{"id":5718,"date":"2013-12-11T22:32:51","date_gmt":"2013-12-11T22:32:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5718"},"modified":"2017-08-25T00:48:45","modified_gmt":"2017-08-25T03:48:45","slug":"mandela-um-legado-contraditorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5718","title":{"rendered":"Mandela: um legado contradit\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p>O grande s\u00edmbolo da resist\u00eancia ao apartheid racial morreu no dia 5 de dezembro passado. Quando penso em Nelson Mandela logo me vem \u00e0 mente a ic\u00f4nica imagem do dia de sua liberta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s 27 anos de encarceramento, emergiu um sorridente her\u00f3i do povo, cumprimentando com seu punho direito erguido a massa que o acolheu como o incontest\u00e1vel guardi\u00e3o dos sonhos de sua emancipa\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil descrever a sensa\u00e7\u00e3o que tive quando assisti pela TV esta cena. Foi um momento glorioso daquilo que Walter Benjamin chamou de \u201ctradi\u00e7\u00e3o dos oprimidos\u201d: subitamente, o caudaloso fluxo da domina\u00e7\u00e3o detem-se por um instante, deixando antever a ainda nebulosa fisionomia da liberdade vindoura.<\/p>\n<p>Fora da pris\u00e3o, Mandela liderou a negocia\u00e7\u00e3o estabelecida com o Estado fascista que sepultou o apartheid racial. O empenho pacificador demonstrado durante a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica garantiu-lhe o pr\u00eamio Nobel da Paz de 1993. Por isso, pode parecer f\u00e1cil escrever sobre ele. Bastaria, por exemplo, elogiar sua sublime disposi\u00e7\u00e3o de perdoar os opressores brancos. Ali\u00e1s, \u00e9 exatamente isso que tem feito toda a imprensa mundial. No entanto, gostaria de destacar um outro \u00e2ngulo, ou seja, o projeto pol\u00edtico que, ao sair da pris\u00e3o, ele afian\u00e7ou. No final dos anos 1980, t\u00e3o logo o Partido Nacional, com o dom\u00ednio dos afric\u00e2nderes no governo, percebeu que iria ser derrotado pela resist\u00eancia mais ou menos inorg\u00e2nica de toda a sociedade civil sul-africana, iniciou-se um processo de negocia\u00e7\u00e3o entre os fascistas e o maior partido anti-apartheid, isto \u00e9, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ao longo de alguns poucos anos, o pacto social que deu origem \u00e0 nova \u00c1frica do Sul foi urdido.<\/p>\n<p>Conforme os termos do acordo, as tradicionais classes dominantes brancas manteriam o dom\u00ednio e a propriedade de todos os setores econ\u00f4micos estrat\u00e9gicos, transferindo progressivamente para o ANC o controle do aparelho de Estado. Enquanto os ativos financeiros das principais empresas do pa\u00eds migravam para Londres em um avassalador movimento de fuga de capitais que acentuou a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica branca, o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) e o ANC formavam a coaliz\u00e3o conhecida como \u201cAlian\u00e7a Tripartite\u201d que se transformou em uma poderosa m\u00e1quina eleitoral, criando as condi\u00e7\u00f5es para o estabelecimento de uma dur\u00e1vel hegemonia alicer\u00e7ada na \u201cfus\u00e3o\u201d das principais for\u00e7as anti-apartheid com o aparelho estatal.<\/p>\n<p>Assim, sedimentou-se, em 1996, um modelo de (sub-)desenvolvimento capaz de combinar uma agenda neoliberal conhecida como \u201c<em>Growth, Employment and Redistribution<\/em>\u201d (GEAR) com algumas reformas pontuais cujo produto mais saliente foi a exacerba\u00e7\u00e3o das desigualdades de ra\u00e7a, de g\u00eanero e de classe social.<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/Users\/BT1\/AppData\/Local\/Microsoft\/Windows\/Temporary%20Internet%20Files\/Content.Outlook\/5D82CSWK\/Artigo_Blog_Boitempo_Mandela_final.docx#_ftn1\" target=\"_blank\">[1]<\/a> A partir de ent\u00e3o, privatiza\u00e7\u00f5es, cortes de gastos estatais e modera\u00e7\u00e3o salarial, combinaram-se com, por exemplo, a incorpora\u00e7\u00e3o dos negros ao sistema p\u00fablico de sa\u00fade\u2026 O apartheid racial foi substitu\u00eddo por um apartheid social alimentado pela explora\u00e7\u00e3o da maioria dos trabalhadores negros. Mandela foi o grande fiador desta \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d. Apenas um negro educado vivendo em um pa\u00eds dominado por brancos, um pr\u00edncipe xhosa vivendo em um pa\u00eds de maioria zulu, um l\u00edder mundialmente admirado vivendo em um pa\u00eds carente de aceita\u00e7\u00e3o internacional, poderia dirigir este processo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a transi\u00e7\u00e3o para a democracia parlamentar, o ANC lan\u00e7ou, no in\u00edcio dos anos 2000, o\u00a0<em>Black Economic Empowerment<\/em>, programa conhecido como \u201cBEE\u201d. Tratava-se de um programa para diminuir as disparidades s\u00f3cio-econ\u00f4micas existentes entre os diferentes grupos raciais por meio da incorpora\u00e7\u00e3o de negros e de n\u00e3o brancos ao\u00a0<em>staff<\/em> administrativo das empresas sul-africanas. Com essa pol\u00edtica, o pa\u00eds testemunhou o surgimento de uma afluente elite econ\u00f4mica negra, conhecida como \u201cBlack Diamonds\u201d, que acumulou imenso poder e riqueza devido \u00e0 intimidade com o governo. Assim, ex-militantes sindicais comunistas tornaram-se s\u00f3cios de empresas de minera\u00e7\u00e3o e ex-lideran\u00e7as do ANC transformaram-se em mega-investidores financeiros. Dispens\u00e1vel dizer que esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo altos executivos e pol\u00edticos tornaram-se usuais.