{"id":5535,"date":"2013-10-07T23:41:46","date_gmt":"2013-10-07T23:41:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5535"},"modified":"2013-10-07T23:41:46","modified_gmt":"2013-10-07T23:41:46","slug":"testemunho-pessoal-sobre-alvaro-cunhal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5535","title":{"rendered":"Testemunho pessoal sobre \u00c1lvaro Cunhal"},"content":{"rendered":"\n<p>Recordar \u00c1lvaro Cunhal no seu centen\u00e1rio significa confirmarmo-nos nas nossas convic\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de luta e por um marxismo vivo e criador.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro Cunhal, na sua dimens\u00e3o de figura destacada do movimento revolucion\u00e1rio mundial, surgiu-me com a eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. Foi um daqueles acontecimentos, para os quais ele tanto contribuiu para desencadear, que evidenciou a sua excepcional dimens\u00e3o de lutador, de analista incisivo e de preclaro definidor de t\u00e1cticas e estrat\u00e9gias; um conjunto de m\u00e9rito que o catapultou para o primeiro plano a n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>Homem de ideias e pol\u00edtico l\u00facido ancorado em princ\u00edpios, Cunhal iniciou o seu empenhamento revolucion\u00e1rio desde muito jovem. Atrav\u00e9s da sua longa traject\u00f3ria mostrou a insepar\u00e1vel unidade \u2013 nas condi\u00e7\u00f5es da sua terra naqueles anos \u2013 entre a oposi\u00e7\u00e3o ao fascismo e a luta por uma mudan\u00e7a radical mais profunda, ambas essenciais \u00e0 procura de uma sociedade democr\u00e1tica e socialista. Tratava-se da necessidade da revolu\u00e7\u00e3o antifascista imbricada com uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica libertadora no caminho do socialismo.<\/p>\n<p>Ele e o Partido Comunista sob a sua direc\u00e7\u00e3o trabalharam para a uni\u00e3o de diversas for\u00e7as e converteram-se num dos maiores impulsionadores tanto da eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril como da sua radicaliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e necess\u00e1ria, particularmente com os oficiais mais avan\u00e7ados daquele movimento.<\/p>\n<p>A sua vis\u00e3o daquela experi\u00eancia onze anos depois evidenciou, uma vez mais, a sua perspic\u00e1cia pol\u00edtica e lealdade aos princ\u00edpios. Soube ao longo dos anos que se seguiram a Abril elaborar profundos e equilibrados pensamentos sobre o porvir e os resultados daquele intenso processo revolucion\u00e1rio. N\u00e3o deixou de ver sempre as suas conquistas e \u00eaxitos, mas tamb\u00e9m desvendou \u2013 como correspondia e a realidade mostrava \u2013 as suas insufici\u00eancias e indecis\u00f5es, os erros de c\u00e1lculo e as debilidades do processo enquanto<\/p>\n<p>tal. Os seus ju\u00edzos e valora\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam de se mover dentro da l\u00f3gica da an\u00e1lise marxista de classes e das profundas motiva\u00e7\u00f5es das diferentes tend\u00eancias, actores e motiva\u00e7\u00f5es. O seu exerc\u00edcio cr\u00edtico constitui uma pr\u00e1tica essencial de revolucion\u00e1rio, aquela que Marx reclamava como pr\u00f3pria das revolu\u00e7\u00f5es e dos revolucion\u00e1rios, os quais se debru\u00e7am sobre as suas ac\u00e7\u00f5es e sobre os processos para os analisar criticamente e detectar e identificar os seus desacertos e insufici\u00eancias.<\/p>\n<p>Numa significativa entrevista em 1987 fez uma escalpeliza\u00e7\u00e3o anal\u00edtica para observar, com perspicaz vis\u00e3o retrospectiva, o porvir do processo dos Cravos. Tratava-se de n\u00e3o permitir nem as tergiversa\u00e7\u00f5es interpretativas ou valorativas mas tampouco a equivocada complac\u00eancia ou o conformismo.<\/p>\n<p>Compreendia que n\u00e3o se podia admitir as deforma\u00e7\u00f5es dos acontecimentos como aquelas que menosprezaram na sua justa medida as conquistas democr\u00e1ticas alcan\u00e7adas ou as bases que se conseguiram estabelecer, apesar de essas conquistas ficarem afastadas de muitas aspira\u00e7\u00f5es essenciais do processo ou quando este, por fim, se dirigia por caminhos reformistas sob a trai\u00e7\u00e3o social-democrata; um descaminho que as for\u00e7as revolucion\u00e1rias n\u00e3o puderam evitar, dentro das quais ele e o seu Partido actuavam. Naquela entrevista, a sua interessante an\u00e1lise era que a Revolu\u00e7\u00e3o, como tal, na realidade n\u00e3o tinha terminado, isto \u00e9, ainda que muitos dos seus objectivos j\u00e1 tivessem sido em grande medida realizados, outros estavam ainda pendentes na agenda transformadora. Defendia a ideia que a revolu\u00e7\u00e3o estava viva porque as conquistas alcan\u00e7adas estavam