{"id":5781,"date":"2014-01-03T18:32:04","date_gmt":"2014-01-03T18:32:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5781"},"modified":"2014-01-03T18:32:04","modified_gmt":"2014-01-03T18:32:04","slug":"para-alem-das-ruas-as-manifestacoes-de-junhojulho-de-2013-e-as-classes-medias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5781","title":{"rendered":"PARA AL\u00c9M DAS RUAS: AS MANIFESTA\u00c7\u00d5ES DE JUNHO\/JULHO DE 2013 E AS CLASSES M\u00c9DIAS"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es preliminares<\/strong><\/p>\n<p>Antes de abordarmos a quest\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que sacudiram o Brasil a partir de junho de 2013, cabem algumas quest\u00f5es preliminares, como: qual o perfil pol\u00edtico dos brasileiros, qual a condi\u00e7\u00e3o de hegemonia<sup>1<\/sup> das classes dominantes, e, por fim, qual a conjuntura pol\u00edtica das manifesta\u00e7\u00f5es. Essas s\u00e3o quest\u00f5es que fazem parte da reflex\u00e3o, pois permitem a articula\u00e7\u00e3o com elementos mais amplos e que, por isso, possibilitam situarmos o objeto de nossa an\u00e1lise de modo a desvelar suas rela\u00e7\u00f5es com um universo mais complexo.<\/p>\n<p>Desse modo, o ponto inicial destacado, o perfil pol\u00edtico dos brasileiros, ao mesmo tempo em que nos remete para o processo hist\u00f3rico do pa\u00eds, nos imp\u00f5e a sua articula\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o de hegemonia das classes dominantes. N\u00e3o obstante, a abordagem em separado obedece unicamente ao crit\u00e9rio did\u00e1tico da reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Dada essa explica\u00e7\u00e3o preliminar, passemos aos elementos que integram, de forma global, a nossa reflex\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O perfil pol\u00edtico dos brasileiros<\/strong><\/p>\n<p>A primeira pergunta a ser feita nessa quest\u00e3o\u00a0\u00e9: o que\u00a0comp\u00f5e o perfil pol\u00edtico dos brasileiros? Ou melhor, o que define o perfil pol\u00edtico dos brasileiros? Para respond\u00ea-la, como foi apontado acima, recorreremos ao processo hist\u00f3rico. Nesse sentido, o corte temporal escolhido \u00e9 a partir dos anos 30 do s\u00e9culo XX, por corresponder \u00e0 conjuntura de aprofundamento das tens\u00f5es e das transforma\u00e7\u00f5es estruturais que forjaram, no Brasil, a sociedade urbano\/industrial. Desse modo, pode-se observar o aspecto da l\u00f3gica de revolu\u00e7\u00e3o passiva<sup>2<\/sup> que orientou a referida conjuntura.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es estruturais ocorridas, a partir da d\u00e9cada de 1930, obviamente n\u00e3o tiveram seu in\u00edcio nesse momento, mas s\u00e3o decorr\u00eancia de um processo que estava em andamento h\u00e1 pelo menos 70 anos. O que ocorre na conjuntura dos anos 30 \u00e9 a emerg\u00eancia de fatores e tens\u00f5es que proporcionam a ruptura de parte da ordem estabelecida e, com isso, o rearranjo das for\u00e7as pol\u00edtico-econ\u00f4micas no pa\u00eds em que a nova ordem incorpora tra\u00e7os da antiga que passa a ser superada gradualmente.<\/p>\n<p>Dentre esses fatores e tens\u00f5es, podemos destacar a conjuntura do p\u00f3s 1\u00aa\u00a0Guerra que desemboca na Crise de 1929, ocasionando a retra\u00e7\u00e3o do mercado internacional e o impacto econ\u00f4mico sobre a classe agroexportadora, resultando na fragiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das tradicionais oligarquias rurais. Essa conjuntura permite o rearranjo das for\u00e7as pol\u00edticas, abrindo espa\u00e7o para a classe empresarial urbana iniciar seu processo de protagonismo no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a sua sustenta\u00e7\u00e3o nessa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre sob a forma de ruptura, ou de uma revolu\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, mas de concilia\u00e7\u00e3o entre as diversas for\u00e7as envolvidas, o que n\u00e3o quer dizer que signifique um processo pac\u00edfico. Ou seja, esse empresariado urbano n\u00e3o substitui integralmente a classe de propriet\u00e1rios rurais do poder, mas sim reordena as posi\u00e7\u00f5es no controle do Estado. \u00c9 um processo que corresponde a uma ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o gradual que levar\u00e1, at\u00e9 assumir a condi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a pol\u00edtica plena nesse controle, em torno de 30 a 40 anos.<\/p>\n<p>Esse \u201ccabo de guerra\u201d que a classe empresarial urbana trava com a classe de propriet\u00e1rios rurais pelo controle do Estado somente lhe \u00e9 favor\u00e1vel quando dois outros aspectos s\u00e3o postos na mesa: a urbaniza\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o das classes m\u00e9dias. O primeiro \u00e9 o fator impulsionador do segundo que se beneficia quanto mais complexa se torna a sociedade brasileira em decorr\u00eancia do avan\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pode-se entender, ent\u00e3o, que a sociedade urbano\/industrial com seu desenvolvimento material, com seu bem-estar e conforto, atua como polo de atra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica<sup>3<\/sup> e econ\u00f4mica para essas classes m\u00e9dias. Nesse aspecto, ela \u00e9 revolucion\u00e1ria ao permitir, com sua ades\u00e3o \u00e0 vis\u00e3o de mundo do empresariado urbano, a ruptura gradual da ordem da classe de propriet\u00e1rios rurais. Entretanto, ela se assume como conservadora, sob o ponto de vista da classe trabalhadora, ao defender, pela perspectiva de seus interesses corporativos e de seus privil\u00e9gios, a ordem de uma forma\u00e7\u00e3o social liderada pelo empresariado urbano.<\/p>\n<p>O apego ao individualismo favorecido por seu grau de escolaridade, de suas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, de suas origens familiares que possibilitam e sustentam seus privil\u00e9gios individuais, constitui a linha de conduta pol\u00edtica dessas classes m\u00e9dias, pois esses aspectos comp\u00f5em seu capital social. Um capital a servi\u00e7o do indiv\u00edduo e amplamente utilizado e valorizado, na estrutura de poder, pela classe empresarial.<\/p>\n<p>Mas cabe destacar, que esse processo de transforma\u00e7\u00e3o, pelo qual passava o Brasil, corresponde \u00e0 conjuntura de deslocamento do eixo din\u00e2mico do capitalismo mundial. Ou seja, a Europa ocidental, ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra, perde sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a econ\u00f4mica e sua condi\u00e7\u00e3o de hegemonia no mundo para a nova pot\u00eancia que emergia: os EUA. Sob esse novo cen\u00e1rio, as tens\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es internacionais passam a se submeter \u00e0 hegemonia norte-americana. Por outro lado, a exist\u00eancia da URSS, e sua afirma\u00e7\u00e3o como pot\u00eancia tamb\u00e9m a partir dessa conjuntura, levou o mundo ao contexto da bipolariza\u00e7\u00e3o, o que implicava no acirramento da luta ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>No lado ocidental vive-se a expans\u00e3o da sociedade de massa em que a cultura tamb\u00e9m passa a se orientar pelos paradigmas da mercadoria. O acirramento ideol\u00f3gico mundial fruto da bipolariza\u00e7\u00e3o, caracterizado como Guerra Fria, implica no confronto de concep\u00e7\u00f5es de mundo. Trata-se, para uns, da disputa entre metadiscursos, ou discursos totalizantes, ou, ainda, de vis\u00f5es de mundo. Mas o que \u00e9 evidente, \u00e9 que s\u00e3o disputas por projetos de sociedade de car\u00e1ter nacional.