{"id":5794,"date":"2014-01-07T15:33:47","date_gmt":"2014-01-07T15:33:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5794"},"modified":"2014-01-07T15:33:47","modified_gmt":"2014-01-07T15:33:47","slug":"qo-capitalismo-hoje-promove-uma-producao-destrutivaq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5794","title":{"rendered":"&#8220;O capitalismo hoje promove uma produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>entrevistado por Eleonora de Lucena[*]<img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/outras-opinioes\" border=\"0\" align=\"right\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>A atual crise do capitalismo, que faz eclodir protestos por toda a parte, \u00e9 estrutural e exige uma mudan\u00e7a radical. Essa \u00e9 a vis\u00e3o do fil\u00f3sofo Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, 82. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Professor em\u00e9rito da Universidade de Sussex (Reino Unido), o marxista M\u00e9sz\u00e1ros defende que as ideias socialistas s\u00e3o hoje mais relevantes do que jamais foram. Nesta entrevista, feita por e-mail, ele afirma que o avan\u00e7o da pobreza em pa\u00edses ricos demonstra que &#8220;h\u00e1 algo de profundamente errado no capitalismo&#8221;, que hoje promove uma &#8220;produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Maior disc\u00edpulo e conhecedor da obra do tamb\u00e9m fil\u00f3sofo h\u00fangaro marxista Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs (1885-1971), M\u00e9sz\u00e1ros lan\u00e7ar\u00e1 aqui o seu livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/376\" target=\"_blank\"><em>O Conceito de Dial\u00e9tica em Luk\u00e1cs<\/em><\/a> [trad. Rog\u00e9rio Bettoni, Boitempo, R$ 39, 176 p\u00e1gs.], dos anos 60. <\/strong><\/p>\n<p><strong>A mesma editora lan\u00e7a, de Luk\u00e1cs,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/378\" target=\"_blank\"><em>Para uma Ontologia do Ser Social 2<\/em><\/a> [trad. Ivo Tonet, N\u00e9lio Schneider e Ronaldo Vielmi Fortes, R$ 98, 856 p\u00e1gs.] e o volume\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/370\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a Emancipa\u00e7\u00e3o Humana<\/em><\/a> [org. Marcos Del Roio, R$ 39, 272 p\u00e1gs.].<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Folha &#8211; O sr. vem ao Brasil para falar sobre Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs. Como profundo conhecedor do legado do fil\u00f3sofo, como avalia a import\u00e2ncia das suas ideias hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros &#8211; Luk\u00e1cs foi meu grande professor e amigo por 22 anos, at\u00e9 sua morte, em 1971. Ele come\u00e7ou como cr\u00edtico liter\u00e1rio politicamente consciente quase 70 anos antes. Com o passar do tempo, foi se movendo na dire\u00e7\u00e3o dos temas filos\u00f3ficos fundamentais. Seus tr\u00eas trabalhos principais nesse campo \u2013 &#8220;Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe (1923), &#8220;O Jovem Hegel&#8221; (1948) e &#8220;A Destrui\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o (1954) \u2013 sempre resistir\u00e3o ao teste do tempo.<\/p>\n<p>Seus estudos hist\u00f3ricos e est\u00e9ticos sobre granes figuras da literatura alem\u00e3, russa e h\u00fangara seguem sendo as mais influentes em muitas universidades. Al\u00e9m disso, ele \u00e9 autor de uma monumental s\u00edntese est\u00e9tica, que, tenho certeza, vir\u00e1 \u00e0 luz um dia tamb\u00e9m no Brasil. Felizmente, seus tamb\u00e9m monumentais volumes sobre problemas da ontologia do ser social est\u00e3o sendo publicados agora no Brasil pela Boitempo. Eles tratam de algumas quest\u00f5es vitais da filosofia, que t\u00eam implica\u00e7\u00f5es de longo alcance tamb\u00e9m para a nossa vida cotidiana e para as lutas em curso.<\/p>\n<p>O que \u00e9 menos conhecido sobre a vida de Luk\u00e1cs \u00e9 que ele esteve diretamente envolvido em altos n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre 1919 e 1929. Ele foi ministro de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura no breve governo revolucion\u00e1rio da Hungria em 1919, que surgiu a partir da grande crise da Primeira Guerra Mundial. No Partido ele pertencia ao &#8220;grupo Landler&#8221;; era o segundo no comando. Esse grupo recebeu o nome em homenagem a Jen\u00f6 Landler (1875-1928), que foi um l\u00edder sindical antes de se tornar uma figura do alto escal\u00e3o partid\u00e1rio. Ela buscava seguir uma linha estrat\u00e9gica mais ampla, com maior envolvimento das massas populares.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs foi derrotado politicamente em 1929. No entanto, voltando a 1919, em um dos seus artigos (est\u00e1 no meu livro editado agora pela Boitempo), ele alertava que o movimento comunista poderia enfrentar um grande perigo quando &#8220;o proletariado transforma sua ditadura contra ele mesmo&#8221;. Ele provou ser tragicamente prof\u00e9tico nesse alerta.<\/p>\n<p>De qualquer forma, em todos os seus desempenhos p\u00fablicos, pol\u00edticos e te\u00f3ricos, se pode encontrar sempre evid\u00eancias de sua grande estatura moral. Hoje em dia lemos muito sobre corrup\u00e7\u00e3o em pol\u00edtica. Podemos ver a import\u00e2ncia de Luk\u00e1cs tamb\u00e9m como um exemplo positivo, mostrando que moralidade e pol\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 devem (como advogava Kant) como podem andar juntas.<\/p>\n<p><strong>O sr. e Luk\u00e1cs t\u00eam vidas que unem teoria e pr\u00e1tica. