{"id":5668,"date":"2013-11-17T21:22:26","date_gmt":"2013-11-17T21:22:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5668"},"modified":"2013-11-17T21:22:26","modified_gmt":"2013-11-17T21:22:26","slug":"cem-anos-de-giocondo-dias-o-cabo-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5668","title":{"rendered":"CEM ANOS DE GIOCONDO DIAS, O CABO VERMELHO"},"content":{"rendered":"\n<p>Giocondo Gerbasi Alves Dias nasceu na cidade de Salvador, em 18 de novembro de 1913, no centro hist\u00f3rico dessa cidade. Em virtude do falecimento do seu pai, Antonio Alves Dias, o menino Giocondo passou a trabalhar cedo para ajudar sua m\u00e3e, Ana Maria Frederico Gerbasi, e seus quatro irm\u00e3os (Maria das Dores, Gilberto, Gerson e Antonio). A inf\u00e2ncia muito atribulada n\u00e3o permitiu que ele sequer terminasse o curso prim\u00e1rio, embora tenha se matriculado v\u00e1rias vezes. N\u00e3o restava muito para um jovem pobre e lutador, naquele per\u00edodo, a n\u00e3o ser ingressar no ex\u00e9rcito para garantir a continuidade do sustento da fam\u00edlia. Por\u00e9m, antes disso, ele conheceu as ideias que movimentariam a sua vida e pelas quais lutaria at\u00e9 o fim de seus dias.<\/p>\n<p>O conv\u00edvio com o tio Federico Gerbasi, sapateiro e anarquista, lhe possibilitou o primeiro contato com as ideias revolucion\u00e1rias. Depois, o poeta Alberto Campos, que se candidatara a deputado federal pelo BOC (Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas) no final dos anos 1920 e tinha ido trabalhar em Salvador como datil\u00f3grafo em uma firma de com\u00e9rcio, apresentou-lhe ao Partido Comunista. Aos poucos, Giocondo passava a participar das reuni\u00f5es e com\u00edcios pouco concorridos dos comunistas, identificando de imediato aquela luta com a defesa dos pobres e necessitados.<\/p>\n<p>Em 1932, Giocondo Dias entrou oficialmente para o ex\u00e9rcito, alistando-se, em Recife, no 21\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, que, no ano anterior, havia se levantado contra o usineiro e governador de Pernambuco Lima Cavalcante, raz\u00e3o pela qual quase foi dissolvido. Ao entrar no quartel, Giocondo encontrou nas paredes muitas picha\u00e7\u00f5es com as frases \u201cViva o Comunismo\u201d, \u201cViva Luiz Carlos Prestes\u201d. Quando explodiu o movimento de descontentamento da burguesia paulista com o Governo Get\u00falio Vargas, que ficou conhecido na hist\u00f3ria oficial como a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932\u201d, o 21\u00ba BC foi deslocado para Uberaba, como refor\u00e7o na luta contra a empreitada paulista. Terminada a contenda, o Batalh\u00e3o foi enviado para a fronteira do Peru com a Bol\u00edvia, onde quase foi liquidado por causa das doen\u00e7as tropicais. A inger\u00eancia pol\u00edtica do governador Lima Cavalcanti n\u00e3o permitiu, ent\u00e3o, o retorno do Batalh\u00e3o \u00e0 sua terra, e a sa\u00edda foi fazer uma troca: o 29\u00ba BC de Natal foi para Pernambuco, e o 21\u00ba BC para o Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>Giocondo Dias, por bravura e hero\u00edsmo na luta contra as tropas paulistas, tinha sido promovido a cabo e, agora em Natal, via sua lideran\u00e7a avan\u00e7ar dentro do quartel. Em 1934, aos 21 anos, casava-se com Lourdes Tavares, estudante secundarista de 18 anos, e mantinha contato com o PCB, embora sua entrada no Partido, para muitas fontes historiogr\u00e1ficas, s\u00f3 tenha ocorrido em agosto de 1935, quando passou a militar na mesma c\u00e9lula do sapateiro Praxedes e de outros camaradas no bairro Petr\u00f3polis, em Natal.