{"id":5742,"date":"2013-12-17T19:52:34","date_gmt":"2013-12-17T19:52:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5742"},"modified":"2013-12-17T19:52:34","modified_gmt":"2013-12-17T19:52:34","slug":"companheira-de-marulanda-lembra-da-luta-e-sua-vida-ao-lado-do-guerrilheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5742","title":{"rendered":"Companheira de Marulanda lembra da luta e sua vida ao lado do guerrilheiro"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cNas FARC combatemos o machismo e pela igualdade de direitos entre g\u00eaneros\u201d, afirma<\/p>\n<p><em>Conversa de Sandra Ramirez com Hernando Calvo Ospina* &#8211; 10 de Novembro de 2012<\/em><\/p>\n<p>Vejo que est\u00e1 nervosa. \u00c9 a primeira vez que concede uma entrevista. Encontro-a em Havana. \u00c9 uma das 13 mulheres que formam o grupo de 30 pessoas que, pelas For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC), negocia com o governo colombiano um poss\u00edvel \u2013 e desejado \u2013 processo de paz. Com grande simplicidade, ainda que de uma eleg\u00e2ncia natural, faz parte das 40% de mulheres combatentes. Acompanha suas palavras com o movimento das m\u00e3os e o brilho de seus olhos negros. Chama-se Sandra Ram\u00edrez, \u00e9 a vi\u00fava do l\u00edder hist\u00f3rico da organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira, Manuel Marulanda V\u00e9lez.<\/p>\n<p>Diante das minhas duas primeiras perguntas, respondeu como se fosse um discurso. Detenho o gravador para lembr\u00e1-la que n\u00e3o lhe fa\u00e7o uma entrevista: quero conversar com ela. Ent\u00e3o ela sorriu e p\u00f4s os olhos em algum lugar longe, come\u00e7ando com suas lembran\u00e7as e considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEra 1981, quando na regi\u00e3o camponesa onde eu vivia com minha fam\u00edlia come\u00e7aram a passar os guerrilheiros. Meu pai lhes servia de guia para conhecerem a regi\u00e3o. Chamou-me muita aten\u00e7\u00e3o que era uma mulher quem estava na dire\u00e7\u00e3o do grupo. Devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o pude continuar meus estudos secund\u00e1rios, e como essa mulher havia se convertido em uma refer\u00eancia para mim, decidi ingressar nas FARC.<\/p>\n<p>\u201cVi que n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre homens e mulheres para ir ao combate. Tamb\u00e9m me chamou a aten\u00e7\u00e3o que estavam em luta contra o machismo e pela igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. O que n\u00e3o era f\u00e1cil, tendo em conta que a maioria dos combatentes s\u00e3o do campo, aonde o machismo \u00e9 mais acentuado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Amor e feminilidade<\/strong><\/p>\n<p>\u201cUma mulher nas FARC cumpre miss\u00f5es e exerce a dire\u00e7\u00e3o, porque desde que ingressa \u00e9 educada para que tome consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o de pessoa e combatente. Aqui uma mulher pode se especializar em computa\u00e7\u00e3o, meios de comunica\u00e7\u00e3o, para ser m\u00e9dica, enfermeira ou em qualquer das especialidades que temos. Aqui a mulher opina e prop\u00f5e, pois as decis\u00f5es nas FARC se coletivizam.<\/p>\n<p>\u201cClaro, n\u00e3o gostamos de perder a feminilidade. Por isso a organiza\u00e7\u00e3o nos fornece mensalmente, quando as condi\u00e7\u00f5es da guerra e as economias permitem, creme para o corpo, esmalte para as unhas, para nos maquiar, al\u00e9m de toalhas higi\u00eanicas e anticoncepcionais. N\u00e3o \u00e9 raro irmos \u00e0 linha de combate perfumadas e com o cabelo bem penteado.<\/p>\n<p>\u201cAs rela\u00e7\u00f5es de casais s\u00e3o t\u00e3o normais como em Bogot\u00e1 ou Madrid. A propaganda midi\u00e1tica do inimigo diz que n\u00f3s guerrilheiras somos obrigadas sexualmente a estar com os companheiros. Isso \u00e9 mentira. N\u00f3s decidimos livremente estar com um companheiro se gostamos. Aqui as pessoas namoram, rompem e t\u00eam decep\u00e7\u00f5es, como em todas as partes do mundo.<\/p>\n<p>\u201cPara n\u00f3s, o controle de natalidade \u00e9 obrigat\u00f3rio. N\u00e3o se pode ser guerrilheira e m\u00e3e, infelizmente. Quando ingressamos na organiza\u00e7\u00e3o aceitamos esta condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode esquecer que somos parte de um ex\u00e9rcito. Quando ocorre gravidez, a guerrilheira pode escolher entre abortar ou sair e ter seu filho.