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre ser um militante marxista no s\u00e9culo 20 e hoje? <\/strong><\/p>\n<p>A dolorosa e \u00f3bvia grande diferen\u00e7a \u00e9 que os principais partidos da Terceira Internacional, que tiveram uma for\u00e7a organizacional significativa e at\u00e9 influ\u00eancia eleitoral durante algum tempo (como no caso dos partidos comunistas da Fran\u00e7a e da It\u00e1lia), implodiu n\u00e3o s\u00f3 no Leste, mas tamb\u00e9m no Ocidente. Apenas alguns partidos comunistas bem pequenos permanecem fi\u00e9is aos princ\u00edpios de outrora. Essa implos\u00e3o ocorreu muito tempo ap\u00f3s a morte de Luk\u00e1cs.<\/p>\n<p>Naturalmente, como um militante intelectual por mais de 50 anos ele estaria hoje desolado com esses desdobramentos. Mas partidos s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que respondem, de maneira boa ou ruim, a necessidades de mudan\u00e7a. Marx foi bem ativo antes da constitui\u00e7\u00e3o de um partido importante que pudesse, depois, se juntar \u00e0 Terceira Internacional. Quanto ao futuro, alguns partidos radicalmente eficazes podem ser reconstitu\u00eddos se as condi\u00e7\u00f5es mudarem significativamente.<\/p>\n<p>Mas o tema em si \u00e9 muito mais amplo. A necessidade de combinar teoria e pr\u00e1tica n\u00e3o est\u00e1 ligada a uma forma espec\u00edfica de organiza\u00e7\u00e3o. De fato, uma das tarefas mais cruciais para a combina\u00e7\u00e3o de teoria e pr\u00e1tica \u00e9 o exame da dif\u00edcil quest\u00e3o sobre porque houve a implos\u00e3o desses partidos, tanto no Ocidente quanto no Leste, e como seria poss\u00edvel remediar esse fracasso hist\u00f3rico no atual desenvolvimento da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>O que significa ser um marxista hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Praticamente o mesmo que Marx enxergou nos seus dias. Mas, \u00e9 claro, \u00e9 preciso ter em mente as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas e as novas circunst\u00e2ncias. Marx enfatizou corretamente desde o princ\u00edpio que, ao contr\u00e1rio do passado, uma caracter\u00edstica crucial da an\u00e1lise socialista dos problemas \u00e9 a confronta\u00e7\u00e3o com a autocr\u00edtica. Ser cr\u00edtico ao que nos opomos \u00e9 relativamente f\u00e1cil. Isso porque \u00e9 sempre mais f\u00e1cil dizer &#8220;n\u00e3o&#8221; do que encontrar uma forma positiva que possa ser utilizada para que as mudan\u00e7as necess\u00e1rias possam ser realizadas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso um verdadeiro senso de propor\u00e7\u00e3o: compreender tanto fatores negativos \u2013 incluindo a sua parte mais dif\u00edcil da autocr\u00edtica \u2013, como as potencialidades positivas sobre as quais o progresso pode ser feito. Ambos aspectos s\u00e3o relevantes. \u00c9 essencial reexaminar com uma intransigente autocr\u00edtica at\u00e9 os acontecimentos hist\u00f3ricos mais problem\u00e1ticos do s\u00e9culo passado, em conjunto com suas ent\u00e3o expectativas. Isso se quisermos superar as contradi\u00e7\u00f5es do nosso lado no futuro.<\/p>\n<p>A press\u00e3o do tempo e os atuais conflitos das situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de hoje tendem a nos desviar desse caminho de a\u00e7\u00e3o. Mas o princ\u00edpio orientador de combinar cr\u00edtica com genu\u00edna autocr\u00edtica ser\u00e1 sempre um requisito essencial.<\/p>\n<p><strong>Quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica acabou, muitos previram o fracasso do marxismo. Depois, com a crise de 2008, muitos previram o fim do neoliberalismo e a volta das ideias de Marx. Do seu ponto de vista, o marxismo est\u00e1 em expans\u00e3o ou n\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 certa. \u00c9 preciso ser cuidadoso sobre conclus\u00f5es apressadas e definitivas em qualquer dire\u00e7\u00e3o. Geralmente elas s\u00e3o geradas mais por desejos do que por evid\u00eancias hist\u00f3ricas. O colapso do governo Gorbachev n\u00e3o resolveu nenhum dos problemas em quest\u00e3o na URSS. A fantasiosa tese sem sentido do &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221; de Fukuyama n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descartar o neoliberalismo simplesmente pelo fato de que suas ideias e pol\u00edticas, promovidas com agressivo triunfalismo, n\u00e3o s\u00e3o apenas perigosamente irracionais (haja visto sua atitude sobre a guerra), mas s\u00e3o absurdas as suas defesas do devaneio do imperialismo liberal. Sob certas condi\u00e7\u00f5es, mesmo absurdos perigosos podem obter apoio massivo, como sabemos pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A verdadeira quest\u00e3o principal \u00e9 quais s\u00e3o as for\u00e7as subjacentes e determina\u00e7\u00f5es que conduzem o povo a becos sem sa\u00edda em diferentes dire\u00e7\u00f5es. A mudan\u00e7a de humor que colocou &#8220;O Capital&#8221;, de Marx, nas mesas de caf\u00e9 da moda (n\u00e3o para estudo, mas para mostrar tema de conversa) n\u00e3o significa que as ideias marxistas est\u00e3o agora avan\u00e7ando por todo o mundo. \u00c9 ineg\u00e1vel que o aprofundamento da crise que vivenciamos hoje est\u00e1 gerando protestos por todo o mundo.<\/p>\n<p>Mas encontrar solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis para as causas que tendem a surgir em todos os lugares requer a elabora\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias apropriadas e tamb\u00e9m correspondentes formas de organiza\u00e7\u00e3o que possam coincidir com a magnitude dos problemas em jogo.<\/p>\n<p><strong>E o que dizer sobre as ideias conservadoras? Elas est\u00e3o ganhando mais adeptos? <\/strong><\/p>\n<p>Em certo sentido, elas est\u00e3o inegavelmente ganhando mais adeptos, mesmo que n\u00e3o seja no terreno das ideias conservadoras sustent\u00e1veis. &#8220;N\u00e3o mudar&#8221; \u00e9 quase sempre muito mais f\u00e1cil do que &#8220;mudar&#8221; uma forma estabelecida de comportamento. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica real que induz as pessoas a irem numa dire\u00e7\u00e3o em vez de outra. Mas a quest\u00e3o permanece: o curso adotado \u00e9 sustent\u00e1vel? H\u00e1 uma conhecida lei da f\u00edsica, no terreno da eletricidade, que diz que a corrente el\u00e9trica segue a linha da menor resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 verdadeiro tamb\u00e9m sobre a situa\u00e7\u00e3o de muitos conflitos sociais que decidem, mesmo que temporariamente, em que dire\u00e7\u00e3o um problema deve ser equacionado naquele momento dependendo da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as (ou seja: a for\u00e7a de resist\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual) e da capacidade de realiza\u00e7\u00e3o de alternativas adequadas. A viabilidade de longo prazo de um curso adotado em rela\u00e7\u00e3o a outro n\u00e3o \u00e9 de forma alguma garantia de melhor sucesso. Muitas vezes o oposto \u00e9 o caso.<\/p>\n<p>Na nossa situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, as respostas vi\u00e1veis de longo prazo podem requerer incompar\u00e1veis maiores esfor\u00e7os do que tentar seguir o &#8220;curso que deu certo no passado&#8221;, em vez de encarar o desafio e o fardo de uma mudan\u00e7a estrutural radical. Mas os problemas s\u00e3o enormes, e a intera\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sociedade \u00e9 sempre incomparavelmente mais complexa do que a dire\u00e7\u00e3o da corrente el\u00e9trica. Por isso, \u00e9 muito duvidoso que o que &#8220;deu certo&#8221; na linha conservadora da menor resist\u00eancia possa funcionar no m\u00e9dio prazo, muito menos no longo prazo.<\/p>\n<p><strong>Qual seria uma boa defini\u00e7\u00e3o para o per\u00edodo hist\u00f3rico atual? <\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o mais importante em nosso per\u00edodo hist\u00f3rico em que crises se manifestam em diferentes planos da nossa vida social. Se estamos preocupados em enfrentar uma solu\u00e7\u00e3o historicamente sustent\u00e1vel para nossos graves problemas, entender a verdadeira natureza do debate das contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 essencial. Conflitos e antagonismos hist\u00f3ricos s\u00e3o pass\u00edveis somente a solu\u00e7\u00f5es do tempo hist\u00f3rico. \u00c9 muito confuso falar de capitalismo como um sistema mundial.<\/p>\n<p>O capitalismo abarca apenas um per\u00edodo do sistema do capital. S\u00f3 ultimamente \u00e9 que constitui um sistema mundial de fato, para al\u00e9m da sustentabilidade do pr\u00f3prio capitalismo. O capitalismo como um modo social de reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizado pela extra\u00e7\u00e3o predominantemente econ\u00f4mica da mais valia do trabalho. Entretanto, h\u00e1 tamb\u00e9m outras formas de obter a acumula\u00e7\u00e3o do capital, como a j\u00e1 conhecida extra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do trabalho excedente, como foi feito na URSS e em outros lugares no passado.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 importante notar que a diferen\u00e7a fundamental entre as tradicionais crises c\u00edclicas\/conjunturais do passado, pertencendo \u00e0 normalidade do capitalismo, e a crise estrutural do sistema do capital como um todo &#8211; que \u00e9 o que define o atual per\u00edodo hist\u00f3rico. Por isso tento sempre enfatizar que nossa crise estrutural (que pode ser datada do final dos anos 1960 e se aprofundando desde ent\u00e3o) necessita de mudan\u00e7as estruturais para uma solu\u00e7\u00e3o duradoura poss\u00edvel. E isso certamente n\u00e3o pode ser atingido com uma &#8220;linha de menor resist\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as figuras mais importantes deste s\u00e9culo 21 at\u00e9 agora? <\/strong><\/p>\n<p>Como sabemos, o s\u00e9culo 21 \u00e9 ainda muito jovem e muitas surpresas ainda est\u00e3o por vir. Mas a figura pol\u00edtica que teve o maior impacto na evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do s\u00e9culo 21 \u2013 um impacto que deve perdurar e ser estendido \u2013 foi o presidente da Venezuela Hugo Ch\u00e1vez Frias, que morreu em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>Claro, Fidel Castro tamb\u00e9m est\u00e1 muito ativo na primeira metade desta d\u00e9cada, mas as ra\u00edzes de seu grande impacto hist\u00f3rico est\u00e3o nos anos 1950. Do lado conservador, se ainda estivesse vivo, eu n\u00e3o hesitaria em nomear o general De Gaulle. Ningu\u00e9m se alinha \u00e0 sua estatura hist\u00f3rica no lado conservador at\u00e9 agora neste s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>E qual o evento mais surpreendente do s\u00e9culo 21? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 provavelmente a velocidade com que a China conseguiu se aproximar da economia norte-americana, alcan\u00e7ando agora o ponto em que ultrapassar os EUA como &#8220;motor do mundo&#8221; (como definem de forma complacente) \u00e9 considerado fact\u00edvel em apenas alguns anos. Era previs\u00edvel h\u00e1 muito tempo que isso iria acontecer tendo em vista o tamanho da popula\u00e7\u00e3o chinesa e a taxa de crescimento anual de sua economia. Mas muitos especialistas diziam que isso iria ocorrer daqui a muitas d\u00e9cadas no futuro.<\/p>\n<p>No entanto, seria muito ing\u00eanuo imaginar que a China pode permanecer imune \u00e0 crise estrutural do sistema do capital, simplesmente porque seu balan\u00e7o financeiro \u00e9 incomparavelmente mais saud\u00e1vel do que o norte-americano. Mesmo o super\u00e1vit de milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares dos chineses pode evaporar-se de um dia para outro no meio de uma turbul\u00eancia n\u00e3o muito distante no futuro. A crise estrutural, por sua pr\u00f3pria natureza, obrigatoriamente afeta a humanidade como um todo. Nenhum pa\u00eds pode invocar imunidade a isso, nem mesmo a China.