{"id":5724,"date":"2013-12-13T19:02:12","date_gmt":"2013-12-13T19:02:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5724"},"modified":"2013-12-13T19:02:12","modified_gmt":"2013-12-13T19:02:12","slug":"plano-prawer-o-rosto-moderno-da-limpeza-etnica-na-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5724","title":{"rendered":"Plano Prawer: o rosto moderno da limpeza \u00e9tnica na Palestina"},"content":{"rendered":"\n<p>O governo mais ultradireitista da hist\u00f3ria de Israel conseguiu o que os l\u00edderes palestinos n\u00e3o foram capazes de fazer: unir todo o povo palestino.<\/p>\n<p>Mar\u00eda Landi<\/p>\n<p>O governo mais ultradireitista da hist\u00f3ria de Israel conseguiu o que os l\u00edderes palestinos n\u00e3o foram capazes de fazer nas \u00faltimas d\u00e9cadas: unir todo o povo palestino, hoje dividido entre o Estado israelense, a Faixa de Gaza, os territ\u00f3rios ocupados da Cisjord\u00e2nia e de Jerusal\u00e9m Oriental (anexada ilegalmente em 1967), e a di\u00e1spora.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, dia 30, os palestinos organizaram o Terceiro Dia de F\u00faria, jornada de protesto contra o Plano Prawer que se estendeu do mar Mediterr\u00e2neo ao rio Jord\u00e3o.<\/p>\n<p>Levando o sobrenome do parlamentar israelense que o elaborou, o plano pretende destruir 36 aldeias bedu\u00ednas \u201cn\u00e3o reconhecidas\u201d por Israel no deserto do Negev (Naqab, em \u00e1rabe) para construir, em suas terras, col\u00f4nias para a popula\u00e7\u00e3o judia.<\/p>\n<p>Para isso, cerca de 70 mil bedu\u00ednos ser\u00e3o retirados \u00e0 for\u00e7a de sua terra ancestral, e 800 mil dunams\u00a0 dela ser\u00e3o confiscados por Israel.<\/p>\n<p>Calcula-se que em Israel haja mais de 150 aldeias \u00e1rabes \u201cn\u00e3o reconhecidas\u201d pelo Estado sionista nas regi\u00f5es do Naqab e da Galileia. Essas aldeias s\u00e3o consideradas ilegais pelo governo, n\u00e3o figuram nos mapas e n\u00e3o contam com \u00e1gua corrente, eletricidade, telefone, arruamento, escolas e centros de sa\u00fade. As comunidades bedu\u00ednas (cujos habitantes t\u00eam cidadania israelense) constituem cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o do Naqab, mas suas aldeias ocupam apenas 2,5% do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Antes da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, os bedu\u00ednos deslocavam-se livremente pelo deserto; agora, dois ter\u00e7os da regi\u00e3o foram designados pelas autoridades israelenses como \u201ccampos de treinamento militar\u201d, inacess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o bedu\u00edna. Mas a verdade, conhecida por todos, \u00e9 que grupos de colonos judeus aguardam ansiosamente que os habitantes nativos sejam retirados daquelas terras, para instalar-se nos povoados modernos e c\u00f4modos que Israel construir\u00e1 para eles em territ\u00f3rio bedu\u00edno.<\/p>\n<p>O governo israelense pretende apresentar o Plano Prawer\u00a0 como uma a\u00e7\u00e3o \u201chumanit\u00e1ria\u201d, que oferecer\u00e1 moradia adequada, servi\u00e7os p\u00fablicos e \u201cum futuro melhor para as crian\u00e7as\u201d bedu\u00ednas do Naqab\/Negev, permitindo-lhes \u201cintegrar-se \u00e0 estrutura de um Estado moderno ao mesmo tempo que conservam suas tradi\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>A realidade, por\u00e9m, \u00e9 que nenhuma das comunidades afetadas foi consultada nem est\u00e1 de acordo com o plano. E t\u00eam bons motivos para isso: al\u00e9m de perder suas terras, ser\u00e3o realocadas em sete assentamentos superpovoados e pobres, nos quais outros grupos bedu\u00ednos foram concentrados h\u00e1 anos (por isso h\u00e1 quem trace um paralelo entre o plano e as reservas ind\u00edgenas dos Estados Unidos).