{"id":5648,"date":"2013-11-12T03:50:10","date_gmt":"2013-11-12T03:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5648"},"modified":"2017-08-25T00:59:17","modified_gmt":"2017-08-25T03:59:17","slug":"os-meninos-no-lixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5648","title":{"rendered":"OS MENINOS NO LIXO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Recife (PE)<\/strong> &#8211; O Jornal do Commercio, do Recife, nos \u00faltimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem l\u00ea a reportagem\u00a0<strong>\u201c<a href=\"http:\/\/jconline.ne10.uol.com.br\/canal\/cidades\/geral\/noticia\/2013\/11\/02\/no-recife-infancia-perdida-na-lama-e-no-lixo-103887.php\" target=\"_blank\">No Recife, inf\u00e2ncia perdida na lama e no lixo<\/a>\u201d<\/strong> n\u00e3o sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fot\u00f3grafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composi\u00e7\u00e3o da cena: uma cabe\u00e7a de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele pr\u00f3prio lixo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Escreveram os rep\u00f3rteres:<\/p>\n<p><em>Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabe\u00e7as se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atr\u00e1s da sobreviv\u00eancia. L\u00e1 sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papel\u00e3o, m\u00f3veis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. L\u00e1, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo \u00e9 rotina&#8230;.<\/em><\/p>\n<p><em>O trio de crian\u00e7as se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alum\u00ednio e garantir o alimento de duas fam\u00edlias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d\u2019\u00e1gua, tapava a boca com veem\u00eancia. Tinha no\u00e7\u00e3o exata do risco que corria. Ainda n\u00e3o sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para n\u00e3o deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuport\u00e1vel e chamariz de doen\u00e7as. Febre e diarreia s\u00e3o constantes.<\/em><\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo, o falso espanto que causa a reportagem, \u00e9 na verdade a descoberta desta coisa comum, a mis\u00e9ria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso \u00e9 t\u00e3o onipresente que n\u00e3o vemos.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o da pessoa \u2013 perd\u00e3o, do menino, que h\u00e1 quem julgue n\u00e3o ser uma pessoa -, a mudan\u00e7a de algu\u00e9m em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descart\u00e1vel, \u00e9 t\u00e3o secular que virou natural, como se fossem restos de pl\u00e1stico ao lado dos quais n\u00f3s passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros n\u00e3o t\u00eam o direito.<\/p>\n<p>Por que deitar os nossos olhos sobre o que n\u00e3o \u00e9 gente?<\/p>\n<p>Sobre os meninos do Recife eu j\u00e1 havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, t\u00eam nomes po\u00e9ticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia n\u00e3o lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invis\u00edvel, at\u00e9 porque ningu\u00e9m mesmo os v\u00ea. Eles s\u00e3o \u00e0 semelhan\u00e7a de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Ent\u00e3o eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.<\/p>\n<p>Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ningu\u00e9m os v\u00ea. Ou melhor, \u00e0s vezes, sim, quando rondam como s\u00edmios as bolsas e os rel\u00f3gios dos adultos.<\/p>\n<p>Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obst\u00e1culo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais s\u00e9rios. Todos estamos j\u00e1 acostumados \u00e0queles figurantes, no cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os meninos nas ruas s\u00e3o personagens que nem falam, porque est\u00e3o sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz tr\u00f4pega, plenos do sonho que a cola d\u00e1. De repente, alguns deles, os mais s\u00f3brios, os que podem, saltam para a traseira de um \u00f4nibus. Ent\u00e3o os meninos se transformam em morcegos, \u00e0 beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os \u00f4nibus, para ver se os morcegos se estendem no ch\u00e3o. \u00c0s vezes os motoristas conseguem.<\/p>\n<p>Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma crian\u00e7a no meio do lixo espesso na \u00e1gua suja. Onde est\u00e1 Wally? Ningu\u00e9m v\u00ea uma cabecinha negra perdida no lixo e podrid\u00e3o do rio. Ou do canal, que no Recife \u00e9 um bra\u00e7o do rio.<\/p>\n<p>Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos\u2013Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? N\u00e3o. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura \u00e0 semelhan\u00e7a de cabe\u00e7a flutua entre pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto j\u00e1 expressou como ningu\u00e9m o encontro de lama e rio, de resist\u00eancia do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.<\/p>\n<p>Com as devidas adapta\u00e7\u00f5es, porque o menino da foto ainda n\u00e3o \u00e9 o homem do poema de Jo\u00e3o Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpreta\u00e7\u00e3o de O C\u00e3o sem Plumas:<\/p>\n<p><em>Aquele canal jamais se abre aos peixes,<\/em><\/p>\n<p><em>ao brilho, \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o de faca que h\u00e1 nos peixes.<\/em><\/p>\n<p><em>Jamais se abre em peixes.<\/em><\/p>\n<p><em>Abre-se em flores pobres e negras como negros.<\/em><\/p>\n<p><em>Abre-se numa flora suja e mais mendiga<\/em><\/p>\n<p><em>como s\u00e3o os mendigos negros.<\/em><\/p>\n<p><em>Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.<\/em><\/p>\n<p><em>No Canal do Arruda dif\u00edcil \u00e9 saber onde come\u00e7a o canal<\/em><\/p>\n<p><em>onde a lama come\u00e7a do canal<\/em><\/p>\n<p><em>onde a terra come\u00e7a da lama;<\/em><\/p>\n<p><em>onde o novo, onde a pele come\u00e7a da lama;<\/em><\/p>\n<p><em>onde come\u00e7a o novo homem daquele menino.<\/em><\/p>\n<p><strong>____________________________________________________<\/strong><\/p>\n<p><strong>Urariano Motta<\/strong><strong>[*]<\/strong>\u00e9 natural de \u00c1gua Fria, sub\u00farbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opini\u00e3o, Escrita, Fic\u00e7\u00e3o e outros peri\u00f3dicos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Atualmente \u00e9 colunista do Direto da Reda\u00e7\u00e3o e colaborador do Observat\u00f3rio da Imprensa. As revistas Carta Capital, F\u00f3rum e Continente tamb\u00e9m j\u00e1 veicularam seus textos. Autor de <em>Soledad no Recife<\/em> (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e <em>Os cora\u00e7\u00f5es futuristas<\/em>(Recife, Baga\u00e7o, 1997). Este ano lan\u00e7ou o romance\u00a0<em>O filho renegado de Deus<\/em>(Recife-Bertrand-Brasil, 2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nUrariano Motta*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5648\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-5648","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1t6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5648"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5648\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}