201ccombater moinhos de vento e remar contra a corrente\u201d, dado que, na opini\u00e3o destes, o capitalismo se desenvolvia pela introdu\u00e7\u00e3o de tecnologias somente dispon\u00edveis nos pa\u00edses centrais. Tamb\u00e9m defendiam a entrada de capital estrangeiro como forma de superar a crise do in\u00edcio dos anos 1960, identificada por eles como uma crise do capitalismo nacional. Por outro lado, Ruy Mauro e outros autores marxistas viam a crise no Brasil e na Am\u00e9rica Latina como uma crise de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, refor\u00e7ada pela vincula\u00e7\u00e3o ao capital estrangeiro, materializada na presen\u00e7a das empresas transnacionais. Estas buscavam um sobre-lucro nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, que, gerado pela superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, s\u00f3 fazia agravar as desigualdades sociais.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, escrevendo sobre a nova fase do capitalismo, que muitos denominavam apologeticamente de \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, Marini identificava a configura\u00e7\u00e3o de uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho, com a constitui\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito industrial de reserva \u201cglobalizado\u201d e a tend\u00eancia \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o para o todo o sistema daquele tra\u00e7o que era pr\u00f3prio (embora n\u00e3o exclusivo) da economia dependente: a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o furor neoliberal da Era FHC, os rumos trilhados pela economia brasileira, durante os governos Lula e Dilma (que se assumem \u201cneodesenvolvimentistas\u201d), n\u00e3o se afastaram, no essencial, do modelo da depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o ao imperialismo, garantindo ainda a plena expans\u00e3o para o exterior das empresas sediadas no Brasil. Nesse sentido, \u00e9 extremamente atual a contribui\u00e7\u00e3o de Ruy Mauro Marini para o entendimento e a reflex\u00e3o sobre o quadro atual, assim como ganha relevo o projeto da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista como \u00fanica alternativa real \u00e0 depend\u00eancia dos pa\u00edses e povos ao imperialismo.<\/p>\n<p>Eduardo Serra \u00e9\u00a0professor da UFRJ e do Comit\u00ea\u00a0 Central do PCB; Ricardo Costa \u00e9 professor da Faculdade Santa Dorot\u00e9ia e do Comit\u00ea Central do PCB; Rodrigo Castelo \u00e9 professor da UNIRIO e militante do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEduardo Serra, Ricardo Costa, Rodrigo Castelo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5534\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5534","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1rg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5534\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}