{"id":5743,"date":"2013-12-17T20:02:10","date_gmt":"2013-12-17T20:02:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5743"},"modified":"2013-12-17T20:02:10","modified_gmt":"2013-12-17T20:02:10","slug":"annus-horribilis-mirabilis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5743","title":{"rendered":"Annus horribilis (mirabilis)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>2013: ponto de inflex\u00e3o na longa decad\u00eancia ocidental<\/strong><\/p>\n<p><strong id=\"docs-internal-guid-48b94730-0228-1490-e744-18216d922a5d\"><\/strong><\/p>\n<p>Jorge Beinstein<\/p>\n<p>A \u201ccrise global\u201d (que continua sendo chamada assim) permanece em seu curso, vai se aprofundando com o correr dos anos, deteriora as institui\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias centrais, quebra as tramas econ\u00f4micas e culturais que unem as sociedades destes pa\u00edses, \u00e9 exposta como decad\u00eancia, ou seja, como processo de deteriora\u00e7\u00e3o geral e irrevers\u00edvel. Tamb\u00e9m vai chegando aos denominados \u201cpa\u00edses emergentes\u201d, derrubando o mito do rejuvenescimento capitalista a partir da periferia, da supera\u00e7\u00e3o burguesa do neoliberalismo ocidental, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n<p>Os anos de 2008 e 2013 constituem per\u00edodos em que se acelerou o decl\u00ednio do capitalismo. Em ambos os casos, o desastre teve como origem o centro imperial para depois propagar-se para o conjunto do sistema global. Poder\u00edamos estabelecer um corte ainda mais preciso e fixar os meses de setembro de 2008 e setembro-outubro de 2013 como os \u201cmomentos\u201d nos quais a hist\u00f3ria universal aumentou bruscamente sua velocidade quando \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00f5es, produzindo um grande salto de quantidade em qualidade. Do ponto de vista dos senhores do sistema, \u00e9 poss\u00edvel falar de \u201cannus horribilis\u201d, ou seja, anos de grandes desgra\u00e7as. J\u00e1 do lado das v\u00edtimas, dos milhares de milh\u00f5es de seres humanos que habitam o subsolo do planeta burgu\u00eas, podemos afirmar que se trata de \u201cannus mirabilis\u201d, per\u00edodos em que o sistema avan\u00e7a claramente para sua ru\u00edna. Ou seja, acontecimentos \u201cmaravilhosos\u201d que alimentam a esperan\u00e7a na poss\u00edvel conquista de um mundo melhor.<\/p>\n<p>Em 15 de setembro de 2008, nos Estados Unidos, o gigante financeiro Lehman Brothers se declarou em quebra, e o American International Group (AIG), considerado o l\u00edder mundial de seguros e servi\u00e7os financeiros, precisou ser resgatado pela Reserva Federal. A crise provocada pelo estouro da bolha imobili\u00e1ria norte-americana se propagou rapidamente. Estouraram outras bolhas imobili\u00e1rias e a especula\u00e7\u00e3o na Europa e \u00c1sia. Os governos das grandes pot\u00eancias injetaram nos anos seguintes v\u00e1rios milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares com a finalidade de impedir o colapso do sistema financeiro internacional, pilar decisivo da economia mundial. N\u00e3o conseguiram recompor sua din\u00e2mica anterior, nem muito menos a das estruturas produtivas, por\u00e9m, conseguiram evitar (postergar) a derrubada.<\/p>\n<p>Dessa forma, a partir de 2008, a massa financeira global, que vinha crescendo de maneira exponencial, deixou de crescer. Na realidade, experimentou um decr\u00e9scimo suave, o que constatamos ao compararmos a especula\u00e7\u00e3o em \u201cprodutos financeiros derivados\u201d (cora\u00e7\u00e3o do parasitismo financeiro global) com o Produto Bruto Mundial. Em meados de 1998, esses neg\u00f3cios equivaliam a cerca de 2,4 vezes o valor nominal da economia planet\u00e1ria, chegaram a 4,3 vezes em fina de 2002, a 8,5 vezes em fins de 2006 e a 11,7 vezes em meados de 2008, em pleno del\u00edrio especulativo, baixando lentamente desde ent\u00e3o: 10,5 em fins de 2009, 10,6 em meados de 2011, caindo a 8,9 em fins de 2012 e a 8,6 em meados de 2013 (1).