<\/p>\n<p><strong>As crises fazem parte do capitalismo. Qual sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a que eclodiu h\u00e1 cinco anos. Quem ganhou e quem perdeu? <\/strong><\/p>\n<p>Parte do capitalismo? Sim e n\u00e3o! Sim, no sentido limitado de que a crise eclodiu com intensidade dram\u00e1tica nos pa\u00edses capitalistas mais poderosos do mundo, que se autodenominam &#8220;capitalistas avan\u00e7ados&#8221;. Mas muito do seu &#8220;avan\u00e7o&#8221; \u00e9 constru\u00eddo n\u00e3o apenas sobre privil\u00e9gios de explora\u00e7\u00e3o (no passado e no presente) das suas rela\u00e7\u00f5es de poder (pol\u00edticas e econ\u00f4micas) em rela\u00e7\u00e3o ao chamado &#8220;Terceiro Mundo&#8221;, mas tamb\u00e9m sobre o catastr\u00f3fico endividamento de sua realidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Escrevi em 1987, num artigo publicado no Brasil em 1987, que o &#8220;verdadeiro problema da d\u00edvida&#8221; n\u00e3o era \u2013 como foi apontado na \u00e9poca \u2013 a d\u00edvida da Am\u00e9rica Latina, mas a d\u00edvida insol\u00favel dos EUA, que est\u00e1 fadada a acabar com uma colossal quebra, equivalente \u00e0 magnitude de um terremoto econ\u00f4mico para o mundo todo. H\u00e1 dois anos, quando dei minha \u00faltima palestra no Brasil, apontei que a d\u00edvida dos EUA somava astron\u00f4micos 14,5 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares, antecipando seu inexor\u00e1vel aumento. Hoje nos movemos para os 17 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares, e mais e mais.<\/p>\n<p>Qualquer um que imagine que isso \u00e9 sustent\u00e1vel no futuro, ou que isso n\u00e3o vai afetar todo o mundo na Terra, quando o processo de crescimento inexor\u00e1vel do endividamento est\u00e1 fadado a levar a uma situa\u00e7\u00e3o paralisante, deve viver num planeta diferente.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo se fortaleceu ou se enfraqueceu com a crise? <\/strong><\/p>\n<p>As tradicionais crises c\u00edclicas\/conjunturais costumavam fortalecer o capitalismo no passado, j\u00e1 que eram eliminadas empresas capitalistas invi\u00e1veis. Assim, ocorria o que Schumpeter idealmente chamou de &#8220;destrui\u00e7\u00e3o criativa&#8221;. Os problemas s\u00e3o muito mais s\u00e9rios hoje, porque a crise estrutural afeta at\u00e9 dimens\u00e3o mais fundamental do controle social metab\u00f3lico da humanidade, incluindo a natureza de forma perigosa. Assim, falar de &#8220;destrui\u00e7\u00e3o criativa&#8221; nas condi\u00e7\u00f5es atuais \u00e9 totalmente autocomplacente. \u00c9 muito mais apropriado descrever o que est\u00e1 acontecendo como uma &#8220;produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;.<\/p>\n<p><strong>A crise provocou mudan\u00e7as pol\u00edticas em muitos pa\u00edses. \u00c9 poss\u00edvel discernir um movimento geral, mais para a esquerda, ou mais para a direita? <\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 agora, mais para a direita do que para a esquerda. Todos os governos dos pa\u00edses capitalisticamente avan\u00e7ados \u2013 e n\u00e3o apenas eles \u2013 adotaram pol\u00edticas que tentam resolver os problemas atrav\u00e9s da &#8220;austeridade&#8221;, com cortes reais em sal\u00e1rios, assim como nos padr\u00f5es de vida j\u00e1 prec\u00e1rios daqueles que s\u00e3o geralmente descritos como os &#8220;menos privilegiados&#8221;.<\/p>\n<p>E a linha de &#8220;menor resist\u00eancia&#8221; ajuda na extens\u00e3o, ou, ao menos, na toler\u00e2ncia das respostas institucionais conservadoras dominantes para a crise. Mas \u00e9 muito duvidoso que essas pol\u00edticas, que agora tendem a favorecer a direita, possam produzir solu\u00e7\u00f5es duradouras.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. previu, a pobreza aumentou nos \u00faltimos anos, mesmo em pa\u00edses do cora\u00e7\u00e3o do capitalismo. Nos EUA, a desigualdade aumentou. No Reino Unido, h\u00e1 um movimento para dar comida aos pobres, coisa que n\u00e3o ocorria desde a Segunda Guerra. O que est\u00e1 errado no capitalismo? \u00c9 poss\u00edvel que o sistema n\u00e3o possa mais gerar crescimento suficiente para a humanidade? <\/strong><\/p>\n<p>Dar cesta b\u00e1sica para os muito pobres n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico sinal vis\u00edvel desse aspecto da crise, nem essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 confinada os pa\u00edses capitalisticamente avan\u00e7ados, como o Reino Unido. Escrevi em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titles\/view\/108\" target=\"_blank\">&#8220;Para Al\u00e9m do Capital&#8221;<\/a> (publicado em ingl\u00eas em 1995) sobre a volta dos sop\u00f5es. Nos \u00faltimos dois ou tr\u00eas anos podemos v\u00ea-los nas telas das TVs em escala maior no mais &#8220;avan\u00e7ado&#8221; (e privilegiado) pa\u00eds: os EUA. Certamente h\u00e1 algo de profundamente errado \u2013 e totalmente insustent\u00e1vel \u2013 na maneira pela qual o crescimento \u00e9 perseguido sob o capitalismo.<\/p>\n<p>Algumas formas, pela sua natureza cancerosa de crescimento, s\u00e3o proibitivas mesmo em termos de condi\u00e7\u00f5es elementares de ecologia sustent\u00e1vel. Porque elas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es flagrantes de &#8220;produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;. Ao mesmo tempo, tanta coisa \u00e9 desperdi\u00e7ada como &#8220;lixo rent\u00e1vel&#8221;, enquanto incont\u00e1veis milh\u00f5es, agora mesmo nos mais avan\u00e7ados pa\u00edses capitalisticamente, precisam suportar dificuldades extremas. H\u00e1 alguns dias o ex-primeiro-ministro brit\u00e2nico John Major estava reclamando que neste Inverno muitas pessoas no Reino Unido ter\u00e3o que escolher entre comer e se aquecer. Em 1992, quando ainda era primeiro-ministro, ele disse com m\u00e1xima autocomplac\u00eancia: &#8220;O socialismo est\u00e1 morto; o capitalismo funciona&#8221;. Eu disse, ent\u00e3o: &#8220;Precisamos perguntar: o capitalismo funciona para quem e por quanto tempo?