{"id":5653,"date":"2013-11-14T17:01:38","date_gmt":"2013-11-14T17:01:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5653"},"modified":"2013-11-14T17:01:38","modified_gmt":"2013-11-14T17:01:38","slug":"circunstancias-da-morte-do-presidente-joao-goulart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5653","title":{"rendered":"Circunst\u00e2ncias da Morte do Presidente Jo\u00e3o Goulart"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando recebi a not\u00edcia de que meu tio Jo\u00e3o Goulart havia falecido, encontrava-me em B\u00fazios, no litoral do Rio de Janeiro. Era uma segunda-feira de manh\u00e3 e preparava-me para voltar ao Rio, onde estudava. Ap\u00f3s comunicar-me com meus pais em Montevid\u00e9u (Leonel Brizola e Neusa Goulart Brizola), apressei o retorno para viajar imediatamente a Porto Alegre e, por terra, para S\u00e3o Borja, onde consegui carona com meus primos.<\/p>\n<p>Chegamos no dia seguinte, antes do meio-dia. O cen\u00e1rio j\u00e1 estava armado. O acesso \u00e0 igreja, cercada pelo Ex\u00e9rcito ePMs, restrito, um caix\u00e3o lacrado, e dezenas de sinistros agentes com \u00f3culos escuros perambulavam pela igreja. Ali, encontrei a tia Maria Teresa (esposa de Jango), minha m\u00e3e Neusa, outras tias e pessoas que haviam conseguido \u201cfurar o cerco\u201d. O ambiente era de devasta\u00e7\u00e3o total. Ap\u00f3s alguns minutos fui com minha m\u00e3e \u00e0 casa de um amigo e ela contou a triste odisseia que foi a viagem desde Villa Mercedes. Ficaram retidos mais de tr\u00eas horas na fronteira por ordem de um tal de \u201cCoronel Negr\u00e3o\u201d que fez quest\u00e3o de mostrar seus poderes ditatoriais a toda comitiva.<\/p>\n<p>Ainda contado por minha m\u00e3e, ao chegar a S\u00e3o Borja, foram preparar o corpo e, ao abrir o f\u00e9retro, havia uma estranha secre\u00e7\u00e3o em todo o corpo (\u00c9 necess\u00e1rio esclarecer que havia outras pessoas que testemunharam este momento e o assunto foi comentado muitas vezes). Imediatamente, por ordem dos militares, a\u00ed sim, o caix\u00e3o foi lacrado e n\u00e3o mais aberto (Seriam estas as 48 horas?). O ex\u00e9rcito n\u00e3o queria permitir que fosse colocada uma Bandeira Nacional, mas prevaleceu nossa vontade. A Bandeira foi posta, assim como uma grande faixa pedindo \u201cAnistia\u201d. No trajeto ao cemit\u00e9rio, a PM quis transportar o caix\u00e3o em um carro mas a multid\u00e3o n\u00e3o permitiu, gritando aos militares que ele seguiria \u201cnos bra\u00e7os do povo\u201d. Todos nos revezamos entre a igreja e o cemit\u00e9rio de S\u00e3o Borja.<\/p>\n<p>O percurso foi emocionante e, mesmo desafiados e xingados, os militares n\u00e3o tiveram coragem de intervir. Havia mais de vinte mil pessoas. Acho que foi a primeira grande manifesta\u00e7\u00e3o popular no Rio Grande do Sul depois do AI-5. No final, discursaram o Sr. Pedro Simon, que somente falou da voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de S\u00e3o Borja (&#8230;), e Tancredo Neves, este, sim, pediu a concilia\u00e7\u00e3o nacional de forma veemente. N\u00e3o me lembro de outros discursos mas guardei a sensa\u00e7\u00e3o de que a ditadura tinha sido desafiada naquele momento final.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que vi meu tio foi em Maldonado, pouco tempo antes, e n\u00e3o notei nada de anormal. Em setembro de 1976 ele foi visitar a m\u00e3e e conversou a noite toda com meu pai depois de mais de dez anos afastados. Foi o \u00fanico encontro entre eles&#8230; V\u00e1rios epis\u00f3dios estranhos aconteciam naquele tempo: Meu pai tinha uma vida discret\u00edssima e praticamente morava na fazenda. Queixava-se constantemente de que o seguiam, mas nada poderia fazer. Em setembro de 1977 foi expulso do Uruguai em epis\u00f3dio que todos conhecemos.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o, que presenciei os fatos, \u00e9 que o caso Jango tem todos os ingredientes para ter sido mais um assassinato da ditadura. Por que n\u00e3o tomar um depoimento oficial do Sr. Neira? Ele n\u00e3o est\u00e1 preso? Por que n\u00e3o pedir aos governos argentino e uruguaio, que tanto t\u00eam se empenhado em esclarecer os crimes da ditadura, uma investiga\u00e7\u00e3o minuciosa dos fatos?<\/p>\n<p>Texto extra\u00eddo da p\u00e1gina 445 do livro 68 a gera\u00e7\u00e3o que queria mudar o mundo relatos organizado por Eliete Ferrer e publicado pela Comiss\u00e3o de Anistia do Min. da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Para ler ou gravar o livro em PDF, abra esta p\u00e1gina na Internet:<\/p>\n<p>http:\/\/portal.mj.gov.br\/services\/DocumentManagement\/FileDownload.EZTSvc.asp?DocumentID={C41C82BE-5C68-48B1-B36B-0F3AC3F94232}&#038;ServiceInstUID={59D015FA-30D3-48EE-B124-02A314CB7999}<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJo\u00e3o Ot\u00e1vio Goulart Brizola\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5653\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-5653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1tb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}