<\/p>\n<p>O estancamento da massa financeira &#8211; pior ainda, o seu desinflar &#8211; marcou o fim do longo crescimento drogado do capitalismo global durante a financeiriza\u00e7\u00e3o neoliberal. Desde os anos 1970 se produziu a reconvers\u00e3o financeira do capitalismo, que permitiu a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada da \u00e1rea imperial do sistema: os estados centrais se endividavam, subsidiavam a ind\u00fastria (gastos militares, redu\u00e7\u00f5es fiscais de todo tipo, etc.) e freavam a desacelera\u00e7\u00e3o do consumo (subs\u00eddios aos desempregados), as empresas se endividavam para continuar investindo, e os consumidores se endividavam sustentando esses grandes mercados. Por outra parte, as quedas tendenciais nas taxas de lucros produtivos de grandes grupos econ\u00f4micos eram mais que compensadas pela expans\u00e3o dos neg\u00f3cios financeiros.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a bolha estourou no ano de 2008. A partir de ent\u00e3o houve uma degrada\u00e7\u00e3o financeira-produtiva \u201ccontrolada\u201d, as d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas das pot\u00eancias centrais tradicionais continuaram crescendo, a Uni\u00e3o Europeia se estancou para entrar finalmente em recess\u00e3o, o Jap\u00e3o transitou um caminho ainda mais dram\u00e1tico (mediante Fukushima), e os Estados Unidos tiveram um crescimento an\u00eamico que, ao longo de 2012-2013, amea\u00e7ava converter-se em estancamento ou diretamente em recess\u00e3o. O sistema tinha ingressado numa nova etapa.<\/p>\n<p>Guerra e petrod\u00f3lares.<\/p>\n<p>A crise de 2008 n\u00e3o terminou com a onda militarista dos Estados Unidos. Pelo contr\u00e1rio, a potencializou. Muito antes dessa crise, frente a seu enfraquecimento financeiro e produtivo, a elite imperial estava convencida de que apenas a utiliza\u00e7\u00e3o de sua superioridade militar poderia reverter os retrocessos econ\u00f4micos ou ao menos frear seu desenvolvimento. A vit\u00f3ria ocidental na Guerra Fria parecia confirmar essa hip\u00f3tese: a avalanche militarista da era Reagan durante os anos 1980 continuada pela presid\u00eancia de George Bush (pai) deu a estocada final na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, obrigando-a a competir numa corrida armamentista que transbordou sua capacidade econ\u00f4mica e burocr\u00e1tica declinante. Liquidada a URSS, os Estados Unidos apareciam como a \u00fanica superpot\u00eancia militar, e o planeta ficava a sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, h\u00e1 algo mais de uma d\u00e9cada, testemunhamos uma esp\u00e9cie de mega Vietn\u00e3 diversificado em v\u00e1rios espa\u00e7os geogr\u00e1ficos com diferentes intensidades e mobilidades. A vis\u00e3o do Imp\u00e9rio para o resto do mundo \u00e9 principalmente militar: a periferia aparece ante aos olhos de sua elite dominante como um vasto campo de batalha.<\/p>\n<p>Os golpes de estado em Honduras (2009) e Paraguai (2012), a acentua\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es sobre a Col\u00f4mbia e Venezuela e as atividades de desestabiliza\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses latino-americanos demonstram que o Imp\u00e9rio vem lan\u00e7ando uma ofensiva de grande alcance sobre a regi\u00e3o. Devemos somar a isto o desenvolvimento de uma segunda frente de guerra na \u00c1frica, cujo momento mais dram\u00e1tico tem sido a destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, por\u00e9m, apontando ao mesmo tempo para o mundo \u00e1rabe. Ambas ofensivas convergem com o prosseguimento da longa guerra no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia Central, configurando a terceira frente. A implanta\u00e7\u00e3o de uma quarta frente de for\u00e7as militares, cada vez mais extensa e intensa na \u00c1sia-Pac\u00edfico, aponta contra a China.