{"id":5540,"date":"2013-10-09T16:46:09","date_gmt":"2013-10-09T16:46:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5540"},"modified":"2013-10-09T16:46:09","modified_gmt":"2013-10-09T16:46:09","slug":"a-industria-da-mentira-parte-da-maquina-de-guerra-do-imperialismo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5540","title":{"rendered":"A ind\u00fastria da mentira, parte da m\u00e1quina de guerra do imperialismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Na hist\u00f3ria da ind\u00fastria da mentira, parte integrante do aparelho industrial militar do imperialismo, 1989 \u00e9 um ano de viragem. Nicolae Ceausescu ainda est\u00e1 no poder na Rom\u00e9nia. Como derrub\u00e1-lo? Os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais difundem de modo maci\u00e7o junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o romena informa\u00e7\u00e3o e imagens do &#8220;genoc\u00eddio&#8221; cometido em Timisoara pela pol\u00edcia por indica\u00e7\u00e3o de Ceausescu.<\/p>\n<p>Domenico Losurdo<\/p>\n<p>1. Os cad\u00e1veres mutilados<\/p>\n<p>O que acontecera na realidade? Beneficiando-se da an\u00e1lise de Debord sobre a &#8220;sociedade do espect\u00e1culo&#8221;, um ilustre fil\u00f3sofo italiano (Giorgio Agamben) sintetizou de modo magistral a hist\u00f3ria de que aqui se trata:<\/p>\n<p>&#8220;Pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, cad\u00e1veres sepultados ou alinhados sobre mesas das morgues foram desenterrados \u00e0s pressas e torturados para simular, frente \u00e0s c\u00e2maras, o genoc\u00eddio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo viu direto como verdade real, na tela da televis\u00e3o, era a n\u00e3o verdade absoluta. Embora a falsifica\u00e7\u00e3o fosse \u00f3bvia, ela todavia era autenticada como verdadeira pelo sistema midi\u00e1tico internacional, porque estava claro que agora a verdade n\u00e3o era sen\u00e3o um momento do movimento necess\u00e1rio do falso. Assim, a verdade e a mentira tornaram-se indiscern\u00edveis e o espet\u00e1culo legitimava-se unicamente mediante o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Timisoara \u00e9, neste sentido, a Auschwitz da sociedade do espet\u00e1culo: e como j\u00e1 foi dito que depois de Auschwitz \u00e9 imposs\u00edvel escrever e pensar como antes, da mesma forma, depois de Timisoara n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel ver a tela de televis\u00e3o do mesmo modo&#8221; (Agamben, 1996, p. 67).<\/p>\n<p>No ano de 1989 a transi\u00e7\u00e3o da sociedade do espet\u00e1culo para o espet\u00e1culo como t\u00e9cnica de guerra manifestou-se em escala planet\u00e1ria. Algumas semanas antes do golpe de Estado, ou seja, da &#8220;revolu\u00e7\u00e3o Cinecitt\u00e0&#8221; na Rom\u00eania (Fejt\u00f6 1994, p 263), em 17 de novembro de 1989, a &#8220;revolu\u00e7\u00e3o de veludo&#8221; triunfava em Praga agitando uma palavra de ordem de Gandhi: &#8220;Amor e Verdade&#8221;. Na realidade, um papel decisivo coube \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o da not\u00edcia falsa de que um aluno fora &#8220;brutalmente assassinado&#8221; pela pol\u00edcia. Vinte anos mais tarde, revela satisfeito um &#8220;jornalista e l\u00edder da dissid\u00eancia, Jan Urban&#8221;, protagonista da manipula\u00e7\u00e3o: a sua &#8220;mentira&#8221; havia tido o m\u00e9rito de suscitar a indigna\u00e7\u00e3o em massa e o colapso de um regime j\u00e1 periclitante (Bilefsky 2009).