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o se torna importante de ser apontada, mesmo que de forma superficial, pois de um modo geral impactam no perfil pol\u00edtico do brasileiro. A bipolariza\u00e7\u00e3o e a hegemonia ocidental pelos EUA imp\u00f5em um padr\u00e3o de comportamento pol\u00edtico das classes sociais no Brasil.<\/p>\n<p>Diante disso, o conjunto de classes em alian\u00e7a no Brasil que assumem a condi\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural, ou seja, assumem a hegemonia, se define pelo perfil conservador que se expressa em todos os n\u00edveis. A relev\u00e2ncia da vis\u00e3o de mundo, difundida pelos padr\u00f5es norte-americanos no Ocidente, define o modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico brasileiro, que a partir dos anos 50 se orienta pela substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Ao possibilitar a acelera\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o industrial fortalece os empres\u00e1rios desse setor, al\u00e9m de oferecer \u00e0s classes m\u00e9dias o privil\u00e9gio do consumismo. Mas os principais pilares das alian\u00e7as de classe s\u00e3o definidos entre os grandes propriet\u00e1rios rurais e o empresariado urbano, ocupando este \u00faltimo a condi\u00e7\u00e3o de hegemonia ap\u00f3s 1964.<\/p>\n<p>As classes m\u00e9dias participam desse bloco\u00a0de alian\u00e7as em condi\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, por\u00e9m como benefici\u00e1rias do bem-estar gerado pelo processo de crescimento industrial e de amplia\u00e7\u00e3o do consumo de bens, em especial a partir da d\u00e9cada de 1970. Mas n\u00e3o se pode esquecer, ainda, que a amplia\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina estatal como impulsionadora desse processo, o que ocorre desde os anos 30, incentivou a sua fra\u00e7\u00e3o de classe vinculada ao aparelho burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Mas e as classes populares, como ficam nesse cen\u00e1rio? Essas permaneceram alijadas do processo pol\u00edtico decis\u00f3rio do pa\u00eds tendo em vista a exist\u00eancia de mecanismos de cerceamento de participa\u00e7\u00e3o, cujo sistema eleitoral, antes de 1930, \u00e9 um dos exemplos. Ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o de partidos nacionais nos anos 40 e a afirma\u00e7\u00e3o da democracia representativa de massa a partir dos anos 80, a situa\u00e7\u00e3o dessas classes n\u00e3o se altera, pois suas participa\u00e7\u00f5es no jogo pol\u00edtico n\u00e3o ultrapassam os limites da legitima\u00e7\u00e3o dos pleitos.<\/p>\n<p>A centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica iniciada a partir dos anos 30 atua como ferramenta garantidora do\u00a0status quo, o que incentiva a expans\u00e3o da fra\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias ligada intimamente \u00e0 estrutura burocr\u00e1tica estatal. Por outro lado, o modelo de desenvolvimento industrial conservador do p\u00f3s-30, e aprofundado no p\u00f3s-64, atua como fator impulsionador do \u00eaxodo rural (SANTOS\u00a0et al, 2003). Esse movimento incorpora a massa de migrantes que acorre para os centros urbanos, juntamente com as classes populares dos grandes centros, ao jogo pol\u00edtico eleitoral, principalmente ap\u00f3s a constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom lembrar que o \u00eaxodo rural \u00e9 fator incentivador da explos\u00e3o demogr\u00e1fica nos principais centros urbanos do pa\u00eds. Mais ainda. \u00c9 igualmente respons\u00e1vel pela prolifera\u00e7\u00e3o das favelas nas \u00e1reas metropolitanas associado \u00e0 falta de pol\u00edticas sociais de melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida desses migrantes e das classes populares como um todo. Isto \u00e9, as favelas s\u00e3o fruto dos baixos padr\u00f5es de remunera\u00e7\u00e3o, de higiene e de instru\u00e7\u00e3o dessa massa populacional (GUIMAR\u00c3ES, 2008).<\/p>\n<p>Tanto as favelas quanto as demais \u00e1reas proletarizadas, as periferias, como hoje em dia s\u00e3o denominadas, se constitu\u00edram em regi\u00f5es dominadas pelo mandonismo de chefes pol\u00edticos, de grupos paramilitares e\/ou do tr\u00e1fico. S\u00e3o \u00e1reas cuja popula\u00e7\u00e3o, pelo ponto de vista conservador hegem\u00f4nico, deve ser mantida pelo r\u00edgido controle coercitivo, pois s\u00e3o entendidas como classes perigosas (GUIMAR\u00c3ES, 2008).<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, as classes populares foram mantidas \u00e0 margem do poder decis\u00f3rio do Estado, apesar de participarem do jogo eleitoral. A precariedade no atendimento de suas demandas, mais que um puro e simples descaso com problemas vividos por essas classes, se constitui em uma pr\u00e1tica do modelo das rela\u00e7\u00f5es de poder que sustentam o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais predominantes na estrutura da forma\u00e7\u00e3o social brasileira.<\/p>\n<p>Desse modo, diante da predomin\u00e2ncia do senso comum<sup>4<\/sup> das classes populares, sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se encontra subordinada por elementos externos. Ou seja, a solu\u00e7\u00e3o de suas quest\u00f5es n\u00e3o \u00e9 posta pela capacidade de suas articula\u00e7\u00f5es, mas pela \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edtica que permite a afirma\u00e7\u00e3o do mandonismo.<\/p>\n<p>O quadro sociopol\u00edtico apresentado nos permite, desse modo, observar a rela\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento da estrutura socioecon\u00f4mica e o modo de pensar hegem\u00f4nico do brasileiro. Neste, as classes m\u00e9dias caminharam junto com as classes economicamente dominantes, mesmo que isso significasse uma posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica. \u00c9 esse perfil que define o car\u00e1ter conservador, e n\u00e3o popular, da moderniza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Definido isto, podemos tra\u00e7ar a condi\u00e7\u00e3o de hegemonia das classes dominantes.