{"id":5675,"date":"2013-11-21T01:31:49","date_gmt":"2013-11-21T04:31:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5675"},"modified":"2017-08-25T00:03:37","modified_gmt":"2017-08-25T03:03:37","slug":"mr-8-no-chile-ou-jango-no-uruguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5675","title":{"rendered":"MR-8 no Chile ou Jango no Uruguai?"},"content":{"rendered":"\n<p>Em julho de 1972, eu e meu amigo Franc\u00edlio fomos ao Chile, com nossas companheiras, em uma viagem que misturava passeio e pol\u00edtica. Allende era o Presidente chileno e a luta de classes no pa\u00eds atingia seu patamar mais alto. Eram momentos decisivos para o \u00eaxito da Unidade Popular. Era tamb\u00e9m uma grande oportunidade para revermos grandes amigos exilados em Santiago.<\/p>\n<p>Na ida, fomos de carro, passeando, do Rio a Montevid\u00e9u. L\u00e1, deixamos o ve\u00edculo em uma garagem e partimos para a capital portenha, no navio a vapor Ciudad de Buenos Aires, onde pegamos um avi\u00e3o para Santiago.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia no Chile foi emocionante. Reencontramos nossos amigos e conhecemos um pouco a experi\u00eancia por que passava o pa\u00eds. Participamos da Marcha por los Cambios, uma imensa manifesta\u00e7\u00e3o, mesmo para os padr\u00f5es chilenos: mais de um milh\u00e3o de pessoas no centro de Santiago, em apoio \u00e0s mudan\u00e7as que o governo Allende tentava implementar, em meio ao boicote da burguesia.<\/p>\n<p>Na volta ao Rio de Janeiro, fomos de avi\u00e3o at\u00e9 Montevid\u00e9u, onde pegamos o carro e nos colocamos na estrada, sem saber que uma surpresa nos aguardava no caminho. Passamos em Punta del Leste, com muita fome, por volta das 14 horas. Como era inverno, parecia uma cidade fantasma. Depois de muita procura, descobrimos um restaurante aberto, que nos pareceu o melhor do mundo, apesar de simples. S\u00f3 uma das mesas estava ocupada, por um homem bebendo vinho.<\/p>\n<p>Enquanto meu amigo ia ao banheiro, ocupamos uma mesa e descobrimos que as especialidades da casa eram sopas e vinhos. Nada melhor para famintos, no rigoroso inverno uruguaio.<\/p>\n<p>De repente, meu amigo volta esbaforido e sussurra: \u201cSabem quem est\u00e1 ali naquela mesa? O Presidente Jo\u00e3o Goulart!\u201d. Pensei com meus bot\u00f5es: \u201cEsse cara est\u00e1 louco; imagina o Jango aqui nesta espelunca!\u201d Aproveitei para ir ao banheiro e conferir. Quando cheguei perto do homem, n\u00e3o tive d\u00favida: est\u00e1vamos diante do nosso ex-presidente, deposto pela ditadura militar. E n\u00f3s chegando do Chile, onde a burguesia, com a indefect\u00edvel ajuda da CIA, tentava derrubar outro Presidente!<\/p>\n<p>Imediatamente, mudamo-nos para uma mesa pr\u00f3xima a Jango e tentamos conversar sobre pol\u00edtica brasileira, mostrar-lhe as possibilidades de sua volta triunfal, com a derrubada da ditadura! Ele logo mostrou que este tema seria de mau tom. Parecia muito deprimido e desesperan\u00e7ado.<\/p>\n<p>A conversa acabou girando sobre cultura e futebol. Os olhos de Jango marejavam, sobretudo quando se pronunciava a palavra Brasil. Dava vontade de bot\u00e1-lo na mala do carro e traz\u00ea-lo de volta!<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma \u00e9poca de ouro para a cultura brasileira. Ao mesmo tempo, havia a ofensiva ufanista da ditadura, o \u201cBrasil: ame-o ou deixe-o\u201d, o \u201cmilagre brasileiro\u201d. Na Am\u00e9rica Latina, a esquerda avan\u00e7ava e a direita articulava grande ofensiva: ditaduras militares, torturas, desaparecimento de militantes.<\/p>\n<p>Perdi a no\u00e7\u00e3o de quanto tempo ficamos com Jango, at\u00e9 que seu filho Jo\u00e3o Vicente chegasse ao restaurante para lev\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Dois dias depois, na fronteira Brasil\/Uruguai, fomos parados em um posto do ex\u00e9rcito por militares que j\u00e1 nos esperavam no acostamento e olhavam, fixamente, a placa do carro. Habilmente, levaram-nos a uma sala, a pretexto de verificar documentos, enquanto o carro permaneceu fora de nossas vistas. Logo, desconfiei: descobriram nossa liga\u00e7\u00e3o com o MR-8 e nos pegaram. O que fariam de nossas companheiras, que n\u00e3o compartilhavam nossa milit\u00e2ncia? Para onde nos levariam para iniciar a tortura?<\/p>\n<p>Algum tempo depois, fomos liberados pelos militares, que devolveram a chave do carro e autorizaram nossa partida. Come\u00e7amos a desconfiar de que tudo havia sido revistado. A primeira coisa que percebemos foi o sumi\u00e7o de v\u00e1rios rolos de filmes ainda n\u00e3o revelados, que guard\u00e1vamos no porta-luvas. A desconfian\u00e7a nos acompanhou a viagem toda. Ser\u00e1 que iriam pegar-nos mais \u00e0 frente, para evitar um incidente na fronteira?