<\/p>\n<p>Algo semelhante acontece na China: em 08 de abril de 1989, Hu Yaobang, secret\u00e1rio do PCC at\u00e9 dois anos antes, sofreu um enfarte durante uma reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica e morreu uma semana depois. Para a multid\u00e3o na Pra\u00e7a da Paz Celestial, a sua morte est\u00e1 ligada ao duro conflito pol\u00edtico verificado no decorrer naquela reuni\u00e3o (Domenach, Richer, 1995, p 550.). De qualquer modo ele se torna v\u00edtima do sistema que se tenta derrubar. Em todos os tr\u00eas casos, a inven\u00e7\u00e3o e a den\u00fancia de um crime s\u00e3o chamados a suscitar a onda de indigna\u00e7\u00e3o de que o movimento de revolta tem necessidade. Se se consegue o \u00eaxito completo na Checoslov\u00e1quia e na Rom\u00eania (onde o regime socialista havia-se seguido ao avan\u00e7o do Ex\u00e9rcito Vermelho), esta estrat\u00e9gia falhou na Rep\u00fablica Popular da China que brotou de uma grande revolu\u00e7\u00e3o nacional e social. E aqui \u00e9 que tal fracasso se torna o ponto de partida de uma nova e mais maci\u00e7a guerra midi\u00e1tica, que \u00e9 desencadeada por uma superpot\u00eancia que n\u00e3o tolera rivais ou potenciais rivais e que ainda est\u00e1 em pleno desenvolvimento. Fica definido que o ponto da viragem hist\u00f3rica est\u00e1 em primeiro lugar em Timisoara, &#8220;a Auschwitz da sociedade do espet\u00e1culo&#8221;.<\/p>\n<p>2. &#8220;Beb\u00eas \u00e0 venda&#8221; e o corvo marinho<\/p>\n<p>Dois anos depois, em 1991, verificou-se a primeira Guerra do Golfo. Um corajoso jornalista estadunidense explicou como se deu &#8220;a vit\u00f3ria do Pent\u00e1gono sobre a m\u00eddia&#8221;, ou seja, a &#8220;derrota colossal dos media por obra do governo dos Estados Unidos&#8221; (Macarthur 1992, pp. 208 e 22).<\/p>\n<p>Em 1991, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era f\u00e1cil para o Pent\u00e1gono (nem para a Casa Branca). Tratava-se de convencer da necessidade da guerra um povo sobre o qual ainda pesava a mem\u00f3ria do Vietnam. E ent\u00e3o? Espertezas v\u00e1rias reduziram drasticamente a possibilidade de jornalistas falarem diretamente com os soldados ou reportarem diretamente a partir da frente. Na medida do poss\u00edvel, tudo deve ser filtrado: o fedor da morte e sobretudo o sangue, o sofrimento e as l\u00e1grimas da popula\u00e7\u00e3o civil n\u00e3o devem invadir as casas dos cidad\u00e3os dos EUA (e dos habitantes do mundo inteiro) como no tempo da guerra do Vietnam. Mas o problema central mais dif\u00edcil de resolver era outro: como demonizar o Iraque de Saddam Hussein, que ainda h\u00e1 alguns anos era considerado digno aos olhos dos EUA, agredindo o Ir\u00e3, que brotara da revolu\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica e antiamericana de 1979 e inclinado a fazer proselitismo no Oriente M\u00e9dio? A demoniza\u00e7\u00e3o teria sido muito mais eficaz se ao mesmo tempo a sua v\u00edtima fosse angelical. Opera\u00e7\u00e3o nada f\u00e1cil, e n\u00e3o apenas pelo fato de no Kuwait ser dura e impiedosa a repress\u00e3o de todas as formas de oposi\u00e7\u00e3o. Havia algo pior. Para executar as tarefas mais humildes, os imigrantes eram sujeitos a uma &#8220;escravatura de fato&#8221; e uma escravatura de fato que muitas vezes assumia formas s\u00e1dicas: n\u00e3o despertou particular emo\u00e7\u00e3o casos de &#8220;servos arremessados a partir do terra\u00e7o, queimados ou cegos ou espancados at\u00e9 a morte &#8221; (Macarthur 1992, pp. 44-45).