tamb\u00e9m vivas, como era o caso da reforma agr\u00e1ria ou da legisla\u00e7\u00e3o laboral, que considerava uma das mais progressistas da Europa Ocidental; deste modo destacava nesta lista que se contava com um poder local e democr\u00e1tico e com um movimento oper\u00e1rio solidamente organizado. Mas, claro, a sua penetrante vis\u00e3o n\u00e3o podia tamb\u00e9m esquecer aquilo que se perdia; onze anos de pol\u00edtica contra-revolucion\u00e1ria estava presente na sua an\u00e1lise, numa chamada de aten\u00e7\u00e3o, num alerta aos seus compatriotas para continuarem a lutar. Por isso prevenia que as for\u00e7as reaccion\u00e1rias e contra-revolucion\u00e1rias estavam activas e existia o perigo de a sua ac\u00e7\u00e3o conduzir \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o; uma restaura\u00e7\u00e3o que desembocaria no crescimento do poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico dos monop\u00f3lios e dos latifundi\u00e1rios, ligados como estavam, al\u00e9m disso, ao imperialismo estrangeiro. Este conjunto anal\u00edtico apresentava, a seu ver, elementos para se convencer da necessidade de manter as bases revolucion\u00e1rias da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e obrigava tamb\u00e9m \u00e0 observa\u00e7\u00e3o realista da condi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds naquele contexto. Juntamente com muitos outros elementos, esse tipo de reflex\u00f5es permitia manter os fundamentos revolucion\u00e1rios dos militantes e das massas mais conscientes. Esses exerc\u00edcios incisivos e multifacetados e a rica utiliza\u00e7\u00e3o dos matizes e contradi\u00e7\u00f5es dial\u00e9cticas convertiam-se, assim, em factores chave para o desenvolvimento e aprofundamento da consci\u00eancia pol\u00edtica das massas naquelas circunst\u00e2ncias e dotavam a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de fundamentos mais s\u00f3lidos e adequados \u00e0 condu\u00e7\u00e3o da luta.<\/p>\n<p>Aquela clarivid\u00eancia para entender o mundo em que se vivia \u2013 e de que o pr\u00f3prio Portugal fazia parte \u2013juntamente com outros factores interpretativos, contribu\u00edram para que tanto ele como o seu Partido n\u00e3o se deixassem arrastar pela onda do reformismo e do oportunismo que submergiu uma boa parte das esquerdas europeias; permitia-lhes, igualmente, n\u00e3o sucumbir aos falsos cantos de sereia do eurocomunismo. E lustros de pois e at\u00e9 ao final da sua vida tamb\u00e9m se n\u00e3o deixou encantar pelas \u00abnovas\u00bb f\u00f3rmulas dos recentes reformismos, algumas das quais chegaram at\u00e9 ao abandono puro e simples<\/p>\n<p>do marxismo e de toda a ideia de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista; uma tend\u00eancia que cresceu e se aprofundou, particularmente, com a queda do socialismo do leste europeu e a desintegra\u00e7\u00e3o da URSS. Cunhal n\u00e3o abandonou o marxismo nem o leninismo, n\u00e3o claudicou nem como tantos outros caiu no oportunismo sob o pernicioso argumento de, supostamente, modernizar a esquerda, isto \u00e9, n\u00e3o enfrentar o imperialismo e n\u00e3o se opor ao capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, perante a queda daquela experi\u00eancia socialista compreendeu que a quest\u00e3o era tirar as li\u00e7\u00f5es oportunas e redefinir o fosse preciso, mas sempre dentro dos princ\u00edpios e da lealdade revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Num outro sentido, essa lealdade aos princ\u00edpios tamb\u00e9m n\u00e3o foi inibidora da necessidade de an\u00e1lise cr\u00edtica da experi\u00eancia sovi\u00e9tica e das causas profundas da sua debacle. A isto estava ligada a tese de que o socialismo sovi\u00e9tico n\u00e3o era o \u00fanico poss\u00edvel para o exerc\u00edcio de domina\u00e7\u00e3o do proletariado, nem tampouco constituiu a \u00fanica e obrigat\u00f3ria forma para um Estado socialista. Consequentemente, na sua orienta\u00e7\u00e3o para Portugal, n\u00e3o se tratava em momento algum de copiar nem os sovi\u00e9ticos nem as chamadas democracias populares. Estas reflex\u00f5es encadeiam-se com a tem\u00e1tica do Estado e a tomada do poder pol\u00edtico, quest\u00e3o central para o marxismo; uma tem\u00e1tica a que Cunhal dedicou estudos, reflex\u00f5es e esfor\u00e7os de an\u00e1lise, entrela\u00e7ando a indaga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica com o estudo das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e concretas do seu pa\u00eds e do contexto europeu onde esta se desenrolava. E era l\u00f3gico este interesse que, como sabemos, foi uma tem\u00e1tica central de Marx e Engels, e mais tarde de Lenine; na verdade, o proletariado n\u00e3o podia