<\/p>\n<p>\u201cVivemos aqui desde muito antes da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel\u201d, declarou Maqbul Saraya, 70 anos, \u00e0 rede Al-Jazira. &#8220;Sentimos que a democracia e a justi\u00e7a de Israel n\u00e3o se aplicam a n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Recha\u00e7o local e internacional<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses \u00e1rabes vizinhos e em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es da Europa, al\u00e9m de Turquia, T\u00fanis, Coreia do Sul, Kuwait, Canad\u00e1 e Estados Unidos tamb\u00e9m houve manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade aos palestinos no dia 30, para denunciar o que se considera a opera\u00e7\u00e3o sionista de limpeza \u00e9tnica de maior envergadura desde a Nakba (cat\u00e1strofe) de 1948. O Parlamento europeu, o Comit\u00ea contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial da ONU (CERD) e outros organismos intergovernamentais pediram a Israel que cancele o projeto, que se transformar\u00e1 em lei no final do ano. Organiza\u00e7\u00f5es e redes internacionais como Anistia Internacional, Vozes Judias pela Paz, Avaaz, entidades palestinas e algumas israelenses tamb\u00e9m criticaram o plano e lan\u00e7aram campanhas pedindo sua anula\u00e7\u00e3o. Mais de 50 intelectuais e artistas brit\u00e2nicos (entre eles Ken Loach, Mike Leigh e Peter Gabriel) publicaram uma carta no jornal The Guardian, qualificando o objetivo de Israel de desarraigar a popula\u00e7\u00e3o bedu\u00edna como \u201cdeslocamento for\u00e7ado de palestinos\/as de seu lugar e de sua terra, discrimina\u00e7\u00e3o e apartheid\u201d.<\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios ocupados, houve protestos em Gaza, Ramala, Jerusal\u00e9m, Hebron, Nablus. Mas talvez as imagens mais eloquentes, e que tiveram maior difus\u00e3o , tenham sido as das localidades que se encontram dentro das fronteiras de Israel \u2013 onde a repress\u00e3o teve o mesmo excesso de viol\u00eancia imposto \u00e0 Cisjord\u00e2nia: g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, granadas de som, canh\u00f5es de \u00e1gua qu\u00edmica t\u00f3xica, surras com porretes e pontap\u00e9s dos policiais, e dezenas de pris\u00f5es. Ao ver a profus\u00e3o de bandeiras palestinas nas ruas, pra\u00e7as e postes p\u00fablicos, e de rostos envoltos em kuffies, aqueles que n\u00e3o est\u00e3o familiarizados com a geografia do pa\u00eds acham dif\u00edcil entender que as fotos de Yaffa ou Haifa (cidades costeiras que eram joias da Palestina antes de 1948 e que ainda contam com uma grande popula\u00e7\u00e3o palestina) foram tiradas dentro de Israel.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m vale para a manifesta\u00e7\u00e3o na aldeia bedu\u00edna de Hura, uma das afetadas pelo Plano Prawer: as imagens podiam ser do vale do rio Jord\u00e3o ou das colinas do sul de Hebron, territ\u00f3rios palestinos ocupados e submetidos \u00e0s mesmas pol\u00edticas de deslocamento for\u00e7ado da popula\u00e7\u00e3o nativa, obrigada a entregar suas terras a colonos judeus. A paisagem e o povo que a habita s\u00e3o os mesmos; o poder que os oprime, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 jornada de protesto, o ministro israelense de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Avigdor Lieberman (um colono fan\u00e1tico e ultranacionalista \u2013 ironicamente emigrado da Mold\u00e1via \u2013 que defende abertamente a anexa\u00e7\u00e3o da Cisjord\u00e2nia e de Gaza, com a expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o palestina e a aniquila\u00e7\u00e3o da que vive em Gaza) fez uma de suas habituais declara\u00e7\u00f5es de racismo expl\u00edcito: \u201cEstamos lutando pelo territ\u00f3rio nacional do povo judeu, e h\u00e1 aqueles que querem deliberadamente roubar essa terra e control\u00e1-la \u00e0 for\u00e7a\u201d. .