<\/p>\n<p>E ainda assim&#8230; Generosamente ou fabulosamente recompensada, uma ag\u00eancia de publicidade encontra rem\u00e9dio para tudo. Esta denunciou o fato de que os soldados iraquianos cortavam as &#8220;orelhas&#8221; dos kuwaitianos que resistiam. Mas o golpe de teatro desta campanha era outro: os invasores haviam irrompido num hospital, &#8220;removendo 312 beb\u00eas das suas incubadoras e deixando-os morrer no ch\u00e3o frio do hospital de Kuwait City&#8221; (Macarthur 1992, p 54). Proclamada repetidamente pelo presidente Bush pai, confirmado pelo Congresso, endossado pela imprensa de refer\u00eancia, e at\u00e9 mesmo pela Anistia Internacional, esta not\u00edcia t\u00e3o horripilante, mas mesmo assim circunstanciada para indicar com precis\u00e3o o n\u00famero de mortes, n\u00e3o poderia deixar de provocar uma onda avassaladora de indigna\u00e7\u00e3o: Saddam Hussein era o novo Hitler, a guerra contra ele era n\u00e3o s\u00f3 necess\u00e1ria como tamb\u00e9m urgente e aqueles que se opusessem a ela ou fossem recalcitrantes deveriam ser considerados como c\u00famplices mais ou menos conscientes do novo Hitler! A not\u00edcia era obviamente uma inven\u00e7\u00e3o habilmente produzida e distribu\u00edda, mas foi para isso que a ag\u00eancia de publicidade bem merecera o seu dinheiro.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o desta hist\u00f3ria est\u00e1 contida em um cap\u00edtulo do livro aqui citado com um t\u00edtulo adequado: &#8220;Beb\u00eas \u00e0 venda&#8221; (Selling Babies). Na verdade, o &#8220;anunciado&#8221; n\u00e3o foram apenas os beb\u00e9s. Logo no in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es militares foi difundida por todo o mundo a imagem de um corvo marinho que se afogava no petr\u00f3leo a jorrar de po\u00e7os explodidos pelo Iraque. Verdade ou manipula\u00e7\u00e3o? A causa da cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica era Saddam? E h\u00e1 realmente corvos marinhos naquela regi\u00e3o do globo e naquela esta\u00e7\u00e3o do ano? A onda de indigna\u00e7\u00e3o, aut\u00eantica e habilmente manipulada, varreu a \u00faltima resist\u00eancia racional.<\/p>\n<p>3. A produ\u00e7\u00e3o do falso, o terrorismo da indigna\u00e7\u00e3o e o desencadeamento da guerra<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos um novo salto alguns anos em frente e chegamos assim \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o, ou melhor, ao desmembramento da Iugosl\u00e1via. Contra a S\u00e9rvia, que historicamente fora a protagonista do processo de unifica\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds multi-\u00e9tnico, nos meses que antecederam o bombardeamento total desencadeou-se uma onda de bombardeamentos multim\u00eddia. Em agosto de 1998, um jornalista americano e um alem\u00e3o<\/p>\n<p>&#8220;Referem-se \u00e0 exist\u00eancia de valas comuns contendo 500 cad\u00e1veres de albaneses, incluindo 430 crian\u00e7as, perto de Orahovac, onde se combateu duramente. A not\u00edcia foi retomada por outros jornais ocidentais com grande destaque. Mas era tudo falso, como evidenciado por uma miss\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o da UE &#8221; (Morozzo Della Rocca 1999, p. 17).