<\/p>\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada atual, os Estados Unidos implantaram quatro megafrentes simult\u00e2neas. Toda a periferia n\u00e3o controlada pelo Ocidente se encontrava atacada ou amea\u00e7ada. Desse modo, a agressividade dos falc\u00f5es da era Bush (quando seu Secret\u00e1rio de Defesa, Ronald Runsfeld, afirmava que os Estados Unidos podiam desenvolver exitosamente duas guerras ao mesmo tempo) foi logo ampliada na era Obama.<\/p>\n<p>A dupla face do Imp\u00e9rio (decad\u00eancia econ\u00f4mica e social por um lado e militarismo pelo outro) sugere o questionamento de se a onda militar \u00e9 sustent\u00e1vel em m\u00e9dio e longo prazo. Na realidade, n\u00e3o \u00e9 certo que ela possa ser respaldada sequer em curto prazo. Basta verificar que os gastos militares reais dos Estados Unidos se aproximam dos 1,3 bilh\u00f5es (milh\u00f5es de milh\u00f5es) de d\u00f3lares, se somarmos aos gastos do Departamento de Defesa aqueles com finalidade militar de outras \u00e1reas da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (Departamento de Estado, Departamento de Energia, NASA, etc.) e os juros pagos pelo endividamento necess\u00e1rio para sua realiza\u00e7\u00e3o. Essa cifra equivale, no Or\u00e7amento 2013, a quase totalidade da arrecada\u00e7\u00e3o prevista de impostos pessoais diretos ou a 140% do d\u00e9ficit fiscal projetado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se a militariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 economicamente sustent\u00e1vel, devemos interrogar se existe alguma l\u00f3gica, alguma racionalidade superior que explique o fen\u00f4meno. H\u00e1 alguns anos Wallerstein respondeu \u00e0 pergunta de maneira contundente: os Estados Unidos se encontrariam ante a alternativa de aceitar um decl\u00ednio honroso (op\u00e7\u00e3o \u201cracional\u201d) ou a atirar a casa pela janela. Em resumo: as elites imperiais, ao seguirem um segundo caminho, demonstrariam que \u201cenlouqueceram\u201d, que a decad\u00eancia acabou com sua sanidade. A explica\u00e7\u00e3o mais simples, direta, por\u00e9m, em \u00faltima inst\u00e2ncia superficial, ignora, sobretudo, a conex\u00e3o necess\u00e1ria entre racionalidade e realidade, entre o teoricamente vi\u00e1vel e a viabilidade pr\u00e1tica da teoria, o que condiciona \u00e0 racionalidade, as faz colocar os p\u00e9s no ch\u00e3o. Encontramo-nos diante da din\u00e2mica hist\u00f3rica concreta da racionalidade instrumental (da racionalidade burguesa), tal como se apresenta em come\u00e7os do s\u00e9culo XXI, como express\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es, dos dramas, das necessidades, das possibilidades das for\u00e7as imperialistas dominantes que a desenvolvem, neste caso, as elites ocidentais. Trata-se de uma racionalidade apenas interessada na efic\u00e1cia dos mecanismos de preserva\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do poder, cada vez mais presa no curto prazo, absolutamente desinteressada das consequ\u00eancias no longo prazo. Nesse sentido, o encadeamento de \u201csolu\u00e7\u00f5es racionais\u201d de problemas concretos pode chegar a ser um caminho seguro para o desastre, para o estouro do sistema, para o esfor\u00e7o racional (e amoral) de recomposi\u00e7\u00e3o, de preserva\u00e7\u00e3o do capitalismo decadente, convertendo-se em autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Ocidente se encontra imerso numa guerra global, sendo um dos seus objetivos o saqueio dos recursos naturais da periferia, em primeiro lugar os energ\u00e9ticos. O \u00eaxito do empreendimento permitir\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o de uma dr\u00e1stica conten\u00e7\u00e3o de custos produtivos, assegurando n\u00edveis aceit\u00e1veis nas taxas de lucros dos grandes grupos industriais e, em consequ\u00eancia, amplos benef\u00edcios e expans\u00f5es de neg\u00f3cios das redes financeiras&#8230; e do parasitismo consumista das classes m\u00e9dias e altas dos Estados Unidos e da Europa.