<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o curiosa surgiu para descrever a atual estrutura classista da \u00c1frica do Sul: \u201csociedade cappuccino\u201d. Trata-se de uma men\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia de uma larga base negra sobre a qual repousa uma \u201cespuma\u201d branca encimada por uma fin\u00edssima camada de chocolate em p\u00f3. O resultado? Da 90\u00ba posi\u00e7\u00e3o no ranking da desigualdade, em 1994, ano da elei\u00e7\u00e3o presidencial de Mandela, a \u00c1frica do Sul ocupa atualmente a 121\u00ba posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o admira que neste tipo de sociedade tens\u00f5es \u00e9tnicas e sociais descambem rapidamente para a viol\u00eancia xenof\u00f3bica: a taxa de criminalidade do pa\u00eds est\u00e1 entre as 15 piores do mundo e a expectativa de vida da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de apenas 53 anos.<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/Users\/BT1\/AppData\/Local\/Microsoft\/Windows\/Temporary%20Internet%20Files\/Content.Outlook\/5D82CSWK\/Artigo_Blog_Boitempo_Mandela_final.docx#_ftn2\" target=\"_blank\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Ano passado, ao trocar alguns d\u00f3lares no aeroporto de Johannesburgo percebi que a ef\u00edgie de Mandela estampava as novas c\u00e9dulas de rands. O \u201cPai da P\u00e1tria\u201d aparecia sorrindo discretamente em todas as notas, n\u00e3o importando o valor. \u201cA revolu\u00e7\u00e3o passiva sul-africana est\u00e1 conclu\u00edda\u201d, pensei\u2026 No caminho para o hotel, fui informado que <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2012\/09\/17\/marikana-o-evento-classico\/\" target=\"_blank\">36 mineiros haviam sido barbaramente assassinados h\u00e1 pouco pela pol\u00edcia no acampamento de Marikana<\/a>, nas cercanias de Rustemburgo, durante uma greve. Tamb\u00e9m soube que, em un\u00edssono, a Alian\u00e7a Tripartite estava improvisando argumentos a fim de justificar o massacre. Separadas por apenas 180 km, a dist\u00e2ncia entre Marikana e Sharpeville n\u00e3o poderia ser maior\u2026<\/p>\n<p>Tudo isso faz parte da heran\u00e7a deixada pelo maior s\u00edmbolo da resist\u00eancia ao apartheid racial. Como decifr\u00e1-la? Em 1963, ao ser condenado \u00e0 morte no Julgamento de Rivonia, Mandela era um homem disposto a arriscar a pr\u00f3pria vida pela liberta\u00e7\u00e3o de seu povo. Por ser o comandante em chefe da ala armada de seu partido ele ficou quase tr\u00eas d\u00e9cadas encarcerado e merece nosso mais profundo respeito. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que, na atual luta contra o apartheid social, os trabalhadores negros sul-africanos enfrentam sozinhos uma hegemonia delet\u00e9ria que Mandela n\u00e3o economizou esfor\u00e7os para fortalecer. Para muito al\u00e9m da santifica\u00e7\u00e3o do grande l\u00edder, algum dia, uma \u00c1frica do Sul emancipada saber\u00e1 reconhecer e superar os limites deste legado contradit\u00f3rio.<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Ver Patrick Bond,\u00a0<em>The Elite Transition: From Apartheid to Neoliberalism in South Africa<\/em>, Pluto Press, 2000.<\/p>\n<p>[2] Ver Karl von Holdt\u00a0<em>et alii<\/em>,\u00a0<em>The smoke that calls: Insurgent citizenship and the struggle for a place in the new South Africa<\/em>, Society, Work and Development Institute, 2011.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Para aprofundar a reflex\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias das formas de domina\u00e7\u00e3o desenvolvidas em projetos pol\u00edticos de pacto social, em especial sobre o caso brasileiro, recomendamos a leitura de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/273\" target=\"_blank\"><em>Hegemonia \u00e0s avessas: economia, pol\u00edtica e cultura na era da servid\u00e3o financeira<\/em><\/a>, organizado por Francisco de Oliveira, Ruy Braga e Cibele Rizek.\u00a0<a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=BBrY8J5zzKsC&amp;printsec=frontcover#v=onepage&amp;q&amp;f=false\" target=\"_blank\">[veja uma pr\u00e9via do livro]<\/a><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Ruy Braga<\/strong>, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, \u00e9 autor, entre outros livros, de\u00a0<em>Por uma sociologia p\u00fablica<\/em> (S\u00e3o Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e\u00a0<em>A nostalgia do fordismo: moderniza\u00e7\u00e3o e crise na teoria da sociedade salarial<\/em> (S\u00e3o Paulo, Xam\u00e3, 2003). Na Boitempo, coorganizou as colet\u00e2neas de ensaios\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titles\/view\/257\" target=\"_blank\">Infoprolet\u00e1rios \u2013 Degrada\u00e7\u00e3o real do trabalho virtual<\/a><\/em> (com Ricardo Antunes, 2009) e\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/273\" target=\"_blank\">Hegemonia \u00e0s avessas<\/a><\/em> (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/329\" target=\"_blank\" title=\"A pol\u00edtica do precariado\"><em>A pol\u00edtica do precariado: do populismo \u00e0 hegemonia lulista<\/em><\/a>. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo<\/strong> mensalmente, \u00e0s segundas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRuy Braga\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5718\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-5718","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ue","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5718"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5718\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}