<\/p>\n<p><strong>A condi\u00e7\u00e3o de hegemonia das classes dominantes<\/strong><\/p>\n<p>Iniciemos este item\u00a0lembrando o que entendemos por hegemonia. Utilizamos, nesse sentido, o conceito gramsciano que define como sendo a condi\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o \u00e9tico\/moral da sociedade (GRAMSCI, 1995). Uma condi\u00e7\u00e3o que transcende a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas a submete \u00e0 sociedade civil. Sendo assim, a condi\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estabelece uma rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, atuando e definindo a forma de compreens\u00e3o da realidade e oferecendo as ferramentas te\u00f3ricas para perceber e interferir sobre esta.<\/p>\n<p>Desse modo, a classe que det\u00e9m a hegemonia organiza a cultura orientando-a de acordo com a sua vis\u00e3o de mundo, mas n\u00e3o sem conflitos e contradi\u00e7\u00f5es. Como caracter\u00edstica, essa organiza\u00e7\u00e3o se faz a partir, prioritariamente, pela persuas\u00e3o atrav\u00e9s dos diversos aparelhos privados de hegemonia, o que n\u00e3o significa a impossibilidade de se utilizar a coer\u00e7\u00e3o como ferramenta. Este recurso ser\u00e1 acionado sempre que necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A classe empresarial urbana brasileira, ou seja, a classe capitalista se define como classe hegem\u00f4nica p\u00f3s-64, o que n\u00e3o quer dizer que a estrutura das alian\u00e7as de classe tenha se alterado. O que ocorreu foi que a vis\u00e3o de mundo da classe capitalista assumiu a condi\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o \u00e9tico-moral na sociedade, subordinando, com isso, os tra\u00e7os ideol\u00f3gicos das demais classes.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que a vis\u00e3o de mundo desse empresariado urbano, at\u00e9 os anos 80, encontrava-se arraigado \u00e0 discuss\u00e3o de projeto de sociedade nacional. Essa foi a t\u00f4nica, inclusive, que pautou tanto o II PND<sup>5<\/sup> de meados dos anos 70 que definiu estrat\u00e9gias para o desenvolvimento econ\u00f4mico e fortalecimento do capitalismo no pa\u00eds (LESSA, 1998), quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual com a implanta\u00e7\u00e3o, por exemplo, de pol\u00edticas e reformas do ensino at\u00e9 os anos 80.<\/p>\n<p>A partir do regime instaurado em 1964, as rela\u00e7\u00f5es capitalista se expandem de forma avassaladora para o meio rural alterando gradativamente o perfil do latif\u00fandio e da mentalidade dos grandes propriet\u00e1rios que passam, cada vez mais, a se comportarem como empres\u00e1rios. O lado perverso desse processo, que corresponde ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas no campo, se manifesta pelo acirramento do \u00eaxodo rural e o aumento da tens\u00e3o em prol da luta pela reforma agr\u00e1ria. Esse \u00e9 o momento em que o aparato coercitivo jur\u00eddico e policial atuam de maneira a submeter as for\u00e7as contr\u00e1rias e abafar a luta de classes.<\/p>\n<p>Se at\u00e9\u00a0a d\u00e9cada de 1980 os metadiscursos em disputa t\u00eam na quest\u00e3o nacional e, para alguns com corte de classe, seu polo central, nas d\u00e9cadas seguintes o centro passa a ser outro. O debate totalizante de projeto de sociedade, com ou sem corte de classe, cede espa\u00e7o para a l\u00f3gica discursiva fragment\u00e1ria em que no campo pol\u00edtico-econ\u00f4mico se manifesta na defesa do neoliberalismo, enquanto que no campo s\u00f3cio-filos\u00f3fico v\u00e3o se definir como p\u00f3s-moderno ou o que seria, para outros, o pr\u00f3prio fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Considerando que houve um deslocamento do debate de sociedade para o de mercado, viabilizado pelo fim do contraponto da URSS nos anos 90 e o consequente desmonte do bloco do socialismo real, o discurso da p\u00f3s-modernidade, que rompe com a totalidade apostando na fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade, passou a ser o mote. Defendeu-se a impossibilidade de sustenta\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o de metadiscurso pol\u00edtico e\/ou econ\u00f4mico, de projetos revolucion\u00e1rios que abarcassem e articulassem, portanto, o conjunto da sociedade. Passou-se a afirmar que nesta somente se pode intervir de modo pontual, n\u00e3o mais de forma global como fora a vis\u00e3o at\u00e9 o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, em especial na tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o, era apontado como um grande exemplo dessa nova realidade. A possibilidade de se radicalizar o individualismo, bem como de se fragmentar a realidade com o aumento e instantaneidade do fluxo de informa\u00e7\u00e3o teria possibilitado a democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, mas paradoxalmente, como destaca Eduardo Galeano: \u201cestamos informados de tudo, mas n\u00e3o sabemos de nada\u201d (GALEANO, 2009).<\/p>\n<p>Nesse sentido, o cen\u00e1rio que se ergue e se consolida a partir dos anos 90 concilia tr\u00eas aspectos fundamentais para a afirma\u00e7\u00e3o da hegemonia da classe capitalista no Brasil: o neoliberalismo, a globaliza\u00e7\u00e3o e o discurso p\u00f3s-moderno. O neoliberalismo, com sua defesa intransigente do Estado m\u00ednimo e da regula\u00e7\u00e3o da vida em sociedade pelas leis de mercado, constr\u00f3i o campo favor\u00e1vel para a financeiriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 um discurso e uma pr\u00e1tica que une o aspecto pol\u00edtico com o econ\u00f4mico articulado diretamente com o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas que passou a ser designado de globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta se caracterizaria, segundo seus defensores, pela quebra da verticaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais e a constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es horizontais. Chegaram mesmo a afirmar que teria acabado o imperialismo, pois com esse novo tipo de rela\u00e7\u00e3o, cuja tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o era seu principal viabilizador, o capital deixara de ter sua matriz definida geograficamente. Entretanto, para que todos pudessem se beneficiar dessas condi\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d, seria necess\u00e1rio a implementa\u00e7\u00e3o das reformas pol\u00edticas fundamentais, abrindo espa\u00e7o para o setor privado em detrimento do Estado, o que significa dizer que se deveria derrubar barreiras de prote\u00e7\u00e3o dos mercados nacionais.<\/p>\n<p>Enquanto esse debate pol\u00edtico e econ\u00f4mico se difundia submetendo as rela\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais \u00e0 l\u00f3gica do mercado e da livre concorr\u00eancia, ao mesmo tempo os indiv\u00edduos eram envolvidos pelo \u201ccanto da sereia\u201d que estandardizava a vida em sociedade. As novas possibilidades que se abriam permitiriam a todos se desvencilhar, tamb\u00e9m, das amarradas das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas que impediam a democratiza\u00e7\u00e3o das oportunidades ofertadas pelo mercado globalizado. Era necess\u00e1rio, portanto, que reformas trabalhistas ocorressem para libertar as for\u00e7as do empreendedorismo.