{"id":5671,"date":"2013-11-19T00:29:01","date_gmt":"2013-11-19T00:29:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5671"},"modified":"2013-11-19T00:29:01","modified_gmt":"2013-11-19T00:29:01","slug":"a-democracia-e-suas-metamorfoses-ou-de-como-o-conteudo-determina-a-forma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5671","title":{"rendered":"A democracia e suas metamorfoses: ou de como o conte\u00fado determina a forma"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cQuando lerem seus pap\u00e9is<\/em><\/p>\n<p><em>Pesquisando, dispostos ao assombro<\/em><\/p>\n<p><em>Procurem o Velho e o Novo, pois nosso tempo<\/em><\/p>\n<p><em>E o tempo de nossos filhos<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 o tempo das lutas do Novo com o Velho.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Bertolt Brecht<\/p>\n<p>Realizou-se entre os dias 11 e 13 de novembro de 2013 na UFRJ, o <em>Semin\u00e1rio Internacional <\/em><em>Carlos Nelson Coutinho e a renova\u00e7\u00e3o do marxismo<\/em>. Al\u00e9m da justa homenagem a este grande intelectual e militante comunista, o semin\u00e1rio comprovou que sua obra consiste em um importante manancial te\u00f3rico e pol\u00edtico que seguir\u00e1 exigindo um profundo esfor\u00e7o de pesquisa, reflex\u00e3o e debates.<\/p>\n<p>Um tra\u00e7o comum nas diversas exposi\u00e7\u00f5es, que contaram com intelectuais de peso como Guido Liguore (It\u00e1lia), Michel L\u00f6wy (Brasil\/Fran\u00e7a), Francisco Lou\u00e7\u00e3 (Portugal), al\u00e9m de importantes pensadores brasileiros no campo do marxismo; foi destacar a unidade do pensamento de Carlos Nelson, como intelectual e militante que pensa o Brasil e o mundo a partir da centralidade da reflex\u00e3o pol\u00edtica. Isso n\u00e3o significa que se trata de um autor monotem\u00e1tico, pelo contr\u00e1rio, chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 rica e variada obra que procura abarcar temas que v\u00e3o desde a compreens\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, o tema da cultura, filosofia pol\u00edtica, a quest\u00e3o do Estado, e muitos outros e que se express\u00e3o na publica\u00e7\u00e3o de seus 13 livros, inumer\u00e1veis artigos e uma vasta obra de tradutor e editor.<\/p>\n<p>A centralidade da pol\u00edtica significa que esta riqueza de temas sempre era vista na perspectiva de compreens\u00e3o do Brasil e do mundo atual pelos olhos daqueles que querem transformar a realidade, na perspectiva da classe trabalhadora e da meta socialista e comunista.<\/p>\n<p>Outro aspecto comum apresentado \u00e9 que no interior da obra fica evidente o lugar de destaque que ocupa o tema da democracia, mais precisamente, a rela\u00e7\u00e3o da democracia com a meta socialista. Partindo de sua famosa afirma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 socialismo sem democracia e chegando \u00e0 necessidade de afirmar que, tampouco, h\u00e1 democracia sem socialismo, o autor nos chama a aten\u00e7\u00e3o de necessidade de pensar estas dimens\u00f5es de maneira articulada e, concordando ou n\u00e3o com seus argumentos ou algumas conclus\u00f5es, se tornou referencia incontorn\u00e1vel no debate sobre o tema.<\/p>\n<p>Em debate recente que rememorava os <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/09\/06\/chile-e-a-experiencia-do-poder-popular\/\" target=\"_blank\">40 anos da experi\u00eancia de poder popular no Chile<\/a>, a companheira Virg\u00ednia Fontes, que tamb\u00e9m participou com uma brilhante exposi\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio aqui descrito, nos provocava afirmando que no caminho de sua luta revolucion\u00e1ria no sentido de mudar a sociedade os trabalhadores devem estar atentos para a dimens\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se apresenta pertinente por v\u00e1rias raz\u00f5es que no limite daquele momento do debate n\u00e3o pude desenvolver e utilizo agora este espa\u00e7o do nosso blog para continuar a conversa.