{"id":5774,"date":"2014-01-02T02:06:32","date_gmt":"2014-01-02T02:06:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5774"},"modified":"2014-01-02T02:06:32","modified_gmt":"2014-01-02T02:06:32","slug":"as-vozes-das-mulheres-torturadas-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5774","title":{"rendered":"As vozes das mulheres torturadas na ditadura"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Dois depoimentos dados na Comiss\u00e3o da Verdade paulista mostram que as in\u00fameras viol\u00eancias cometidas naquele per\u00edodo ainda est\u00e3o vivas na mem\u00f3ria daqueles que sofrem com a impunidade de seus algozes<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Tatiana Merlino, na p\u00e1gina da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?q=http%3A%2F%2Fwww.comissaodaverdade.org.br%2F&amp;sa=D&amp;sntz=1&amp;usg=AFQjCNGZppkEorgD-JatRdUwvl_66JSZlg\" target=\"_blank\">Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo<\/a> <\/em><\/p>\n<p>Quando os homens j\u00e1 estavam dentro de sua casa, Ieda pensou em resistir e pegar a metralhadora que estava em cima da mesa. N\u00e3o houve tempo. Ela, sua irm\u00e3 Iara e a m\u00e3e delas, Fanny, foram arrancadas de casa e levadas para a Oban (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes), em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Passava das 21 horas de 16 de abril de 1971 quando elas chegaram ao centro de tortura da Rua Tut\u00f3ia, no bairro do Para\u00edso. L\u00e1 estavam presos e sendo torturados desde a manh\u00e3 daquele dia, seu irm\u00e3o, Ivan Akselrud Seixas, e seu pai Joaquim Alencar de Seixas, ambos militantes do Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes (MRT).<\/p>\n<p>M\u00e3e e filhas foram separadas. Ieda foi levada para um banheiro, no segundo andar do pr\u00e9dio. L\u00e1, havia uma cama e no lugar do colch\u00e3o, uma tela e um cobertor.<\/p>\n<p>O entra e sai de homens no c\u00f4modo era grande. As luzes apagaram-se, e Iara ouviu a ordem: \u201ctragam o Ivan\u201d. Na sequ\u00eancia, um som de rajada de metralhadora e um grito de Fanny. Era a primeira de v\u00e1rias simula\u00e7\u00f5es do fuzilamento de Ivan que a fam\u00edlia viveria.<\/p>\n<p>Ieda estava sentada na cama quando o movimento de homens no banheiro continuou. Um entrava depois do outro, uns dez no total. Um deles sentou-se ao seu lado, pressionando-lhe o corpo. Do outro lado, sentou outro, que usava um chap\u00e9u. \u201cEra um homem asqueroso\u201d, recorda-se Ieda.<\/p>\n<p>Ele tirou os sapatos e enfiou a m\u00e3o por entre as pernas de Ieda, alcan\u00e7ando sua vagina. \u201cMe d\u00ea choque, me bata, mas n\u00e3o fa\u00e7am isso comigo\u201d, suplicou a mo\u00e7a, desesperada, em v\u00e3o. O homem era o delegado da pol\u00edcia civil Davi dos Santos Ara\u00fajo, conhecido no\u00a0DOI-Codi\u00a0como Capit\u00e3o Lisboa.<\/p>\n<p><strong>Simula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>De madrugada, Ieda foi colocada numa viatura veraneio C-14, cheia de homens, e levada ao Parque do Estado. Ivan foi levado ao mesmo destino, por\u00e9m em outro carro. L\u00e1, houve novamente a simula\u00e7\u00e3o de fuzilamento do ent\u00e3o adolescente de 16 anos. E, no carro, Capit\u00e3o Lisboa, sentado ao lado de Ieda, novamente a violentou.<\/p>\n<p>No caminho de volta ao\u00a0DOI-Codi, os agentes desceram numa padaria para tomar caf\u00e9 e de dentro do carro, Ivan e Ieda conseguiram ver a manchete do jornal\u00a0<em>Folha da Tarde<\/em> numa banca de revista, que dizia que o pai deles, Joaquim Alencar de Seixas morrera. Por\u00e9m, quando os irm\u00e3os chegaram ao\u00a0DOI, Joaquim ainda estava vivo.<\/p>\n<p>Mais tarde, Ieda foi obrigada a tomar um copo de leite, muito doce. \u201cS\u00f3 acordei no dia seguinte. Creio que fui dopada enquanto tiravam de l\u00e1 o corpo do meu pai, que havia sido morto\u201d.