{"id":5734,"date":"2013-12-15T14:43:23","date_gmt":"2013-12-15T17:43:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5734"},"modified":"2017-08-25T00:03:05","modified_gmt":"2017-08-25T03:03:05","slug":"precisamos-pensar-a-unidade-da-america-latina-a-partir-dos-de-baixo-e-a-partir-da-luta-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5734","title":{"rendered":"\u201cPrecisamos pensar a unidade da Am\u00e9rica Latina a partir dos de baixo e a partir da luta social\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Interven\u00e7\u00e3o de Claudio Katz no debate sobre o livro Sim\u00f3n Bol\u00edvar y nuestra independencia (Una lectura latinoamericana). [Buenos Aires, edi\u00e7\u00f5es La Llamarada-Yulca-Amauta Insurgente, 2013] de N\u00e9stor Kohan. Apresenta\u00e7\u00e3o e debate realizados na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais (com o ausp\u00edcio do Instituto de Am\u00e9rica Latina e Caribe &#8211; IEALC). Universidade de Buenos Aires (UBA), em 21 de outubro de 2013.<\/p>\n<p>Boa noite. Muito obrigado pelo convite. \u00c9 muito bom participar de uma apresenta\u00e7\u00e3o e debate sobre este livro porque \u00e9 um livro excelente. \u00c9 muito importante num momento onde Sim\u00f3n Bol\u00edvar tem m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o. A direita est\u00e1 muito irritada com Bol\u00edvar, pois nos \u00faltimos anos ele deixou de aparecer como um pr\u00f3cer, uma est\u00e1tua ou uma figura escolar. Bol\u00edvar foi resgatado como um fundador da unidade latino-americana e, portanto, qualquer livro que o analise a fundo \u00e9 um livro oportuno e importante, com o acr\u00e9scimo de que aqui n\u00e3o estamos diante de qualquer livro sobre Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>Acredito estarmos diante de uma grande obra te\u00f3rica e pol\u00edtica, pois est\u00e1 centrada na an\u00e1lise da hist\u00f3ria concebida como luta social, sendo Bol\u00edvar interpretado a partir deste \u00e2ngulo. A an\u00e1lise que temos neste livro convida a olharmos Bol\u00edvar como exemplo de luta, como b\u00fassola de projetos libertadores e, portanto, analisa a hist\u00f3ria de tal forma que nos permite buscar nossas ra\u00edzes, amadurecer a consci\u00eancia de classe, encontrar continuidades entre a luta de hoje e a luta de ontem, forjar identidades coletivas e \u2013 como assinala N\u00e9stor Kohan \u2013 avan\u00e7ar na recupera\u00e7\u00e3o da autoestima popular.<\/p>\n<p>Portanto, este livro sobre Sim\u00f3n Bol\u00edvar \u00e9 uma obra onde a hist\u00f3ria \u00e9 vista como hist\u00f3ria da luta de classes e nos permite abordar a hist\u00f3ria pelos olhos dos oprimidos. Com este olhar, com este enfoque, com esta vis\u00e3o se re\u00fane toda a hist\u00f3ria. A independ\u00eancia como uma luta social onde vemos o poder colonial, o poder das elites criollas e as maiorias exclu\u00eddas. O livro est\u00e1 estruturado sobre um relato, onde vemos ao longo de toda uma hist\u00f3ria os momentos de converg\u00eancia dos oprimidos com as elites e os momentos de diverg\u00eancia entre estes setores. N\u00e9stor relata muito bem a primeira etapa jacobina da independ\u00eancia: Moreno, Belgrano, Monteagudo\u2026 Faz um interessante paralelo entre o ocorrido no Rio da Prata e a Grande Col\u00f4mbia e, depois, a segunda etapa. Aquela etapa da independ\u00eancia, a da guerra social e colonial. Bol\u00edvar apelando \u00e0 doutrina do povo em armas, o \u201ccont\u00e1gio\u201d do Haiti, a decis\u00e3o de libertar os escravos, o apoio a suas lutas nas pradarias, nos montoneros, nas for\u00e7as plebeias, a converg\u00eancia com San Mart\u00edn e sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s oligarquias sul-americanas, que os tra\u00edram e os abandonaram.