<\/p>\n<p>O ano de 1934 foi marcado por muitas agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e pela grande insatisfa\u00e7\u00e3o popular nos centros urbanos, que provocou a eclos\u00e3o de in\u00fameras greves e a paralisa\u00e7\u00e3o de mais de 1,5 milh\u00e3o de trabalhadores pelo Brasil a fora. Em 30 de mar\u00e7o de 1935 surgia a ANL (Alian\u00e7a Nacional Libertadora), com um programa antifascista e anti-imperialista, tendo forte presen\u00e7a nos quart\u00e9is e grande capacidade mobilizadora, sob influ\u00eancia do PCB e da lideran\u00e7a de Prestes. A ANL chegou a agrupar, em trezentas cidades e 17 Estados, algo mais que um milh\u00e3o de pessoas, mas deparou-se com a rea\u00e7\u00e3o do governo Vargas e dos seus aparatos repressivos, sendo fechada pelo governo em 12 de julho de 1935.<\/p>\n<p>Os comunistas reagiram \u00e0 onda repressiva com avalia\u00e7\u00f5es voluntaristas e dogm\u00e1ticas. Foi lan\u00e7ada a palavra de ordem \u201cTodo poder \u00e0 Alian\u00e7a Nacional Libertadora\u201d, mas a movimenta\u00e7\u00e3o ficou restrita ao aparato militar do PCB e, segundo muitos historiadores, grande parte dos Comit\u00eas Regionais n\u00e3o tinham conhecimento dos planos do Partido e da Internacional Comunista, que deslocara Prestes (at\u00e9 ent\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e a revolucion\u00e1ria alem\u00e3 Olga Ben\u00e1rio para organizarem a insurrei\u00e7\u00e3o comunista no Brasil. A partir de uma inflex\u00e3o da base militar do PCB, articulada com poucos membros da c\u00fapula do Partido, foi desencadeado o movimento insurrecional de 1935, o chamado Levante Comunista.<\/p>\n<p>O movimento revolucion\u00e1rio come\u00e7ou em Natal, no Rio Grande do Norte, na noite do dia 23 de novembro, quando o 21\u00ba BC se sublevou, tomando a cidade e o batalh\u00e3o da pol\u00edcia, depois de uma luta feroz que durou 19 horas. Os revolucion\u00e1rios conquistaram o apoio da popula\u00e7\u00e3o e formaram o Comit\u00ea Popular Revolucion\u00e1rio (CPR). O Cabo Dias, l\u00edder do levante, participou da indica\u00e7\u00e3o dos membros do governo provis\u00f3rio que foi composto por oper\u00e1rios e soldados, todos militantes comunistas. Era o primeiro Governo Popular da Rep\u00fablica brasileira, que ficou quatro dias no poder e que pode ser considerado o terceiro regime de inspira\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica instalado no mundo depois da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique de 1917, ap\u00f3s as experi\u00eancias na Hungria, em 1918, e nas Ast\u00farias, Espanha, em 1934.<\/p>\n<p>Todavia, a Revolu\u00e7\u00e3o no pa\u00eds n\u00e3o aconteceu, mesmo com os levantes em Recife e no Rio de Janeiro. Somente em Natal houve grande participa\u00e7\u00e3o popular, que se espraiou pelo interior. Mas a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as era completamente desfavor\u00e1vel, e o fim do levante era iminente. O Cabo Dias tentava conter os impulsos dos que, naquele momento, desejavam fuzilar os membros do governo deposto e seus oficiais. Numa dessas discuss\u00f5es, recebeu tr\u00eas tiros e teve que ser socorrido e levado rapidamente para o hospital. Mas, antes, impediu que o atirador fosse fuzilado por seus camaradas.<\/p>\n<p>Com a derrota anunciada, o Cabo Dias conseguiu se esconder numa fazenda no interior do Estado, onde foi covardemente ferido, levando 13 facadas e ficando \u00e0 beira da morte jogado numa estrada vicinal. Foi salvo por Dona Alzira Floriano, que, embora pertencendo \u00e0 classe dominante, tinha uma admira\u00e7\u00e3o pela integridade moral e pol\u00edtica de Giocondo. O l\u00edder revolucion\u00e1rio se recuperou e ficou preso em Natal, quando sofreu uma nova tentativa de assassinato. Ficou na cadeia por mais de um ano, sendo solto em 1937. Mesmo libertado, foi obrigado a viver em rigorosa clandestinidade at\u00e9 meados de 1945.