simplesmente agir e exercer o seu dom\u00ednio atrav\u00e9s de formas e tipos pol\u00edticos pr\u00f3prios da burguesia e do capitalismo; mas a grande quest\u00e3o que se desenhava perante os acontecimentos hist\u00f3ricos que vivia era precisamente chegar a conceber esse novo tipo de Estado e de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Portugal teria, sem d\u00favida, que ser tamb\u00e9m criador a partir da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e condi\u00e7\u00f5es, sem deixar de ter em conta os ensinamentos pertinentes de outras experi\u00eancias, particularmente europeias. Neste caso, era um cacho de problem\u00e1ticas que se entrela\u00e7ava. Pensar e esquadrinhar a natureza do Estado e da democracia, chegar \u00e0 compreens\u00e3o profunda do car\u00e1cter do Estado burgu\u00eas, tanto pela sua natureza como pela pol\u00edtica que aplica, eis uma das grandes tarefas que se imp\u00f4s. Indubitavelmente, a quest\u00e3o do Estado e a conquista do poder eram centrais para a revolu\u00e7\u00e3o, e a teoria e a praxis estavam obrigadas a enfrent\u00e1-las como tal. O marxismo tinha de manter-se como uma teoria viva, n\u00e3o como um conjunto de teorias est\u00e1ticas e fixadas no tempo. S\u00f3 vista dessa maneira \u00e9 que a concep\u00e7\u00e3o de Marx podia manter-se como o instrumento de an\u00e1lise e de ac\u00e7\u00e3o transformadora da realidade social e, por sua vez, enriquecer constantemente a teoria e adapt\u00e1-la \u00e0s novas situa\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias. Na teoria, como sabemos, n\u00e3o s\u00e3o apenas importantes as respostas mas s\u00e3o-no tamb\u00e9m as perguntas, as quest\u00f5es que se colocam. Por isso, estas tem\u00e1ticas, com o seu conjunto de problem\u00e1ticas, s\u00e3o um ind\u00edcio significativo do trabalho e da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Cunhal, porque significam um \u00edndice da compreens\u00e3o do hist\u00f3rico-social, de como funcionam e entretecem os factores, de como se expressam e se mobilizam as classes sociais, etc..<\/p>\n<p>Mas quando \u00c1lvaro Cunhal me surgiu naquela nova dimens\u00e3o com a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, f\u00ea-lo tamb\u00e9m na sua projec\u00e7\u00e3o de internacionalista, de homem profundamente irmanado com todas as causas justas da humanidade e dos oprimidos. E naquele momento brilhou, juntamente com outras figuras revolucion\u00e1rias de Abril, como anticolonialista e consequentemente anti-imperialista. Ent\u00e3o p\u00f4de desenvolver na<\/p>\n<p>praxis, com for\u00e7a maior, o modo de conjugar numa s\u00f3 frente unit\u00e1ria a luta do seu povo contra o fascismo e o capitalismo com os af\u00e3s anticoloniais e de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos pa\u00edses africanos que ficavam ainda como possess\u00f5es do colonialismo portugu\u00eas. Conhecia muito bem, e tinha-o incorporado at\u00e9 ao tutano, aquele ensinamento de Engels<\/p>\n<p>\u2013 que Marx rectificou e Lenine levou a um grau mais completo de desenvolvimento \u2013 de que um povo que oprime outro povo n\u00e3o pode ele mesmo ser livre. Foi assim que mostrou a sua profunda e l\u00facida compreens\u00e3o da dial\u00e9ctica entre a luta e a mudan\u00e7a social e liberta\u00e7\u00e3o nacional. No seu caso, precisamente, desde as mesmas entranhas da Metr\u00f3pole. A hist\u00f3ria recente das antigas col\u00f3nias e, em particular a de Angola, n\u00e3o podia compreender-se sem a ac\u00e7\u00e3o dos oficiais revolucion\u00e1rios e das for\u00e7as e dirigentes pol\u00edticos que contribu\u00edram para que, pelo menos naqueles primeiros momentos, as antigas col\u00f3nias passassem para as m\u00e3os das for\u00e7as mais radicais, que vinham desde h\u00e1 anos a lutar, e impediram que fossem as for\u00e7as pr\u00f3-imperialistas e neocolonialistas as que se assenhorearam do poder naquelas circunst\u00e2ncias. Recordar hoje \u00c1lvaro Cunhal no seu centen\u00e1rio, por tudo isto, significa confirmarmo-nos nas nossas convic\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de luta e por um marxismo vivo e criador.<\/p>\n<p>*Isabel Monal, fil\u00f3sofa e professora universit\u00e1ria cubana, amiga de odiario.info, \u00e9 directora da revista \u201cMarxismo Agora\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nIsabel Monal*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5535\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5535","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1rh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5535"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5535\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}