{"id":5651,"date":"2013-11-14T16:55:18","date_gmt":"2013-11-14T16:55:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5651"},"modified":"2013-11-14T16:55:18","modified_gmt":"2013-11-14T16:55:18","slug":"comissao-da-verdade-ouve-militares-que-se-opuseram-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5651","title":{"rendered":"Comiss\u00e3o da Verdade ouve militares que se opuseram \u00e0 ditadura"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo historiador, militares foram proporcionalmente grupo mais perseguido<\/p>\n<p>Da Reda\u00e7\u00e3o: Monica Ferrero Fotos: Jos\u00e9 Antonio Teixeira<\/p>\n<p>DownloadVicente Sylvestre, Paulo Cunha, Adriano Diogo, Rosa Cardoso, Ivan Seixas e Eug\u00eania Zerbini<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Estadual da Verdade, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT), realizou nesta segunda-feira, 11\/11, reuni\u00e3o conjunta com a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, representada por Rosa Cardoso, para ouvir depoimentos sobre militares que resistiram ao golpe e mantiveram posi\u00e7\u00f5es em favor da legalidade e da democracia.<\/p>\n<p>O coronel Vicente Sylvestre, ativo nas entidades de classe da corpora\u00e7\u00e3o, era chefe do Estado-Maior do Comando do Policiamento Militar quando foi sequestrado, em sua casa, em 9 de julho de 1975, por integrantes do DOI-Codi que promoviam uma opera\u00e7\u00e3o contra militares ligados ao Partido Comunista.<\/p>\n<p>&#8220;Fui levado primeiro para o quartel-general da Pol\u00edcia Militar e de l\u00e1 segui um caminho que \u00e9 indigno para qualquer ser humano&#8221;, disse Sylvestre. Ele relembrou que foi barbaramente torturado porque as for\u00e7as da repress\u00e3o achavam que ele teria informa\u00e7\u00f5es valiosas, que poderiam pavimentar um caminho de sucesso para os que o prenderam.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a minha luta era muito clara, sempre feita dentro das entidades de classe da corpora\u00e7\u00e3o; contrariava as diretrizes da ditadura, mas era feita abertamente. Eu n\u00e3o tinha nada a confessar. Como eles n\u00e3o se conformavam com isso, me torturaram&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Em outubro, segundo Sylvestre, ele foi submetido a um Conselho de Justifica\u00e7\u00e3o &#8221; &#8220;n\u00e3o deixavam meu advogado nem entrar na sala da audi\u00eancia, que durou quatro dias&#8221; &#8220;, que decidiu pela sua expuls\u00e3o das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Em 1984 come\u00e7a a luta no Judici\u00e1rio para recuperar seus direitos, e a Justi\u00e7a decide pela reintegra\u00e7\u00e3o dos expulsos. &#8220;Mas eu imediatamente pedi f\u00e9rias, e em seguida apresentei meu pedido de passagem para a reserva. Depois daquele drama chocante, n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de continuar&#8221;, revelou.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o do deputado Adriano Diogo, Sylvestre lembrou ainda que descumpriu uma ordem para evacuar o pr\u00e9dio da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Ant\u00f4nia, em 1968, onde se encontravam estudantes e professores em confronto com alunos da vizinha Universidade Mackenzie e membros do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC).<\/p>\n<p>&#8220;Aleguei que os professores estavam l\u00e1 defendendo um patrim\u00f4nio. Ent\u00e3o me disseram que a ordem de invas\u00e3o vinha do pr\u00f3prio governador. Exigi que essa ordem viesse por escrito. O resultado \u00e9 que fui destitu\u00eddo da opera\u00e7\u00e3o, veio a Cavalaria e fez a invas\u00e3o&#8221;, lembrou Sylvestre.