<\/p>\n<p>O processo de aumento da concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e a monopoliza\u00e7\u00e3o da economia gerada pelo neoliberalismo e a globaliza\u00e7\u00e3o, ambos apenas mais uma vertente do capitalismo, por sua vez era abafado pelo discurso p\u00f3s-moderno. Este completa o conjunto de argumenta\u00e7\u00f5es, fosse com o de sociedade do conhecimento, fosse com sociedade p\u00f3s-industrial ou qualquer outro conceito que fundamentasse o individualismo, a relativiza\u00e7\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade pr\u00f3prios dessa matriz te\u00f3rica. Afirmava-se ainda, com essa l\u00f3gica, que estava decretado o fim da centralidade do trabalho e que, por isso, os la\u00e7os de rela\u00e7\u00e3o e solidariedade de classes estavam esgar\u00e7ados e haviam perdido o sentido de exist\u00eancia.\u00a0 Esse discurso \u201ccaiu como uma luva\u201d para as classes m\u00e9dias.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa conjuntura, portanto, que se estabelece a hegemonia da classe capitalista, no Brasil. Ou seja, com a afirma\u00e7\u00e3o dos preceitos neoliberais, com a ideia de globaliza\u00e7\u00e3o vinculada a de democracia pautada pelo consumo, mais a populariza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica p\u00f3s-moderna de fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade, bem como a relativiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se por um lado essa conjuntura encanta as classes m\u00e9dias pelo incentivo ao consumismo, pelo individualismo e pela radical impossibilidade de ruptura que colocaria em risco seu patrim\u00f4nio material e seu\u00a0status quo, por outro afetou fortemente sua fra\u00e7\u00e3o de classe vinculada ao aparelho burocr\u00e1tico do Estado. Esta fra\u00e7\u00e3o se viu gradativamente deslocada politicamente, pela queda de seu poder aquisitivo e de suas condi\u00e7\u00f5es materiais, para as proximidades das classes populares, fragilizando, com isso, sua capacidade de interfer\u00eancia no processo decis\u00f3rio do Estado.<\/p>\n<p>Ou seja, as classes m\u00e9dias, ao serem fracionadas em suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, tamb\u00e9m se dividem em suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas frente \u00e0 conjuntura. \u00c9 esse jogo de fragmenta\u00e7\u00e3o que p\u00f5e essas classes no centro nervoso contempor\u00e2neo pol\u00edtico, por\u00e9m as coloca de forma d\u00fabia tendo em vista seu perfil ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A redefini\u00e7\u00e3o de seu papel no\u00a0conjunto das alian\u00e7as de classes que se reorganiza ao longo dos anos 90 e 2000, em decorr\u00eancia da fragiliza\u00e7\u00e3o de sua fra\u00e7\u00e3o ligada ao aparato burocr\u00e1tico, apresenta para as classes m\u00e9dias um caminho que tende a se bifurcar. Enquanto esta fra\u00e7\u00e3o, por suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, tem no caminho de proximidade com as classes populares uma possibilidade, ao seu outro segmento o caminho que se aponta \u00e9 o de fortalecimento das alian\u00e7as de sustenta\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, \u00e9\u00a0bom que se observe, que o campo pol\u00edtico\u00a0se v\u00ea igualmente dominado, tal qual o campo econ\u00f4mico, pela l\u00f3gica do empreendedorismo. Com isso, a pol\u00edtica passa a ser encarada como quest\u00e3o de gest\u00e3o e, portanto, abre espa\u00e7o para formas de pr\u00e1ticas pol\u00edticas definidas a partir da afirma\u00e7\u00e3o do profissional\/gestor da pol\u00edtica que foca seu desempenho na adequa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. O mercado se torna a ser a arena onde a pol\u00edtica \u00e9 feita, mas como destaca Milton Santos \u201c&#8230; esse mercado global n\u00e3o existe como ator, mas como uma ideologia, um s\u00edmbolo\u201d (SANTOS, 2000, p. 67).<\/p>\n<p>Os grandes projetos de sociedade, os metadiscursos pol\u00edticos, as possibilidades de rupturas, com esse cen\u00e1rio, est\u00e3o\u00a0todos exclu\u00eddos diante dessa l\u00f3gica empreendedora. Definem-se os partidos como ag\u00eancias de neg\u00f3cios dos interesses das grandes empresas e os pol\u00edticos como despachantes dessas. Deixa-se de ter espa\u00e7o para o debate ideol\u00f3gico, o que \u00e9 avalizado pelo conjunto de classes que comp\u00f5e o bloco hegem\u00f4nico e disseminado amplamente pela sociedade, em que as classes m\u00e9dias t\u00eam papel significativo como formadoras de opini\u00e3o junto \u00e0s classes populares.<\/p>\n<p>Logo, a hegemonia do regime do capital, nesses vinte anos, foi constru\u00edda em um cen\u00e1rio de fragmenta\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o da realidade. Este tem como pilares o neoliberalismo, a globaliza\u00e7\u00e3o e o discurso p\u00f3s-moderno. \u00c9 nesse sentido que a classe dos capitalistas afirma sua condi\u00e7\u00e3o de classe hegem\u00f4nica no Brasil. Ao mesmo tempo, fortalece a condi\u00e7\u00e3o de monopoliza\u00e7\u00e3o da economia e, igualmente, desloca parte da fra\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias, vinculadas ao aparelho burocr\u00e1tico do Estado, para a proximidade das condi\u00e7\u00f5es materiais das classes populares. A\u00ed se encontra o centro nervoso das retomadas das mobiliza\u00e7\u00f5es de rua que eclodiram a partir de junho de 2013.<\/p>\n<p><strong>O cen\u00e1rio das manifesta\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es de rua que eclodiram em junho\/2013 trazem consigo uma aparente radicalidade. As for\u00e7as pol\u00edticas envolvidas n\u00e3o se manifestam a partir de um objetivo em comum, mas em uma pluralidade de reivindica\u00e7\u00f5es. A falta desse objetivo demonstra, de certa forma, a fragmenta\u00e7\u00e3o de pontos de vista sobre a realidade que se encontram vinculados aos interesses das classes envolvidas. Ou seja, a fragmenta\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o sobre o conjunto da realidade tem imposto, igualmente, a fragmenta\u00e7\u00e3o nas propostas pol\u00edticas que s\u00e3o apresentadas como necessidades de interven\u00e7\u00f5es pontuais. No que se refere \u00e0 repulsa aos partidos pol\u00edticos, esta \u00e9 a express\u00e3o do entendimento de que, para muitos, a quest\u00e3o \u00e9 de gest\u00e3o e, por isso, estes estariam superados.