{"id":5721,"date":"2013-12-13T18:29:47","date_gmt":"2013-12-13T18:29:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5721"},"modified":"2013-12-13T18:29:47","modified_gmt":"2013-12-13T18:29:47","slug":"africa-do-sul-e-o-apartheid-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5721","title":{"rendered":"\u00c1frica do Sul e o apartheid neoliberal"},"content":{"rendered":"\n<p>O &#8220;CNA e Cosatu n\u00e3o nos representam&#8221;. Tempos atr\u00e1s, ouvir, de um sul-africano, uma frase como esta em rela\u00e7\u00e3o ao Congresso Nacional Africano e o Congresso Sul-Africano de Sindicatos seria praticamente imposs\u00edvel. Contudo, foi exatamente esta a palavra de ordem que foi cantada, com garra e convic\u00e7\u00e3o, por cerca de 200 trabalhadores e jovens que participavam de um curso realizado na Cidade do Cabo, em setembro passado.<\/p>\n<p>Longe de ser uma posi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, este sentimento \u00e9 crescente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades que, juntamente com o Partido Comunista, formam a Alian\u00e7a Tripartite que, desde 1994, governa o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O rep\u00fadio parte de uma lament\u00e1vel, mas inquestion\u00e1vel, realidade. Duas d\u00e9cadas depois da extin\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o que garantiu a exist\u00eancia de um dos regimes mais racistas da Hist\u00f3ria, o atual governo \u2013 atrav\u00e9s de suas alian\u00e7as com a mesm\u00edssima burguesia branca que criou o regime segregacionista e da ado\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas neoliberais \u2013 mergulhou a maioria negra do pa\u00eds em outro pesadelo: o apartheid s\u00f3cio-econ\u00f4mico, que mant\u00e9m praticamente intacta a segrega\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Em agosto de 2012, 34 mineiros em greve foram mortos e 78 ficaram feridos, no Massacre de Marikana. Um deplor\u00e1vel marco da trai\u00e7\u00e3o levada a cabo pelas dire\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas \u00e0s massas sul-africanas, que vem sendo considerado &#8220;o ponto da virada&#8221;. O epis\u00f3dio vem acelerando o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e pol\u00edticos que buscam novas formas de organiza\u00e7\u00e3o para dar continuidade \u00e0 luta por uma sociedade onde a maioria negra possa viver com dignidade.<\/p>\n<p>Apartheid: um pesadelo capitalista<\/p>\n<p>Adotado em 1948, o apartheid remonta aos anos 1700, quando holandeses e brit\u00e2nicos ocuparam a regi\u00e3o para lucrar com o tr\u00e1fico negreiro e, particularmente, ao in\u00edcio dos anos 1900, quando a descoberta de ouro e diamantes p\u00f4s fim \u00e0s disputas entre as duas pot\u00eancias imperialistas. Elas se uniram para garantir seus interesses e criaram mecanismos que lhes garantiram o monop\u00f3lio do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Este processo foi consolidado a partir de 1948, quando a legisla\u00e7\u00e3o do apartheid come\u00e7ou a entrar em vigor atrav\u00e9s da separa\u00e7\u00e3o da sociedade em quatro &#8220;categorias&#8221; (brancos, negros, mesti\u00e7os e asi\u00e1ticos). O casamento inter-racial foi criminalizado e foi adotado a obrigatoriedade de &#8220;passes&#8221; que controlavam e limitavam a circula\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o-brancos. Por fim, houve a separa\u00e7\u00e3o baseada em crit\u00e9rios raciais, de quaisquer aspectos da vida social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Transi\u00e7\u00e3o ou trai\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Marcada por massacres (como os de Shaperville e Soweto, respectivamente em 1960 e 1976), torturas, pris\u00f5es, mas tamb\u00e9m uma incessante resist\u00eancia, a luta contra o apartheid chegou ao seu \u00e1pice na d\u00e9cada de 1980, quando greves e mobiliza\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, al\u00e9m de uma crescente press\u00e3o internacional, colocaram o regime em cheque.<\/p>\n<p>Em 1994, o regime do apartheid foi derrubado. Uma enorme vit\u00f3ria da luta negra na \u00c1frica do Sul e de todo o mundo. No entanto, o CNA e seu principal l\u00edder- Nelson Mandela, s\u00edmbolo da resist\u00eancia ao regime desde sua pris\u00e3o, em 1962- vinham em um processo de negocia\u00e7\u00f5es com o racista Partido Nacional que resultaram na chamada &#8220;transi\u00e7\u00e3o&#8221;, iniciada em 1991.