{"id":5585,"date":"2013-10-21T10:36:41","date_gmt":"2013-10-21T10:36:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5585"},"modified":"2013-10-21T10:36:41","modified_gmt":"2013-10-21T10:36:41","slug":"sobre-qregimesq-e-governos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5585","title":{"rendered":"Sobre &#8220;regimes&#8221; e governos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>por Atilio A. Boron<\/strong><\/p>\n<p>\u00c8 uma pr\u00e1tica profundamente arraigada que os governos adversos \u00e0 domina\u00e7\u00e3o americana sejam habitualmente caracterizados como &#8220;regimes&#8221;, pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio, pelos intelectuais colonizados da periferia e por aqueles que o grande dramaturgo espanhol Alfonso Sastre magistralmente qualificou como &#8220;intelectuais bem pensantes&#8221;. A palavra &#8220;regime&#8221; adquiriu na ci\u00eancia pol\u00edtica uma conota\u00e7\u00e3o profundamente negativa ainda que esta n\u00e3o existisse na sua formula\u00e7\u00e3o original. At\u00e9 meados do s\u00e9culo XX falava-se do &#8220;regime feudal&#8221;, do &#8220;regime mon\u00e1rquico&#8221;, ou do &#8220;regime democr\u00e1tico&#8221; para aludir a leis, institui\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais que caracterizavam cada sistema pol\u00edtico. Contudo com a Guerra-fria e depois com a contra-revolu\u00e7\u00e3o neoconservadora este voc\u00e1bulo mudou completamente o seu significado. No seu uso actual a palavra \u00e9 empregada para estigmatizar governos ou estados que n\u00e3o se ajoelham perante as ordens de Washington, que por isso mesmo os caracteriza como autorit\u00e1rios e, em n\u00e3o poucos casos, como tiranias sangrentas.<\/p>\n<p>Contudo, um olhar s\u00f3brio sobre este assunto comprovaria a exist\u00eancia de estados abertamente desp\u00f3ticos que, apesar disso, os arautos da direita e do imperialismo jamais qualificariam como &#8220;regimes&#8221;. Na conjuntura actual proliferam analistas pol\u00edticos e jornalistas (incluindo alguns &#8220;progressistas&#8221; um tanto ou quanto distra\u00eddos) que n\u00e3o encontram inconveniente em aceitar o uso da linguagem estabelecida pelo imp\u00e9rio. O governo s\u00edrio \u00e9 o &#8220;regime de Bashar Al Assad&#8221;; e a mesma classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizada para falar dos pa\u00edses bolivarianos. Na Venezuela o que existe \u00e9 um &#8220;regime chavista&#8221;; no Equador \u00e9 o &#8220;regime de Correia&#8221; e a Bol\u00edvia est\u00e1 submetida aos caprichos do &#8220;regime de Evo Morales&#8221;. O facto de se terem desenvolvido nesses tr\u00eas pa\u00edses institui\u00e7\u00f5es e formas de protagonismo popular e funcionamento democr\u00e1tico, superiores aos existentes nos Estados Unidos e na maioria dos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos \u00e9 olimpicamente ignorado. Como n\u00e3o s\u00e3o amigos dos Estados Unidos o seu sistema pol\u00edtico \u00e9 classificado como &#8220;regime&#8221;.<\/p>\n<p>O duplo crit\u00e9rio que se aplica nestes casos fica em evidencia quando se observa que as infames monarquias petrol\u00edferas do golfo, muito mais desp\u00f3ticas e brutais do que o &#8220;regime s\u00edrio&#8221;, nunca s\u00e3o estigmatizadas com a palavrinha em quest\u00e3o. Fala-se por exemplo, do governo de Abdullah bin Abdul Aziz mas nunca do &#8220;regime saudita&#8221;, apesar de este pa\u00eds n\u00e3o ter sequer um parlamento mas sim uma &#8220;Assembleia Consultiva&#8221; cujos membros s\u00e3o escolhidos pelo monarca entre os seus parentes e amigos; de os partidos pol\u00edticos estarem expressamente proibidos e de o poder ser exercido por uma dinastia que se perpetua h\u00e1 d\u00e9cadas no poder. Exactamente o mesmo sucede com o Qatar a quem nem por rebate de consci\u00eancia ao\u00a0<em>New York Times <\/em>ou aos media hegem\u00f3nicos da Am\u00e9rica Latina e do Caribe ocorre tratarem-nos por &#8220;regime saudita&#8221; ou &#8220;regime qatari&#8221;. A S\u00edria, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um &#8220;regime&#8221; \u2013 apesar de ser um estado laico no qual at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo conviviam diversas religi\u00f5es, onde existem partidos pol\u00edticos legalmente reconhecidos e um congresso com representa\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o. Mas nada lhe tira a alcunha de &#8220;regime&#8221;. Por outras palavras, um governo amigo, aliado ou cliente dos Estados Unidos, por mais violador que seja dos direitos humanos, nunca ser\u00e1 caracterizado como um &#8220;regime&#8221; pelo aparato propagand\u00edstico do sistema. Por outro lado os governos do Ir\u00e3, Cuba, Venezuela, Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua, Equador e outros mais s\u00e3o invariavelmente caracterizados dessa maneira.