<\/p>\n<p>Nesse momento, cabem duas observa\u00e7\u00f5es iniciais: 1) por que as classes m\u00e9dias v\u00e3o\u00a0\u00e0s ruas?; 2) por que os sindicatos e partidos pol\u00edticos s\u00e3o hostilizados? Evidente \u00e9 que n\u00e3o seria apenas contra o aumento das passagens de \u00f4nibus, apesar da p\u00e9ssima qualidade do servi\u00e7o que essas empresas prestam principalmente em todas as grandes e m\u00e9dias cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No que tange \u00e0s classes m\u00e9dias, a reordena\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o no bloco de alian\u00e7as de classes hegem\u00f4nico, tendo sido estas levadas ao conflito de interesses interno, levou suas fra\u00e7\u00f5es a posi\u00e7\u00f5es opostas. Por outro lado, a hostilidade aos partidos de esquerda, e seu enquadramento no mesmo perfil dos \u201cpartidos empreendedores\u201d, demonstrou a superficialidade de an\u00e1lise. \u00c9 bom lembrar que a maior parte da esquerda \u00e9 composta, justamente, por integrantes das classes m\u00e9dias, o que n\u00e3o quer dizer que essas classes sejam de esquerda. Sobre essa quest\u00e3o, cabe lembrar o papel desempenhado por elas ao longo do processo hist\u00f3rico do pa\u00eds, bem como de seu perfil ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>As revoltas manifestas de v\u00e1rias maneiras, inclusive com agress\u00f5es a militantes de esquerda e\/ou depreda\u00e7\u00f5es de pr\u00e9dios p\u00fablicos ou de s\u00edmbolos do capital, n\u00e3o ultrapassaram os limites da apreens\u00e3o da realidade de forma fragmentada e do car\u00e1ter de rebeldia. Essas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o abalaram, sequer, as estruturas da ordem do regime do capital e o perfil de suas rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, n\u00e3o ousaram ou n\u00e3o foram capazes, pelo menos ainda, de produzir um projeto alternativo de sociedade contra a qual se manifestam. Afinal, at\u00e9 agora a personaliza\u00e7\u00e3o do \u201cinimigo\u201d apenas tem atingido os despachantes do empresariado. Uma t\u00e1tica que n\u00e3o conseguiu atingir o cerne da quest\u00e3o: as rela\u00e7\u00f5es capitalistas. Mais uma vez cabe a pergunta: mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Considerar o rearranjo das for\u00e7as pol\u00edticas das classes m\u00e9dias na constru\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o da hegemonia da classe capitalista no Brasil pode ser, nesse caso, um caminho de explica\u00e7\u00e3o. A perda de for\u00e7a de parte do capital social das classes m\u00e9dias, nesse processo, esvazia o poder significativo das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e de suas origens familiares, deslocando seu poder para o campo estritamente econ\u00f4mico\/profissional, apesar de que em alguns casos se mant\u00e9m, ainda, o poder da forma\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n<p>Nesse sentido, os conflitos assumem, no primeiro momento, um perfil gen\u00e9rico, mas de forte cunho ideol\u00f3gico fascista, ao lan\u00e7ar nas manifesta\u00e7\u00f5es o\u00a0slogan do \u201csem partido\u201d e das agress\u00f5es aos militantes de esquerda. Conforme avan\u00e7avam os protestos, outros\u00a0slogans de cunho moralistas e personalizados, como: \u201cAbaixo a corrup\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cFora Dilma\u201d, \u201cFora Cabral\u201d \u201cFora Alckmin\u201d ganharam igualmente as ruas. Esse tipo de comportamento pol\u00edtico demonstra: 1) a compreens\u00e3o superficial da pol\u00edtica no momento de sua personaliza\u00e7\u00e3o; 2) o entendimento do campo pol\u00edtico como espa\u00e7o de gest\u00e3o. Em ambos os casos, as classes m\u00e9dias n\u00e3o buscam romper a ordem institucional e construir um projeto alternativo. Defendem, com essa pr\u00e1tica, que a quest\u00e3o \u00e9 de gest\u00e3o e, por isso, evocam taisslogans, associando os problemas sociais \u00e0 m\u00e1 gest\u00e3o, \u00e0 incompet\u00eancia, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>As classes m\u00e9dias, mesmo suas fra\u00e7\u00f5es mais radicalizadas, n\u00e3o\u00a0evidenciam disposi\u00e7\u00e3o de romper com o atual formato do bloco de alian\u00e7as de classes hegem\u00f4nico e construir um caminho alternativo. Este caminho, caso fosse a op\u00e7\u00e3o a esse bloco hegem\u00f4nico, implicaria em reorientar suas alian\u00e7as se aproximando politicamente das demandas das classes populares, o que n\u00e3o demonstra ainda ser o desejado.<\/p>\n<p>Mas foi posta outra quest\u00e3o na mesa: por que os sindicatos e partidos pol\u00edticos s\u00e3o hostilizados?<\/p>\n<p>De certa forma, a quest\u00e3o relativa aos partidos pol\u00edticos j\u00e1\u00a0foi abordada. Nesse caso, tratemos da quest\u00e3o relativa \u00e0 hostilidade aos sindicatos.<\/p>\n<p>Tendo em considera\u00e7\u00e3o um dos pilares do discurso p\u00f3s-moderno entrela\u00e7ado com o da globaliza\u00e7\u00e3o, a supera\u00e7\u00e3o da sociedade industrial, a argumenta\u00e7\u00e3o passa a ser a de que se vive sob os ausp\u00edcios da sociedade do conhecimento e da informa\u00e7\u00e3o. Por essa l\u00f3gica, o trabalho perdera a centralidade no mundo da produ\u00e7\u00e3o. Somado a isso, se funde ao cen\u00e1rio o discurso da financeiriza\u00e7\u00e3o e da judicializa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O esvaziamento pol\u00edtico dos sindicatos, a partir dos anos 2000, foi sintom\u00e1tico. Estes se transformaram em verdadeiras bancas de advogados alijando a luta ideol\u00f3gica e se subjugando \u00e0 hegemonia da classe capitalista.<\/p>\n<p>O embate da contradi\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho se desloca para a quest\u00e3o t\u00e9cnica do direito, o que passa a exigir maior articula\u00e7\u00e3o institucional no Estado por parte do movimento sindical. O distanciamento pol\u00edtico dessas organiza\u00e7\u00f5es da disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica dos trabalhadores imprimiu, e n\u00e3o por acaso, tanto o descr\u00e9dito quanto a acomoda\u00e7\u00e3o das categorias profissionais.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, o movimento sindical perde em muito sua representatividade. Distante da luta ideol\u00f3gica, ele abriu espa\u00e7o para os trabalhadores serem ganhos para a vis\u00e3o de mundo capitalista, o que significa dizer que esse movimento capitulou frente ao poder hegem\u00f4nico da classe empresarial, se n\u00e3o todo ao menos a maior parte. Ou seja, perdeu a capacidade de estabelecer a luta contra-hegem\u00f4nica para atuar dentro da ordem imposta pelo regime do capital.<\/p>\n<p>Caso semelhante ocorre com o pr\u00f3prio Partido dos Trabalhadores. O PT, que se construiu a partir de movimentos populares e de manifesta\u00e7\u00f5es de rua, abandonou radicalmente essa pr\u00e1tica com a chegada de Lula \u00e0 presid\u00eancia, transformando o movimento sindical em correia de transmiss\u00e3o do governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes por ele dirigido. Nesse aspecto, essa pr\u00e1tica refor\u00e7a a tend\u00eancia pol\u00edtica instaurada no sindicalismo que inibe a luta contra-hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>Apenas para ilustrar, n\u00e3o \u00e9 diferente o que ocorre, por exemplo, com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) diante do avan\u00e7o desenfreado do agroneg\u00f3cio. A aproxima\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia econ\u00f4mica desse Movimento para com o Governo Federal t\u00eam levado ao enfraquecimento da luta pela reforma agr\u00e1ria. A concilia\u00e7\u00e3o de classes permitiu o MST e os empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio fazerem, paradoxalmente, parte da mesma base social do governo e do mesmo projeto pol\u00edtico. Essa postura levou, tal qual ocorre com os trabalhadores urbanos, \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o e desmobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores rurais.