<\/p>\n<p>Ressaltando inicialmente que n\u00e3o se trata de uma concord\u00e2ncia integral com a tese de Carlos Nelson sobre o car\u00e1ter da democracia como valor universal \u2013 ou democratiza\u00e7\u00e3o, como o autor afirmava recentemente recuperando Luk\u00e1cs \u2013, Virg\u00ednia nos lembrava de que a ordem do capital imperialista nos tr\u00e1s um cen\u00e1rio preocupante de revers\u00e3o de conquistas e direitos e at\u00e9 mesmo do funcionamento institucional e jur\u00eddico marcado pelo arb\u00edtrio, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos que lutam e um fechamento do chamado espa\u00e7o democr\u00e1tico. Neste cen\u00e1rio, nos alerta a historiadora fluminense, precisamos refletir sobre o lugar que ocupa em nossa luta a defesa de patamares democr\u00e1ticos, mesmo aqueles da formalidade jur\u00eddico institucional.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o cabe, em primeiro lugar, porque est\u00e1vamos discutindo o <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/09\/06\/chile-e-a-experiencia-do-poder-popular\/\" target=\"_blank\">Chile de Allende<\/a>, experi\u00eancia hist\u00f3rica que demonstrou o ponto a que pode chegar a luta de classes no cen\u00e1rio de um funcionamento minimamente democr\u00e1tico das institui\u00e7\u00f5es e da vida pol\u00edtica, assim como o impacto que o governo da Unidade Popular produziu na luta revolucion\u00e1ria na America Latina e no desenvolvimento de uma cultura revolucion\u00e1ria. Mais ainda pelo contraste que o desfecho do processo chileno permitiu revelar. A derrota do poder popular e a ditadura pinochetista, com o obscurantismo instalado, a total rendi\u00e7\u00e3o aos ditames do capital monopolista e imperialista, a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica de uma gera\u00e7\u00e3o de combatentes, a luta de classes sem disfarces e sem barreiras institucionais e legais permitindo a pris\u00e3o de milhares de pessoas, o assassinato, o desaparecimento, a tortura e a retirada das media\u00e7\u00f5es organizativas e pol\u00edticas atrav\u00e9s das quais os trabalhadores puderam entrar na cena pol\u00edtica com voz pr\u00f3pria; nos alerta que as tais garantias democr\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o uma quest\u00e3o menor a ser considerada.<\/p>\n<p>O quadro conjuntural no Brasil contempor\u00e2neo, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, indica esta preocupa\u00e7\u00e3o no <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/10\/16\/o-estado-e-a-violencia\/\" target=\"_blank\">acirramento da repress\u00e3o aos movimentos sociais e manifesta\u00e7\u00f5es de massa<\/a>, na tentativa de revestir de instrumentos legais mais duros o combate ao dissenso, na institucionaliza\u00e7\u00e3o daquilo que Carlos Nelson, ironicamente, chamava de \u201camericanalhamento\u201d da pol\u00edtica, isto \u00e9, o jogo da pequena pol\u00edtica que ocupa o centro da cena e obscurece o fato de que se trata de \u201calternativas pol\u00edticas que n\u00e3o p\u00f5e em discuss\u00e3o, as reais estruturas de poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico que vigoraram e vigoram na sociedade brasileira\u201d (Carlos Nelson Coutinho em seu livro\u00a0<em>Contra a corrente<\/em>). No mundo vemos uma ordem que naturaliza a interven\u00e7\u00e3o militar, a desestabiliza\u00e7\u00e3o de governos, o assassinato de advers\u00e1rios pol\u00edticos, como se fosse aspectos t\u00e9cnicos das estruturas de defesa dos Estados Nacionais, coisas da vida.