{"id":5711,"date":"2013-12-09T17:18:23","date_gmt":"2013-12-09T17:18:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5711"},"modified":"2013-12-09T17:18:23","modified_gmt":"2013-12-09T17:18:23","slug":"a-classe-operaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5711","title":{"rendered":"A Classe Oper\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Como todos sabem &#8211; j\u00e1 faz algum tempo &#8211; n\u00e3o se gera vida espontaneamente. Nem os criacionistas confiam que isso seja poss\u00edvel. Da mesma forma, por que acreditar que as massas, em movimento, tomar\u00e3o, espontaneamente, o caminho da Revolu\u00e7\u00e3o? As leis que governam uma e outra gravidez equivalem-se.<\/p>\n<p>Quando Marx e Engels se preocupam com a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, na g\u00eanesis do movimento comunista internacional, indicam claramente que esse \u00e9 um dos pressupostos do sucesso ou do malogro da luta da classe oper\u00e1ria. Mesmo porque, do outro lado da rua, os capitalistas est\u00e3o a postos, estruturados, disciplinados e aparelhados.<\/p>\n<p>A defesa do \u201capoliticismo\u201d das mobiliza\u00e7\u00f5es e o discurso \u201cantipartido\u201d e \u201cantiorganiza\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e3o mais velhos que a antiga e mal falada profiss\u00e3o. A repeti\u00e7\u00e3o da chorumela, ao longo da hist\u00f3ria do movimento de massas, aqui e aonde quer que seja, enfastia.<\/p>\n<p>Mas sempre haver\u00e1 quem a revitalize, assim como sempre haver\u00e1 um cabo \u00e0 espreita para enredar os que berram contra os partidos, contra os sindicatos, contra os pol\u00edticos. Um cabo, v\u00ea-se, estipendiado pelos democratas da linhagem dos Krupp, dos Thiesen, dos Kirdoff, dos Porche, dos Hugo Boss, da IG Farben, da AEG ou da estirpe de nossa gloriosa Fiesp (como Paulo Egydio Martins relembra, denuncia e n\u00e3o se arrepende).<\/p>\n<p>N\u00e3o porque o ex-governador e a fin\u00edssima flor do capitalismo alem\u00e3o fossem (ou s\u00e3o) malvados, feios e perebentos. Tamb\u00e9m. Mas o que os guia \u00e9 a consci\u00eancia de classe. Essa mesma consci\u00eancia que eles fazem de tudo para retirar, e negar, aos trabalhadores. Ora, quando decretaram o\u00a0<em>fim da hist\u00f3ria<\/em> quem eles pretendiam que houvesse finado? A contradi\u00e7\u00e3o de classes,\u00a0<em>et pour cause<\/em>, a luta de classes. Quer dizer, promulgaram o falecimento de apenas um dos polos das contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando o atual ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, foi indicado, vieram \u00e0 imprensa duas autorias memor\u00e1veis de seu av\u00f4: o assassinato do l\u00edder campon\u00eas Jo\u00e3o Pedro Teixeira, o cabra marcado para morrer, em 1962; e o assassinato da l\u00edder camponesa Margarida Maria Alves, em 1985, que a \u201cMarcha das Margaridas\u201d lembra todos os anos. Pois bem, confrontado com o passado, o neto, sem a falsa sofistica\u00e7\u00e3o dos Fukuyama, proclamou: \u201cIsso \u00e9 coisa daquela \u00e9poca; agora, depois da queda do Muro de Berlim, acabou essa hist\u00f3ria de esquerda e direita\u201d.<\/p>\n<p>Assim, decretado, passou a compor alegremente o Minist\u00e9rio da presidente. Nenhum remorso, nenhum arrependimento, pois seu av\u00f4 fez que o se esperava que os de sua classe fizessem, naqueles tempos\u00a0<em>terr\u00edveis<\/em> quando ainda havia no mundo esquerda e direita.<\/p>\n<p>A jornalista Juliana Cunha, do \u201cJ\u00e1 Matei por Menos\u201d, parodiando o velho dito, diz que \u201cideologia boa \u00e9 ideologia naturalizada\u201d. E, assim absorvida, passa a constituir senso comum. Como tal, engolem-se barbaridades como as do neto do matador de camponeses como ing\u00eanitas,\u00a0<em>de<\/em> <em>rerum natura. <\/em>O antinatural seria o oposto, \u00e9 claro. O imperdo\u00e1vel, jamais prescrito, seria Teixeira ter eliminado o av\u00f4 do ministro.<\/p>\n<p>Se as classes existem, \u00e9 procedente que se organizem em defesa de seus interesses de classe. Principalmente a classe oper\u00e1ria, vitimada nas \u00faltimas d\u00e9cadas pela mais poderosa campanha de cerco e aniquilamento ideol\u00f3gico. Mas n\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o domesticada dos sindicatos e das centrais sindicais. Do ponto de vista da burguesia, dos capitalistas, a organiza\u00e7\u00e3o sindical hoje, aqui, nos Estados Unidos, Europa, \u00c1sia ou \u00c1frica equivale-se aos clubes l\u00edtero-musicais do s\u00e9culo XIX, t\u00e3o an\u00f3dina, inofensiva. Desse mato, n\u00e3o sai coelho.<\/p>\n<p>Qual, ent\u00e3o, seria a organiza\u00e7\u00e3o adequada \u00e0\u00a0<em>classe oper\u00e1ria<\/em>, para que ela possa defender\u00a0<em>seus interesses de classe<\/em> e opor-se \u00e0\u00a0<em>classe<\/em> que a quer ver descaracterizada, enfraquecida, despolitizada, desideologizada, corrompida?