<\/p>\n<p>Nem por isso a f\u00e1brica de falsifica\u00e7\u00f5es entrava em crise. No in\u00edcio de 1999, os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais come\u00e7aram a bombardear a opini\u00e3o p\u00fablica internacional com fotografias de cad\u00e1veres empilhados no fundo de um penhasco e, por vezes, decapitados e mutilados; as legendas e artigos que acompanhavam tais imagens proclamavam que se tratava de civis albaneses inermes massacrados pelos s\u00e9rvios. S\u00f3 que:<\/p>\n<p>&#8220;O massacre de Racak \u00e9 horrendo, com mutila\u00e7\u00f5es e cabe\u00e7as decepadas. \u00c9 um cen\u00e1rio ideal para despertar a indigna\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica internacional. Mas alguma coisa parece estranha nesta modalidade de carnificina. Os s\u00e9rvios matam habitualmente sem fazer mutila\u00e7\u00f5es [&#8230;] Como ensina a guerra na B\u00f3snia, as den\u00fancias de brutalidade sobre corpos, sinais de tortura, decapita\u00e7\u00f5es, s\u00e3o uma arma da propaganda difundida [&#8230;] Talvez n\u00e3o fossem os s\u00e9rvios, mas sim os guerrilheiros albaneses que mutilaram os corpos&#8221; (Morozzo Della Rocca 1999, p. 249).<\/p>\n<p>Ou, talvez, os corpos das v\u00edtimas de um dos inumer\u00e1veis confrontos entre grupos armados tivessem sido submetidos a um tratamento sucessivo, a fim de fazer acreditar numa execu\u00e7\u00e3o a frio e num desencadeamento de f\u00faria bestial, da qual era imediatamente acusado o pa\u00eds que a OTAN se preparava para bombardear (Saillot 2010, pp. 11-18).<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o de Racak foi apenas o culminar de uma campanha de desinforma\u00e7\u00e3o obstinada e cruel. Alguns anos antes, o bombardeamento do mercado de Sarajevo havia permitido \u00e0 OTAN erguer-se como suprema autoridade moral, que n\u00e3o se podia permitir deixar impune a &#8220;atrocidade&#8221; s\u00e9rvia. Hoje em dia pode-se ler, mesmo no Corriere della Sera, que &#8220;foi uma bomba de paternidade muito duvidosa a fazer o massacre no mercado de Sarajevo provocando a interven\u00e7\u00e3o da OTAN&#8221; (Venturini 2013). Com este precedente anterior, Racak aparece hoje como uma esp\u00e9cie de reedi\u00e7\u00e3o de Timisoara, uma reedi\u00e7\u00e3o prolongada por alguns anos. E no entanto, tamb\u00e9m neste caso, houve \u00eaxito. O ilustre fil\u00f3sofo que em 1990 havia denunciado &#8220;o Auschwitz da sociedade do espet\u00e1culo&#8221; verificado em Timisoara, cinco anos depois alinhava-se ao coro dominante, trovejando de forma manique\u00edsta contra &#8220;o deslize repentino da classe dirigente ex-comunista no racismo mais extremo (como na S\u00e9rvia, com o programa de limpeza \u00e9tnica)&#8221; (Agamben 1995, pp. 134-35). Depois de haver agudamente analisado a tr\u00e1gica indiscernibilidade da &#8220;verdade e falsidade&#8221; na sociedade do espet\u00e1culo, ele acaba, involuntariamente, por confirm\u00e1-la, aceitando de modo precipitado a vers\u00e3o (ou seja, a propaganda de guerra) difundida no &#8220;sistema mundial de m\u00eddia&#8221;, que anteriormente apontara como a fonte principal da manipula\u00e7\u00e3o. Depois de ter denunciado a redu\u00e7\u00e3o do &#8220;verdadeiro&#8221; para &#8220;momento do movimento necess\u00e1rio do falso&#8221;, feito pela sociedade do espet\u00e1culo, ele limitava-se a conferir uma apar\u00eancia de profundidade filos\u00f3fica a esse &#8220;verdadeiro&#8221; reduzido a &#8220;momento do movimento necess\u00e1rio do falso&#8221;.