<\/p>\n<p>\u201cO inimigo nos menospreza por sermos mulheres, mas tamb\u00e9m nos teme. Em geral, quando capturam companheiras as violam, as torturam e chegaram at\u00e9 a cortar-lhes os seios, a mutil\u00e1-las. Tivemos casos atrozes. Tratam-nos como conquistas de guerra. Temem-nos porque o enfrentamos de igual para igual, demonstrando que podemos ser muito aguerridas no combate. Por isso, descarregam sobre n\u00f3s seu medo, raiva e impot\u00eancia ao capturar uma camarada.\u201d<\/p>\n<p>Chegou o momento de lhe fazer a \u00faltima pergunta. Quando a escutou a voz mudou, deu n\u00f3 na garganta e olhou para o ch\u00e3o enquanto juntava as m\u00e3os. Tomou ar e respondeu, sem que faltassem sorrisos em v\u00e1rios momentos de seu relato.<\/p>\n<p>\u201cEm 1983, eu tinha 20 anos quando vi no acampamento um senhor de chap\u00e9u, revolver no cinto, uma carabina e sem uniforme. Ent\u00e3o perguntei quem era. Fiquei impactada. O camarada Marulanda era a pessoa mais simples que voc\u00ea pode imaginar. Ele n\u00e3o deixava sentir que era ele o chefe, \u00e9ramos n\u00f3s que v\u00edamos nele a autoridade.<\/p>\n<p>\u201cEm Maio de 1984, fui incumbida de fazer parte do grupo de apoio que recebia as comiss\u00f5es, pol\u00edticos, jornalistas e demais pessoas que vinham ao acampamento de La Uribe para discutir sobre os acordos de paz que se estava buscando com o governo. Um dia o camarada teve um acidente e fraturou a costela. Como enfermeira eu devia aplicar os rem\u00e9dios e fazer o tratamento. E durante o tratamento come\u00e7ou nossa rela\u00e7\u00e3o afetiva.<\/p>\n<p>\u201cVivi com ele uma rela\u00e7\u00e3o absolutamente normal. N\u00e3o tinha privil\u00e9gios por ser sua companheira, mas ele sim era muito especial comigo. T\u00ednhamos discuss\u00f5es e dificuldades como todo casal, mas foram muito maiores as alegrias.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes t\u00ednhamos situa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a muito dif\u00edceis, pr\u00f3prias da guerra, e porque ele era o homem mais procurado do pa\u00eds. Muitas vezes tivemos o ex\u00e9rcito bem perto, mas ele com sua calma e experi\u00eancia sempre soube resguardar sua tropa. Era muito precavido e para tudo buscava dar resposta. R\u00edamos quando escut\u00e1vamos que o haviam matado e n\u00f3s tomando caf\u00e9. Porque o mataram muitas vezes.<\/p>\n<p>\u201cMinhas \u00faltimas horas com ele? Ainda tenho dificuldade de falar desta parte de nossa vida de casal. Mas bem&#8230; Pelos sintomas ach\u00e1vamos que tinha um problema de gastrite. Nesse dia (26 de Mar\u00e7o de 2008) estava escrevendo um documento, enquanto escutava cumbias colombianas. Logo o acompanhei para que tomasse um banho, tomou um chocolate e achamos que estava superado o problema. \u00c0s cinco da tarde comeu o pouquinho que estava acostumado. Uma hora depois recebeu os informes da guarda e deu orienta\u00e7\u00f5es. Logo me pediu que o acompanhasse at\u00e9 o sanit\u00e1rio. Segurei o fac\u00e3o e o cinto com a pistola, pertences que nunca abandonava. Ent\u00e3o me disse que se sentia enjoado. E vi que ia cair. Ent\u00e3o o contive, chamando os que estavam de guarda. O camarada despencou. Era terr\u00edvel ver assim algu\u00e9m que havia sido t\u00e3o forte. O levamos at\u00e9 a cama onde demos massagens card\u00edacas e respira\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o voltou. Tudo foi t\u00e3o inesperado. N\u00e3o sofreu: at\u00e9 nisso perdeu o inimigo. Nem nisso se deu o gosto.<\/p>\n<p>\u201cEu fiquei triste, sozinha e desamparada, ainda que toda a organiza\u00e7\u00e3o estava comigo.\u201d<\/p>\n<p><em>*Jornalista colombiano que reside na Fran\u00e7a. Colaborador de\u00a0Le Monde Diplomatique<\/em><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2012\/11\/10\/mundo\/025n1mun\" target=\"_blank\">http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2012\/11\/10\/mundo\/025n1mun<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: CCLCP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5742\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-5742","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5742"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5742\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}