{"id":5789,"date":"2014-01-06T16:17:14","date_gmt":"2014-01-06T16:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5789"},"modified":"2014-01-06T16:17:14","modified_gmt":"2014-01-06T16:17:14","slug":"apartheid-brasileiro-o-caso-do-maracana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5789","title":{"rendered":"Apartheid brasileiro: o caso do Maracan\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 um sobressalto para qualquer alma encarnar, como acreditam os esp\u00edritas, em um ser humano que viver\u00e1 em um pa\u00eds capitalista. O ser pode n\u00e3o ser agraciado geneticamente com uma mente e um corpo prop\u00edcios \u00e0 sobreviv\u00eancia neste sistema. Al\u00e9m disso, a aleatoriedade pode escolher um n\u00facleo populacional sem respeito \u00e0 vida, sem garantia de instru\u00e7\u00e3o, atendimento \u00e0 sa\u00fade, acesso a moradia etc, gra\u00e7as \u00e0 pr\u00f3pria agressividade que o capitalismo induz. O n\u00facleo familiar receptor pode tamb\u00e9m contribuir para a desgra\u00e7a do ser, que, a estas alturas, se consciente da roleta que participa, desejar\u00e1 n\u00e3o mais nascer.<\/p>\n<p>Estou sendo um pouco radical, uma vez que esta roleta tem uns poucos n\u00fameros de sorte, que correspondem a locais na Terra onde h\u00e1 vida menos desumana, com o capitalismo mitigado. Existem algumas sociedades em que cada ser tem maior considera\u00e7\u00e3o com seus pares, apesar de n\u00e3o se importar que haja explora\u00e7\u00e3o dos seres de outras sociedades. \u00c9 como se os seres estrangeiros n\u00e3o pertencessem aos humanos. As guerras, em muitos casos, s\u00e3o consequ\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o alheia. Se esta necessidade de ac\u00famulo de riquezas n\u00e3o for domada, ela levar\u00e1 \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, dado seu alto grau de explora\u00e7\u00e3o humana, guerras e agress\u00e3o ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Mas, em um ponto, pode-se falar a favor do capitalismo, pois \u00e9 um grande promotor de desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos, apesar de ser com o objetivo de acumular mais capital. \u00c9 interessante notar que nunca se observa que a acumula\u00e7\u00e3o positiva de um grupo gera um d\u00e9ficit de acumula\u00e7\u00e3o ou car\u00eancia de outro. De qualquer forma, a competi\u00e7\u00e3o inspira mais o desenvolvimento tecnol\u00f3gico que a solidariedade.<\/p>\n<p>Esta divaga\u00e7\u00e3o me gratifica, mas preciso dizer algo sobre o Maracan\u00e3, porque \u00e9 necess\u00e1rio justificar o pensamento que me motivou a escrever e me levou a este t\u00edtulo. Uma conflu\u00eancia de interesses, principalmente pol\u00edticos e econ\u00f4micos, levaram as for\u00e7as relacionadas a se mobilizarem para trazer a Copa do Mundo para o Brasil. O povo mesmo n\u00e3o foi consultado e, a bem da verdade, foi muito mal informado. Os pol\u00edticos acreditavam que conseguir trazer a Copa para o Brasil renderia muito cr\u00e9dito pol\u00edtico, se n\u00e3o fosse com o povo, certamente seria com os empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Capitais nacionais e estrangeiros vislumbraram uma excelente oportunidade para aumentar suas riquezas. A FIFA tinha seus ganhos como certos, qualquer que fosse o local da Copa, gra\u00e7as \u00e0 psicose mundial com rela\u00e7\u00e3o a este esporte. Com isso, qualquer pa\u00eds hospedeiro abre m\u00e3o de decis\u00f5es suas para se submeter \u00e0 ditadura da FIFA. N\u00e3o recrimino a humanidade por eleger o futebol como uma das suas maiores obsess\u00f5es, at\u00e9 porque ele ajuda as pessoas a se deleitarem durante o ef\u00eamero tempo nesta superf\u00edcie. A FIFA tem interesse de preservar a caracter\u00edstica circense do evento, para garantir o sucesso de outras Copas. Ali\u00e1s, gladiadores lutavam contra seus iguais, crist\u00e3os desarmados eram entregues aos le\u00f5es, na antiga Roma, para a m\u00e1xima \u201cdivers\u00e3o\u201d do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Os Clubes brasileiros e as administra\u00e7\u00f5es estaduais descobriram uma forma de ganhar est\u00e1dios novos com verba p\u00fablica federal, de gra\u00e7a para eles. Verba esta, oriunda de imposto, que fez falta nos or\u00e7amentos da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia etc. Os construtores aproveitaram e impuseram reformas desnecess\u00e1rias ao governo precipitado que decidiu sem vis\u00e3o social e s\u00f3 com interesse pol\u00edtico. Ganham muito tamb\u00e9m empresas do esporte, ag\u00eancias de viagem, empresas de transporte, ag\u00eancias de propaganda e, sem d\u00favida, as empresas de m\u00eddia com o direito de transmiss\u00e3o. Enfim, o circo beneficia muitos, at\u00e9 o povo com a manuten\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a de alegrias.