<\/p>\n<p>Tais manifesta\u00e7\u00f5es indicam, evidentemente, uma revers\u00e3o, uma inflex\u00e3o pol\u00edtica, que revela que assim como a burguesia se aproximou pragmaticamente da ordem democr\u00e1tica como uma das formas de express\u00e3o de sua ordem de acumula\u00e7\u00e3o, agora parece indicar que esta forma guarda limita\u00e7\u00f5es incomodas que devem ser afastadas para garantir a ordem da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ordem burguesa gosta da autoimagem que construiu sobre si mesma como um lento e gradual aperfei\u00e7oamento de institui\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas rumo a uma sociedade cada vez mais harmoniosa, na qual os conflitos e contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam de desvios circunscritos a certas circunst\u00e2ncias especiais que devem ser enfrentados como exce\u00e7\u00e3o. Uma breve olhada sobre sua hist\u00f3ria real nos comprova o contr\u00e1rio. N\u00e3o apenas a burguesia n\u00e3o era democr\u00e1tica na sua origem (est\u00e1 \u00e9 uma tese forte de Carlos Nelson e que se apresenta da mesma maneira em Ellen Wood)\u00a0\u2013 como provam os pensamentos dos cl\u00e1ssicos do pensamento pol\u00edtico burgu\u00eas como Hobbes e Locke, mas tamb\u00e9m a sociologia burguesa alem\u00e3 como em Weber\u00a0\u2013\u00a0como sempre manteve uma rela\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica e utilit\u00e1ria com a ordem democr\u00e1tica, nunca deixando de descart\u00e1-la quando esta representava, ainda que potencialmente, um risco ao processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 o nazifascismo, as ditaduras militares na America Latina, a destrui\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, o genoc\u00eddio nas Filipinas e as ditaduras no oriente m\u00e9dio. Isso nas suas express\u00f5es mais dram\u00e1ticas, mas, de igual maneira, nos chamados pa\u00edses democr\u00e1ticos, com destaque para os EUA. O ber\u00e7o da democracia moderna que embala os mais ternos ideais de Hanna Arendt, \u00e9 a terra da liberdade que manteve a escravid\u00e3o, da igualdade que demorou mais de um s\u00e9culo para chegar aos direitos civis para os negros, que massacrou os povos ind\u00edgenas, que teve que destruir pela viol\u00eancia a representa\u00e7\u00e3o e a luta sindical aut\u00f4noma, que se funda em uma forma pol\u00edtica anunciada pelo\u00a0<em>O federalista<\/em> de seus pais fundadores (Hamilton, Jay e Madison) como a forma de \u201cevitar a tirania da maioria e um governo popular\u201d.<\/p>\n<p>Isso bastaria para concordar com Virg\u00ednia Fontes que interessa aos trabalhadores que a luta de classes ocorra em um cen\u00e1rio democr\u00e1tico, resistindo \u00e0 ordem burguesa que tenta destru\u00ed-lo quando lhe interessa. Lenin j\u00e1 afirmava em seu famoso estudo sobre o Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, que os trabalhadores devem preferir a Republica Democr\u00e1tica \u00e0 Ditadura aberta do capital, ressaltando que a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica \u00e9 a melhor forma de express\u00e3o do dom\u00ednio de classe da burguesia sobre os trabalhadores. Mas, completa Lenin, \u201cestar\u00edamos mal se esquec\u00eassemos que a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 o quinh\u00e3o que cabe aos trabalhadores mesmo nas rep\u00fablicas mais democr\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p>Umas das contribui\u00e7\u00f5es mais significativas de Carlos Nelson Coutinho sobre este tema \u00e9 nos lembrar que o Estado, na concep\u00e7\u00e3o de Gramsci, implica na unidade entre os mecanismos de coer\u00e7\u00e3o (pr\u00f3prios da sociedade pol\u00edtica, ou o Estado considerado estritamente) e de forma\u00e7\u00e3o e consenso, de forma\u00e7\u00e3o de uma hegemonia, que em sua unidade garante o que o comunista sardo chamava de \u201csupremacia\u201d de uma classe dirigente e hegem\u00f4nica. No processo hist\u00f3rico de constitui\u00e7\u00e3o de nossas forma\u00e7\u00f5es sociais, estes elementos se combinam, ora enfatizando um, ora outro, mas sempre com a determina\u00e7\u00e3o de um deles (a coer\u00e7\u00e3o ou o consenso). Gramsci separava as sociedade ditas \u201corientais\u201d, onde o Estado \u00e9 forte e se v\u00ea uma sociedade civil-burguesa gelatinosa (preval\u00eancia do momento da coer\u00e7\u00e3o), e os estados \u201cocidentais\u201d, nos quais o Estado lan\u00e7a na sociedade civil trincheiras avan\u00e7adas que consolidam seu poder na forma\u00e7\u00e3o de consensos que o legitimam (preval\u00eancia da hegemonia).