<\/p>\n<p>O Partido da Classe Oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe outro espa\u00e7o \u00e0 classe oper\u00e1ria que o seu pr\u00f3prio partido, estado-maior que a conduzir\u00e1 no confronto, di\u00e1rio e final, com os capitalistas. O Partido da Classe Oper\u00e1ria \u00e9 o meio indispens\u00e1vel,<em>vitam aut mortem<\/em>, para a vit\u00f3ria do socialismo, para a preval\u00eancia dos interesses da maioria sobre o capitalismo e sua mais cruel inven\u00e7\u00e3o, o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Nos anos 60\/70, quando do tronco fundador brotam, espoucam mir\u00edades de partidos e organiza\u00e7\u00f5es, debatia-se com paix\u00e3o e inevit\u00e1vel sectarismo a constru\u00e7\u00e3o ou reconstru\u00e7\u00e3o (caso o PCB tivesse sido) do Partido da Classe Oper\u00e1ria e havia mesmo quem presumisse p\u00f4r-se como c\u00e9lula geradora da (re)constru\u00e7\u00e3o do Partido.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, dividida, subdividida, estripada, perdida, desviada, descaminhada para as mais absurdas op\u00e7\u00f5es \u2013incluindo-se a\u00ed a pretensa sementeira- as esquerdas deixaram o debate sobre a indispensabilidade do Partido para co\u00e7ar as feridas dos erros. E diante deles, ao inv\u00e9s de corrigi-los, reproduz o que j\u00e1 vimos tantas vezes na hist\u00f3ria: capitula.<\/p>\n<p>A tal da redemocratiza\u00e7\u00e3o (cui prodest, cara p\u00e1lida?) consolida a ren\u00fancia de boa parte da esquerda \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, ao socialismo e, quando muito, ela passa a militar a favor de uma peculiar<em>socialdemocracia de tipo novo, <\/em>a socialdemocracia que gera esse prod\u00edgio chamado\u00a0<em>nova classe m\u00e9dia,<\/em> dezenas de milh\u00f5es de brasileiros admitidos no maravilhoso mundo do consumo, levando na carteira, em m\u00e9dia, m\u00e1gicos 270 reais. Alv\u00edssaras!<\/p>\n<p>Enquanto isso, nenhum aparte sobre a massacrante, incessante explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. E a classe, desorganizada, despolitizada, desideologizada, n\u00e3o reage, inconsciente de seus interesses e de sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>E assim, nessa toada, nesse rame-rame med\u00edocre l\u00e1 vamos n\u00f3s&#8230; para as elei\u00e7\u00f5es de 2014.<\/p>\n<p>Paulo, o ap\u00f3stolo, inventou o cristianismo ao determinar que fora da\u00a0<em>igreja <\/em>n\u00e3o haveria salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estaremos inventando nada ao proclamar que\u00a0<em>sem partido<\/em> n\u00e3o haver\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para a Classe Oper\u00e1ria e, em consequ\u00eancia para a reden\u00e7\u00e3o de todo o povo brasileiro, notadamente para a classe m\u00e9dia de 270 reais por m\u00eas.<\/p>\n<p>Os\u00a0<em>esquerdistas<\/em> tradicionais costumavam ser severos na cr\u00edtica ao neoliberalismo dos governos de FHC e mais severos ainda na cr\u00edtica aos erros acontecidos no \u00a0ex-bloco socialista. E s\u00e3o\u00a0<em>experts <\/em> na longa cataloga\u00e7\u00e3o dos erros do comunismo internacional e descem a ripa com fervor inquisitorial no Partido Comunista Brasileiro, o dito\u00a0<em>Partid\u00e3o, <\/em>hoje rara luz nesse cinzento pol\u00edtico que encobre o pa\u00eds.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os\u00a0<em>pentitti<\/em> , envergonhados de seu passado, que fazem coro com cr\u00edtica de direita ao PT, considerando o socialismo e marxismo superados, defendendo um capitalismo n\u00e3o selvagem, como se a selvageria n\u00e3o fosse caracter\u00edstica intr\u00ednseca do sistema capitalista, ainda mais nos tempos de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que ocorreram erros graves nos pa\u00edses ditos socialistas e consequentemente nos partidos comunistas que lhe davam sustenta\u00e7\u00e3o. Mas nunca \u00e9 demais lembrar do cerco e da ofensiva do imp\u00e9rio dos Estados Unidos contra a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Rep\u00fablica Popular da China e Cuba, por exemplo, inclusive aproveitando as contradi\u00e7\u00f5es sino-sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Mas faz toda a diferen\u00e7a \u00a0criticar os erros pela esquerda ou simplesmente capitular ao discurso conservador de que o capitalismo \u00e9 eterno, esquecendo-se, \u00a0deliberadamente, que as crises s\u00e3o provocadas pelo pr\u00f3prio sistema capitalista.<\/p>\n<p>Na revolta das ruas ficou evidente o fracasso da modelo\u00a0<em>social liberal<\/em> dos governos petistas e de<em>comunistas de logotipo<\/em>, que administram as crises capitalistas com inimigos de classe.<\/p>\n<p>Como diz o padeiro, \u00e9 imposs\u00edvel fazer p\u00e3o de primeira com farinha de terceira.<\/p>\n<p>Por isso os explorados e oprimidos continuam protestando nas ruas e berrando que apesar deles amanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia e essas figuras n\u00e3o ter\u00e3o como se esconder da euforia. E o povo trabalhador cantar\u00e1 Chico Buarque:<em> quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro, todo esse amor reprimido, esse grito contido, este samba no escuro&#8230;<\/em><\/p>\n<p>*Jos\u00e9 Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras s\u00e3o jornalistas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJos\u00e9 Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5711\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5711","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1u7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5711\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}