<\/p>\n<p>Dias se transformou num importante dirigente do CR da Bahia, inst\u00e2ncia que era reconhecidamente a mais importante do Partido no Brasil, naquele momento. O CR da Bahia lan\u00e7ou a revista Seiva e foi procurado pelo Bir\u00f4 da Internacional Comunista na Am\u00e9rica do Sul, que reconhecia o trabalho realizado no Estado. Nos anos 1940, um contingente expressivo de comunistas se encontrava na Bahia: Carlos Marighella, Arm\u00eanio Guedes, Mois\u00e9s Vinhas, Giocondo Dias, Aristeu Nogueira, Milton Caires de Brito, Arruda C\u00e2mara, Le\u00f4ncio Basbaum, Alberto Passos Guimar\u00e3es, Jacob Gorender, Maur\u00edcio Grabois, Praxedes, Fernando Santana, Osvaldo Peralva, Boris Tabakoff e Jorge Amado, M\u00e1rio Alves, Ana Montenegro e tantos outros. Era um conjunto extraordin\u00e1rio de militantes, intelectuais e dirigentes que marcou a hist\u00f3ria do PCB e do Brasil de forma indel\u00e9vel.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo de clandestinidade, Giocondo Dias foi condenado \u00e0 revelia pelo Tribunal de Seguran\u00e7a Nacional (TSN) a 6 anos e 6 meses de pris\u00e3o e passou por uma cirurgia para retirar as balas que o atingiram no levante de 1935. Nesse per\u00edodo, nasceram os filhos Gilberto (1938), Antonio Eduardo (1940) e Eduardo Lu\u00eds (1942). Depois, ainda teria mais duas filhas com D. Lourdes.<\/p>\n<p>O PCB se reorganizava nacionalmente atrav\u00e9s da conhecida \u201cConfer\u00eancia da Mantiqueira\u201d. O Estado Novo desmoronava, e o povo tomava as ruas. No dia 18 de abril de 1945, na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio-Pol\u00edtico do PCB na Bahia e ao lado de M\u00e1rio Alves, Carlos Marighella, Fernando Santana e Jo\u00e3o Falc\u00e3o, Giocondo Dias falou para as massas da sacada de um pr\u00e9dio na pra\u00e7a municipal, no centro de Salvador. Era o l\u00edder revolucion\u00e1rio falando para os trabalhadores da sua terra, comemorando a derrocada da ditadura estadonovista.<\/p>\n<p>Em junho de 1946, na III Confer\u00eancia Pol\u00edtica do PCB, realizada no Rio de Janeiro, Giocondo Dias foi eleito para o Comit\u00ea Central. Nesse encontro, a vida do Cabo Vermelho ficou sendo conhecida nacionalmente dentro do Partido, e ele passou a gozar de uma grande admira\u00e7\u00e3o diante da descoberta de seus feitos em 1935. O PCB encontrava-se num momento de grande visibilidade p\u00fablica: atraiu dezenas de milhares de filiados, interviu abertamente no movimento de massas e, no processo eleitoral do ano anterior, obteve 10% dos votos para seu candidato \u00e0 presid\u00eancia, o engenheiro Yedo Fi\u00faza, elegeu Prestes Senador e 14 deputados federais.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1947, ocorreram as elei\u00e7\u00f5es para deputados estaduais e governador, e, na Bahia, o PCB lan\u00e7ou chapa liderada por Giocondo Dias, contando com a presen\u00e7a de Ana Montenegro, M\u00e1rio Alves, Jaime Maciel, dentre outros. Conseguiu eleger dois deputados: Giocondo Dias e Jaime Maciel, os quais tiveram participa\u00e7\u00e3o decisiva nos debates da Constituinte na Assembleia Legislativa baiana, levando para este espa\u00e7o pol\u00edtico as propostas dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Com a Guerra Fria no contexto internacional e o alinhamento do Governo Dutra \u00e0s posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias do imperialismo, vieram os processos de cassa\u00e7\u00e3o do PCB e de extin\u00e7\u00e3o dos mandatos de parlamentares comunistas nas mais diversas inst\u00e2ncias legislativas. No dia 14 de janeiro de 1948, Giocondo Dias pronunciava seu \u00faltimo discurso na Assembleia Legislativa da Bahia, dizendo que chegar\u00e1 um tempo onde \u201cn\u00e3o haver\u00e1 mais lugar para ditaduras terroristas como a que ora infelicita a na\u00e7\u00e3o, ditadura que nosso povo repudia e saber\u00e1 substituir por um governo de sua confian\u00e7a, um governo popular.