&#8221;.<\/p>\n<p>A escolha entre comer e se aquecer, que ele \u00e9 agora for\u00e7ado a reconhecer, n\u00e3o \u00e9 exatamente a prova de qu\u00e3o bem o &#8220;capitalismo funciona&#8221;. Na realidade, o \u00fanico crescimento com significado \u00e9 o que responde \u00e0 necessidade humana. Crescimento destrutivo, incluindo o vasto complexo industrial militar \u2013 chame-o de &#8220;destrui\u00e7\u00e3o criativa&#8221; \u2013 pode demonstrar apenas fracasso. O \u00fanico crescimento historicamente sustent\u00e1vel para o futuro \u00e9 aquele que fornece as mercadorias em resposta \u00e0 necessidade humana e os recursos para aqueles que delas necessitam.<\/p>\n<p><strong>A crise ampliou o desemprego em muitas regi\u00f5es e abalou o Estado de bem-estar social na Europa. Multid\u00f5es foram \u00e0s ruas protestar na Espanha, em Portugal, na Fran\u00e7a, na Inglaterra, na Gr\u00e9cia. Nos EUA, o Occupy Wall Street desapareceu. Qual deve ser o resultado desses movimentos? H\u00e1 conex\u00e3o entre eles? Os partidos de esquerda est\u00e3o se beneficiando dessas a\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Em contraste com a idealiza\u00e7\u00e3o propagand\u00edstica, o Estado do bem-estar social, na realidade, foi muito limitado a um punhado de pa\u00edses capitalistas. Mesmo l\u00e1 foi constru\u00eddo sobre funda\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis. N\u00e3o poderia ser nunca expandido ao restante do mundo, apesar da promo\u00e7\u00e3o acr\u00edtica das teorias do desenvolvimento da moderniza\u00e7\u00e3o, quase sempre estruturadas no quadro contradit\u00f3rio do sistema do capital. A verdadeira tend\u00eancia de longo prazo apontava no sentido oposto ao do idealizado Estado do bem-estar.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia objetivamente identific\u00e1vel foi caracterizada por mim j\u00e1 nos anos 1970 como a &#8220;equaliza\u00e7\u00e3o descendente da taxa de explora\u00e7\u00e3o diferencial&#8221;. Isso inclui as diferen\u00e7as marcantes nos n\u00edveis de ganhos por hora de trabalhadores para exatamente o mesmo trabalho na mesma corpora\u00e7\u00e3o transnacional (por exemplo, nas linhas de montagem da Ford) na &#8220;metr\u00f3pole&#8221; em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses &#8220;perif\u00e9ricos&#8221;.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia continua a se aprofundar e ainda est\u00e1 longe da sua necess\u00e1ria amplitude. Os protestos em muitos pa\u00edses capitalistas s\u00e3o compreens\u00edveis e devem se aprofundar no futuro. Eles surgem nesse arcabou\u00e7o dessa tend\u00eancia perversa de equaliza\u00e7\u00e3o de longo prazo. Compreensivelmente, os partidos que operam no enquadramento da pol\u00edtica parlamentar n\u00e3o podem se beneficiar dos protestos. Isso porque eles tendem a acomodar seus objetivos a limites restritos das consequ\u00eancias negativas decorrentes do Estado do bem-estar.<\/p>\n<p><strong>Luk\u00e1cs dizia que os sindicatos eram a organiza\u00e7\u00e3o social civil mais importante. Isso continua valendo? <\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o de Luk\u00e1cs sobre esse ponto era muito influenciada pelo seu camarada e amigo Jen\u00f6 Lander, que foi um l\u00edder sindical antes de se tornar lideran\u00e7a do mesmo grupo partid\u00e1rio no qual Luk\u00e1cs tamb\u00e9m desempenhou um papel de lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs est\u00e1 certo sobre a cont\u00ednua import\u00e2ncia dos sindicatos, com um acr\u00e9scimo importante. N\u00e3o foi ressaltado suficientemente que a potencialidade dos sindicatos foi \u2013 e continua sendo \u2013 afetada de forma muito ruim pela divis\u00e3o do movimento da classe trabalhadora organizada entre o chamado &#8220;bra\u00e7o industrial&#8221; (sindicatos) e o &#8220;bra\u00e7o pol\u00edtico&#8221; (partidos) do trabalho.<\/p>\n<p>A potencialidade positiva dos sindicatos n\u00e3o acontecer\u00e1 at\u00e9 que essa divis\u00e3o prejudicial, que produz danos para ambos, seja corrigida significativamente.<\/p>\n<p><strong>Qual sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a chamada Primavera \u00c1rabe? Ela acabou? H\u00e1 liga\u00e7\u00e3o entre os movimentos no mundo \u00e1rabe e os da Europa? Alguns enxergam uma nova disputa na regi\u00e3o. Isso faz sentido? <\/strong><\/p>\n<p>O impacto da Primavera \u00c1rabe tendeu a ser muito exagerado na \u00e9poca em que testemunhamos os primeiros dram\u00e1ticos acontecimentos. E, depois, sem raz\u00e3o, foram minimizados quando as manifesta\u00e7\u00f5es de massa no Norte da \u00c1frica arrefeceram.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, nenhum dos problemas fundamentais foi resolvido em nenhum pa\u00eds em quest\u00e3o. Assim, os protestos v\u00e3o continuar no futuro, focando tamb\u00e9m em algumas das graves contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (que resultaram em protestos por comida no passado, relutantemente reconhecidos at\u00e9 por proeminentes publica\u00e7\u00f5es do &#8220;establishment,&#8221; como a\u00a0<em>Economist, <\/em>de Londres), e n\u00e3o apenas na sua dimens\u00e3o militar e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os levantes v\u00e3o continuar, ganhando na m\u00eddia o nome da esta\u00e7\u00e3o ligado a eles. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser esquecido que alguns pa\u00edses europeus tiveram importantes interesses coloniais no Norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio. E h\u00e1 tentativas de reaviv\u00e1-los, o que \u00e9 bem vis\u00edvel hoje. Ningu\u00e9m deve imaginar que o imperialismo est\u00e1 confinado no passado.<\/p>\n<p><strong>O Brasil tamb\u00e9m est\u00e1 passando por uma fase de muitos protestos. Como o sr. avalia esse processo? H\u00e1 conex\u00e3o com o que ocorre no mundo? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel encontrar hoje um lugar no mundo onde n\u00e3o estejam ocorrendo s\u00e9rios protestos sociais. Eles parecem estar focados em diferentes temas, criando a impress\u00e3o superficial de n\u00e3o existe correla\u00e7\u00e3o entre eles. Mas isso \u00e9 tamb\u00e9m um auto-engano. Muitas vezes, no passado, muitos desses protestos costumavam ser desconsiderados, tidos como movimentos de um tema espec\u00edfico, sem implica\u00e7\u00f5es na estabilidade geral da ordem social estabelecida. Nada pode ser mais distante da verdade.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a grande variedade de protestos que testemunhamos hoje em diferentes partes do mundo n\u00e3o se enquadra nos canais e nos modos de a\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica tradicional. Mas seria tolice ter isso como prova de sua irrelev\u00e2ncia. Ao contr\u00e1rio, eles apontam para raz\u00f5es muito mais profundas para os problemas e as contradi\u00e7\u00f5es que se acumularam.<\/p>\n<p>No momento, n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel nenhuma estrat\u00e9gia de coalesc\u00eancia. Sua caracter\u00edstica geral parece ser a de que est\u00e3o testando os limites e procurando maneiras mais efetivas de articula\u00e7\u00e3o de suas preocupa\u00e7\u00f5es. Estamos testemunhando um processo que ainda est\u00e1 em desdobramento e cujo significado deve ter grandes consequ\u00eancias no futuro.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem enxergue a a\u00e7\u00e3o dos EUA nas manifesta\u00e7\u00f5es pelo mundo, com o objetivo de desestabilizar governos. Isso faz algum sentido? <\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma enorme e excessiva simplifica\u00e7\u00e3o. Os EUA indubitavelmente est\u00e3o na linha de frente de conflitos e conflagra\u00e7\u00f5es internacionais, por conta do seu impressionante poder dominante no hegem\u00f4nico imperialismo global. Mas as causas s\u00e3o muito mais profundas do que o que possa ser resolvido por &#8220;desestabiliza\u00e7\u00e3o de governos&#8221;.<\/p>\n<p>Em alguns casos limitados isso pode acontecer, e, de fato, pode ser buscado com \u00eaxito pelas for\u00e7as mais extremistas de organismos da administra\u00e7\u00e3o norte-americana. Mas, h\u00e1 limite para tudo, at\u00e9 para o neoliberal mais radical e para o aventureirismo neoconservador.<\/p>\n<p><strong>Como a internet muda a luta pol\u00edtica hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Certamente a internet ajuda na comunica\u00e7\u00e3o e na coes\u00e3o dos movimentos de protesto, como ficou evidenciado recentemente. Mas n\u00e3o deve ser esquecido que ela tamb\u00e9m d\u00e1 os recursos para as for\u00e7as do outro lado do confronto \u2013 dando assist\u00eancia direta a v\u00e1rios Estados capitalistas.<\/p>\n<p>De qualquer forma, para os dois lados a internet pode apenas fornecer ajuda subsidi\u00e1ria, n\u00e3o importando qu\u00e3o forte ela seja. Os problemas s\u00f3 podem ser resolvidos no pr\u00f3prio terreno em que surgiram. E isso diz respeito \u00e0s determina\u00e7\u00f5es estruturais fundamentais de nossa ordem social.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. analisa a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo e democracia? S\u00e3o compat\u00edveis? <\/strong><\/p>\n<p>Capitalismo e democracia n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis, salvo em situa\u00e7\u00f5es de crises extremas que trazem \u00e0 tona os Hitlers e os Pinochets onde quer que tais crises eclodam \u2013 mesmo no Brasil no passado recente. A normalidade da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 sustentada de forma melhor na ordem das regras formais democr\u00e1ticas de controle e regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que regimes ditatoriais s\u00e3o insustent\u00e1veis no longo prazo e tendem a ser revertidos (mesmo a &#8220;miltonfreedmeniza\u00e7\u00e3o&#8221; do Chile de Pinochet) para modos pol\u00edticos mais male\u00e1veis de regula\u00e7\u00e3o formal democr\u00e1tica, dentro da moldura geral das trocas capitalistas.<\/p>\n<p><strong>Nos EUA, a direita radical colocou o pa\u00eds \u00e0 beira do abismo por conta de uma t\u00edmida reforma no sistema de sa\u00fade. Isso trouxe riscos para os grandes neg\u00f3cios e as finan\u00e7as. Como o sr. explica isso? <\/strong><\/p>\n<p>O sistema de sa\u00fade nos EUA \u00e9 apenas uma parte da crise que testemunhamos. Fundamentalmente \u00e9 insepar\u00e1vel da d\u00edvida astron\u00f4mica de 17 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares que j\u00e1 mencionei. Por enquanto, foi feita uma acomoda\u00e7\u00e3o parcial entre democratas e republicanos, de forma que a nova data para o problema trilion\u00e1rio irresolvido ficou para o final de 2013, mas n\u00e3o deve trazer novamente um suspense internacional.<\/p>\n<p>Mas podemos estar certos de que essa quest\u00e3o voltar\u00e1 com crescente severidade. 17 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares significa tanto que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar um tapete de tamanho suficiente sob o qual se possa varrer e esconder essa quantia. Como costumeiramente \u00e9 feito como forma de adiar a solu\u00e7\u00e3o de problemas.