<\/p>\n<p>Coutinho identificava como tra\u00e7o particular de nossa forma\u00e7\u00e3o social a forma pol\u00edtica pelo alto, isto \u00e9, \u201cpor meio da concilia\u00e7\u00e3o entre fra\u00e7\u00f5es das classes dominantes, de medidas aplicadas de cima para baixo\u201d que acabam conservando no processo de moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, os elementos de seu arca\u00edsmo (as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o tradicionais no campo e a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo internacional). Tal fato o leva a identificar aqui o processo que Lenin denominava de \u201cvia prussiana\u201d. Nestes termos o Brasil seria um pa\u00eds \u201coriental\u201d, nos termos gramscianos.<\/p>\n<p>Para o autor o caminho para eliminar o \u201cprussianismo\u201d seria apostar no processo de democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, o que s\u00f3 seria poss\u00edvel com a entrada protag\u00f4nica dos trabalhadores na cena pol\u00edtica. Desta maneira, a luta por democracia teria mais que uma dimens\u00e3o t\u00e1tica, mas estrat\u00e9gica. Nos diz Coutinho:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">\u201cA luta pela elimina\u00e7\u00e3o do \u2018prussianismo\u2019 confunde-se com uma profunda renova\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do conjunto da vida brasileira. Essa renova\u00e7\u00e3o aparece, portanto, n\u00e3o apenas como alternativa hist\u00f3rica \u00e0 \u2018via prussina\u2019, como modo de realizar em condi\u00e7\u00f5es novas as tarefas que a aus\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa deixou abertas em nosso pais, mas tamb\u00e9m \u2013 e precisamente por isso \u2013 como processo de cria\u00e7\u00e3o dos pressupostos necess\u00e1rios para um avan\u00e7o no Brasil no rumo do socialismo\u201d<\/p>\n<p>(<em>A democracia como valor universal<\/em>, 1979)<\/p>\n<p>O que tornaria poss\u00edvel este cen\u00e1rio \u00e9 que na crise da ditadura e no processo de desenvolvimento capitalista que ela propiciou, teriam se gestado as condi\u00e7\u00f5es que tornariam poss\u00edvel o desenvolvimento de uma \u201csociedade civil\u201d no Brasil, de um lado pela emerg\u00eancia de sujeitos coletivos de um novo tipo e suas formas de organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias (comiss\u00f5es de f\u00e1brica, associa\u00e7\u00f5es de moradores, CEBs, movimento de mulheres, a quest\u00e3o ecol\u00f3gica, etc.) e, de outro, o fortalecimento de aparelhos privados de hegemonia que expressariam esta sociedade civil (OAB, CNBB, ABI, etc.). Tal processo cobrava e gerava as condi\u00e7\u00f5es para uma \u201csocializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d que poderia levar a supera\u00e7\u00e3o da \u201cvia prussiana\u201d.<\/p>\n<p>O eixo central deste desenvolvimento seria o da democratiza\u00e7\u00e3o, primeiro pela conquista da democracia (nega\u00e7\u00e3o da ditadura), depois por seu aprofundamento e consolida\u00e7\u00e3o e, finalmente, pela sua transforma\u00e7\u00e3o substantiva (a passagem de uma democracia burguesa para uma democracia prolet\u00e1ria).<\/p>\n<p>Mais recentemente, o autor avaliando o desenvolvimento do cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro conclui que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: justify;\">\u201cMalgrado todos seus limites, a transi\u00e7\u00e3o revelou, em seu ponto de chegada, um dado novo e extremamente significativo: o fato de que o Brasil, ap\u00f3s 20 anos de ditadura, havia se tornado definitivamente uma sociedade \u2018ocidental\u2019 no sentido gramsciano do termo\u201d.