{"id":5546,"date":"2013-10-10T12:21:08","date_gmt":"2013-10-10T12:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5546"},"modified":"2013-10-10T12:21:08","modified_gmt":"2013-10-10T12:21:08","slug":"graciliano-ramos-isola-a-bola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5546","title":{"rendered":"Graciliano Ramos &#8216;isola a bola&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>Criado para a difus\u00e3o da obra de Graciliano Ramos, o site Graciliano (graciliano.com.br\/site) oferece a n\u00f3s leitores verdadeiras p\u00e9rolas pescadas na vasta produ\u00e7\u00e3o do escritor, como o artigo que transcrevemos abaixo, no qual o \u201cvelho Gra\u00e7a\u201d, com sua aridez caracter\u00edstica, vaticina no in\u00edcio dos anos 1920 que o futebol teria vida curta, e sucesso ef\u00eamero, entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u2013 em especial a sertaneja. Ao menos nesse vatic\u00ednio, sua bola de cristal foi isolada para al\u00e9m das arquibancadas&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u201cPensa-se em introduzir o futebol, nesta terra\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra.<\/p>\n<p>\u00c9 uma lembran\u00e7a que, certamente, ser\u00e1 bem recebida pelo p\u00fablico, que, de ordin\u00e1rio, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a id\u00e9ia fixa de muita gente. Com exce\u00e7\u00e3o, talvez, de um ou outro t\u00edsico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontap\u00e9 a uma bola de borracha, vai haver por a\u00ed uma excita\u00e7\u00e3o, um furor dos dem\u00f4nios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um m\u00eas.<\/p>\n<p>Pois qu\u00ea! A cultura f\u00edsica \u00e9 coisa que est\u00e1 entre n\u00f3s inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em l\u00edngua de preto, de cunho regional, mas por desgra\u00e7a est\u00e3o abandonados pela d\u00e9bil mocidade de hoje. Al\u00e9m da in\u00f3cua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safan\u00f5es sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crian\u00e7as, n\u00e3o temos nenhum exerc\u00edcio. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de m\u00fasculos lastim\u00e1vel.<\/p>\n<p>A parte de nosso organismo que mais se desenvolve \u00e9 a orelha, gra\u00e7as aos pux\u00f5es maternos, mas n\u00e3o est\u00e1 provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro tamb\u00e9m possui consider\u00e1veis ap\u00eandices auriculares, o que n\u00e3o impede que o considerem, injustamente, o mais est\u00fapido dos bichos.<\/p>\n<p>Muito melhor \u00e9 ser dono de um bra\u00e7o capaz de rebentar um contendor, se ele \u00e9 fraco, ou de uma perna suficientemente \u00e1gil para fugir, numa velocidade de l\u00e9guas por minuto, se o inimigo \u00e9 forte.<\/p>\n<p>Ora, no estado em que nos encontramos, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o temos energia para atacar ningu\u00e9m, mas falta-nos at\u00e9 o vigor necess\u00e1rio para recuar. O que \u00e9 comum \u00e9 conservar-se um pobre diabo num lament\u00e1vel estado de in\u00e9rcia, a sofrer tormentos com resigna\u00e7\u00e3o, coragem, se quiserem, mas coragem negativa, que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 mais que inaptid\u00e3o para evitar o perigo.<\/p>\n<p>Fisicamente falando, somos uma verdadeira mis\u00e9ria. Moles, bambos, murchos, tristes \u2013 uma l\u00e1stima! P\u00e1lpebras ca\u00eddas, bei\u00e7os ca\u00eddos, bra\u00e7os ca\u00eddos, um caimento generalizado que faz de n\u00f3s um ser desengon\u00e7ado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: \u201cMe deixa\u2026\u201d<\/p>\n<p>Precisamos fortalecer a carne, que a ina\u00e7\u00e3o tornou fl\u00e1cida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o merc\u00fario escangalhou.<\/p>\n<p>Consolidar o c\u00e9rebro \u00e9 bom, embora isto seja um \u00f3rg\u00e3o a que, de ordin\u00e1rio, n\u00e3o temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque \u00e9 \u00f3timo.<\/p>\n<p>Convencer um advers\u00e1rio com argumentos de subst\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 mau. Poder convenc\u00ea-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e amea\u00e7ador, \u00e9 magn\u00edfico.<\/p>\n<p>O direito \u00e9 bonito. E \u00e9 s\u00f3 o que \u00e9, segundo penso. Mas a for\u00e7a \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n<p>A paz de Santo Wilson, ap\u00f3stolo decadente e m\u00e1rtir risonho, abriu fal\u00eancia. Venceu a paz francesa, de mand\u00edbulas agressivas, e caninos \u00e0 mostra, pronta a estracinhar a terra germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>Se voltarmos a olhar para baixo, para o microcosmo social em que vivemos, \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno. A raz\u00e3o est\u00e1 sempre ao lado de quem tem rijeza.<\/p>\n<p>Ora, entre n\u00f3s \u00e9 extremamente dif\u00edcil encontrar um homem forte. Somos um povo derreado. Topamos a cada passo seres volumosos, mas raramente se nos depara uma criatura s\u00e3, robusta. O que anda em redor de n\u00f3s \u00e9 gente que trope\u00e7a, gente que corcova, gente que arfa ao peso da barriga cheia de unto. \u00c9 andar um quilometro a p\u00e9 e ficar deitando a alma pela boca.<\/p>\n<p>Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, a\u00ed vem o futebol.<\/p>\n<p>Mas por que o futebol?