\u201d E concluiu dando vivas a Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s escapar novamente da morte quando a repress\u00e3o se abateu violentamente sobre um com\u00edcio convocado pelo Partido em Salvador, Giocondo, j\u00e1 de volta \u00e0 clandestinidade no Rio de Janeiro, foi designado para ser um dos respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a de Prestes, em abril de 1948. O PCB introjetava-se na mais profunda clandestinidade, e a inflex\u00e3o na conjuntura levou \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Manifesto de Agosto de 1950. O Partido voltava a pregar a tomada do poder pelas armas, propondo organizar a FDLN (Frente Democr\u00e1tica de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional), por\u00e9m, sem conseguir atrair amplas camadas de trabalhadores para o projeto insurrecional.<\/p>\n<p>Em 1956, a divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio do XX Congresso do PCUS provocaria uma grande crise no \u00e2mbito dos partidos comunistas em todo o mundo. No Brasil, os debates resultantes dessa crise levaram o PCB a uma guinada radical na sua linha pol\u00edtica. O Comit\u00ea Central indicou Giocondo Dias para coordenar a comiss\u00e3o respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o de um texto pol\u00edtico voltado a enfrentar as \u201cdemandas do tempo presente\u201d, comiss\u00e3o esta composta por Alberto Passos Guimar\u00e3es, M\u00e1rio Alves, Dinarco Reis, Arm\u00eanio Guedes, Jacob Gorender e Orestes Timba\u00faba. Em mar\u00e7o de 1958, a chamada Declara\u00e7\u00e3o foi apresentada ao CC, contando com o apoio de Prestes, que entendia ser esta a media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no sentido de manter a unidade do Partido.<\/p>\n<p>Se, por um lado, a Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o permitiu a reinser\u00e7\u00e3o do PCB na luta de massas, por outro constituiu um instrumento a servi\u00e7o de uma pol\u00edtica reboquista frente ao governo Jo\u00e3o Goulart e ao processo pol\u00edtico em curso, permitindo vacila\u00e7\u00f5es frente \u00e0 conjuntura de radicaliza\u00e7\u00e3o da luta de classes no pa\u00eds. As massas populares estavam nas ruas, os trabalhadores em greves, as reformas de base em discuss\u00e3o, mas o PCB claudicava na a\u00e7\u00e3o, dividido entre a reforma e a revolu\u00e7\u00e3o. Giocondo era o segundo dirigente na estrutura partid\u00e1ria, na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio de Organiza\u00e7\u00e3o. No seu entendimento, o Partido n\u00e3o tinha for\u00e7as para colocar a quest\u00e3o do poder na pauta da luta.<\/p>\n<p>Por sua vez, os setores mais din\u00e2micos da burguesia brasileira, associados ao capital internacional e ao imperialismo, n\u00e3o vacilaram e articularam o golpe militar que estancaria, em 1\u00ba de abril de 1964, o movimento de reformas e de ampla participa\u00e7\u00e3o popular em curso. Mais uma vez, assim como todo o Partido, Dias encarava a clandestinidade.<\/p>\n<p>Internamente o PCB vivia em ebuli\u00e7\u00e3o, em decorr\u00eancia dos posicionamentos cr\u00edticos \u00e0 linha pol\u00edtica que teria levado \u00e0 derrota em 1964. Com o Secret\u00e1rio-Geral isolado dos debates, blindado na clandestinidade, operavam no campo da luta pol\u00edtica dois grupos: um liderado por Dias, que era composto por Geraldo Rodrigues, Jaime Miranda, Orlando Bonfim e Dinarco Reis, tendo o acompanhamento intelectual de Alberto Passos Guimar\u00e3es; outro, formado por Carlos Marighella, M\u00e1rio Alves e Jover Telles, \u00a0que polemizavam contra a linha reformista. Em meio a tais