<\/p>\n<p>O sionismo como ele \u00e9<\/p>\n<p>Talvez o maior \u201cm\u00e9rito\u201d do Plano Prawer, al\u00e9m de unir a popula\u00e7\u00e3o palestina de todos os setores pol\u00edticos e geogr\u00e1ficos, tenha sido colocar em evid\u00eancia, mais que todas as pol\u00edticas israelenses, a natureza e o programa do projeto sionista: a expans\u00e3o demogr\u00e1fica e territorial judaica, a conten\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e o despejo da popula\u00e7\u00e3o palestina nativa. O objetivo \u00faltimo dessas pol\u00edticas, perfeitamente articuladas em ambos os lados da Linha Verde, a fronteira internacional \u2013 n\u00e3o reconhecida por Israel \u2013 \u00e9 consolidar um regime que muitos cientistas sociais (como o ge\u00f3grafo israelense Oren Yiftachel ) qualificam de etnocracia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, essas pol\u00edticas revelam a fal\u00e1cia de analisar o conflito sob o paradigma de \u201cdois Estados\u201d ou das \u201cfronteiras de 1967\u201d. A realidade \u00e9 de um \u00fanico Estado, que, ao se definir como judeu, exige, para preservar sua \u201cpureza\u201d \u00e9tnico-religiosa, eliminar de todas as maneiras poss\u00edveis a amea\u00e7a demogr\u00e1fica que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o judia constitui. Essas maneiras incluem n\u00e3o apenas o roubo de terras, a coloniza\u00e7\u00e3o, a limpeza \u00e9tnica e o apartheid dos palestinos, mas tamb\u00e9m a expuls\u00e3o em massa dos imigrantes africanos .<\/p>\n<p>Esse Estado n\u00e3o reconhece outras fronteiras sen\u00e3o a totalidade da \u201cterra de Israel\u201d b\u00edblica\u00a0 e n\u00e3o est\u00e1 disposto a ced\u00ea-la a seus habitantes n\u00e3o judeus. N\u00e3o estiveram dispostos os primeiros l\u00edderes sionistas, nem est\u00e3o os atuais. Tudo o mais \u2013 inclu\u00edda a ind\u00fastria do processo de paz \u2013 \u00e9 discurso para consumo da m\u00eddia ocidental.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos importante, ou mais, \u00e9 a quest\u00e3o da integridade do povo palestino. Realidades como o Plano Prawer mostram a omiss\u00e3o implicada na redu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o palestina aos mais de 4 milh\u00f5es que hoje vivem em Cisjord\u00e2nia e Gaza \u2013 em menos de 20% de seu territ\u00f3rio original. T\u00e3o injusto como excluir de qualquer solu\u00e7\u00e3o os 6 milh\u00f5es de refugiados\/as dispersos pelo mundo \u00e9 esquecer o 1,5 milh\u00e3o de palestinas\/os que vivem dentro de Israel (20% da popula\u00e7\u00e3o), expostos a mais de 55 leis de apartheid e a pol\u00edticas de exclus\u00e3o e deslocamento em consequ\u00eancia do af\u00e3 ilimitado da judaiza\u00e7\u00e3o. Enquanto n\u00e3o mudar a natureza do regime colonial e racista de Israel, n\u00e3o haver\u00e1 paz justa nem duradoura \u2013 nem democracia \u2013 naquela terra desgarrada.<\/p>\n<p>(*) Mar\u00eda Landi \u00e9 ativista latino-americana de direitos humanos, solid\u00e1ria com a causa palestina. Seu blogue \u00e9 \u201cPalestina en el coraz\u00f3n\u201d:<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es sobre a resist\u00eancia ao Plano Prawer.<\/p>\n<p>TRADU\u00c7\u00c3O: Baby Siqueira Abr\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Plano-Prawer-o-rosto-moderno-da-limpeza-etnica-na-Palestina\/6\/29742\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Plano-Prawer-o-rosto-moderno-da-limpeza-etnica-na-Palestina\/6\/29742<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5724\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-5724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5724\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}