{"id":5647,"date":"2013-11-12T03:46:02","date_gmt":"2013-11-12T03:46:02","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5647"},"modified":"2013-11-12T03:46:02","modified_gmt":"2013-11-12T03:46:02","slug":"hoje-eu-vejo-que-bandido-e-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5647","title":{"rendered":"\u201cHoje eu vejo que bandido \u00e9 o Estado\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Gustavo Dopcke, preso no dia 15, no Rio de Janeiro, na manifesta\u00e7\u00e3o em apoio a greve dos educadores, conta como foi a experi\u00eancia do c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>Resolvi transcrever parte do depoimento do manifestante preso em 15 de outubro de 2013, no Rio, por causa da for\u00e7a desse relato e da palavra escrita. E para que n\u00e3o pairem d\u00favidas sobre o fim do Estado Democr\u00e1tico de Direito no Rio de Janeiro, apoiado pelo governo federal. Ningu\u00e9m precisa ter bola de cristal para saber quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias desse Estado policial. N\u00e3o coube num post comum do facebook. Publico a transcri\u00e7\u00e3o nesse formato de \u2018nota\u2019.<\/p>\n<p>\u201cOs policiais revistaram minha mochila, a\u00ed encontraram: o respirador e o leite de magn\u00e9sia.<\/p>\n<p>_ O senhor est\u00e1 preso.<\/p>\n<p>Da\u00ed a gente foi enquadrado nesse crime de forma\u00e7\u00e3o de quadrilha ou bando.<\/p>\n<p>A delegada n\u00e3o mandou a tempo o documento, dizendo que agente estava sendo preso e pelo que a gente estava preso. Ent\u00e3o, os nossos advogados n\u00e3o conseguiram entrar com o habeas corpus a tempo. Ent\u00e3o, foi o segundo sequestro. Ocorreu quando a gente saiu da 25 DP e foi levado para o (pres\u00eddio) Patr\u00edcia Aciole. At\u00e9 l\u00e1, os advogados n\u00e3o podiam fazer nada pela gente, porque estava todo ocorrendo fora da lei.<\/p>\n<p>L\u00e1, come\u00e7ou a tortura psicol\u00f3gica. Eles come\u00e7aram a xingar a gente de \u2018v\u00e2ndalo de merda\u2019, do que fosse. Eles colocaram a gente para esperar na chuva, com \u00e1gua at\u00e9 o joelho (&#8230;). Depois a gente entrou, a nossa roupa foi confiscada, a gente recebeu uma bermuda, uma camiseta branca, e depois todo mundo teve o cabelo raspado. (&#8230;) A revista \u00edntima \u00e9 feita assim: voc\u00ea \u00e9 colocado nu, a\u00ed eles mandam voc\u00ea fazer alguns movimentos para eles poderem ver toda a parte do seu corpo. Da\u00ed a gente dormiu ali aquela noite.<\/p>\n<p>Na outra madrugada, a gente foi acordado e levado para Bangu. A\u00ed recome\u00e7ou toda a tortura psicol\u00f3gica. Eles xingaram a gente do que dava pra xingar. Colocaram a gente numa fila, agachado. Da\u00ed a gente ficou agachado l\u00e1, at\u00e9 voc\u00ea n\u00e3o sentir mais a perna. (&#8230;) Inclusive, eles sentem muito prazer em torturar a pessoa nesse momento. (&#8230;)<\/p>\n<p>Da\u00ed a gente foi colocado em dois cambur\u00f5es, onde voc\u00ea n\u00e3o enxergava nada, com algema (&#8230;) Chegando em Bangu, eu quase vi meus companheiros sendo torturados, vi eles estenderem a m\u00e3o e o SOE batendo com a for\u00e7a que tinha. L\u00e1 dentro, eu fui descobrir qual era a hist\u00f3ria: a gente foi transportado com dois que estavam sendo acusados de tr\u00e1fico, um de estupro e um de assassinato. E o que estava sendo acusado de estupro, eles tentaram queimar o cara l\u00e1 dentro. Quando a gente saiu, eles queriam saber quem tinha fornecido cigarro e isqueiro para aqueles dois. Ent\u00e3o, eles come\u00e7aram a bater nas m\u00e3os dos meninos, at\u00e9 descobrir.