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel dizer que o partido democrata foi mais para a direita e falhou em isolar a direita radical do partido republicano? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil dizer qual dos dois partidos \u00e9 mais \u00e0 direita do que o outro. Mas ambos est\u00e3o igualmente errados ao estarem t\u00e3o \u00e0 direita para serem capazes de enfrentar os graves problemas da sociedade norte-americana.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. analisa a administra\u00e7\u00e3o Obama e o estado da democracia nos EUA? <\/strong><\/p>\n<p>Obama prometeu muita coisa que nunca se materializou sob sua Presid\u00eancia. Basta pensar em Guant\u00e1namo. Mas isso n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de um presidente em particular. Estruturas de poder n\u00e3o podem ser entendidas em termos personalizados.<\/p>\n<p>Devemos lembrar a entrevista \u00e0 televis\u00e3o que o presidente democrata Jimmy Carter deu. Ele chorou, com l\u00e1grimas nos olhos, ao dizer que &#8220;o presidente n\u00e3o tem poder&#8221;. De fato, ele conseguiu fazer mais desde que deixou a Presid\u00eancia do que pode quando estava no comando. At\u00e9 agora n\u00e3o vimos o presidente Obama chorar na televis\u00e3o. Mas &#8220;h\u00e1 uma primeira vez para tudo&#8221;, diz o ditado.<\/p>\n<p><strong>Os EUA espionam o mundo inteiro. Recentemente foi revelado um esquema de espionagem norte-americana no Brasil envolvendo interesses em petr\u00f3leo e minera\u00e7\u00e3o. O que o Brasil deveria fazer para defender sua soberania? <\/strong><\/p>\n<p>Esse tema beira a insanidade. Espionam todos como potenciais inimigos, mesmo chefes de Estado de governos amigos. H\u00e1 quem possa rir e achar que o problema n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio. Mas precisamos lembrar que a defesa da soberania n\u00e3o pode estar confinada no dom\u00ednio das leis e da pol\u00edtica internacionais.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 pateticamente fraca a esse respeito, sem mencionar as institui\u00e7\u00f5es que tratam globalmente disso. Vale lembrar o t\u00edtulo de um livro de um proeminente advogado liberal, Philippe Sands. \u00c9 &#8220;Lawless World: America and the Making and Breaking of Global Rules&#8221;.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es s\u00e3o decididas pelas rela\u00e7\u00f5es reais de poder. E, \u00e9 claro, as for\u00e7as preponderantes do capital global ficam com a parte do le\u00e3o nesse processo de tomada de decis\u00e3o. A soberania n\u00e3o pode ser protegida sem se atentar para esse lado cr\u00edtico do problema, insepar\u00e1vel do poder preponderante das corpora\u00e7\u00f5es gigantes do capital transnacional.<\/p>\n<p><strong>O poder dos EUA est\u00e1 em ascens\u00e3o ou em queda? <\/strong><\/p>\n<p>Seria mais apropriado dizer que ele est\u00e1 estacionado, mas ainda \u00e9 o mais dominante. As condi\u00e7\u00f5es que explicam essa domin\u00e2ncia est\u00e3o presentes e s\u00e3o bem vis\u00edveis: v\u00e3o do complexo industrial-militar, ao Banco Mundial, ao fato de o d\u00f3lar ser a moeda de troca mundial. Nenhum outro pa\u00eds poderia sonhar em impor ao mundo uma d\u00edvida de 17 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas uma domin\u00e2ncia que repousa sobre esse tipo de funda\u00e7\u00f5es s\u00f3 pode ser inst\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o da China? L\u00e1 a pobreza diminuiu. H\u00e1 socialismo? <\/strong><\/p>\n<p>As realiza\u00e7\u00f5es da China no campo da produ\u00e7\u00e3o incluindo o decl\u00ednio da pobreza que voc\u00ea menciona t\u00eam sido monumentais. Mas h\u00e1 v\u00e1rias grandes perguntas para o futuro. Acima de tudo: por quanto tempo poder\u00e3o ser mantidas as realiza\u00e7\u00f5es na \u00e1rea produtiva sem que elas causem danos irrepar\u00e1veis nos recursos gigantescos no dom\u00ednio da ecologia?<\/p>\n<p>Mais ainda: por quanto tempo poder\u00e3o ser aceitas as impressionantes desigualdades entre os n\u00edveis m\u00ednimos de ganhos da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora e a riqueza dos altamente privilegiados? O socialismo \u00e9 inconceb\u00edvel sem uma substantiva igualdade \u2013 tamb\u00e9m na China.<\/p>\n<p><strong>No passado, as disputas no interior do capitalismo provocaram guerras mundiais. Essa hip\u00f3tese est\u00e1 no horizonte? <\/strong><\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o pela Guerra foi usada no passado como parte da tentativa de resolver problemas entre partes em conflito sob as regras do capital. Foram duas guerras mundiais no s\u00e9culo 20. Com as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, ficou imposs\u00edvel prever a compatibilidade dessa solu\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es elementares da racionalidade. Mas h\u00e1 representantes da direita radical que n\u00e3o hesitariam em jogar com fogo e at\u00e9 abertamente advogam a plena legitimidade de jogar com fogo.<\/p>\n<p>Muitos deles est\u00e3o presentes em elevados postos da hierarquia pol\u00edtica. Assim, o presidente [Bill] Clinton, por exemplo, declarou que &#8220;h\u00e1 apenas uma na\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, os EUA&#8221;. Na mesma \u00e9poca, Robert Cooper (guru do primeiro-ministro brit\u00e2nico Tony Blair e conselheiro internacional de Xavier Solana) cantava louvores para o agressivo imperialismo liberal em seus escritos.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Richard Haass, diretor de planejamento pol\u00edtico no departamento de Estado na gest\u00e3o George W.Bush, insiste na necessidade de uma estrat\u00e9gia imperialista mais agressiva, escrevendo que a defensiva, n\u00e3o o imperialismo agressivo, \u00e9 o maior perigo do interesse em reafirmar a hegemonia global dos EUA. Esta precisa ser defendida por quaisquer meios, mesmo com a guerra expl\u00edcita.