<\/p>\n<p>Persegui\u00e7\u00f5es e cassa\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o tamb\u00e9m ouviu Eug\u00eania Zerbini, filha do general Euryale Zerbini, um legalista que a ditadura retirou do Ex\u00e9rcito, e de Therezinha Zerbini, fundadora do Movimento Feminino pela Anistia. Eug\u00eania relembrou o desencanto do pai, que, cassado, foi trabalhar na iniciativa privada e estudar filosofia, sem nunca perder o gosto pela vida. Falou tamb\u00e9m da m\u00e3e, ativista contra o golpe militar desde a primeira hora e presa pela Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes em 1970. Numa visita para levar roupas \u00e0 m\u00e3e detida, Eug\u00eania foi violentada, aos 16 anos, nas depend\u00eancias da Oban, na rua Tutoia.<\/p>\n<p>A audi\u00eancia da comiss\u00e3o tamb\u00e9m relatou os casos do coronel Alfeu Alc\u00e2ntara Monteiro, contr\u00e1rio ao golpe, que, segundo relatos, teria sido fuzilado pelas costas quanto entrou em troca de tiros com o comandante da Base A\u00e9rea de Canoas, no Rio Grande do Sul, por n\u00e3o aceitar uma ordem; e do sargento Manoel Raimundo Soares, morto nas depend\u00eancias do DOI-Codi de Porto Alegre, para onde retornara, em 13 de agosto de 1966, depois de ficar detido no pres\u00eddio-ilha do rio Gua\u00edba. Seu corpo foi encontrado em 24 de agosto, com as m\u00e3os atadas \u00e0s costas, no rio Jacu\u00ed.<\/p>\n<p>&#8220;Proporcionalmente, os militares foram o grupo mais atingido por persegui\u00e7\u00f5es e cassa\u00e7\u00f5es&#8221;, alertou o historiador Paulo Cunha, da Unesp, em pronunciamento \u00e0 comiss\u00e3o. Segundo ele, de 6.500 a 7.500 militares foram perseguidos, cassados, presos ou torturados, n\u00famero que pode aumentar com os dados da PM.<\/p>\n<p>Cunha lembrou as teses de Nelson Werneck Sodr\u00e9 para lembrar que, em sua hist\u00f3ria, as For\u00e7as Armadas revelam um car\u00e1ter democr\u00e1tico, oposto ao que foi realizado pelo grupo militar que instalou a ditadura em 1964. Segundo Cunha, esse esp\u00edrito democr\u00e1tico pode ser exemplificado pelo fato de que o pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito condenou os torturadores, ao impedir que chegassem ao generalato.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador da Comiss\u00e3o estadual da Verdade, Ivan Seixas, \u00e9 importante revelar esses casos esquecidos, pois estas v\u00edtimas sofreram a &#8220;crueldade de serem mortas duas vezes: pela repress\u00e3o e pelo esquecimento&#8221;. A pris\u00e3o de policiais e militares mostram a amplitude da repress\u00e3o, completou.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00e3o Radar<\/p>\n<p>Em 1973, foi deflagrada a Opera\u00e7\u00e3o Radar, que foi uma grande ofensiva do Ex\u00e9rcito para dizimar o PCB, resultando na morte de 11 membros do Comit\u00ea Central, al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o gr\u00e1ficas clandestinas do partido, e desmantelamento dos seus diret\u00f3rios estaduais. Um dos presos foi o tenente da reserva da Pol\u00edcia Militar paulista, Jos\u00e9 Francisco de Almeida, o Piracaia, militante do PCB, e dirigente de associa\u00e7\u00e3o, que morreu sob tortura no DOI-Codi em 8\/8\/1975. Sua morte foi encenada como enforcamento, na mesma cela e do mesmo jeito que, cerca de dois meses depois, fizeram com Vladimir Herzog e, posteriormente, com o oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho.<\/p>\n<p>O outro caso que foi lembrado foi o do coronel da Pol\u00edcia Militar e militante do PCB Jos\u00e9 Maximino Andrade Neto, reformado em 1964 por n\u00e3o concordar com o golpe militar. Tamb\u00e9m foi preso em agosto de 1975, ficando desaparecido por uma semana. N\u00e3o resistiu \u00e0s torturas, sofrendo um infarto do mioc\u00e1rdio, provavelmente por conta de sua idade avan\u00e7ada. Divergem os relatos sobre como foi jogado na rua, diante de sua casa, pois h\u00e1 quem diga que ele j\u00e1 estava morto, outros dizem que ele foi socorrido e morreu no hospital.