<\/p>\n<p>Praticamente, s\u00f3 paramos para nos alimentar e botar gasolina e nos revezamos ao volante. Passaram o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran\u00e1 e S\u00e3o Paulo. Chegando \u00e0 fronteira com o Rio, veio outra paran\u00f3ia. Ser\u00e1 que, por raz\u00f5es t\u00e1ticas, resolveram nos prender no Rio, j\u00e1 que \u00e9ramos todos cariocas? \u00a0Chegamos inc\u00f3lumes. O tempo foi passando e a desconfian\u00e7a tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Uns sete anos depois, quando eu militava clandestinamente no PCB e era candidato a Presidente do Sindicato dos Banc\u00e1rios do RJ, chego ao trabalho no Banco do Brasil e um colega me entrega um envelope ap\u00f3crifo, deixado por um homem de terno. Quando abri, eram as fotos daquela viagem, sem os negativos. S\u00f3 podia ser um recado da repress\u00e3o: \u201cfomos n\u00f3s; continuamos de olho!\u201d A \u00fanica d\u00favida era a raz\u00e3o de nos terem parado. Teria sido a liga\u00e7\u00e3o com o MR-8 no Chile ou o encontro fortuito com Jango no Uruguai, j\u00e1 que em ambos os pa\u00edses o SNI seguia brasileiros?<\/p>\n<p>O tempo passou mais um pouco at\u00e9 que, em 1982, fui preso, com cerca de 80 camaradas, quando a Pol\u00edcia Federal desmontou um Congresso clandestino do PCB, em S\u00e3o Paulo. A invas\u00e3o do local se deu de forma espalhafatosa, com dezenas de jovens agentes armados, tensos, gritando, mandando-nos botar as m\u00e3os para o alto. Na sede da Pol\u00edcia Federal, dividiram-nos em pequenos grupos. No meu grupo, lembro-me do Armando Ziller, do Louren\u00e7o e do Takao Amano, que tinha fama de grande atirador e lutador de artes marciais, o \u00fanico que ficou algemado.<\/p>\n<p>O respons\u00e1vel pelo meu interrogat\u00f3rio era o delegado Veronezi, que mais tarde veio a ser diretor da Pol\u00edcia Federal em SP. Depois das costumeiras prele\u00e7\u00f5es amea\u00e7adoras, o delegado, com minha ficha na m\u00e3o, finalmente, faz a primeira pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que voc\u00ea era homem de liga\u00e7\u00e3o com o Jo\u00e3o Goulart no Uruguai?<\/p>\n<p>Ainda bem que n\u00e3o perguntou nada sobre o velho MR-8. Talvez por isso \u00e9 que eu ainda estivesse vivo. E ainda bem que a repress\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de torturar presos pol\u00edticos, com a ditadura enfraquecida pela resist\u00eancia democr\u00e1tica. Al\u00e9m do mais, a not\u00edcia da nossa pris\u00e3o correra o mundo e, na porta da Pol\u00edcia Federal, havia uma vig\u00edlia de solidariedade, por onde passaram in\u00fameras personalidades, inclusive um sindicalista chamado Luiz In\u00e1cio da Silva, cujo irm\u00e3o, Frei Chico, era um dos presos.<\/p>\n<p>Apesar de ser a mais pura verdade, minha resposta poderia parecer provoca\u00e7\u00e3o. Disse-lhe que deveria haver algum engano do informante, pois meu \u00fanico encontro com Jango foi casual, em uma adega uruguaia, onde bebemos vinho e conversamos apenas sobre m\u00fasica e futebol.<\/p>\n<p>Por sorte, era 1982.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acha que eu tenho cara de babaca? &#8211; aos berros, irado, perguntou o delegado e deu um murro forte na mesa. Em seguida, levantou-se para tomar caf\u00e9 e se acalmar. Louco para me dar uma porrada.<\/p>\n<p>Texto extra\u00eddo da p\u00e1gina 530 do livro 68 a gera\u00e7\u00e3o que queria mudar o mundo relatos organizado por Eliete Ferrer e publicado pela Comiss\u00e3o de Anistia do Min. da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Para ler ou gravar o livro em PDF, abra esta p\u00e1gina na Internet:<\/p>\n<p>http:\/\/portal.mj.gov.br\/services\/DocumentManagement\/FileDownload.EZTSvc.asp?DocumentID={C41C82BE-5C68-48B1-B36B-0F3AC3F94232}&#038;ServiceInstUID={59D015FA-30D3-48EE-B124-02A314CB7999}<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n(Quem s\u00f3 v\u00ea placa n\u00e3o v\u00ea conex\u00e3o)\npor Ivan Pinheiro\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5675\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87,76],"tags":[],"class_list":["post-5675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","category-c89-uruguai"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1tx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}