<\/p>\n<p>A racionalidade \u00e9, obviamente, a grande dificuldade para implantar essas estrat\u00e9gias. Mas ningu\u00e9m pode dizer que a possibilidade de at\u00e9 mesmo uma conflagra\u00e7\u00e3o mundial possa agora ser exclu\u00edda do horizonte hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel dizer que a influ\u00eancia dos EUA na Am\u00e9rica Latina declinou na \u00faltima d\u00e9cada? <\/strong><\/p>\n<p>Sim. Falarei dos pa\u00edses relevantes nesse aspecto em seguida. E outros poder\u00e3o se agregar a eles no futuro.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. analisa as experi\u00eancias de pa\u00edses como Venezuela (que fala em socialismo do s\u00e9culo 21), Bol\u00edvia, Equador, Uruguai, Argentina? <\/strong><\/p>\n<p>Eles trilham por uma estrada muito dif\u00edcil, na qual, indubitavelmente, muitos obst\u00e1culos ser\u00e3o erguidos no futuro pelo poder imperial dominante. Os EUA declararam abertamente que a Am\u00e9rica Latina era o seu quintal, reivindicando legitimidade para a sua domina\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como o sr. avalia os dez anos de PT no governo do Brasil? <\/strong><\/p>\n<p>Visitei o escrit\u00f3rio do futuro presidente Lula em 1983. Tirei ent\u00e3o uma foto do escrit\u00f3rio onde se podia ler uma palavra iluminada: &#8220;Tiradentes&#8221;. Eu fiquei pensando e continuo pensando hoje quanto tempo mais levar\u00e1 para que seja poss\u00edvel dizer que o escrit\u00f3rio nacional de &#8220;Tiradentes&#8221; teve \u00eaxito em extrair os dentes infeccionados que causam tanta dor, mesmo num pa\u00eds com tantos recursos, em todos os sentidos, como o Brasil.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre a relev\u00e2ncia das ideias socialistas hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Mencionei anteriormente que nossos problemas s\u00f3 podem encontrar solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis na sua \u00e9poca. Outras formas de enfrent\u00e1-los podem ser revertidas, como ocorreu no passado.<\/p>\n<p>As ideias socialistas t\u00eam sido definidas desde o in\u00edcio como as que requerem uma \u00e9poca hist\u00f3rica para a sua concretiza\u00e7\u00e3o, embora os problemas imediatos de onde elas devem partir sejam muito dolorosos.<\/p>\n<p>Em outras palavras, elas requerem n\u00e3o apenas os servi\u00e7os urgentes de &#8220;Tiradentes&#8221;, mas tamb\u00e9m preven\u00e7\u00e3o para as doloridas infec\u00e7\u00f5es no longo prazo. As ideias socialistas s\u00e3o, portanto, mais relevantes hoje do que jamais foram.<\/p>\n<p><strong>Que pa\u00edses ou partidos representam o socialismo hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Apenas alguns partidos muito pequenos proclamam sua fidelidade \u00e0s ideias socialistas. E n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds que possa chamar a si mesmo como socialista.<\/p>\n<p><strong>No passado o sr. usou a express\u00e3o socialismo Mickey mouse para tratar de partidos que apenas brincavam com as ideias socialistas. Isso continua a ocorrer? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o exatamente. O socialismo Mickey Mouse ficou mais fraco. O Partido Comunista Italiano que foi o partido de [Antonio] Gramsci e da Terceira Internacional primeiro se autoconverteu no que se chamam de democratas da esquerda.<\/p>\n<p>Depois achou at\u00e9 a palavra esquerda muito comprometedora. Ent\u00e3o se rebatizaram de partido dos democratas. N\u00e3o h\u00e1 mais Mickey Mouse. \u00c9 mais como um Popeye que perdeu o seu espinafre.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o suas expectativas sobre o socialismo ou o comunismo no futuro? \u00c9 um objetivo inating\u00edvel? E sobre o risco de barb\u00e1rie? Existe? <\/strong><\/p>\n<p>Escrevi num livro tamb\u00e9m publicado no Brasil [\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titles\/view\/137\" target=\"_blank\">O s\u00e9culo XXI: Socialismo ou barb\u00e1rie<\/a> ] que se tivesse que modificar as famosas palavras de Rosa Luxemburgo \u2013 &#8220;socialismo ou barb\u00e1rie&#8221; \u2013 acrescentaria: &#8220;Barb\u00e1rie se tivermos sorte&#8221;. Porque a extermina\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 a amea\u00e7a que se desenrola. Enquanto falharmos em resolver nossos grandes problemas que se espalham por todas as dimens\u00f5es da nossa exist\u00eancia e nas rela\u00e7\u00f5es com a natureza, o perigo vai permanecer no nosso horizonte.<\/p>\n<p><strong>Onde deve estar um militante marxista hoje? <\/strong><\/p>\n<p>Contribuindo em tudo que ele ou ela possam fazer para buscar solu\u00e7\u00e3o duradoura para esses grandes problemas.<\/p>\n<p><strong>Qual o seu plano para o futuro? <\/strong><\/p>\n<p>Continuar trabalhando em projetos de longo prazo que dizem respeito a todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>17\/Novembro\/2013<\/p>\n<p><strong>[*] Rep\u00f3rter especial da\u00a0<em>Folha de S. Paulo. <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2013\/11\/18\/barbarism-on-the-horizon-an-interview-with-istvan-meszaros\/\" target=\"_blank\">blogdaboitempo.com.br\/&#8230;<\/a> e a tradu\u00e7\u00e3o em\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2013\/11\/1372042-chavez-e-china-sao-os-destaques-do-seculo-21-diz-o-filosofo-meszaros.shtml\" target=\"_blank\">www1.folha.uol.com.br\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta entrevista encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5794\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5794","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}