<\/p>\n<p>A \u201cguerra do petr\u00f3leo\u201d est\u00e1 associada a outra guerra: a financeira, focada na desgastada hegemonia do d\u00f3lar que gira em torno de um fator decisivo, os petrod\u00f3lares.<\/p>\n<p>Em 2012, as exporta\u00e7\u00f5es globais de petr\u00f3leo alcan\u00e7aram aproximadamente 2 bilh\u00f5es (milh\u00f5es de milh\u00f5es) de d\u00f3lares, por\u00e9m, este com\u00e9rcio \u201cf\u00edsico\u201d gerou neg\u00f3cios especulativos nos mercados de produtos financeiros derivados na ordem dos 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (2), equivalentes a cerca de 42% do Produto Bruto Mundial desse ano ou a umas 2 vezes o Produto Bruto dos Estados Unidos ou a umas 13 vezes o valor de suas importa\u00e7\u00f5es. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os neg\u00f3cios petrol\u00edferos (tanto comerciais como financeiros) foram realizados em d\u00f3lares e, desde come\u00e7os dos anos 1970, em \u201cpetrod\u00f3lares\u201d, sem lastro em ouro. Por\u00e9m, o decl\u00ednio da moeda norte-americana e do peso econ\u00f4mico relativo \u00e0 superpot\u00eancia causou a paulatina redu\u00e7\u00e3o da hegemonia do d\u00f3lar. N\u00e3o se tratou apenas do deslocamento dos Estados Unidos no mercado petroleiro global, mas do conjunto dos pa\u00edses do Primeiro Mundo, cujo consumo petroleiro relativo vem declinando. Controlar as principais \u00e1reas produtivas e redes de comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9, para os Estados Unidos e seus s\u00f3cios europeus mais o Jap\u00e3o, n\u00e3o apenas uma prioridade \u201cenerg\u00e9tica\u201d agravada pela entrada na era da estagna\u00e7\u00e3o global das extra\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m uma grav\u00edssima quest\u00e3o financeira. Se a demanda por d\u00f3lares declinar de maneira decisiva e, em consequ\u00eancia, seu pre\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras moedas internacionais importantes (em especial as emergentes, como o Yuan ou o Rublo) e tamb\u00e9m ao ouro, ent\u00e3o seria poss\u00edvel derrubar todo o edif\u00edcio parasit\u00e1rio norte-americano arrastando o conjunto do primeiro mundo. Os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o seriam capazes de sustentar seu consumo civil nem seus gastos militares alimentados por um d\u00e9ficit comercial e fiscal pagos com pap\u00e9is (d\u00f3lares e t\u00edtulos do Tesouro).<\/p>\n<p>Em 1970, o Primeiro Mundo consumia 70% da produ\u00e7\u00e3o petroleira global, quando eclodiu a \u201cPrimeira Guerra do Golfo\u201d. Em 1991, essa cifra caiu para 54%, em 2005 para 49,6% e, em 2012, para 41,2% (3). A \u201cguerra da Eur\u00e1sia\u201d, iniciada em 1991 e acelerada uma d\u00e9cada depois, buscava o controle ocidental sobre uma \u00e1rea que, abarcando as bacias do Mar C\u00e1spio e do Golfo P\u00e9rsico, alojam cerca de dois ter\u00e7os das reservas mundiais de petr\u00f3leo. A vit\u00f3ria militar encurralou a R\u00fassia (segundo produtor mundial de petr\u00f3leo em 2012), obrigando-a a submeter-se ao Ocidente.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os Estados Unidos n\u00e3o puderam ganhar essa guerra e, quando tentaram sancionar o Ir\u00e3, deixando de comprar seu petr\u00f3leo e obrigando a Uni\u00e3o Europeia a fazer o mesmo, os iranianos puderam vender o produto \u00e0 China, substituindo o d\u00f3lar pelo yuan ou, no caso da \u00cdndia, pelo ouro.<\/p>\n<p>O primeiro mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mercado majorit\u00e1rio do petr\u00f3leo e tampouco consegue controlar sua produ\u00e7\u00e3o. Em consequ\u00eancia, sua domina\u00e7\u00e3o financeira declina rapidamente.