<\/p>\n<p>O que se falar, ent\u00e3o, da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE)? Diante das lutas internas de diversos grupos e tend\u00eancias pol\u00edticas pela disputa do controle da m\u00e1quina burocr\u00e1tica da entidade, levou o seu distanciamento dos grandes temas referentes \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de uma UNE deslocada da macropol\u00edtica e da maioria dos estudantes em busca de uma forma\u00e7\u00e3o somente com o vi\u00e9s profissional, a entidade tem ficado \u00e0 margem do debate pol\u00edtico relativo \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o do ensino superior no pa\u00eds. A radicalidade dessa reestrutura\u00e7\u00e3o se mostra pertinente quando a l\u00f3gica da educa\u00e7\u00e3o passa a ser a forma\u00e7\u00e3o para o mercado, a forma\u00e7\u00e3o de empreendedores, se pondo longe da preocupa\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o intelectual cr\u00edtica.<\/p>\n<p>O posicionamento da UNE nos limites impostos pela concilia\u00e7\u00e3o de classes, permite a livre press\u00e3o empresarial no que diz respeito a anular qualquer oposi\u00e7\u00e3o a essa l\u00f3gica. Um posicionamento que tem levado a entidade ao descr\u00e9dito e \u00e0 incapacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o cen\u00e1rio em que emergem as manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 o de uma forma pol\u00edtica de afirma\u00e7\u00e3o do individualismo e da competi\u00e7\u00e3o de mercado. Um cen\u00e1rio que resulta da condi\u00e7\u00e3o de hegemonia desses tr\u00eas pilares estruturadores da conjuntura dos \u00faltimos vinte anos: neoliberalismo, p\u00f3s-modernidade e globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, no in\u00edcio do ano de 2012 e conquistando grande apoio da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, policiais civis e militares e bombeiros decidiram entrar em greve. No \u00faltimo semestre desse mesmo ano, os docentes das universidades federais, uma fra\u00e7\u00e3o intelectualizada das classes m\u00e9dias, entraram tamb\u00e9m em greve. No mesmo semestre, os m\u00e9dicos federais paralisaram. Era a demonstra\u00e7\u00e3o de que as fra\u00e7\u00f5es dessa classe ligadas ao aparelho burocr\u00e1tico se encontravam insatisfeitas.<\/p>\n<p>Mas fica uma quest\u00e3o: esses movimentos grevistas propiciaram um questionamento ao modelo societ\u00e1rio? N\u00e3o! No que diz respeito aos m\u00e9dicos, basta observar o posicionamento frontalmente contr\u00e1rio, chegando mesmo a assumirem posturas ideol\u00f3gicas racistas e reacion\u00e1rias, de algumas de suas entidades representativas em rela\u00e7\u00e3o ao programa \u201cMais M\u00e9dico\u201d, do Governo Federal.<\/p>\n<p>Sendo assim, podemos afirmar que as greves ficaram limitadas aos interesses corporativos, por\u00e9m significando um avan\u00e7o pol\u00edtico, pois expressaram a retomada do \u00e2nimo de mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do individualismo e da competitividade. Nesse caso, havia um clima favor\u00e1vel \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse clima favor\u00e1vel, os protestos transcenderam a quest\u00e3o do trabalho, ampliando-se para demandas sociais. A massa de manifestantes reivindicava melhoria nos servi\u00e7os p\u00fablicos, sendo mobilizados, em grande parte, pelas redes sociais e amplamente divulgado pela grande m\u00eddia. Esse \u00faltimo fator tem de ser levado em considera\u00e7\u00e3o. Qual o interesse dessas empresas midi\u00e1ticas na difus\u00e3o e incentivo \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Apenas para relembrar, a m\u00eddia \u00e9\u00a0entendida como um aparelho privado de hegemonia. Sob esse aspecto, sua estrat\u00e9gia de persuas\u00e3o oferece as ferramentas, seletivamente, para que o conjunto da sociedade tome consci\u00eancia da realidade e, dessa forma, possa intervir. Uma dada consci\u00eancia orientada e, portanto, uma interven\u00e7\u00e3o pautada pela vis\u00e3o de mundo daqueles que controlam esses aparelhos de hegemonia.<\/p>\n<p>\u00d3bvio est\u00e1, por esse motivo, que h\u00e1 o interesse pol\u00edtico da disputa intraolig\u00e1rquica. Diante disso, a publiciza\u00e7\u00e3o desses eventos servia a dois objetivos discursivos: o de atrair mais manifestantes, e, o outro, de desfocar seu aspecto pol\u00edtico e caracteriz\u00e1-lo como mera baderna. E sendo assim, o mote discursivo midi\u00e1tico seria a da m\u00e1 gest\u00e3o que se alastrava pelo pa\u00eds, considerando as manifesta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m como \u201cvandalismo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0de se estranhar, somente para elucidar a cobertura das manifesta\u00e7\u00f5es, que o jornal O Globo, no dia 18\/08\/2013, tem como manchete de primeira p\u00e1gina \u201cO Brasil nas ruas\u201d. No dia 21 de junho a chamada de capa, no mesmo jornal, era: \u201cSem controle\u201d.<\/p>\n<p>Nesse caso, o foco privilegiado \u00e9 a est\u00e9tica pol\u00edtica do\u00a0black bloc, enquanto que a midiatiza\u00e7\u00e3o serve para atrair uma grande massa de participantes. Uma massa que, muitas das vezes, estava indo aos protestos pelo simples fato de ter, na concep\u00e7\u00e3o deles, se tornado um evento a ser postado nas redes.<\/p>\n<p>Um bom exemplo dessa pr\u00e1tica nas redes sociais foi a postagem de fotos de uma jovem, na final da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es de 2013, em frente a um dos s\u00edmbolos da repress\u00e3o no estado do Rio de Janeiro utilizados nas \u00e1reas prolet\u00e1rias: o \u201ccaveir\u00e3o\u201d. Diante n\u00e3o unicamente de seu aspecto f\u00edsico, mas pelos valores dos ingressos, podemos deduzir que n\u00e3o se trata de integrante das classes populares, mas de uma cidad\u00e3 com uma forte vis\u00e3o conservadora dos problemas sociais, no momento que se orgulha de posar sorridente para fotos, junto a este s\u00edmbolo de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que entende a repress\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais.<\/p>\n<p>Ou seja, a repress\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o dos pobres como leg\u00edtima estrat\u00e9gia de manuten\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios de classe. E, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, a jovem foi eleita nas redes sociais como \u201cmiss coxinha\u201d 2013.