<\/p>\n<p>Portanto, este livro sobre Sim\u00f3n Bol\u00edvar v\u00ea este processo sob o \u00e2ngulo da luta social. Debru\u00e7ando-se sobre a hist\u00f3ria da independ\u00eancia latino-americana, constitui um grande livro de pol\u00eamicas com a historiografia oficial, que ignorou ou impugnou Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>E se o livro fosse apenas isto, somente pelo que acabo de descrever at\u00e9 agora, j\u00e1 seria magistral, j\u00e1 seria um instrumento de luta, j\u00e1 seria um livro militante, j\u00e1 seria uma obra para o debate pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, creio que o livro de N\u00e9stor Kohan acrescenta algo mais importante para n\u00f3s. E quando digo \u201cn\u00f3s\u201d, refiro-me a n\u00f3s marxistas.<\/p>\n<p>Existe uma segunda leitura, um segundo n\u00edvel anal\u00edtico, muito mais detalhado, muito mais complexo, fruto da pr\u00f3pria elabora\u00e7\u00e3o daqueles que constituem parte do pensamento marxista.<\/p>\n<p>E isto acontece porque \u2013 como aponta N\u00e9stor \u2013 Bol\u00edvar \u00e9 um \u201cproblema\u201d para os marxistas. N\u00e3o \u00e9 um tema simples para os marxistas, a partir do momento que Marx escreveu aquele famoso texto sobre Bol\u00edvar, mais que polemizando, diria eu que caricaturando Bol\u00edvar. Marx escreveu uma par\u00f3dia de Bol\u00edvar. E a partir da\u00ed, Bol\u00edvar passou a ser um tema controvertido para a hist\u00f3ria do marxismo. Existe um desencontro entre Marx e Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>N\u00e9stor trabalhou este tema em livros anteriores (Marx en su (Tercer) mundo; Nuestro Marx), principalmente as causas desse desencontro. Eu acrescentaria \u00e0s explica\u00e7\u00f5es de N\u00e9stor o contexto no qual Marx via a Am\u00e9rica Latina. Isto foi descoberto por \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera [Bol\u00edvia, 1962]. Marx escreveu seu texto sobre Bol\u00edvar quando o bolivarianismo j\u00e1 est\u00e1 em refluxo, quando existia uma vit\u00f3ria conservadora, quando triunfou a contrarrevolu\u00e7\u00e3o sobre a revolu\u00e7\u00e3o. Portanto, tinha que fixar-se no cen\u00e1rio latino-americano que n\u00e3o \u00e9 esse cen\u00e1rio, que n\u00e3o \u00e9 o mesmo observado na Irlanda, na \u00cdndia, na Turquia, na China, onde se repensava o problema nacional, por\u00e9m vendo um contexto de sujeitos nacionais sublevados. O desencontro de Marx com Bol\u00edvar tamb\u00e9m obedece a causas te\u00f3ricas. O Marx que escreveu sobre Bol\u00edvar \u00e9 um Marx mais centrado na l\u00f3gica objetiva da acumula\u00e7\u00e3o que na l\u00f3gica da luta de classes. Por\u00e9m, o interessante do \u201cBol\u00edvar\u201d de Marx \u00e9 que quando este contexto mudou e a luta plena da Am\u00e9rica Latina ressurgiu ante seus olhos \u2013 falo do M\u00e9xico de Benito Ju\u00e1rez \u2013, Marx n\u00e3o titubeou um segundo em elogiar Benito Ju\u00e1rez e em reivindicar a luta nacional latino-americana.<\/p>\n<p>Portanto, este livro de N\u00e9stor Kohan retorna a esta problem\u00e1tica. Volta de fato, com novos argumentos e nos leva a aprofundar o reencontro de Marx com a Am\u00e9rica Latina. N\u00e9stor o faz a partir de um marxismo bolivariano, de um marxismo latino-americano, que polemiza com outros tr\u00eas tipos de marxismo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, polemiza com o marxismo liberal. Isto \u00e9 expl\u00edcito. Este \u00e9 um livro contraposto ao marxismo euroc\u00eantrico, ao marxismo mitrista [defensor do general Bartolom\u00e9 Mitre], que denegriu Bol\u00edvar. Ainda que n\u00e3o seja marxista, o representante caricaturesco deste pensamento \u00e9 Juan Jos\u00e9 Sebreli [Buenos Aires, 1930], que continua denegrindo Bol\u00edvar e permanece imaginando um Marx liberal, um Marx pr\u00f3-colonialista. Hoje em dia, Sebreli faz tais an\u00e1lises a partir das fileiras pol\u00edtica da direita neoliberal. Este \u00e9 um livro que polemiza com outros matizes desse marxismo mitrista.