<\/p>\n<p>Da\u00ed, ali em Bangu a gente foi colocado em p\u00e9. Da\u00ed, novamente, voc\u00ea tira a roupa, p\u00f5e a roupa, faz revista.<\/p>\n<p>A gente ficou por volta de duas horas l\u00e1. Nessa hora, um dos meninos precisava ir ao banheiro. Da\u00ed ele pediu umas dez vezes para ir ao banheiro. N\u00e3o conseguiu segurar, fez ali mesmo. Ent\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 constante.<\/p>\n<p>Da\u00ed, em Bangu, a gente ficou l\u00e1 um tempo. A gente foi muito bem tratado pelos outros prisioneiros. Toda a ideia que eu tinha de bandido mudou. Hoje eu vejo que bandido \u00e9 o Estado. O Estado que criminaliza, que colocou as pessoas ali. (&#8230;)<\/p>\n<p>Eu dormi uma noite ali em Bangu. Eu sei como fazer faca de cadeia. Eu sei como agir em caso de rebeli\u00e3o. Ent\u00e3o, eu tive um curso r\u00e1pido de como sobreviver na cadeia (&#8230;)<\/p>\n<p>Da\u00ed eu sa\u00ed, comuniquei minha fam\u00edlia, porque at\u00e9 ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem direito a liga\u00e7\u00e3o. Desde esse dia, eu fiquei uma semana sem dormir direito. Eu nunca tive pesadelo na minha vida, estou tendo. Eu n\u00e3o estava saindo, comecei a sair hoje. Estou tentando enfrentar. Ent\u00e3o, o trauma ficou. Era isso que eles queriam.<\/p>\n<p>Por mais militante que a gente seja por mais que a gente estude, realmente s\u00f3 ficou claro l\u00e1 que esses bandidos s\u00e3o os que mais me ajudaram. Um emprestou o chinelo para eu atender meu advogado. Porque em todo momento, voc\u00ea s\u00f3 tem a bermuda e a camiseta. .(&#8230;) Eu descubro que eles t\u00eam muito mais humanidade que qualquer outro.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia, \u00e9 muito triste de dizer, n\u00e3o sei se tem algu\u00e9m a\u00ed que faz pesquisa em psicologia, a fra\u00e7\u00e3o de s\u00e1dicos na sociedade, eu ouvi uma vez dizer que tinha 1%. Se pesquisar na pol\u00edcia, eu garanto que vai encontrar um n\u00famero bem maior. N\u00e3o sei se eles s\u00e3o incentivados, ou h\u00e1 uma pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o. Mas o sadismo ficou claro: eles t\u00eam um prazer enorme em ver voc\u00ea sofrer, e te diminuir.<\/p>\n<p>Eu sempre estudei que o Estado servia para colocar o pobre na pobreza. Para n\u00e3o permitir que o pobre tivesse acesso \u00e0s riquezas que o pa\u00eds tem, e \u00e0s coisas que ele produz. Acho que a maior li\u00e7\u00e3o \u00e9 que isso da\u00ed ficou claro. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem a m\u00eddia, a Globo, que convence todo mundo que eles s\u00e3o bandidos e que o Estado est\u00e1 certo ao fazer isso, em n\u00e3o dar acesso a essas pessoas para sa\u00edrem da pobreza.<\/p>\n<p>Da\u00ed, se agente reclama, o Estado chama a pol\u00edcia pra bater na gente. S\u00e3o outros pobres tamb\u00e9m, ali n\u00e3o tem nenhum rico. \u201c<\/p>\n<p>7 de novembro de 2013 \u00e0s 18h30min<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HLVRYLggO-A?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"  \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5647\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-5647","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1t5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5647"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5647\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}