\u00a0[1]<\/p>\n<p>Para comprovar rotundamente a tergiversa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica subjacente a esta caracteriza\u00e7\u00e3o dos sistemas pol\u00edticos basta recordar a forma como os publicit\u00e1rios da direita caracterizam o governo dos Estados Unidos, considerando-o o &#8220;non plus ultra&#8221; da realiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Isto apesar de o antigo presidente Jimmy Carter dizer que o seu pa\u00eds &#8220;n\u00e3o tem uma democracia que funcione&#8221;. O que h\u00e1 \u00e9 um estado policial muito habilmente dissimulado, que exerce uma vigil\u00e2ncia permanente e ilegal sobre os seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, e cujo feito mais importante que realizou nos \u00faltimos trinta anos foi permitir que apenas 1% da popula\u00e7\u00e3o enrique\u00e7a como nunca at\u00e9 aqui, \u00e0 custa do estancamento dos rendimentos recebidos por 90% da popula\u00e7\u00e3o. Na mesma linha cr\u00edtica da &#8220;democracia&#8221; estado-unidense (na realidade uma c\u00ednica plutocracia) encontra-se a tese do grande fil\u00f3sofo Sheldon Wolin, que caracterizou o regime pol\u00edtico imperante no seu pa\u00eds como &#8220;um totalitarismo invertido&#8221;. Segundo ele, &#8220;o totalitarismo invertido\u2026 \u00e9 um fen\u00f3meno\u2026que representa fundamentalmente a maturidade pol\u00edtica do poder corporativo e a desmobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da cidadania&#8221;.\u00a0[2] Por outras palavras, a consolida\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o burguesa nas m\u00e3os dos oligop\u00f3lios, por um lado, e a desmobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas, devido \u00e0 apatia pol\u00edtica, abandono e mesmo desd\u00e9m pela vida p\u00fablica, e a fuga individual no sentido de um consumismo insano sustentado pelo endividamento galopante, por outro. O resultado: um &#8220;regime&#8221; totalit\u00e1rio de novo tipo. Um democracia &#8220;peculiar&#8221;, em suma, sem cidad\u00e3os nem institui\u00e7\u00f5es, e na qual o peso esmagador do &#8220;establishment&#8221; esvazia de todo conte\u00fado o discurso e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, convertidas por isso num esgar sem gosto nem gra\u00e7a, e absolutamente incapaz de garantir a soberania popular. Ou seja, de tornar realidade a velha f\u00f3rmula de Abraham Lincoln quando definiu a democracia como &#8220;o governo do povo, pelo povo e para o povo&#8221;.<\/p>\n<p>Em resultado desta gigantesca opera\u00e7\u00e3o de falsifica\u00e7\u00e3o da linguagem, o estado norte-americano \u00e9 concebido como uma &#8220;administra\u00e7\u00e3o&#8221;, ou seja, uma organiza\u00e7\u00e3o que em fun\u00e7\u00e3o de regras e normas claramente estabelecidas gere a coisa p\u00fablica com transpar\u00eancia, imparcialidade e apego ao mandato da lei. Na realidade, como afirma Noam Chomsky, nada disso \u00e9 verdade. Os Estados Unidos s\u00e3o um &#8220;estado canalha&#8221; que viola como nenhum outro a legalidade internacional bem como alguns dos mais importantes direitos e leis do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Assim o demonstram, no caso interno, as revela\u00e7\u00f5es sobre a espionagem que a NSA e outras ag\u00eancias t\u00eam feito contra o pr\u00f3prio povo americano, j\u00e1 para n\u00e3o falar de atropelos ainda piores como os que se produzem diariamente na pris\u00e3o de Guantanamo, ou a persistente ferida aberta do racismo.\u00a0[3] Proponho por isso que se abra uma nova frente da luta ideol\u00f3gica e se comece a falar sobre o &#8220;regime de Obama&#8221;, ou do &#8220;regime da Casa Branca&#8221; cada vez que tenhamos de nos referir ao governo dos Estados Unidos. Ser\u00e1 um acto de justi\u00e7a que melhora a capacidade de an\u00e1lise, e contribui para higienizar a linguagem pol\u00edtica, emporcalhada e abastarda pela ind\u00fastria cultural do imp\u00e9rio e a sua inesgot\u00e1vel f\u00e1brica de mentiras.<\/p>\n<p>[1] Conv\u00e9m recordar que esta dualidade de crit\u00e9rios morais tem uma longa hist\u00f3ria nos Estados Unidos. \u00c9 c\u00e9lebre a piada que narra a resposta do presidente Franklin D. Roosevelt perante alguns membros do partido democrata horrorizados pelas brutais pol\u00edticas repressivas de Anastazio Somoza na Nicar\u00e1gua. FDR limitou-se a escut\u00e1-los e rematou: &#8220;sim \u00e9 um filho da puta. Mas \u00e9 o &#8220;nosso&#8221; filho da puta&#8221;. O mesmo poderia dizer-se dos monarcas da Ar\u00e1bia Saudita ou do Qatar, entre outros. Acontece que Bashar Al Assad n\u00e3o \u00e9 o seu filho da puta. Da\u00ed a caracteriza\u00e7\u00e3o do seu governo como &#8220;regime&#8221;.<\/p>\n<p>[2] Cf. sua\u00a0<em>Democracia Sociedad An\u00f3nima <\/em>(Buenos Aires: Katz Editores, 2008) p. 3.<\/p>\n<p>[3] Para um exame da sistem\u00e1tica viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos por parte do governo dos Estados Unidos, ou do &#8220;regime&#8221; norte-americano, ver: Atilio A. Boron e Andrea Vlahusic,\u00a0<em>El lado oscuro del imperio. La violaci\u00f3n de los derechos humanos por Estados Unidos <\/em>(Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2009)<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/2013\/09\/sobre-regimenes-y-gobiernos.html\" target=\"_blank\">www.atilioboron.com.ar\/2013\/09\/sobre-regimenes-y-gobiernos.html<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de PM. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nThe Obama regime\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5585\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1s5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}