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, esta obra polemiza com o marxismo nacionalista, que teve na figura de Jorge Abelardo Ramos [Buenos Aires, 1921-1994] uma primeira tentativa de fundir bolivarismo e marxismo. Existem muitos que est\u00e3o em d\u00edvida com esse primeiro Abelardo Ramos. Esse primeiro Abelardo Ramos teve muitas intui\u00e7\u00f5es interessantes acerca da fus\u00e3o de Bol\u00edvar com Marx. No entanto, muito rapidamente Abelardo Ramos passou a ser o Abelardo Ramos que n\u00f3s conhecemos: uma figura que ao inv\u00e9s de fundir bolivarismo com marxismo come\u00e7ou, primeiro, a distanciar-se do marxismo, depois denegrir o marxismo e finalmente terminar num chauvinismo patrioteiro anticomunista, abertamente antimarxista.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, existe uma pol\u00eamica mais sutil, mais complexa, na forma em que N\u00e9stor aborda o problema. Quis mencionar uma escola, terceira escola, que no livro n\u00e3o est\u00e1 explicitada, por\u00e9m que eu explicitarei. Trata-se do marxismo dogm\u00e1tico. Esta escola, mais que condenar Bol\u00edvar, sempre o viu como um \u201cbonapartista falido\u201d e sempre imaginou a hist\u00f3ria do s\u00e9culo XIX como a hist\u00f3ria de sujeitos passivos condenados \u00e0 derrota e \u00e0 atua\u00e7\u00e3o como sujeitos reais no processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica gira em torno de Jos\u00e9 Aric\u00f3 [1931-1991], autor do livro cl\u00e1ssico Marx y Am\u00e9rica latina [1980], livro que conduziu, nos \u00faltimos trinta anos, gera\u00e7\u00f5es inteiras de historiadores a estudarem o problema de Marx e a Am\u00e9rica Latina a partir de Aric\u00f3, uma grande figura historiogr\u00e1fica. Forneceu importantes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 compreens\u00e3o do problema, por\u00e9m, todavia, n\u00e3o fizemos a cr\u00edtica a Jos\u00e9 Aric\u00f3. Fizemos a cr\u00edtica a Abelardo Ramos, a Juan Jos\u00e9 Sebreli, podemos discutir Milc\u00edades Pe\u00f1a [1933-1965], por\u00e9m, n\u00e3o foi feito o debate com Jos\u00e9 Aric\u00f3. N\u00e3o me refiro ao Aric\u00f3 alfonsinista ou socialdemocrata. N\u00e3o \u00e9 esse o problema que estamos discutindo hoje. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 essa a nossa quest\u00e3o. O problema \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica feita por Jos\u00e9 Aric\u00f3. Creio que a chave est\u00e1 neste livro de N\u00e9stor Kohan. Porque este livro, convergindo em muitos aspectos e com elementos comuns com Aric\u00f3, tem um olhar contraposto ao de Aric\u00f3. Aric\u00f3 estuda o problema da Am\u00e9rica Latina como a frustra\u00e7\u00e3o de um projeto hist\u00f3rico, j\u00e1 que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o teve um s\u00f3lido Estado continental constru\u00eddo a partir de cima. Aric\u00f3 se preocupa com essa constru\u00e7\u00e3o a partir de cima. Em qu\u00ea falharam as elites? Em qu\u00ea falharam as classes dominantes? O que tiveram de bom essas elites e essas classes dominantes? Inclusive quando Aric\u00f3 resgata muitos elementos de Hegel contra Marx \u00e9 porque sugere o seguinte: \u201cOlha, era poss\u00edvel ter sido feita uma constru\u00e7\u00e3o que voc\u00ea, Karl Marx, n\u00e3o viu, a partir de um Estado continental\u201d.