{"id":5666,"date":"2013-11-17T17:37:33","date_gmt":"2013-11-17T17:37:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5666"},"modified":"2013-11-17T17:37:33","modified_gmt":"2013-11-17T17:37:33","slug":"o-rumo-do-brasil-na-luta-pelo-socialismo-a-visao-de-edmilson-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5666","title":{"rendered":"O rumo do Brasil na luta pelo socialismo \u2013 a vis\u00e3o de Edmilson Costa"},"content":{"rendered":"\n<p>As gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es populares de Junho no Brasil arrancaram a m\u00e1scara ao governo de Dilma Rousseff, cuja politica neodesenvolvimentista tem aprofundado os compromissos com o grande capital e o imperialismo.<\/p>\n<p>Num livro recente,\u00a0<em>A Crise Econ\u00f3mica Mundial e a Globaliza\u00e7\u00e3o no Brasil, <\/em><strong>[1]<\/strong> Edmilson Costa lembra que a atual crise mundial \u00e9 muito ampla e mais complexa que a de 1929,com a agravante de atingir &#8220;de maneira sincronizada o cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista&#8221;.<\/p>\n<p>Edmilson demonstra no seu lucido livro \u2013 um conjunto de ensaios- que esta crise \u00e9 estrutural e n\u00e3o c\u00edclica como as anteriores. Ela fez ruir todos os mitos neoliberais sobre o papel do mercado como regulador da vida social. Sem solu\u00e7\u00e3o para o sistema, o imperialismo tenta encontr\u00e1-la atrav\u00e9s de guerras monstruosas que configuram uma estrat\u00e9gia de terrorismo de estado.<\/p>\n<p>A segunda parte do livro (p\u00e1gs. 191 a 285) \u00e9 dedicada ao Brasil, mais especificamente \u00e0 natureza da revolu\u00e7\u00e3o social que ser\u00e1 a alternativa ao capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 somente do cap\u00edtulo final \u2013 publicado pelo\u00a0<em><a href=\"http:\/\/odiario.info\/\" target=\"_blank\">odiario.info<\/a> <\/em>\u2013 que me ocuparei neste artigo.<\/p>\n<p>Edmilson afirma que as condi\u00e7\u00f5es objetivas para uma revolu\u00e7\u00e3o socialista s\u00e3o mais favor\u00e1veis no Brasil do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI do que as existentes na R\u00fassia imperial em l917 e na China ap\u00f3s a grande marcha de Mao em l949.<\/p>\n<p>Ambos, sublinha, eram ent\u00e3o \u2013 sobretudo a China \u2013 pa\u00edses com economias atrasadas em que a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o era camponesa.<\/p>\n<p>O Brasil atual responde mais \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que Marx tinha por indispens\u00e1veis a uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Mas, contrariando a logica aparente da hist\u00f3ria, n\u00e3o foi na Alemanha industrializada, e sim na R\u00fassia oprimida por uma autocracia com matizes feudais que a revolu\u00e7\u00e3o eclodiu e venceu. A car\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es materiais prop\u00edcias \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do socialismo foi ali\u00e1s nos dois casos fonte de grandes problemas.<\/p>\n<p>Diferente \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o hoje do Brasil. Na segunda metade do seculo XX transformou-se numa sociedade industrializada com a sexta maior economia do mundo. Mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 urbana e a sua classe operaria \u00e9 a mais numerosa da Am\u00e9rica Latina. Grande produtor e exportador de alimentos e possuidor de grandes reservas de petr\u00f3leo, g\u00e1s e min\u00e9rios raros disp\u00f5e de excelentes universidades que formam anualmente mais de 50 mil mestres e doutores. Mas somente uma pequena minoria da popula\u00e7\u00e3o beneficia desse enorme potencial econ\u00f3mico e cient\u00edfico. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds imperializado com uma prodigiosa riqueza concentrada em gigantescas transnacionais e numa arrogante burguesia dependente. Mais de 53 milh\u00f5es de pessoas vivem abaixo do n\u00edvel da pobreza e 23 milh\u00f5es em condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria extrema (amontoada em favelas, corti\u00e7os e casebres).<\/p>\n<p>Sendo um pa\u00eds muito rico com um povo muito pobre, a luta de classes deveria ser intensa, reunidas como est\u00e3o condi\u00e7\u00f5es objetivas favor\u00e1veis a explos\u00f5es sociais permanentes.<\/p>\n<p>Mas tal n\u00e3o tem acontecido. O n\u00edvel da consci\u00eancia pol\u00edtica continua a ser muito baixo. A exist\u00eancia de uma base material avan\u00e7ada n\u00e3o significa, como salienta Edmilson Costa, que o pa\u00eds esteja em v\u00e9speras de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria rumo ao socialismo.<\/p>\n<p>Para isso seria indispens\u00e1vel o amadurecimento das condi\u00e7\u00f5es subjetivas. A maioria dos brasileiros condena hoje a engrenagem de poder imposta ao pa\u00eds. Sabe o que n\u00e3o quer; mas n\u00e3o est\u00e1 preparada para lutar contra o sistema.<\/p>\n<p>Num contexto hist\u00f3rico e social muito diferente, na Europa &#8220;comunit\u00e1ria&#8221; a aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es subjectivas tem impedido tamb\u00e9m a mobiliza\u00e7\u00e3o das massas com uma perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Refletindo sobre situa\u00e7\u00f5es similares, Lenin alertou para o facto de a ideologia da classe dominante marcar decisivamente o comportamento da totalidade da popula\u00e7\u00e3o das sociedades capitalistas.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o e queda dos protestos espontaneistas dos &#8220;indignados&#8221;, na Europa e nos Estados Unidos confirmaram essa realidade.<\/p>\n<p>A &#8220;consci\u00eancia revolucion\u00e1ria \u2013 como adverte Edmilson, relembrando ensinamentos de Lenin \u2013 s\u00f3 pode ser adquirida de fora, mediante o trabalho ideol\u00f3gico do partido revolucion\u00e1rio no sentido de educar o proletariado para a revolu\u00e7\u00e3o socialista&#8221;.<\/p>\n<p>Ora, no Brasil a organiza\u00e7\u00e3o vocacionada para cumprir o papel de vanguarda revolucionaria, o PCB, \u00e9 um partido de excelentes quadros, mas de fraca implanta\u00e7\u00e3o entre as massas.<\/p>\n<p>\u00c9 um facto que as condi\u00e7\u00f5es subjetivas amadurecem no fragor da luta de classes, mas podem emergir inesperadamente em crises prolongadas, no contexto de situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas muito peculiares. A tomada de consci\u00eancia das massas \u00e9 ent\u00e3o acelerada tumultuosamente num ritmo antes inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>No Brasil a cada dia se apresentam mais favor\u00e1veis as condi\u00e7\u00f5es subjetivas. Mas falta a espoleta capaz de abrir as comportas de um per\u00edodo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia atrasada foram os sofrimentos da primeira guerra mundial que produziram essa fa\u00edsca. Em Petrogrado e Moscovo formara-se um proletariado combativo e nele crescia a influ\u00eancia do partido bolchevique.<\/p>\n<p>Mas as li\u00e7\u00f5es de 1905 n\u00e3o tinham sido esquecidas. A contesta\u00e7\u00e3o popular por si s\u00f3 n\u00e3o fora ent\u00e3o suficiente para conduzir as massas \u00e0 vit\u00f3ria. Em Fevereiro de 1917 a situa\u00e7\u00e3o era muito diferente. O ex\u00e9rcito, instrumento de repress\u00e3o do Estado, entrou num irrevers\u00edvel processo de desagrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando em Petrogrado, na retaguarda, os regimentos cossacos da guarni\u00e7\u00e3o da capital se recusaram a reprimir, ficou aberto o caminho para a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro. O partido que se propunha a liderar o proletariado rumo \u00e0 tomada do poder soube assumir a tarefa hist\u00f3rica que Lenin havia esbo\u00e7ado nas famosas Teses de Abril.