<\/p>\n<p>(<em>Contra a corrente<\/em>)<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 que o processo de democratiza\u00e7\u00e3o e do ac\u00famulo de for\u00e7as pretendido se verificou, mas o resultado foi muito diferente do esperado. De certa maneira este desfecho diverso das inten\u00e7\u00f5es anunciadas se explica pelo fato que a moderniza\u00e7\u00e3o (ou ocidentaliza\u00e7\u00e3o, se preferirem) que levou \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica foi, de certa forma, visto de maneira unilateral, isto \u00e9, como se beneficiasse apenas a perspectiva dos trabalhadores contra o Estado Burgu\u00eas e sua ordem. Perde-se de vista que a altern\u00e2ncia da forma de dom\u00ednio da burguesia, da ditadura \u00e0 democracia, representava de igual maneira uma necessidade para a ordem capitalista. A socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica se d\u00e1 no interior da luta de classes. Se \u00e9 verdade que na perspectiva dos trabalhadores, pelo menos no interior da formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que se tornou determinante \u2013 a estrat\u00e9gia democr\u00e1tica popular \u2013, se tratava de acumular for\u00e7as para realizar a passagem da democracia consolidada para sua substantiva\u00e7\u00e3o, na perspectiva burguesa tratava-se de superar seu problema de hegemonia, isto \u00e9, legitimar sua ordem societ\u00e1ria para al\u00e9m dos restritos limites das classes e fra\u00e7\u00f5es de classe que dela se beneficiam.<\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio Coutinho gostava de dizer, na luta de classes n\u00e3o h\u00e1 empate. Se os interesses burgueses prevalecem \u00e9 sinal que os prolet\u00e1rios foram derrotados e vice e versa. O que vemos \u00e9 que a ordem burguesa se mant\u00e9m sob a forma inst\u00e1vel daquilo que Florestan Fernandes denominou de \u201cdemocracia de coopta\u00e7\u00e3o\u201d, tornada poss\u00edvel pelo governo de pacto social protagonizado pelo PT. Ora, neste cen\u00e1rio, a forma democr\u00e1tica deixa de ser patamar para o projeto transformador e vira um dos elementos de perpetua\u00e7\u00e3o da ordem do capital.<\/p>\n<p>O dilema \u00e9 que, pensam alguns, a forma democr\u00e1tica ainda \u00e9 um patamar que nos interessa. Como afirm\u00e1vamos, ent\u00e3o, ainda que n\u00e3o possamos ir al\u00e9m no sentido de sua substantiva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um bom lugar para esperarmos tempos melhores para seguir na luta pelo socialismo. Infelizmente as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim.<\/p>\n<p>Para a burguesia, nos alertava Coutinho em seu livro\u00a0<em>Contra a corrente<\/em>, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel manter inalterada a forma que lhe foi t\u00e3o \u00fatil da ditadura descarada de classe a servi\u00e7o do capital monopolista, ou seja, uma \u201cdomina\u00e7\u00e3o sem hegemonia\u201d, mas tamb\u00e9m a forma de controle pelo alto das massas trabalhadores para sustentar um desenvolvimento capitalista que lhes exclui dos benef\u00edcios, como no caso do populismo, tamb\u00e9m n\u00e3o e mais poss\u00edvel. Isto leva Coutinho a uma vis\u00e3o um tanto otimista. A ordem burguesa teria que combinar sua domina\u00e7\u00e3o com formas de dire\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica que lograsse consolidar \u201crazo\u00e1vel grau de consenso por parte dos governados\u201d.<\/p>\n<p>Digo otimista pelo fato de que fosse esse o caso, o impulso do processo de democratiza\u00e7\u00e3o teria como se manter e a perspectiva de uma \u201creformismo revolucion\u00e1rio\u201d como ele defendia poderia ainda se manter como estrat\u00e9gia. A tens\u00e3o neste quadro se daria em outro ponto. Para manter esta combina\u00e7\u00e3o entre dom\u00ednio e dire\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica, o poder burgu\u00eas teria que ceder em direitos e demandas vindas da parte mais organizada da classe trabalhadora e dos setores m\u00e9dios, alem, \u00e9 claro, das demandas da burguesia monopolista, formando desta forma a base do consentimento. O car\u00e1ter dependente da economia e a s\u00edntese com o arca\u00edsmo olig\u00e1rquico (por exemplo com a estrutura agr\u00e1ria e o fisiologismo estatal das elites), no entanto, impediria o atendimento das demandas da maioria da popula\u00e7\u00e3o, principalmente os setores mais pauperizados e desorganizados.