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>No que diz respeito ao\u00a0black bloc, este merece uma r\u00e1pida aten\u00e7\u00e3o. Esse grupo heterog\u00eaneo e sem uma dire\u00e7\u00e3o central, atua nas manifesta\u00e7\u00f5es como grupo de a\u00e7\u00e3o. Mas a\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Qual o prop\u00f3sito?<\/p>\n<p>A identidade oculta facilitou a composi\u00e7\u00e3o diversa do grupo em que n\u00e3o se pode definir a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Contudo, seus integrantes alegam ser anticapitalista e t\u00eam como t\u00e1tica a destrui\u00e7\u00e3o midiatizada de s\u00edmbolos do capitalismo. E por isso atacam, tamb\u00e9m, pr\u00e9dios e agentes da ordem do regime do capital, o que facilitou \u00e0 grande m\u00eddia caracteriz\u00e1-los como \u201cv\u00e2ndalos\u201d. Podemos perceber que ocorreu o deslocamento pol\u00edtico dos significados das manifesta\u00e7\u00f5es a partir do discurso midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Como a identidade se mant\u00e9m oculta pela utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras, isso propiciou a infiltra\u00e7\u00e3o de elementos provocadores das ag\u00eancias de seguran\u00e7a p\u00fablica. Essa situa\u00e7\u00e3o foi poss\u00edvel porque, diante da inexist\u00eancia de uma linha objetiva do que se pretende com as a\u00e7\u00f5es de depreda\u00e7\u00e3o, o simples ato de quebrar a propriedade e\/ou o de atacar a for\u00e7a policial emblematizava a identidade como sendo o\u00a0black bloc.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica \u00e9 que essas a\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas do(s) grupo(s) acabam se constituindo no direito individual de protestar e da forma que cada um definir. Ou seja, se n\u00e3o se consegue estabelecer as conex\u00f5es pol\u00edticas e te\u00f3ricas que definem o conjunto de rela\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es do poder, apenas exerce-se o direito de manifestar e da maneira que se quer. Prevalece o direito individualista. E, nesse caso, o alvo \u00e9 o s\u00edmbolo do poder que se encontra mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o cabe, nesse momento, definir a servi\u00e7o de\u00a0quem ou de que for\u00e7a pol\u00edtico-ideol\u00f3gica o\u00a0black bloc est\u00e1. \u00c9 preciso perceber que seus militantes s\u00e3o fruto de uma leitura de mundo que se estabeleceu nos \u00faltimos vinte anos, cujos par\u00e2metros ideol\u00f3gicos se sustentam nas concep\u00e7\u00f5es da p\u00f3s-modernidade, do neoliberalismo e da globaliza\u00e7\u00e3o. Essa leitura fragmentada, relativizada e midiatizada de afirma\u00e7\u00e3o do individualismo gerou, por um lado, tanto o \u201cempreendedorismo pol\u00edtico\u201d submetido \u00e0s leis de mercado quanto, por outro, o\u00a0black bloc.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a estes \u00faltimos, no entanto, cabe uma ressalva. Suas a\u00e7\u00f5es de enfrentamento, ao invocarem uma est\u00e9tica de pr\u00e1tica pol\u00edtica paradoxalmente diferenciada em rela\u00e7\u00e3o ao individualismo e ao competitivismo dominante nessa conjuntura, incentivaram o entendimento de que \u00e9 poss\u00edvel fazer frente ao aparato repressor do Estado.<\/p>\n<p>Contraditoriamente, para o\u00a0black bloc, os partidos de esquerda e as demais for\u00e7as pol\u00edticas, que se orientam a partir de metadiscursos, correspondem a concep\u00e7\u00f5es n\u00e3o sintonizadas a esse cen\u00e1rio. Por essa caracter\u00edstica, as lutas desses partidos t\u00eam de se afirmar como luta contra-hegem\u00f4nica. A insist\u00eancia dessa estrat\u00e9gia somente pode se constituir como pol\u00edtica vi\u00e1vel, se ultrapassar a est\u00e9tica da midiatiza\u00e7\u00e3o que tomou conta das manifesta\u00e7\u00f5es e recolocar o debate de projetos societ\u00e1rios, rompendo com a l\u00f3gica do mercado, do individualismo e, por assim dizer, do imediatismo.<\/p>\n<p>Ao movimento sindical compete, por sua vez, ressignificar a sua pol\u00edtica de atua\u00e7\u00e3o a partir da contradi\u00e7\u00e3o capital\/trabalho. Ou seja, retomar como orienta\u00e7\u00e3o a luta de classes e, portanto, romper com a l\u00f3gica da judicializa\u00e7\u00e3o do embate entre patr\u00e3o e empregado, sob o risco de perder por completo a sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e representatividade junto aos trabalhadores.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s classes populares, que se encontram sob a hegemonia da vis\u00e3o de mundo da classe dos capitalistas, estas permanecem distantes das manifesta\u00e7\u00f5es. O motivo aparente nos encaminha a dois aspectos: 1) que essas manifesta\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o as tocaram em suas demandas; 2) n\u00e3o se demonstram incapazes de romper com a pr\u00e1tica do mandonismo. Ambos t\u00eam mantido-as distante das ruas e da condi\u00e7\u00e3o de se tornarem sujeito de seu futuro.<\/p>\n<p>Apesar das bandeiras relativas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, mais a da qualidade dos transportes, tudo isso n\u00e3o foi capaz de sensibilizar boa parte das classes populares. Ou seja, a forte repress\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e a for\u00e7a enunciativa da grande m\u00eddia t\u00eam agido como importantes fatores de bloqueio \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do senso comum reinante na mentalidade dessas classes, mantendo-as afastadas dessas lutas.<\/p>\n<p>Falta algo que possibilite que essas classes populares criem condi\u00e7\u00f5es de romper com a rela\u00e7\u00e3o de mandonismo que as subjugam. Uma ruptura que as coloquem na perspectiva de um novo projeto de sociedade e que possam atuar como protagonistas e n\u00e3o meramente como coadjuvantes ou plateias.<\/p>\n<p>Para que o cen\u00e1rio das manifesta\u00e7\u00f5es se encaminhe para outra conjuntura em que se debata projeto de sociedade, \u00e9 necess\u00e1rio que as classes populares percam a desconfian\u00e7a e se assumam como sujeitos de seus destinos. Por\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 isso basta. \u00c9 fundamental, para que esse movimento ocorra, que as classes m\u00e9dias, pelo menos sua fra\u00e7\u00e3o que se radicalizou diante de sua perda de prest\u00edgio junto ao bloco de classes hegem\u00f4nico, superem seus interesses corporativos e rompam suas tradicionais alian\u00e7as de classes e partam para a constru\u00e7\u00e3o de um novo bloco de classes visando a luta contra-hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia das mobiliza\u00e7\u00f5es, nesse sentido, atua como crit\u00e9rio pedag\u00f3gico para as classes e, como tal, mant\u00e9m sua potencialidade de disputa ideol\u00f3gica em que a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se encontra em aberto. Na manuten\u00e7\u00e3o desse clima, vale dizer, o\u00a0black bloc tem tido papel relevante.