<\/p>\n<p>Lideran\u00e7as presas<\/p>\n<p>O tenente reformado da PM Francisco Paz era soldado da antiga For\u00e7a P\u00fablica, sendo promovido a sargento em 1965. Ele passou a presidir a Associa\u00e7\u00e3o de Cabos e Soldados da j\u00e1 Pol\u00edcia Militar a partir de 1970. Sobre o contexto hist\u00f3rico anterior ao golpe de 1964, ele ressaltou que uma das primeiras v\u00edtimas foram os militares, que tiveram as diretorias de suas associa\u00e7\u00f5es, tanto de cabos e soldados como de sargentos, sumariamente cassadas e substitu\u00eddas por apoiadores da ditadura.<\/p>\n<p>Questionado pelo presidente da Comiss\u00e3o da Verdade, deputado Adriano Diogo (PT), Francisco Paz falou sobre o que chamou de &#8220;processo de militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica&#8221;, resultante da fus\u00e3o entre a Guarda Civil e a For\u00e7a P\u00fablica, que deu origem \u00e0s pol\u00edcias Civil e Militar, esta militarizada nos moldes do Ex\u00e9rcito. Contou ainda da tradicional presen\u00e7a do PCB nas fileiras policiais e sobre sua pris\u00e3o pela Opera\u00e7\u00e3o Radar em julho de 1975. Paz comentou ainda os casos de Jos\u00e9 Francisco de Almeida e de Jos\u00e9 Maximino Andrade Neto.<\/p>\n<p>O alcance da Opera\u00e7\u00e3o Radar ainda foi comentado por Waldemar Martins Lisboa, que tamb\u00e9m era pra\u00e7a da For\u00e7a P\u00fablica quando do golpe de 1964. Disse que a opera\u00e7\u00e3o surgiu &#8220;no per\u00edodo de loucura total da ditadura&#8221;, que queria dar fim de qualquer jeito ao PCB, o que culminou com a chacina da Lapa, em 1976.<\/p>\n<p>Homenagens<\/p>\n<p>Os militantes brasileiros mortos v\u00edtimas das ditaduras militares do Cones Sul foram tamb\u00e9m lembrados. Ivan Seixas, para homenage\u00e1-los, leu o memorial do capit\u00e3o da For\u00e7a P\u00fablica paulista W\u00e2nio Jos\u00e9 de Mattos Santos, que era militante da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR). Preso pela Oban em 1970, W\u00e2nio foi ao Chile como um dos presos pol\u00edticos trocados pelo embaixador su\u00ed\u00e7o em 1971.<\/p>\n<p>Quando do golpe de 1973, foi preso pela pol\u00edcia chilena do Est\u00e1dio Nacional, onde morreu de peritonite por falta de atendimento m\u00e9dico. A responsabilidade por sua morte foi reconhecida pelo Estado chileno, que indenizou sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O ex-sargento da For\u00e7a P\u00fablica Pedro Lobo falou sobre sua milit\u00e2ncia na VPR. Disse que a op\u00e7\u00e3o pela resist\u00eancia armada n\u00e3o foi uma escolha dos opositores da ditadura, pois foi o golpe de 1964 que come\u00e7ou com a viol\u00eancia, &#8220;ao cassar sindicatos e rasgar a Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;. Falou que n\u00e3o se arrepende de suas a\u00e7\u00f5es, e considerou &#8220;verdadeiros herois&#8221; os que tombaram em combate.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Carlos Lamarca &#8220;tinha vontade de vencer, nunca se dobrava&#8221;, disse o ex-sargento Darci Rodrigues na homenagem que prestou quando discorreu sobre a trajet\u00f3ria de luta de Lamarca. Ao final da reuni\u00e3o, que considerou &#8220;muito rica&#8221;, Rosa Cardoso lembrou que a estrutura da repress\u00e3o e das pol\u00edcias voltar\u00e1 a ser abordada em nova reuni\u00e3o conjunta no pr\u00f3ximo dia 22\/11.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5651\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-5651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1t9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5651\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}