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o \u00e9 profundamente coerente por parte de Coutinho e se relaciona com a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o que organiza seu pensamento sobre sociedade civil nos termos de Gramsci, mas igualmente na sua fonte hegeliana (a sociedade civil como media\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos singulares e o momento gen\u00e9rico do Estado por meios de corpora\u00e7\u00f5es e grupos particulares). Em poucas palavras, quem est\u00e1 organizado pela media\u00e7\u00e3o particular de seus aparatos privados de hegemonia interfere na pol\u00edtica de Estado, quem n\u00e3o est\u00e1 ficaria fora.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 na coer\u00eancia te\u00f3rica, mas na rela\u00e7\u00e3o com o devir do real: n\u00e3o foi o que aconteceu. Nos termos da democracia de coopta\u00e7\u00e3o, a focaliza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais miraram os desorganizados e em situa\u00e7\u00e3o de miserabilidade ao mesmo tempo em que garantiram os patamares de acumula\u00e7\u00e3o de capitais para o capital imperialista. E para isso teve de atacar direitos e represar demandas dos setores organizados dos trabalhadores e das camadas m\u00e9dias. O \u00fanico meio de realizar isso \u00e9 pelo transformismo do PT e o apassivamento da classe trabalhadora, principalmente no seu setor mais organizado e decisivo para o funcionamento da economia capitalista. Isso se d\u00e1 pela prec\u00e1ria garantia de emprego (com as flexibiliza\u00e7\u00f5es impostas) e pelo acesso ao consumo via certo grau de controle da infla\u00e7\u00e3o combinado com a facilita\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Ora, quanto mais a democracia de coopta\u00e7\u00e3o se efetiva pela inser\u00e7\u00e3o passiva e subordinada via acesso \u00e0 sociedade de consumo via cr\u00e9dito ou bolsas, mas a democracia se distancia de sua substancializa\u00e7\u00e3o e nem mesmo paralisa no seu momento de consolida\u00e7\u00e3o institucional, pol\u00edtica e jur\u00eddica. De fato, neste cen\u00e1rio ela \u00e9 constrangida a recuar at\u00e9 mesmo nos elementos de conquista na luta contra a ditadura. A combina\u00e7\u00e3o entre a domina\u00e7\u00e3o e formas de dire\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica exigem uma \u201cdemocracia forte\u201d no sentido de ter os elementos de controle e garantia da ordem. Destr\u00f3i-se o mito do auto aperfei\u00e7oamento da democracia na dire\u00e7\u00e3o \u00fanica da socializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica na perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o: seu aperfei\u00e7oamento pode, e de fato assim se deu, ser garantia de continuidade da ordem o capital e n\u00e3o caminho de sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/11\/13\/a-democracia-e-suas-metamorfoses-ou-de-como-o-conteudo-determina-a-forma\/\" target=\"_blank\">http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/11\/13\/a-democracia-e-suas-metamorfoses-ou-de-como-o-conteudo-determina-a-forma\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Iasi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5671\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-5671","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1tt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5671"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5671\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}