<\/p>\n<p>Por outro lado, um elemento da guerra contra a Iugosl\u00e1via, mais do que em Timisoara, nos leva de volta \u00e0 primeira Guerra do Golfo. \u00c9 o papel desempenhado pelas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas:<\/p>\n<p>Milosevic. &#8220;Milosevic \u00e9 um homem t\u00edmido, n\u00e3o gosta de publicidade, n\u00e3o gosta de se mostrar ou fazer discursos em p\u00fablico. Parece que aos primeiros sinais de desagrega\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via, a Ruder&amp;Finn, empresa de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que trabalhara para o Kuwait, em 1991, apresentou-se para oferecer os seus servi\u00e7os. Foi recusada. A Ruder&amp;Finn foi, entretanto, contratada de imediato pela Cro\u00e1cia, pelos mu\u00e7ulmanos da B\u00f3snia e pelos albaneses do Kosovo por 17 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, a fim de proteger e promover a imagem dos tr\u00eas grupos. E ela fez um \u00f3timo trabalho!<\/p>\n<p>James Harf, diretor da Ruder&amp;Finn Global Public Affairs , afirmou numa entrevista [&#8230;]:<\/p>\n<p>&#8220;Fomos capazes de fazer coincidir na opini\u00e3o p\u00fablica s\u00e9rvio e nazista [&#8230;] N\u00f3s somos profissionais. T\u00ednhamos um trabalho a fazer e fizemos. N\u00e3o somos pagos para fazer li\u00e7\u00e3o de moral&#8221; (Toschi Marazzani Visconti 1999, p. 31).<\/p>\n<p>Chegamos agora \u00e0 segunda Guerra do Golfo: nos primeiros dias de fevereiro de 2003, o secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Colin Powell, mostrava \u00e0 plateia do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU as imagens de laborat\u00f3rios m\u00f3veis para a produ\u00e7\u00e3o de armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas que o Iraque dispunha. Algum tempo depois o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Tony Blair, redobrava a dose: n\u00e3o s\u00f3 Saddam tinha essas armas como j\u00e1 havia feito planos para us\u00e1-las e era capaz de ativ\u00e1-las &#8220;em 45 minutos.&#8221; E mais uma vez o espet\u00e1culo, nada mais que o prel\u00fadio para a guerra, constitu\u00eda o primeiro ato de guerra, pondo em guarda contra um inimigo de que o g\u00eanero humano se devia absolutamente desembara\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mas o arsenal das armas da mentira executadas ou prontas para o uso foi muito al\u00e9m disso. A fim de &#8220;desacreditar o l\u00edder iraquiano aos olhos do seu pr\u00f3prio povo&#8221;, a CIA propunha-se a &#8220;divulgar em Bagdad, um filme revelando que Saddam era gay. O v\u00eddeo devia mostrar o ditador iraquiano tendo rela\u00e7\u00f5es sexuais com um garoto. &#8220;Devia parecer feito a partir de uma c\u00e2mara oculta, como se fosse uma grava\u00e7\u00e3o clandestina&#8221;. A ser estudada estava tamb\u00e9m &#8220;a possibilidade de interromper a transmiss\u00e3o da televis\u00e3o iraquiana com uma pretensa edi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria do telejornal contendo o an\u00fancio de que Saddam havia renunciado e que todo o poder fora retirado de seu filho Uday, temido e odiado&#8221; (Franceschini 2010).