<\/p>\n<p>Seixas fora assassinado por volta das 19 horas do dia 17. Sua esposa, Fanny, viu uma C14 ser estacionada no p\u00e1tio e dentro colocarem o corpo do marido. Ouviu, tamb\u00e9m, um policial perguntar a outro: \u201cDe quem \u00e9 esse presunto?\u201d. Como resposta, ouviu: \u201cEsse era o Roque\u201d [codinome de Seixas].<\/p>\n<p>O depoimento emocionado de Ieda Seixas foi dado na \u00faltima quinta-feira, 14\/03, em audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo \u201cRubens Paiva\u201d, que tamb\u00e9m contou com o relato da ex-presa pol\u00edtica Elza Lobo.<\/p>\n<p><strong>Desaparecimento<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do assassinato de seu pai, das torturas que ela e sua fam\u00edlia foram submetidas, Ieda ainda denunciou o caso de um jovem que viu desaparecer noDOI-Codi. \u201cEu vi esse menino sentado no p\u00e1tio. Era magro, loiro, aparentava ser muito novo. Ele foi levado para o andar de cima, onde foi torturado. Ouvimos seus gritos, e depois, ele silenciou, foi\u00a0 morto. N\u00e3o sei quem \u00e9 esse garoto. Certamente ele ainda est\u00e1 sendo procurado por alguma fam\u00edlia\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Ieda ficou um ano e meia presa: \u201cMas \u00e9 como se tivesse ficado quase seis, porque foi o tempo que o Ivan ficou preso\u201d. Passados 41 anos de sua pris\u00e3o, a mulher de hoje 65 anos afirma que os gritos dos torturados da Oban nunca sa\u00edram da sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante a audi\u00eancia, o presidente da Comiss\u00e3o da Verdade de SP, o deputado Adriano Diogo, comemorou a transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio onde funcionou, por 72 anos, o Tribunal da Justi\u00e7a Militar, em Memorial dos Advogados de Presos Pol\u00edticos. No im\u00f3vel tamb\u00e9m funcionar\u00e1 a sede de comiss\u00f5es da verdade.<\/p>\n<p><strong>Cadeira do drag\u00e3o e choques<\/strong><\/p>\n<p>No dia 10 de novembro de 1969, voltando do trabalho, Elza Lobo chegou em casa e encontrou a porta de entrada encostada. Sentado na escada, estava o capit\u00e3o Maur\u00edcio [<em>Lopes Lima<\/em>]. Levada \u00e0 Oban, a ent\u00e3o militante da A\u00e7\u00e3o Popular Marxista Leninista foi submetida a in\u00fameras torturas.<\/p>\n<p>Puseram-lhe um capuz, e depois de atravessar uma \u00e1rea externa, foi levada para um corredor, com paredes molhadas, de onde escorria \u00e1gua. Depois, foi transferida para uma sala de tortura, onde foi colocada na cadeira do drag\u00e3o, [<em>cadeira revestida de zinco ligada a terminais el\u00e9tricos, onde presos sentavam nus<\/em>] e submetida a choques el\u00e9tricos nas m\u00e3os, orelhas, seios, vagina.\u201cAs\u00a0 torturas foram intermin\u00e1veis\u201d, recorda-se Elza, que \u00e0 \u00e9poca era funcion\u00e1ria da Secretaria da Fazenda de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cA gente ficava jogado no ch\u00e3o, com a porta trancada. Se queria ir ao banheiro, tinha que pedir. E eles decidiam se abriam ou n\u00e3o\u201d, explicou, durante a audi\u00eancia da Comiss\u00e3o da Verdade. Elza lembrou de outra situa\u00e7\u00e3o \u201cmuito violenta\u201d, quando entre os interrogadores havia \u201cpseudo religiosos, fingindo-se de bonzinhos para nos tentar convencer a falar. At\u00e9 livros religiosos eles traziam para completar a farsa\u201d, explicou. Depois de 15 dias na Oban, Elza foi levada para o Dops, e no total, ficou 2 anos presa. \u00a0A audi\u00eancia de sobreviventes foi a primeira de uma s\u00e9rie, que ir\u00e1 ouvir ex-presos v\u00edtimas de tortura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5774\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-5774","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1v8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5774\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}