<\/p>\n<p>Acredito que o m\u00e9rito que a abordagem de N\u00e9stor possui \u00e9 que este livro precisamente n\u00e3o vai por esse lado, n\u00e3o vai por esta pista. N\u00e3o segue um caminho que nos leva a uma boa compreens\u00e3o da hist\u00f3ria&#8230; Em vez de preocupar-se tanto acerca do porque falharam as revolu\u00e7\u00f5es passivas, a obra de N\u00e9stor se preocupa com o que se passou com as revolu\u00e7\u00f5es populares. Este livro faz o que se denomina a hist\u00f3ria dos de baixo: a an\u00e1lise historiogr\u00e1fica da hist\u00f3ria popular. Compreender, analisar, estudar a problem\u00e1tica de como se estruturou a Am\u00e9rica Latina, seus problemas, suas contradi\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 um diagn\u00f3stico, \u00e9 uma compreens\u00e3o, \u00e9 uma an\u00e1lise. A \u00f3tica deste livro sobre Sim\u00f3n Bol\u00edvar e nossa independ\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 centrada apenas nisso, mas sim na luta popular e na constru\u00e7\u00e3o a partir de baixo.<\/p>\n<p>Nisso \u2013 \u00e9 um texto pouco conhecido e muito recente \u2013 existe um ponto em comum com a cr\u00edtica que fez Garc\u00eda Linera a Jos\u00e9 Aric\u00f3. Quando Garc\u00eda Linera estava na pris\u00e3o escreveu um artigo cr\u00edtico de Aric\u00f3 e a\u00ed intuiu o problema de Aric\u00f3. Disse o seguinte: \u201c\u00e9 interessante sua abordagem sobre Bol\u00edvar e Marx, por\u00e9m o problema de Aric\u00f3 \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 localizado na luta popular\u201d. Acredito que o livro de N\u00e9stor possui um m\u00e9rito frente a Garc\u00eda Linera, pois n\u00e3o deduz uma cr\u00edtica a Bol\u00edvar ou uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do processo independentista da Am\u00e9rica Latina a partir da revis\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, parece-me que estamos frente a um grande livro, um texto importante para os marxistas. Eu o generalizaria.<\/p>\n<p>Esta problem\u00e1tica levaria a um plano de conclus\u00f5es historiogr\u00e1fica mais geral. Em minha opini\u00e3o, a hist\u00f3ria marxista da segunda metade do s\u00e9culo XX esteve engessada por um falso problema. Livros como este come\u00e7am a nos aliviar, come\u00e7am a nos tirar da armadilha de um falso problema.<\/p>\n<p>Na historiografia marxista cl\u00e1ssica, dos anos 50, 60 e 70, em todas as suas vertentes, a pergunta que a ser respondida era \u201cQuais eram as for\u00e7as que desenvolviam as for\u00e7as produtivas e quem eram os l\u00edderes pol\u00edticos que permitiam o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas?\u201d. Ent\u00e3o, olhava-se o passado dizendo: \u201cQuem foi o setor progressista?\u201d. Essa era a sua preocupa\u00e7\u00e3o: qual era o setor econ\u00f4mico e quem era o l\u00edder pol\u00edtico. Essa era a problem\u00e1tica que se queria resolver.<\/p>\n<p>Como a resolvia? Bom, o marxismo liberal, mitrista, defendia que os que desenvolviam as for\u00e7as produtivas s\u00e3o os que constituem a linha de Bernardino Rivadavia, Bartolom\u00e9 Mitre, o livre-com\u00e9rcio, as elites cosmopolitas. O marxismo mais nacionalista dizia que n\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio, os que desenvolvem as for\u00e7as produtivas s\u00e3o os protecionistas, os que criam impostos. Existia uma terceira vis\u00e3o, a dogm\u00e1tica, que defendia que, na realidade, nada vai desenvolver as for\u00e7as produtivas porque n\u00e3o se podem desenvolver essas for\u00e7as produtivas. J\u00e1 existe o destino premeditado da Am\u00e9rica Latina. A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o pode desenvolver as for\u00e7as produtivas porque n\u00e3o possui uma burguesia industrial.