<\/p>\n<p>Se o Mal deve ser mostrado e marcado em todo o seu horror, o Bem deve aparecer em todo o seu esplendor. Em dezembro de 1992, fuzileiros navais dos EUA desembarcaram na praia de Mogadiscio. Para maior exatid\u00e3o, desembarcaram duas vezes e a repeti\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deveu a dificuldades militares ou log\u00edsticas imprevistas. Era preciso mostrar ao mundo que, mesmo antes de ser um corpo militar de elite, os fuzileiros eram uma organiza\u00e7\u00e3o beneficente e caridosa que trazia esperan\u00e7a e um sorriso ao povo somali devastado pela mis\u00e9ria e pela fome. A repeti\u00e7\u00e3o do desembarque-espet\u00e1culo destinava-se a emend\u00e1-lo nos seus pormenores errados ou defeituosos. Um jornalista e testemunha explicou:<\/p>\n<p>&#8220;Tudo o que est\u00e1 acontecendo na Som\u00e1lia e que se ver\u00e1 nas pr\u00f3ximas semanas \u00e9 um show militar-diplom\u00e1tico [&#8230;] Uma nova \u00e9poca na hist\u00f3ria da pol\u00edtica e da guerra come\u00e7ou realmente, na noite bizarra de Mogad\u00edscio [&#8230;] A &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a&#8221; foi a primeira opera\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o apenas filmada ao vivo pelas c\u00e2maras, mas pensada, constru\u00edda e organizada como um show de televis\u00e3o&#8221; (Zucconi 1992).<\/p>\n<p>Mogad\u00edscio era a contrapartida de Timisoara. A alguns anos de dist\u00e2ncia da representa\u00e7\u00e3o do Mal (o comunismo que finalmente desmoronou) seguiu-se a representa\u00e7\u00e3o do Bem (o imp\u00e9rio americano, que emergia do triunfo alcan\u00e7ado na Guerra Fria). S\u00e3o agora claros os elementos constitutivos da guerra-espet\u00e1culo e do seu \u00eaxito.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>Giorgio Agamben 1995<\/p>\n<p>Homo sacer. Il potere sovrano e la nuda vita, Einaudi, Torino<\/p>\n<p>Giorgio Agamben 1996<\/p>\n<p>Mezzi senza fine. Note sulla politica, Bollati Boringhieri, Torino<\/p>\n<p>Dan Bilefsky 2009<\/p>\n<p>A rumor that set off the Velvet Revolution, in International Herald Tribune del 18 novembre, pp. 1 e 4<\/p>\n<p>Jean-Luc Domenach, Philippe Richer 1995<\/p>\n<p>La Chine, Seuil, Paris<\/p>\n<p>Fran\u00e7ois Fejt\u00f6 1994 (em colabora\u00e7\u00e3o con Ewa Kulesza-Mietkowski)<\/p>\n<p>La fin des d\u00e9mocraties populaires (1992), tr. it., di Marisa Aboaf, La fine delle democrazie popolari. L&#8217;Europa orientale dopo la rivoluzione del 1989, Mondadori, Milano<\/p>\n<p>Enrico Franceschini 2010<\/p>\n<p>La Cia gir\u00f2 un video gay per far cadere Saddam, &#8220;la Repubblica&#8221;, 28 maggio, p. 23<\/p>\n<p>John R. Macarthur 1992<\/p>\n<p>Second Front. Censorship and Propaganda in the Gulf War , Hill and Wang, New York<\/p>\n<p>Roberto Morozzo Della Rocca 1999<\/p>\n<p>La via verso la guerra, in Supplemento al n. 1 (Quaderni Speciali) di &#8220;Limes. Rivista Italiana di Geopolitica&#8221;, pp. 11-26<\/p>\n<p>Fr\u00e9deric Saillot 2010<\/p>\n<p>Racak. De l&#8217;utilit\u00e9 des massacres, tome II, L&#8217;Hermattan, Paris<\/p>\n<p>Jean Toschi Marazzani Visconti 1999<\/p>\n<p>Milosevic visto da vicino, Supplemento al n. 1 (Quaderni Speciali) di &#8220;Limes. Rivista Italiana di Geopolitica&#8221;, pp. 27- 34<\/p>\n<p>Franco Venturini 2013<\/p>\n<p>Le vittime e il potere atroce delle immagini, in Corriere della Sera del 22 agosto, pp. 1 e 11<\/p>\n<p>Vittorio Zucconi 1992<\/p>\n<p>Quello sbarco da farsa sotto i riflettori TV, in la Repubblica del 10 dicembre<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5540\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5540","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1rm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5540","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5540"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5540\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}