{"id":5728,"date":"2013-12-13T19:27:20","date_gmt":"2013-12-13T19:27:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5728"},"modified":"2013-12-13T19:27:20","modified_gmt":"2013-12-13T19:27:20","slug":"a-ofensiva-fascistizante-contra-a-resistencia-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5728","title":{"rendered":"A ofensiva fascistizante contra a resist\u00eancia cr\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>Em mem\u00f3ria de Maur\u00edcio Azedo<\/p>\n<p>Na fantasmag\u00f3rica sexta-feira 13 de dezembro de 1968, o cartunista Henfil anteviu a desgra\u00e7a que assolaria o pa\u00eds horas depois. Em charge publicada no Jornal dos Sports com o aval do editor-chefe, Maur\u00edcio Azedo, um torcedor desabafa diante da atmosfera irrespir\u00e1vel: \u201cChega de intermedi\u00e1rios! Delegado Padilha para chefe da Sele\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Deraldo Padilha, delegado de pol\u00edcia na extinta Guanabara, era acusado de utilizar os m\u00e9todos mais truculentos para extrair confiss\u00f5es de presos e perseguir moradores de favelas, homossexuais e prostitutas.<\/p>\n<p>Com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00famero 5, a ideologia da seguran\u00e7a nacional assumiu, por completo, as r\u00e9deas da vida nacional. Ao Estado reservava o monop\u00f3lio da coer\u00e7\u00e3o e o controle supremo das atividades sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Em dez anos de vig\u00eancia do AI-5, foram proibidos cerca de 600 filmes, 500 livros, 450 pe\u00e7as, mil letras de m\u00fasicas, milhares de mat\u00e9rias jornal\u00edsticas, dezenas de programas de r\u00e1dio e televis\u00e3o, cap\u00edtulos e sinopses inteiras de telenovelas.<\/p>\n<p>Com a suspens\u00e3o das garantias constitucionais, milhares de pol\u00edticos, estudantes, artistas, intelectuais e l\u00edderes sindicais foram presos. Fechado o Congresso, foi imposta a censura pr\u00e9via em ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. S\u00f3 para dar um exemplo da prepot\u00eancia: de cada dez cartuns que Henfil desenhava para o Jornal do Brasil, sete ou oito ca\u00edam na malha fina dos censores da Pol\u00edcia Federal. Ap\u00f3s o AI-5, a ditadura militar cassou os mandatos de 110 deputados federais, 161 deputados esta\u00adduais, 163 vereadores e 28 prefeitos, al\u00e9m de aposentar compulsoriamente tr\u00eas grandes ministros do Supremo Tribunal Federal, Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, professores universit\u00e1rios e cientistas.<\/p>\n<p>A ditadura aniquilaria o Correio da Manh\u00e3, que parou de circular em 1974, ap\u00f3s prolongada crise financeira. Vinte e quatro horas ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, o jornal O Paiz foi empastelado por grupos paramilitares. O pr\u00e9dio em Copacabana onde morava um de seus editores, o jornalista Joel Silveira, foi cercado por soldados do Ex\u00e9rcito armados de metralhadoras. Um capit\u00e3o deu voz de pris\u00e3o a Joel, que, gripado e com 40 graus de febre, teve a fineza de oferecer um cafezinho ao oficial antes de partirem para o I Batalh\u00e3o de Guardas, em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, onde dividiria a cela com o jornalista Carlos Heitor Cony, do Correio da Manh\u00e3. O \u00faltimo n\u00famero da Revista Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, baluarte na resist\u00eancia cultural ao arb\u00edtrio, circulou em 22 de dezembro de 1968. Editoras acumularam graves preju\u00edzos com a apreens\u00e3o de tiragens inteiras de livros considerados \u201csubversivos\u201d. Artistas e intelectuais exilaram-se ou tiveram que redobrar a cautela diante das ondas de pris\u00f5es, processos e persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na noite do AI-5, o poeta Ferreira Gullar aguardava em seu modesto apartamento na Rua Henrique Dumont, em Ipanema, a chegada do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, Vianinha, como ele membro do Comit\u00ea Cultural do clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Gullar n\u00e3o teve tempo de escapar. Soou a campainha. Ele dirigiu-se \u00e0 porta, tenso.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 Ferreira Gullar? \u2014 perguntou um dos tr\u00eas homens.<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Pois est\u00e1 preso \u2014 disse o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Milton Guimar\u00e3es Jorge, depois banqueiro do jogo-do-bicho no Rio e pr\u00f3cer da Liga Independente das Escolas de Samba.<\/p>\n<p>Apavorada, a mulher de Gullar, Thereza Arag\u00e3o, arriscou perguntar:<\/p>\n<p>\u2014 Cad\u00ea a ordem de pris\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 ali \u2014 disse um dos dois sargentos do Ex\u00e9rcito que acompanhavam Guimar\u00e3es, apontando para a TV onde o ministro da Justi\u00e7a, Gama e Silva, prosseguia na leitura do decreto que oficializava o AI-5.<\/p>\n<p>A ofensiva fascistizante desmantelou as formas cr\u00edticas de express\u00e3o, submetendo-as \u00e0 vigil\u00e2ncia policial. N\u00e3o se tratava mais de conter a produ\u00e7\u00e3o intelectual em determinados limites, e sim de abort\u00e1-la, destru\u00ed-la como encarna\u00e7\u00e3o do mal. Como bem assinalou Jos\u00e9 Paulo Netto, sa\u00eda de cena, \u00e0 for\u00e7a, tudo o que de mais vivo, criativo e pol\u00eamico se alcan\u00e7ara na cultura brasileira na d\u00e9cada de 1960 (inclusive na fase p\u00f3s-1964). Inaugurava-se o chamado vazio cultural, durante o qual a ditadura procurou ocupar os espa\u00e7os dinamitados pela repress\u00e3o patrocinando atividades acr\u00edticas e eventos alienantes. O regime avocou para si a tarefa de \u201cpreservar a mem\u00f3ria nacional\u201d, atrav\u00e9s de inofensivas obras de recupera\u00e7\u00e3o de parte do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. N\u00e3o somente liquidou com a hegemonia cultural de esquerda no per\u00edodo anterior, como azeitou a m\u00e1quina de propaganda oficial para celebrar o \u201cBrasil grande\u201d, fazendo apologia do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e do consumismo. Era t\u00e3o s\u00f3lido o \u201cmilagre\u201d que n\u00e3o chegou a durar quatro anos, fulminado pela retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica global ap\u00f3s a crise do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Talvez a maior ironia da era de terror do AI-5 tenha acontecido em janeiro de 1973, quando o general-presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici se valeu da legisla\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o para demitir do servi\u00e7o p\u00fablico o delegado Deraldo Padilha. O Ex\u00e9rcito nunca o perdoara por um atrito com o general Mozart Moacir, justamente em 1968.<\/p>\n<p>* D\u00eanis de Moraes \u00e9 professor do Departamento de Estudos Culturais e M\u00eddia da Universidade Federal Fluminense e autor de duas biografias que tamb\u00e9m abordam os anos de chumbo, a serem relan\u00e7adas em 2014 pela Editora Express\u00e3o Popular: O rebelde do tra\u00e7o: a vida de Henfil e Vianinha: c\u00famplice da paix\u00e3o: uma biografia de Oduvaldo Vianna Filho.<\/p>\n<p>Este texto faz parte da\u00a0VIII blogagem coletiva<\/p>\n<p>Publicado no Blog Ousar Lutar! Ousar Vencer!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nD\u00eanis de Moraes*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5728\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-5728","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5728\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}