<\/p>\n<p>A ruptura de 2013<\/p>\n<p>No ano de 2013 ocorreram tr\u00eas fatos decisivos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a ofensiva militar-global dos Estados Unidos, iniciada em come\u00e7os dos anos 1990 (p\u00f3s-Guerra Fria), encontrou pela primeira vez uma barreira que n\u00e3o p\u00f4de atravessar: sua interven\u00e7\u00e3o na S\u00edria n\u00e3o p\u00f4de passar (como tinha ocorrido no caso l\u00edbio ou antes na Iugosl\u00e1via, no Iraque ou no Afeganist\u00e3o) \u00e0 etapa de a\u00e7\u00e3o direta, neste caso, realizando bombardeios massivos sobre esse pa\u00eds. Seu conflito com a R\u00fassia fez fracassar a opera\u00e7\u00e3o em setembro de 2013. N\u00e3o faltaram os comunicados ocidentais para qualificar o fato como o come\u00e7o de uma nova Guerra Fria. Na realidade, tratou-se do fim do p\u00f3s-Guerra Fria e o in\u00edcio de uma nova era marcada pelo enfraquecimento militar estrat\u00e9gico dos Estados Unidos. Apenas na zona do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1sia Central ficam em dif\u00edcil posi\u00e7\u00e3o seus vassalos tradicionais, como Ar\u00e1bia Saudita, Israel ou Turquia, e aumenta a influ\u00eancia da R\u00fassia que, por exemplo, assinou em novembro um acordo de integra\u00e7\u00e3o militar com a Arm\u00eania, Bielor\u00fassia e Cazaquist\u00e3o, que visa ser rapidamente ampliado ao Tajiquist\u00e3o, ao mesmo tempo em que se estreitam as rela\u00e7\u00f5es militares russo-eg\u00edpcias.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um simples deslocamento de influ\u00eancias nessas regi\u00f5es, mas tamb\u00e9m de um duro golpe \u00e0 imagem de onipot\u00eancia de sua m\u00e1quina militar e ao conjunto de interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos diretamente vinculados \u00e0 mesma. E o que \u00e9 muito mais grave: se produziu uma brutal perda de efic\u00e1cia do principal instrumento de dissuas\u00e3o global dos Estados Unidos. Isto n\u00e3o significa o fim de suas agress\u00f5es, mas causa uma not\u00e1vel confus\u00e3o estrat\u00e9gica que agrava a crise de percep\u00e7\u00e3o em seu mais alto c\u00edrculo de poder.<\/p>\n<p>Um segundo acontecimento significativo foi a amea\u00e7a de suspens\u00e3o dos pagamentos pelo estado norte-americano, em outubro de 2013. Pela segunda vez nesta d\u00e9cada, os Estados Unidos estiveram \u00e0 beira da quebra, com uma d\u00edvida p\u00fablica federal que, nesse momento, alcan\u00e7ava 16,7 bilh\u00f5es (milh\u00f5es de milh\u00f5es) de d\u00f3lares equivalentes a 105% de seu Produto Interno Bruto no ano de 2012 (em fins de novembro de 2013, superava os 17,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares). Somadas todas as d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas, se chega a algo mais de 360% do PIB. N\u00e3o se produziu a quebra, por\u00e9m, se evidenciou uma grave deteriora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-institucional. Durante dias as c\u00fapulas pol\u00edticas desafiavam a quebra, criavam armadilhas e golpes baixos at\u00e9 chegar \u00e0 data limite de 17 de outubro, tratando de tirar vantagens com uma bomba financeira global sem precedentes e seguramente mergulhando a economia estadunidense na hiper-recess\u00e3o. Agora todos esperam o pr\u00f3ximo jogo da crise sem que se saiba como pode terminar.<\/p>\n<p>O pano de fundo \u00e9 a deteriora\u00e7\u00e3o financeira de uma economia esmagada pelas d\u00edvidas, cujos ru\u00eddos cada vez mais fortes exp\u00f5em uma classe pol\u00edtica que joga com o n\u00e3o pagamento e com a explos\u00e3o do capitalismo global como se estivesse disputando o resultado de uma partida de beisebol ou de alguma elei\u00e7\u00e3o municipal. A trag\u00e9dia \u00e9 assumida com absoluta frivolidade, a decad\u00eancia anestesia as elites dirigentes.