<\/p>\n<p>O conluio no Brasil envolveu os mesmos grupos de outras Copas: FIFA, pol\u00edticos, construtores etc. Para alegria dos construtores, conclu\u00edram erradamente que o Maracan\u00e3 tinha que ser colocado abaixo e constru\u00eddo outro no lugar. O antigo era popular, pois alguns destitu\u00eddos de dinheiro podiam assistir ao jogo at\u00e9 de perto, sem ver imagens de duas dimens\u00f5es em uma tela, sentindo o cheiro do suor dos jogadores. Nele, o pobre conseguia ser aceito.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o das mentes servas do capital era: \u201cO Maracan\u00e3 precisa ser destinado a quem conquistou na sociedade o direito de ver belos espet\u00e1culos\u201d. Continuavam dizendo: \u201cUm Z\u00e9 Ningu\u00e9m n\u00e3o pode ter o direito de ouvir os berros dos jogadores, enquanto a elite est\u00e1 surda\u201d. E conclu\u00edam: \u201cN\u00e3o se sabe onde estava a cabe\u00e7a dos projetistas do antigo est\u00e1dio com total repulsa \u00e0 hierarquia social\u201d. Esses destruidores do patrim\u00f4nio popular deviam ir a um jogo de baseball em Cuba, o esporte mais popular deste pa\u00eds, para ver os port\u00f5es totalmente abertos, sem bilheterias, com o povo entrando e sentando livremente. O \u00fanico crit\u00e9rio para a conquista de um assento era ter chegado cedo. Era assim, h\u00e1 uns quinze anos. Tor\u00e7o para que ainda seja.<\/p>\n<p>Assisti, pela televis\u00e3o, ao jogo final da Copa do Brasil do ano passado, que foi no novo Maracan\u00e3. Mesmo que estivesse motivado a ir ao est\u00e1dio, me negaria a pagar mesmo o pre\u00e7o m\u00ednimo de R$ 250. A partir da televis\u00e3o, o est\u00e1dio parecia muito bonito. Ali\u00e1s, pelo que foi gasto, se n\u00e3o parecesse, era o caso de se reivindicar uns fuzilamentos. Mas, o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi, quando uma c\u00e2mera, que provavelmente estava fixada em um trilho no teto do est\u00e1dio, come\u00e7ou a deslizar mostrando a torcida do Flamengo. Era um mar homog\u00eaneo de torcedores brancos, cheios de dentes brancos, bem nutridos e vestidos e, por a\u00ed, vai. Veio \u00e0 minha cabe\u00e7a, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, a impress\u00e3o que o Bolsa Fam\u00edlia tinha conseguido um resultado inusitado, pois at\u00e9 o branqueamento da sociedade brasileira imaginado por conservadores do in\u00edcio do s\u00e9culo passado tinha ocorrido. Mas, aquela era a imagem de um subgrupo extremamente minorit\u00e1rio dos flamenguistas. Ali, n\u00e3o tinha o pov\u00e3o torcedor do time, que forma a grande massa dos torcedores. A\u00ed, veio a pergunta: \u201cOnde est\u00e1 o povo?\u201d<\/p>\n<p>O povo est\u00e1 se comprimindo nas portas de bares e restaurantes, que t\u00eam tel\u00e3o, ou vendo em uma telinha pequena em casa. Dependendo do dia, ele pede uma cerveja para o dono do bar n\u00e3o olhar com cara feia. O povo foi expulso do Maracan\u00e3, com a ado\u00e7\u00e3o da proposta do capital. N\u00e3o sei o que representava uma ida ao Maracan\u00e3 para um torcedor verdadeiro, pois nunca fui um aficionado, mas, sou levado a crer que a reforma deste est\u00e1dio foi sobejamente desaprovada. Para tornar pior o ato dos governos, a verba que o \u201cmodernizou\u201d era p\u00fablica, ent\u00e3o ela n\u00e3o poderia ser usada para benef\u00edcio de uma casta da sociedade. Hoje, o Maracan\u00e3, certamente, n\u00e3o parece com a Pra\u00e7a Castro Alves de Salvador, porque esta \u00e9 do povo.<\/p>\n<p>Blog do autor: http:\/\/www.paulometri.blogspot.com.br\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nPaulo Metri\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5789\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-5789","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5789","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5789"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5789\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}