<\/p>\n<p>Apoiados em sua hist\u00f3ria de lutas e nas enormes expectativas do povo negro, os dirigentes do CNA mantiveram o capitalismo, contiveram o ascenso nos limites da democracia burguesa. Em nome da &#8220;reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221;, transformaram os seus ex-algozes da burguesia branca em parceiros e s\u00f3cios na administra\u00e7\u00e3o do Estado e na implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, apesar de algumas p\u00edfias medidas compensat\u00f3rias e da forma\u00e7\u00e3o de uma classe m\u00e9dia negra (al\u00e9m de uma cada vez maior, mais gananciosa e corrupta burguesia negra), o que tem caracterizado a situa\u00e7\u00e3o sul-africana \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o e o aprofundamento da mis\u00e9ria e das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>E foi exatamente isto que levou os mineiros de Marikana \u00e0 greve, como foi destacado por John Appolis, da GIWUSA, uma entidade que \u00e9 parte do processo de reorganiza\u00e7\u00e3o que defende a independ\u00eancia, diante dos patr\u00f5es e do governo: &#8220;Marikana \u00e9 uma prova de que o CNA nada mais fez do que dar continuidade ao projeto capitalista: fornecer m\u00e3o de obra negra e barata para ser explorada pelas grandes empresas&#8221;.<\/p>\n<p>Para exemplificar o comprometimento do CNA com o neoliberalismo, basta citar a deplor\u00e1vel figura de Cyril Ramaphosa, um dos fundadores do Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM), a principal entidade da Cosatu. Eleito, em 2012, presidente do CNA hoje ele \u00e9 um dos homens mais ricos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dentre seus v\u00e1rios neg\u00f3cios, Ramaphosa tamb\u00e9m \u00e9 diretor da Lonmin, a gigantesca empresa mineradora que controla a extra\u00e7\u00e3o de platina que \u00e9 dona da mina de Marikana.<\/p>\n<p>Foi como representante da empresa que, um dia antes do massacre, o presidente do CNA emitiu um e-mail a um diretor da mineradora que coloca o partido por tr\u00e1s das balas que assassinaram os mineiros: &#8220;Os terr\u00edveis eventos que est\u00e3o acontecendo n\u00e3o podem ser descritos com uma disputa trabalhista. Eles s\u00e3o claramente vis e criminosos e devem ser caracterizados desta forma. Por isso a necessidade de a\u00e7\u00f5es concomitantes&#8221;.<\/p>\n<p>Amandla Awhethu: um grito que precisa retomar as ruas<\/p>\n<p>Hoje no pa\u00eds, a rela\u00e7\u00e3o entre o rendimento de negros e de brancos continua quase a mesma dos tempos do infame apartheid: se em 1993 os brancos tinham um rendimento 8,5 vezes maior que o dos negros, em 2008 essa rela\u00e7\u00e3o era de 7,68 vezes. Al\u00e9m disso, o \u00edndice de desemprego entre os negros \u00e9 superior a 40%, o que faz com que, hoje, quase 30% da popula\u00e7\u00e3o negra viva abaixo dos n\u00edveis de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mesmo diante de n\u00fameros como estes, evidentemente, o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Como tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil para a enorme maioria dos ativistas e movimentos negros mundo afora colocar &#8220;Mandela&#8221; e &#8220;trai\u00e7\u00e3o&#8221; na mesma frase.<\/p>\n<p>Mas lamentavelmente, esta \u00e9 a \u00fanica conclus\u00e3o a que podemos chegar, como Appolis sintetizou de forma bastante correta: &#8220;N\u00e3o foi Mandela que derrotou o apartheid, mas sim as massas em luta constante e s\u00e3o estes mesmos lutadores que, hoje, precisam achar novas formas de organiza\u00e7\u00e3o para superar o neoliberalismo e os seus agentes entre n\u00f3s&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante destacar que, cada vez mais, os sul-africanos percebem que essas &#8220;novas formas&#8221; n\u00e3o podem se limitar ao terreno sindical. Hoje, como reflexo um tanto bizarro da crise pol\u00edtica, existem nada menos do que 180 partidos inscritos para as elei\u00e7\u00f5es de 2014. Contudo, como lembrou o dirigente do Centro de Apoio aos Trabalhadores Casuais, Ighsaan Schroeder \u00e9 fundamental que se crie uma alternativa pol\u00edtica para que negros e negras sul-africanos retomem sua luta: &#8220;n\u00f3s n\u00e3o sabemos ainda como esse movimento vai ser e isto \u00e9 uma das principais tarefa que teremos no pr\u00f3ximo per\u00edodo; mas temos uma certeza: o velho est\u00e1 morrendo e o novo est\u00e1 nascendo&#8221;.<\/p>\n<p>E \u00e9 esta certeza que faz com que, cada vez mais, negros e negras sul-africanos retomem as ruas e as lutas ao som da mesma palavra de ordem que marcou a luta contra o apartheid: Amandla Awethu. O poder \u00e9 nosso!<\/p>\n<p>Wilson H. da Silva esteve na \u00c1frica do Sul em setembro \u00faltimo a convite do International Labour Research and Information Group (ILRIG, Grupo de Pesquisa e Informa\u00e7\u00e3o Internacional sobre o Trabalho).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/mundo\/repressom-e-direitos-humanos\/44096-%C3%A1frica-do-sul-e-o-apartheid-neoliberal.html\">http:\/\/www.diarioliberdade.org\/mundo\/repressom-e-direitos-humanos\/44096-%C3%A1frica-do-sul-e-o-apartheid-neoliberal.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5721\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-5721","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5721"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5721\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}