<\/p>\n<p>Estes dois fatos &#8211; o fracasso pol\u00edtico-militar na S\u00edria mais o esc\u00e2ndalo pol\u00edtico-institucional da crise (e o p\u00e2ntano econ\u00f4mico em que se apoia) &#8211; induzem a um terceiro fen\u00f4meno de desestrutura\u00e7\u00e3o: o esgotamento da unipolaridade imperial, a r\u00e1pida perda do poder relativo mundial dos Estados Unidos. Isso impulsiona o avan\u00e7o de pot\u00eancias regionais e de pelo menos duas que aspiram um papel global destacado: R\u00fassia e China. No entanto, esses movimentos n\u00e3o imp\u00f5em a constru\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar, ou seja, a partilha completa do planeta entre um grupo reduzido de imp\u00e9rios. O que se v\u00ea produzindo (e agora se acelera) \u00e9 um processo de despolariza\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o de multipolariza\u00e7\u00e3o), onde nem uma, nem tr\u00eas superpot\u00eancias podem controlar o sistema global. \u00c9 a hierarquia imperial do capitalismo como tal, manipulada por um amo ou v\u00e1rios, que percorre toda a hist\u00f3ria do sistema, que se encontra em decad\u00eancia. Ela envolve, em primeiro lugar, os velhos polos, como os Estados Unidos, as grandes pot\u00eancias europeias ocidentais (Alemanha, Inglaterra, Fran\u00e7a) e o Jap\u00e3o. Por\u00e9m, tamb\u00e9m as novas ou renovadas pot\u00eancias. A economia chinesa est\u00e1 se esvaziando, com seu sistema industrial exportador seguindo a rota que marca seus grandes clientes declinantes: os Estados Unidos, Jap\u00e3o e a Uni\u00e3o Europeia. A economia russa estagnou em 2013, e as previs\u00f5es para 2014 s\u00e3o piores. A recess\u00e3o na Europa afeta suas exporta\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas. A \u00cdndia e o Brasil n\u00e3o se encontram em melhor situa\u00e7\u00e3o. Em ambos os casos a economia se estanca e amea\u00e7a entrar em recess\u00e3o. Todas as grandes economias se encontram presas pela crise, as tradicionais e as emergentes, as agarradas ao neoliberalismo e as que praticam o capitalismo de estado. \u00a0O motor da decad\u00eancia \u00e9 o G7, enquanto o BRICS vai ingressando gradualmente (por agora) no processo comum.<\/p>\n<p>A despolariza\u00e7\u00e3o global aparece como um fen\u00f4meno complexo, com imagens contradit\u00f3rias, onde algumas pot\u00eancias retrocedem e outras avan\u00e7am, onde algumas aparentam recuperar-se para depois voltar a declinar, outras parecem escapar da onda depressiva para mais adiante sofrer os impactos das for\u00e7as entr\u00f3picas globais. \u00c9 necess\u00e1rio entender os detalhes, as especificidades, por\u00e9m, sem perder de vista o panorama mais amplo: a decad\u00eancia sist\u00eamica global.<\/p>\n<p>A despolariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o instaura uma sorte de capitalismo global democratizado, com menos imperialismo, com mais autonomias nacionais ou regionais articuladas expandindo suas for\u00e7as produtivas, a ilus\u00e3o da despolariza\u00e7\u00e3o progressista n\u00e3o \u00e9 menos irreal que a da multipolaridade ordenada. A realidade apresenta o sistema marchando para convuls\u00f5es cada vez maiores, para a generaliza\u00e7\u00e3o da desordem, a autodestrui\u00e7\u00e3o ambiental da economia tendendo a zero e anunciando converter-se em negativa. \u00c9 o capitalismo em via de esgotamento que, ao despolarizar-se, se desarticula, apresentando horizontes futuros de barb\u00e1rie, mas tamb\u00e9m de insurg\u00eancias portadoras de utopias libertadoras.<\/p>\n<hr \/>\n<p>(1), Fonte: Bank for International Settlements, http:\/\/www.bis.org\/statistics\/derstats.htm<\/p>\n<p>(2), Gati Al-Jebouri, CEO Lukoil International Trading and Suply Company, Litasco SA, \u201cInternational Oil<\/p>\n<p>Market and Oil Trading\u201d, Haute Ecole de Gestion, Geneva, September 19, 2008 &amp; BP Statistical Review of<\/p>\n<p>World Energy, 2013<\/p>\n<p>(3), BP Statistical Review of World Energy, 2013.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5743\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5743","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1uD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5743","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5743"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5743\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5743"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5743"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5743"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}