diverg\u00eancias, foi convocado o VI Congresso, que veio a ocorrer em dezembro de 1967, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No decorrer desse processo, centenas de militantes sa\u00edram do PCB e organizaram agrupamentos pol\u00edticos, cujo eixo central da atua\u00e7\u00e3o seria a luta armada contra a ditadura civil-militar. Sem a concorr\u00eancia das dissid\u00eancias internas, o VI Congresso formulou a pol\u00edtica de frente com o chamamento \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de amplas camadas populares. Giocondo Dias operava na clandestinidade, enquanto um ter\u00e7o do CC estava no ex\u00edlio, e Prestes j\u00e1 havia sa\u00eddo do pa\u00eds, exilado em Moscou.<\/p>\n<p>Houve o recrudescimento da repress\u00e3o, e \u00a0o PCB tamb\u00e9m foi duramente atingido: quadros dirigentes e l\u00edderes de frentes de massa do Partido foram presos, torturados e assassinados na d\u00e9cada de 1970. Com o cerco da repress\u00e3o se fechando ainda mais, o CC no ex\u00edlio, notando que Giocondo corria risco de vida, designou o baiano Jos\u00e9 Salles para organizar uma opera\u00e7\u00e3o que o tirasse do Brasil. Dias se estabeleceu primeiro em Moscou e depois em Paris, onde passou a trabalhar em conjunto com outros dirigentes comunistas em um escrit\u00f3rio cedido pela CGT. Era um trabalho de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica junto aos exilados da Frente contra a ditadura brasileira. Nesse per\u00edodo morreu sua companheira de toda a vida, a camarada Lourdes.<\/p>\n<p>Com a dire\u00e7\u00e3o do partido quase toda no ex\u00edlio, novas pol\u00eamicas se apresentaram no debate interno, colocando, em lados opostos, Prestes e a maioria do CC. Mesmo sem demonstrar querer o combate, Giocondo assumiu a lideran\u00e7a da maioria contra Prestes. No Brasil, a pol\u00edtica econ\u00f4mica da ditadura fracassava, as lutas de massas retornavam e se organizavam amplos movimentos contra a carestia, pela anistia e por elei\u00e7\u00f5es gerais.<\/p>\n<p>Giocondo retornou ao pa\u00eds em outubro de 1979. Casou-se novamente, com Maria C\u00e2ndida, ao mesmo tempo em que enfrentava a cis\u00e3o interna do PCB. Ap\u00f3s algumas tentativas de resolu\u00e7\u00e3o do longo impasse, o legend\u00e1rio Secret\u00e1rio-Geral divulgava a \u201cCarta aos Comunistas\u201d e afastava-se da dire\u00e7\u00e3o, deixando um v\u00e1cuo de poder. Em maio de 1980, bastante desfalcado em virtude das mortes e dos desaparecimentos, o CC reuniu-se e elegeu Giocondo Dias para a Secretaria-Geral do Partido.<\/p>\n<p>Nos anos 1980, o PCB aprofundou a linha pol\u00edtica reformista, colocando-se na pr\u00e1tica como um operador pol\u00edtico subalterno \u00e0 agenda que interessava \u00e0 democracia burguesa, perdendo a hegemonia no interior do movimento sindical e popular para outras for\u00e7as de esquerda. Na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio-Geral, Dias viajou para Moscou, esteve em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, em Cuba, na China, participando de reuni\u00f5es com as lideran\u00e7as comunistas. No Brasil, participou das articula\u00e7\u00f5es que efetivaram a transi\u00e7\u00e3o pelo alto. O dirigente Dias, diferentemente do Cabo Vermelho, era o general da t\u00e1tica, operando as resolu\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias no sentido da media\u00e7\u00e3o da democracia, que postergavam para um horizonte distante a estrat\u00e9gia da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista.<\/p>\n<p>Consolidando essa pol\u00edtica, realizou-se o VII Congresso em dezembro de 1982, em S\u00e3o Paulo, que foi invadido pela pol\u00edcia. V\u00e1rios dirigentes foram presos, dentre eles Giocondo Dias, que seria mais uma vez detido, quando retornava de uma viagem a Moscou, em 1985. Mas um novo inimigo se apresentou em seguida: Dias descobriu que tinha um tumor no c\u00e9rebro, foi tratado em Moscou, onde fez uma cirurgia em janeiro de 1987. Retornando ao Brasil, faleceu no dia 07 de setembro deste mesmo ano. Seu corpo foi velado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Por l\u00e1 passaram autoridades pol\u00edticas, velhos e novos camaradas, intelectuais e trabalhadores.<\/p>\n<p>Morria um her\u00f3i das lutas populares no Brasil, o Cabo Vermelho, que nos legou um patrim\u00f4nio de 52 anos de milit\u00e2ncia no Partido Comunista Brasileiro. Sobre ele disse Jorge Amado, no livro Bahia de Todos os Santos:<\/p>\n<p>\u201cOnde andar\u00e1, n\u00e3o sei. Qual o caminho que o leva adiante, que rua atravessa com passo firme, em que cidade vive e trabalha, em que pa\u00eds de seu obscuro universo subterr\u00e2neo? N\u00e3o sei se est\u00e1 magro ou gordo, se o cabelo loiro tornou-se grisalho, se o sorriso fez-se mais t\u00edmido, se as cicatrizes das balas e das punhaladas ainda o incomodam, mas imagino como deve se sentir sozinho desde que Lourdes morreu longe da p\u00e1tria. N\u00e3o sei sequer o nome pelo qual atende, sempre cort\u00eas e paciente, capaz de ouvir e aprender quem tanto tem a dizer e a ensinar. De seus nomes, um, quem sabe o primeiro, lhe foi dado pela m\u00e3e e \u00e9 usado pelos mais pr\u00f3ximos, seus irm\u00e3os, seus filhos, alguns poucos amigos de data antiga e maior intimidade \u2013 Nenen, lhe dizemos com acentos de admira\u00e7\u00e3o e profundo afeto, em vez de amor.<\/p>\n<p>Durante um tempo, vai longe, quando se decidiam os destinos da humanidade, cruzamos juntos, num vai-e-vem constante, as ruas da cidade da Bahia e realizamos uma saga inesquec\u00edvel. Nossa luta era a da liberdade contra a escravid\u00e3o nazista, nosso sonho o mundo farto, nossa bandeira a da fraternidade, ou seja, da anistia. Num dos meus romances, no Tenda dos Milagres, eu o coloquei numa tribuna de com\u00edcio durante a guerra, falando em nome dos trabalhadores \u2013 em muitas tribunas ergueu a voz \u2013 na pra\u00e7a, no sindicato, na C\u00e2mara de Deputados, nas reuni\u00f5es abertas e fechadas, mas ergue a voz apenas o necess\u00e1rio para argumentar e convencer, jamais para impor e violentar a opini\u00e3o alheia. Nasceu para a conviv\u00eancia e por isso mesmo em nenhum momento suportou o dogma nem se curvou aos \u00eddolos. Manteve-se \u00edntegro, nem mesmo o mando o corrompeu por jamais ter desejado o poder, querendo apenas servir. T\u00e3o decente quanto ele certamente existem outros; mais decente e leal, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Baiano com as virtudes todas; o riso f\u00e1cil, a discri\u00e7\u00e3o inata e a capacidade de sonhar com a aurora. Nunca ser\u00e1 amargo quem luta por seu pa\u00eds e seu povo com ambi\u00e7\u00e3o de concorrer na medida de suas for\u00e7as para o bem comum. De quando em vez leio jornais que o procuram, com \u00f3dio mortal, policiais e inimigos da paz e da liberdade. Onde andar\u00e1 Giocondo Dias, dito Nenen por sua m\u00e3e? N\u00e3o sei, mas vos afirmo que, esteja onde estiver, estar\u00e1 trabalhando para que o amanh\u00e3 dos brasileiros seja mais belo.<\/p>\n<p>Baiano com r\u00e9gua e compasso e uma luz no cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMilton Pinheiro e Ricardo Costa (Comit\u00ea Central do PCB)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5668\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-5668","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1tq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5668"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5668\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}