<\/p>\n<p>Esse era o debate: (a) O desenvolvimento do com\u00e9rcio. (b) O desenvolvimento do Estado via prote\u00e7\u00e3o. (c) N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desenvolver nada.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma discuss\u00e3o que vista hoje, amadurecida, \u00e9 uma discuss\u00e3o est\u00e9ril. N\u00e3o acrescenta absolutamente nada. Como a pergunta \u00e9 mal formulada, esta discuss\u00e3o apenas acrescenta avalia\u00e7\u00f5es especulativas e a racioc\u00ednios contra factuais pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o se pode encontrar nenhuma regra por onde se tenham desenvolvido as for\u00e7as produtivas. Ou seja, se apresenta uma pergunta que \u00e9 equivocada, \u00e9 hipot\u00e9tica, e n\u00e3o se tem resposta. Al\u00e9m disso, \u00e9 imposs\u00edvel encontrar a resposta seguindo um encadeamento coerente.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, na Holanda e na Fran\u00e7a o capitalismo avan\u00e7ou com a revolu\u00e7\u00e3o burguesa; na Alemanha e no Jap\u00e3o o capitalismo avan\u00e7ou sem revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Nos Estados Unidos, o norte triunfou sobre o sul e o capitalismo avan\u00e7ou, por\u00e9m n\u00e3o porque o norte derrotou o sul, mas tamb\u00e9m porque o norte derrotou os povos do norte e do sul. N\u00e3o existe uma regra que nos permita explicar como, qual \u00e9 a guia que nos levou ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. E no caso da Am\u00e9rica Latina, a pergunta tampouco tem resposta. Se o objetivo \u00e9 descobrir qual foi a regra, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p>O Haiti teve uma revolu\u00e7\u00e3o triunfante, a mais radical e, depois, teve a regress\u00e3o das for\u00e7as produtivas. No Brasil n\u00e3o existiu revolu\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, existiu escravid\u00e3o at\u00e9 depois da metade do s\u00e9culo XIX e o desenvolvimento \u00e9 intermedi\u00e1rio. No M\u00e9xico ocorreu uma revolu\u00e7\u00e3o radical derrotada, com Morelos primeiro e, depois, com Benito Ju\u00e1rez e ocorreu o desenvolvimento econ\u00f4mico intermedi\u00e1rio. No Equador, aconteceram fortes movimentos liberais e no Peru n\u00e3o. O desenvolvimento em ambos os casos \u00e9 perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta que n\u00e3o leva a nada. N\u00e3o existem reagras. E a hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser reconstru\u00edda dessa forma.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o: Qual \u00e9 o m\u00e9rito deste livro, desta linha de an\u00e1lise historiogr\u00e1fica? Eu penso que seu m\u00e9rito \u00e9 ter decidido \u201cn\u00e3o vou perguntar mais isso, mas vou estudar outra coisa. N\u00e3o vou abandonar a an\u00e1lise das for\u00e7as produtivas, o estudo da economia, a an\u00e1lise das classes sociais. N\u00e3o, n\u00e3o a abandonarei. \u00c9 preciso faz\u00ea-la. \u00c9 um problema de estrutura. \u00c9 necess\u00e1rio explicar o car\u00e1ter perif\u00e9rico da Am\u00e9rica Latina. \u00c9 preciso explicar tudo isso, sim. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de dar voltas sobre uma pergunta que n\u00e3o tem resposta, vou tomar a hist\u00f3ria como um legado de lutas populares. Isso \u00e9 a hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria que vou estudar, a pergunta que vou fazer \u00e9 outra: quem favoreceu a constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social que tem continuidade da luta para as novas gera\u00e7\u00f5es?\u201d.