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi esse um caso \u00fanico em que condi\u00e7\u00f5es excecionais permitiram a irrup\u00e7\u00e3o de processos revolucion\u00e1rios cujo desenvolvimento foi at\u00edpico.<\/p>\n<p>Em Portugal, o desenvolvimento impetuoso de um processo revolucion\u00e1rio ap\u00f3s o golpe militar que em Abril de 1974 derrubou o fascismo foi poss\u00edvel porque 13 anos de uma guerra colonial profundamente impopular permitiram a forma\u00e7\u00e3o nas For\u00e7as Armadas de uma vanguarda revolucion\u00e1ria. Esta, ap\u00f3s a vitoria, uniu-se ao movimento popular de massas no qual o Partido Comunista PCP desempenhou um papel fundamental.<\/p>\n<p>No Brasil n\u00e3o s\u00e3o, porem, identific\u00e1veis por ora situa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis que acelerem dramaticamente o amadurecimento das condi\u00e7\u00f5es subjetivas citadas pode Edmilson Costa.<\/p>\n<p>As for\u00e7as armadas brasileiras, como instrumento do Estado burgues, t\u00eam um corpo de oficiais profundamente influenciado pela ideologia da classe dominante. N\u00e3o s\u00e3o homog\u00e9neas, mas continuam a ser uma organiza\u00e7\u00e3o potencialmente repressora.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos esquecer os ensinamentos do Chile. O general Carlos Prats enunciou uma evid\u00eancia ao criticar as ilus\u00f5es rom\u00e2nticas do MIR que atribu\u00eda aos<em>cordones obreros <\/em>capacidade para enfrentar o Ex\u00e9rcito e os Carabineros no contexto de uma intentona golpista. Prats lembrou que contra armas pesadas o povo desarmado \u00e9 impotente fora de um quadro insurrecional generalizado. A Hist\u00f3ria deu-lhe raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Acompanho com otimismo o desenvolvimento das lutas sociais no Brasil. E considero oportuno, \u00fatil e muito importante o livro de Edmilson Costa, um dos mais talentosos e criativos economistas marxistas do Brasil.<\/p>\n<p>Creio, porem, que, apesar do amadurecimento de condi\u00e7\u00f5es subjetivas favoraveis, o povo brasileiro ter\u00e1 de percorrer ainda um longo caminho at\u00e9 que a Historia lhe abra a oportunidade de se assumir como sujeito de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>\u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o que o agravamento da crise estrutural do capitalismo e a inevit\u00e1vel derrota da estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o mundial dos EUA, alavancada numa pol\u00edtica de terrorismo de estado, tende a encaminhar a humanidade para um per\u00edodo revolucion\u00e1rio no qual a converg\u00eancia de muitas lutas, a inter-rela\u00e7\u00e3o de processos muito diferentes e a solidariedade internacionalista encaminhar\u00e3o a Humanidade para o socialismo.<\/p>\n<p>Antevejo como muito importante a participa\u00e7\u00e3o do Brasil nesse processo molecular de lutas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 13 de Novembro de 2013<\/p>\n<p><strong>[1] Edmilson Costa,\u00a0<em>A Crise Mundial, a Globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil, <\/em>Instituto Caio Prado J\u00fanior, S\u00e3o Paulo, 2013, 286 p., ISBN 978-85-66538-02-1. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Para encomendar o livro transfira 15 euros para o NIB 003601689910004600741 e a seguir informe nome\/morada para o email: <\/strong>resistir[arroba]<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a>.<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=3087\" target=\"_blank\">www.odiario.info\/?p=3087<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5666\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1to","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}