<\/p>\n<p>Como o cen\u00e1rio das duas \u00faltimas d\u00e9cadas gerou a afirma\u00e7\u00e3o da pluralidade de caminhos fragmentados, torna-se necess\u00e1rio a retomada de projetos societ\u00e1rios. Essas leituras abandonaram a perspectiva de rupturas, por isso, n\u00e3o resta outra alternativa sen\u00e3o a de situar esse movimento na unidade dos campos pol\u00edticos descontentes ou contr\u00e1rios ao regime do capital.<\/p>\n<p>A possibilidade, contudo, de fracionar o atual bloco de alian\u00e7as de classe hegem\u00f4nico parte da luta intraclasse m\u00e9dia. Nessa perspectiva, a constru\u00e7\u00e3o desse fracionamento implica na alian\u00e7a de sua parcela ligada ao aparelho burocr\u00e1tico, em especial sua parcela intelectualizada e a ligada \u00e0 \u00e1rea de sa\u00fade, com as classes populares. Uma alian\u00e7a que tem como foco a luta pelo controle popular das pol\u00edticas p\u00fablicas atrav\u00e9s de f\u00f3runs de luta que as desloquem, portanto, da l\u00f3gica mercantil e as redirecione para o social.<\/p>\n<p>A reorienta\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas dessas pol\u00edticas \u00e9 um dos caminhos. Com a amplia\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o desses f\u00f3runs, h\u00e1 a possibilidade do deslocamento da exclusividade de controle pol\u00edtico das ag\u00eancias do Estado e\/ou de Organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o Governamentais (ONG) para espa\u00e7os de press\u00e3o que permitam a inger\u00eancia e a formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias ligadas \u00e0s demandas das classes populares e trabalhadoras. Esse movimento tende a possibilitar maior participa\u00e7\u00e3o da sociedade na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\u00d3bvio est\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 a possibilidade da mudan\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da interven\u00e7\u00e3o do Estado sem que se redefina o conjunto da alian\u00e7a de classes hegem\u00f4nica. A luta pelas pol\u00edticas p\u00fablicas tende a ser, taticamente, uma a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, pois abrange desde a educa\u00e7\u00e3o, passando pela sa\u00fade, transporte e habita\u00e7\u00e3o, chegando \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e, desse modo, questionando pedagogicamente o car\u00e1ter de classe do Estado. As bandeiras mobilizadoras das manifesta\u00e7\u00f5es demonstram sua potencialidade pol\u00edtica. E, finalmente, essa estrat\u00e9gia abre espa\u00e7o para a efetiva, e n\u00e3o apenas discursiva, constitui\u00e7\u00e3o de um do bloco de alian\u00e7a de classes de perfil popular hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA:<\/p>\n<p>Dicion\u00e1rio do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/p>\n<p>GALEANO, Eduardo. DE PERNAS PRO AR: a escola do mundo ao avesso.\u00a0Rio de Janeiro: LPM, 2009.<\/p>\n<p>GRAMSCI, A. Concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da hist\u00f3ria. 10\u00aa Ed., Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1995.<\/p>\n<p>GUIMAR\u00c3ES, Alberto P. As classes perigosas: banditismo urbano e rural. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008.<\/p>\n<p>LESSA, C.\u00a0A estrat\u00e9gia de Desenvolvimento \u2013 1974-1976: sonho e fracasso. Campinas: UNICAMP, 1998.<\/p>\n<p>LUK\u00c1CS, G.\u00a0Proleg\u00f4menos para uma ontologia do ser social: quest\u00f5es de princ\u00edpios para uma ontologia hoje tornada poss\u00edvel. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010.<\/p>\n<p>PORTELLI, Hugues. Gramsci e o boco hist\u00f3rico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.<\/p>\n<p>SANTOS, Milton et al. O Brasil: territ\u00f3rio e sociedade no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. Rio de Janeiro: Record, 2003.<\/p>\n<p>______________.\u00a0Por uma outra globaliza\u00e7\u00e3o: do pensamento \u00fanico \u00e0 consci\u00eancia universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.<\/p>\n<p><sup>*<\/sup> Historiador e Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Para Gramsci, a hegemonia consiste na primazia da sociedade civil sobre a sociedade pol\u00edtica, cujo \u201caspecto essencial da hegemonia da classe dirigente reside em seu monop\u00f3lio intelectual, isto \u00e9: na atra\u00e7\u00e3o que seus pr\u00f3prios representantes suscitam nas demais camadas de intelectuais: \u2018Os intelectuais da classe historicamente (&#8230;) progressista, em determinadas condi\u00e7\u00f5es, exercem tal poder de atra\u00e7\u00e3o que terminam, em \u00faltima an\u00e1lise, subordinando a si os intelectuais dos outros grupos sociais (&#8230;)\u2019\u201d(PORTELLI. 1977. pp. 65-66).<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> Segundo Gramsci, o conceito de revolu\u00e7\u00e3o passiva corresponde ao processo de mudan\u00e7as progressivas de forma a alterar a composi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais na dire\u00e7\u00e3o \u00e9tico\/moral da sociedade (cf. Dicion\u00e1rio do pensamento marxista).<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> Utilizo aqui o entendimento de ideologia proposto por Marx em que s\u00e3o \u201cformas nas quais os seres humanos se conscientizam desse conflito (isto \u00e9, daquele que emerge dos fundamentos do ser social) e o combatem.\u201d (LUK\u00c1CS, 2010, p. 38).<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> Segundo Gramsci, o senso comum tem como \u201c(&#8230;) tra\u00e7o fundamental e mais caracter\u00edstico \u00e9 o de ser uma concep\u00e7\u00e3o (&#8230;) desagregada, incoerente, inconsequente, adequada \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social e cultural das multid\u00f5es, das quais ele \u00e9 a filosofia\u201d (GRAMSCI, A.\u00a0Concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da hist\u00f3ria. 10\u00aa Ed., Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1995. p. 143).<\/p>\n<p><sup>5<\/sup> Plano Nacional de Desenvolvimento que tra\u00e7ou as linhas estrat\u00e9gicas para o desenvolvimento industrial nos dois primeiros anos do governo do general Ernesto Geisel.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> Coxinha \u00e9 um termo que se popularizou e tem como sin\u00f4nimo: \u201cmauricinho\u201d e\/ou \u201cpatricinha\u201d. Significa aquele indiv\u00edduo pertencente \u00e0s classes com elevado padr\u00e3o social e poder aquisitivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nHIRAN ROEDEL*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5781\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-5781","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5781","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5781"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5781\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5781"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5781"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5781"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}