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que me repugne a introdu\u00e7\u00e3o de coisas ex\u00f3ticas entre n\u00f3s. Mas gosto de indagar se elas ser\u00e3o assimil\u00e1veis ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso afirmativo, seja muito bem vinda a institui\u00e7\u00e3o alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho h\u00edbrido que possa viver c\u00e1 em casa. De outro modo, resignemo-nos \u00e0s broncas tradi\u00e7\u00f5es dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol n\u00e3o se adapta a estas boas paragens do canga\u00e7o. \u00c9 roupa de empr\u00e9stimo, que n\u00e3o nos serve.<\/p>\n<p>Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um pa\u00eds \u00e9 necess\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 que se harmonize com a \u00edndole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar n\u00e3o esteja tomado por outro mais antigo, de cunho ind\u00edgena. \u00c9 preciso, pois, que v\u00e1 preencher uma lacuna, como diz o chav\u00e3o.<\/p>\n<p>O do futebol n\u00e3o preenche coisa nenhuma, pois j\u00e1 temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma per\u00edcia que deixaria o mais experimentado sportman brit\u00e2nico de queixo ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Os campe\u00f5es brasileiros n\u00e3o teriam feito a figura triste que fizeram em Antu\u00e9rpia se a bola figurasse\u00a0 nos programas das Olimp\u00edadas e estivessem a disput\u00e1-la quatro sujeitos de pulso. Apenas um representante nosso conseguiu ali distinguir-se, no tiro de rev\u00f3lver, o que \u00e9 pouco lisonjeiro para a vaidade de um pa\u00eds em que se fala tanto. Aqui seria muito mais f\u00e1cil o indiv\u00edduo salientar-se no tiro de espingarda umbiguda, emboscado atr\u00e1s de um pau.<\/p>\n<p>Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras?<\/p>\n<p>O futebol n\u00e3o pega, tenham a certeza. N\u00e3o vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de import\u00e2ncia. N\u00e3o confundamos.<\/p>\n<p>As grandes cidades est\u00e3o no litoral; isto aqui \u00e9 diferente, \u00e9 sert\u00e3o.<\/p>\n<p>As cidades regurgitam de gente de outras ra\u00e7as ou que pretende ser de outras ra\u00e7as; n\u00f3s somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda e galego.<\/p>\n<p>Nas cidades os viciados elegantes absorvem o \u00f3pio, a coca\u00edna, a morfina; por aqui h\u00e1 pessoas que ainda fumam liamba.<\/p>\n<p>Nas cidades assiste-se, cochilando, \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre n\u00f3s h\u00e1 criaturas que nunca viram um gringo.<\/p>\n<p>Nas cidades h\u00e1 o maxixe, o tango, o foxtrote, o one-step e outras dan\u00e7as de nomes atrapalhados; n\u00f3s ainda dan\u00e7amos o samba.<\/p>\n<p>Estrangeirices n\u00e3o entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.<\/p>\n<p>Desenvolvam os m\u00fasculos, rapazes, ganhem for\u00e7a, desempenem a coluna vertebral. Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir longe, em procura de esquisitices que t\u00eam nomes que voc\u00eas nem sabem pronunciar.<\/p>\n<p>Reabilitem os esportes regionais que a\u00ed est\u00e3o abandonados: o porrete, o cacha\u00e7\u00e3o, a queda de bra\u00e7o, a corrida a p\u00e9, t\u00e3o \u00fatil a um cidad\u00e3o que se dedica ao arriscado of\u00edcio de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o camba-p\u00e9, a rasteira.<\/p>\n<p>A rasteira! Este, sim, \u00e9 o esporte nacional por excel\u00eancia!<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula prim\u00e1ria habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confian\u00e7a no c\u00e9rebro \u2013 e a rasteira nos salva. Na vida pr\u00e1tica, \u00e9 claro que aumenta a natural tend\u00eancia que possu\u00edmos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No com\u00e9rcio, na ind\u00fastria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cava\u00e7\u00f5es, a rasteira triunfa.<\/p>\n<p>Cultivem a rasteira, amigos!<\/p>\n<p>E se algum de voc\u00eas tiver voca\u00e7\u00e3o para a pol\u00edtica, ent\u00e3o sim, \u00e9 a certeza plena de vencer com aux\u00edlio dela. \u00c9 a\u00ed que ela culmina. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtico que a n\u00e3o pratique. Desde s. ex\u00aa o senhor presidente da Rep\u00fablica at\u00e9 o mais pan\u00e7udo e be\u00f3cio coronel da ro\u00e7a, desses que usam sapatos de tran\u00e7a, bochechas moles e espadag\u00e3o da Guarda Nacional, todos os salvadores da p\u00e1tria t\u00eam a habilidade de arrastar o p\u00e9 no momento oportuno.<\/p>\n<p>Muito \u00fatil, sim senhor.<\/p>\n<p>Dediquem-se \u00e0 rasteira, rapazes.<\/p>\n<p><strong>J. Calisto (pseud\u00f4nimo de Graciliano Ramos)<\/strong><\/p>\n<p><em>In O \u00cdndio \u2013 Palmeira dos \u00cdndios, AL, abril de 1921<\/em><\/p>\n<p><strong><em>IN: RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 110.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.pcb.org.br\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=526:graciliano-ramos-isola-a-bola&amp;catid=13:120-anos-de-graciliano\" target=\"_blank\">http:\/\/www.pcb.org.br\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=526<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5546\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5546","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1rs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5546\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}