{"id":5695,"date":"2013-12-02T14:02:29","date_gmt":"2013-12-02T14:02:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5695"},"modified":"2013-12-02T14:02:29","modified_gmt":"2013-12-02T14:02:29","slug":"prisoes-torturas-e-quedas-do-pcb-na-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5695","title":{"rendered":"\u201cPRIS\u00d5ES, TORTURAS E QUEDAS DO PCB NA PARA\u00cdBA\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Contribui\u00e7\u00e3o do camarada Pablo Cartaxo, militante do PCB na Para\u00edba ao evento \u201cPRIS\u00d5ES, TORTURAS E QUEDAS DO PCB NA PARA\u00cdBA\u201d da Comiss\u00e3o da Verdade e da Preserva\u00e7\u00e3o da Mem\u00f3ria do Estado da Para\u00edba no dia 22.11.13<\/p>\n<p><strong id=\"docs-internal-guid-2d5cd65a-b39d-02a1-8f77-368e8d121d48\"><\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de agradecer \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade e da Preserva\u00e7\u00e3o da Mem\u00f3ria do Estado da Para\u00edba pelo convite enviado ao Partido Comunista Brasileiro para estar presente neste espa\u00e7o. Sa\u00fado a todos os presentes em nome de David Capistrano, Jos\u00e9 Montenegro de Lima, C\u00e9lio Guedes e tantos outros camaradas que pertenceram \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o que hoje milito e que aqui poderiam estar em meu lugar, caso n\u00e3o tivessem sido covardemente torturados, assassinados e \u201cdesaparecidos\u201d pela ditadura empresarial-militar que foi imposta ao nosso pa\u00eds, de 1964 a 1985. Sa\u00fado, em especial, aos companheiros Antonio Augusto Almeida, Jos\u00e9 Fernandes Neto e Ov\u00eddio Raimundo dos Santos que, nesta manh\u00e3, est\u00e3o conosco para compartilhar suas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>De in\u00edcio gostaria de construir um entendimento comum em rela\u00e7\u00e3o ao que comumente chamamos de ditadura militar. Tal termo nos leva ao falso entendimento de que as for\u00e7as armadas, isoladamente e por conta pr\u00f3pria, decidiram tomar o Estado brasileiro no fat\u00eddico dia primeiro de abril de 1964. \u00c9 mais do que necess\u00e1rio deixar claro, e h\u00e1 uma vasta literatura que comprova que o que houve em 64 foi uma ofensiva organizada pela burguesia brasileira vinculada ao imperialismo, utilizando-se das For\u00e7as Armadas, para derrubar os poss\u00edveis avan\u00e7os para a classe trabalhadora que poderiam ocorrer a partir das mobiliza\u00e7\u00f5es populares que pressionavam o governo Jo\u00e3o Goulart pelas reformas de base. Avan\u00e7os, que at\u00e9 hoje, a classe trabalhadora n\u00e3o viu acontecer, como a reforma agr\u00e1ria e a melhoria dos direitos e ganhos trabalhistas. Muito pelo contr\u00e1rio, nestas ultimas d\u00e9cadas temos sentido na pele incont\u00e1veis ofensivas contra nossos direitos mais b\u00e1sicos, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, terra, enfim, o direito a uma vida digna.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca lut\u00e1vamos n\u00e3o somente contra a ditadura empresarial-militar, mas para que fosse poss\u00edvel um mundo sem explorados ou exploradores, no qual o desenvolvimento da humanidade em todos os seus aspectos, e n\u00e3o o lucro e enriquecimento de poucos, regesse nossas vidas. Penso ser importante a nossa presen\u00e7a aqui nesse espa\u00e7o para deixar claro que continuamos subjugados sob o bra\u00e7o de ferro daqueles que nos exploram. Vivemos num pa\u00eds onde 130 pessoas det\u00eam quase 15% da riqueza do pa\u00eds, enquanto mais da metade da popula\u00e7\u00e3o luta para viver com m\u00edseros R$130,00 por m\u00eas (IBGE). Num mundo onde 0,7% da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00eam 41% da riqueza mundial enquanto 50% det\u00eam apenas 1% dessa riqueza por n\u00f3s mesmos produzida (Creditt Suisse). Sim, sobrevivemos \u00e0 batalha da ditadura, mas a guerra ainda est\u00e1 ocorrendo e de forma cada vez mais feroz.<\/p>\n<p>Em um mundo onde se tenta mascarar o conflito existente entre o capital e o trabalho, que se deixe claro pelo que lutavam os que tombaram e, pelo que lutam os que aqui continuam de p\u00e9. Em uma sociedade que, de forma oportunista, a oligarquia prega o individualismo e a n\u00e3o organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que fique claro que a ditadura foi orquestrada exatamente para quebrar essa organiza\u00e7\u00e3o devido aos riscos que ela representa \u00e0 burguesia que, \u00e0s nossas custas, de nosso suor e de nosso sangue, sobrevive at\u00e9 hoje. Por tudo isso, destacamos a import\u00e2ncia de continuarmos nos organizando e por que, ap\u00f3s tantos ataques, o PCB ainda est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n<p>Sobre a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, entendemos, enquanto partido, que ela \u00e9 importante, mas est\u00e1 muito aqu\u00e9m do que deveria ser. Lembremos que foi criada somente ap\u00f3s a press\u00e3o popular embasada nas orienta\u00e7\u00f5es do Comit\u00ea de Direitos Humanos da ONU em 2005 e pela posterior condena\u00e7\u00e3o por parte da Corte interamericana de direitos humanos da OEA, que exigia n\u00e3o somente uma comiss\u00e3o que realizasse o esclarecimento dos fatos e a repara\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m a puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis pela repress\u00e3o. Criou-se, ao inv\u00e9s disso, uma comiss\u00e3o que tem por responsabilidade apenas apurar os fatos, de forma sigilosa quando conveniente (como se j\u00e1 n\u00e3o fosse suficiente toda a hist\u00f3ria escondida e falseada por parte dos repressores, que existe sobre essa \u00e9poca) e sem sequer cogitar a puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis, n\u00e3o confrontando a Lei de auto-anistia que j\u00e1 foi declarada nula pela mesma Corte Interamericana em 2010 ao julgar os casos dos desaparecidos na guerrilha do Araguaia. Nem sequer apontam para a puni\u00e7\u00e3o daqueles que torturaram, estupraram e mataram nesse pa\u00eds por 21 anos. Por isso lutamos: por uma Comiss\u00e3o da Verdade, Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a transparente e efetivamente p\u00fablica; pela abertura ampla, geral e irrestrita de todos os arquivos da ditadura e pela imediata implementa\u00e7\u00e3o da Senten\u00e7a da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA.<\/p>\n<p>Gostaria ainda de ler um trecho de um texto do camarada Mauro Iasi, militante do PCB, sobre essa quest\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cUm lado sequestrou, levou para por\u00f5es e aparatos oficiais, arrancou unhas, deu choques el\u00e9tricos nos test\u00edculos, estuprou as mulheres na frente de seus companheiros e filhos, quebrou ossos, nos jogou nus em celas imundas cobertas de fezes, destruiu cientificamente nossos corpos e mentes, nos assassinou e escondeu nossos corpos para garantir o sagrado direito de propriedade e a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o de capitais. Esta cicatriz ainda d\u00f3i nos corpos dos desaparecidos, nas mentes destru\u00eddas aprisionadas nos corpos condenados a continuar vivendo, nas nossas filhas e filhos que cresceram sem seus pais e m\u00e3es, nas m\u00e3es e pais obrigados a viver sem seus filhos e n\u00e3o ter um t\u00famulo onde chorar.<\/p>\n<p>N\u00f3s sab\u00edamos porque lut\u00e1vamos. Seus assalariados do terror sabiam porque nos matavam? Eles repetiam para si mesmos que era para defender a p\u00e1tria quando chutavam nossos rostos com seus coturnos? Eles repetiam que era para defender a fam\u00edlia quando nos estupravam? Eles repetiam que era para defender a democracia quando nos arrastavam \u00e0 noite de olhos vendados, sem mandado, sem processo e sem defesa, para ser assassinado em um matagal ou aparato clandestino do ex\u00e9rcito?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o acho que seja poss\u00edvel reconcilia\u00e7\u00e3o. Gosto de v\u00ea-los assustados quando nossos meninos e meninas os perseguem pelas ruas e fazem com que militares envergonhados tenham que entrar pela porta do fundo de seus clubes sob vaias e ovos podres. Gosto de ver a hist\u00f3ria os colocando no papel que lhes cabe: de algozes e assassinos. N\u00e3o se trata de um problema jur\u00eddico. A borracha da anistia n\u00e3o apaga minhas cicatrizes e a mem\u00f3ria da humanidade. N\u00f3s sobrevivemos a nossa derrota, voc\u00eas jamais escapar\u00e3o do sangue que encharca sua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Com Pablo Neruda gritamos, intransigentes e irreconcili\u00e1veis:<\/p>\n<p><em>Nossos Inimigos (Canto Geral)<\/em><\/p>\n<p><em>Aqui eles trouxeram os fuzis repletos<\/em><\/p>\n<p><em>de p\u00f3lvora, eles comandaram o acerbo exterm\u00ednio,<\/em><\/p>\n<p><em>eles aqui encontraram um povo que cantava,<\/em><\/p>\n<p><em>um povo por dever e por amor reunido,<\/em><\/p>\n<p><em>e a delgada menina caiu com a sua bandeira,<\/em><\/p>\n<p><em>e o jovem sorridente girou a seu lado ferido,<\/em><\/p>\n<p><em>e o estupor do povo viu os mortos tombarem<\/em><\/p>\n<p><em>com f\u00faria e dor.<\/em><\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, no lugar<\/em><\/p>\n<p><em>onde tombaram os assassinados,<\/em><\/p>\n<p><em>baixaram as bandeiras para se empaparem do sangue<\/em><\/p>\n<p><em>para se erguerem de novo diante dos assassinos.<\/em><\/p>\n<p><em>Por estes mortos, nossos mortos,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Para os que salpicaram a p\u00e1tria de sangue,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Para o verdugo que ordenou esta morte,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Para o traidor que ascendeu sobre o crime,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Para o que deu a ordem de agonia,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Para os que defenderam este crime,<\/em><\/p>\n<p><em>pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o quero que me deem a m\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>empapada de nosso sangue.<\/em><\/p>\n<p><em>Pe\u00e7o castigo.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o vos quero como embaixadores,<\/em><\/p>\n<p><em>tampouco em casa tranquilos,<\/em><\/p>\n<p><em>quero ver-vos aqui julgados,<\/em><\/p>\n<p><em>nesta pra\u00e7a, neste lugar.<\/em><\/p>\n<p><em>Quero castigo.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5695\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-5695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1tR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5695\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}