<\/p>\n<p>Existe uma corrente historiogr\u00e1fica, marxista internacional, que trabalha na mesma dire\u00e7\u00e3o deste livro. S\u00e3o conhecidos como os historiadores ingleses dos anos 40, 50 e 60, que geraram uma escola, come\u00e7aram a avan\u00e7ar no estudo da hist\u00f3ria dos de baixo e disseram \u201co que temos de estudar s\u00e3o as experi\u00eancias de luta, as viv\u00eancias de luta, para ver o qu\u00ea aprendemos da\u00ed. Isso \u00e9 o que temos de estudar!\u201d.<\/p>\n<p>Eu penso que este livro sobre Sim\u00f3n Bol\u00edvar e nossa independ\u00eancia est\u00e1 nesse \u00e2mbito, nesse plano e por isso resulta um livro t\u00e3o importante e t\u00e3o interessante.<\/p>\n<p>Finalmente, para concluir, a historiografia marxista se fez outra pergunta tamb\u00e9m contra factual que, tampouco, tem muitas respostas: \u201cera poss\u00edvel ou n\u00e3o o sonho de Bol\u00edvar?\u201d. Ent\u00e3o, existe uma biblioteca inteira que diz que sim, era poss\u00edvel, e outra biblioteca completa que diz que n\u00e3o era poss\u00edvel. A biblioteca de Jorge Abelardo Ramos diz que sim, era poss\u00edvel, que se podia, porque existem exemplos. O Brasil, por acaso, demonstra que o que se pode fazer no Brasil se pode fazer algo similar em escala de Am\u00e9rica hisp\u00e2nica. Esse poderia ser um argumento. Existe outra biblioteca, a de Jos\u00e9 Carlos Chiaramonte, que defende que n\u00e3o era poss\u00edvel, que isso era uma utopia, n\u00e3o existia condi\u00e7\u00f5es, etc. Tudo isso \u00e9 um debate contra factual. Era poss\u00edvel ou n\u00e3o o sonho de Bol\u00edvar? Era fact\u00edvel ou n\u00e3o? De novo \u00e9 um tipo de racioc\u00ednio que n\u00e3o direciona, n\u00e3o resolve problemas historiogr\u00e1ficos e nem nos dota de elementos para a compreens\u00e3o de nosso passado.<\/p>\n<p>O importante n\u00e3o \u00e9 se era poss\u00edvel ou n\u00e3o era. O importante \u00e9 o qu\u00ea nos deixou! Alcan\u00e7ado ou n\u00e3o alcan\u00e7ado, se feito ou se n\u00e3o feito&#8230; o qu\u00ea nos deixou?<\/p>\n<p>Pois nos deixou um ideal inconcluso das lutas sociais e das guerras de independ\u00eancia que se continua hoje em dia atrav\u00e9s de diversos projetos. Por exemplo, o projeto bolivariano da ALBA. Aquelas lutas e ideais nos deixaram estes projetos atuais e futuros. Nos deixou uma hist\u00f3ria onde o ideal latino-americano \u00e9 um ideal que come\u00e7a com Sim\u00f3n Bol\u00edvar, que est\u00e1 presente com Jos\u00e9 de San Mart\u00edn, etc., etc., que tem elementos com Ugarte, etc., etc., que tem continuidades na Am\u00e9rica Latina. Cada vez que a Am\u00e9rica latina tem que resistir ao colonialismo e ao neocolonialismo, reaparece a necessidade da unifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na luta! \u00c9 a luta de Sandino, \u00e9 a luta de Farabundo Mart\u00ed, \u00e9 a luta da revolu\u00e7\u00e3o mexicana, etc., etc. Essa \u00e9 a continuidade que nos interessa. A continuidade da luta.<\/p>\n<p>Essa continuidade tem um legado se abordada a historiografia dos de baixo, como uma historiografia social, como una historiografia militante.<\/p>\n<p>Portanto, minha conclus\u00e3o te\u00f3rica e metodol\u00f3gica \u00e9 que estamos diante de um grande livro. Oxal\u00e1 que se difunda. Muito obrigado.<\/p>\n<p>Buenos Aires, 21 de outubro 2013<\/p>\n<p>*Claudio Katz (professor titular da Universidade de Buenos Aires, investigador do CONICET, integrante do coletivo \u201cEconomistas de Esquerda\u201d).<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nClaudio Katz\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5734\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-5734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uu","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5734"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5734\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}