{"id":5798,"date":"2014-01-09T21:12:58","date_gmt":"2014-01-09T21:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5798"},"modified":"2015-06-09T00:07:53","modified_gmt":"2015-06-09T03:07:53","slug":"em-camara-lenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5798","title":{"rendered":"Em c\u00e2mara lenta"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" \/>Quando a esquerda brasileira egressa da APML, do PCdoB, do PCR, do PCBR, da ALN, do MOLIPO, da Ala Vermelha, do MR-8, da VAR-Palmares, da POLOP e do POC e daquela infind\u00e1vel constela\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es que foram ao desfor\u00e7o com a ditadura, quando a autodenominada <em>esquerda revolucion\u00e1ria<\/em> vai reconhecer que fomos derrotados e que jamais, a tal da <em>redemocratiza\u00e7\u00e3o <\/em>fez parte de nossos planos?<!--more--><\/p>\n<p>Eram poucos, quase inexistentes, os que de n\u00f3s defendiam a substitui\u00e7\u00e3o da ditadura por algum grau de democracia, onde os revolucion\u00e1rios comunistas pudessem atuar com mais liberdade mas sem deixar de combater o capitalismo e de lutar pelo socialismo. O chamado Partid\u00e3o talvez tenha sido o melhor exemplo dessa t\u00e1tica.<\/p>\n<p>Lembram-se como chicote\u00e1vamos o PCB por causa disso: Reformistas! Revisionistas! Legalistas! Uma das cenas mais constrangedoras dessa \u00e9poca deu-se na Maria Ant\u00f4nia, no Gr\u00eamio da Filo-USP, em um debate com Caio Prado Jr., em 1968. Ele aceitara convite para debater o seu livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira\u201d mas, apedrejado com palavras, zombaria e vaias o velho comunista mal conseguiu articular a defesa de uma, digamos, t\u00e1tica mais \u201cflex\u00edvel\u201d de combate \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Outro exemplo: na APML, Paulo Wrigth, ex-deputado, cassado em 1964, era um dos poucos, caso n\u00e3o o \u00fanico dirigente, a ter uma posi\u00e7\u00e3o menos dogm\u00e1tica sobre a participa\u00e7\u00e3o na chamada <em>frente legal<\/em>. No entanto, Paulo era extremamente cuidadoso ao expor essa posi\u00e7\u00e3o, para evitar cr\u00edticas como as listadas contra o <em>Partid\u00e3o.<\/em> vvvv A verdade, inescap\u00e1vel e l\u00edmpida verdade, \u00e9 que a nossa convers\u00e3o \u00e0 <em>democracia<\/em> veio bem depois.<\/p>\n<p>Veio quando fomos, todos, derrotados, quais fossem as t\u00e1ticas de luta em que nos divid\u00edamos, quais fossem a nossa <em>linha. <\/em>Foram derrotados os <em>foquistas<\/em> e sua pretens\u00e3o de transplantar para a realidade brasileira o sucesso de Cuba e as teses de Regis Debrey; foram derrotados os <em>militaristas<\/em> e sua cren\u00e7a na possibilidade de se reproduzir aqui, caso n\u00e3o um 1917 pelo menos um 1935 mais bem articulado; foram derrotados os pregoeiros da <em>guerra popular prolongada<\/em> que fantasiaram o Brasil de China e o Norte brasileiro de Hunan e Jiangxi; foram derrotados tamb\u00e9m os que acordaram a tempo dessas fantasias, que se apartaram desses \u201ckits de montar\u201d importados de outras realidades, mas que n\u00e3o tiveram tempo e for\u00e7as para transformar a autocr\u00edtica em pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Fomos todos derrotados.<\/p>\n<p>Derrotados, destro\u00e7ados, estra\u00e7alhados. De nossas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o restou praticamente nada. Quem se reorganizou o fez de ajuntar cacos, peda\u00e7os. Outros, <em>cansados da revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, converteram-se em ardorosos <em>democratas<\/em> e apresaram-se em conhecer as del\u00edcias da legalidade e dos estofos parlamentares, presidenciais ou ministeriais. Mas, nem estes e nem aqueles submeteram a milit\u00e2ncia anterior a uma sincera e criteriosa avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pousaram todos (e todas, n\u00e3o devo esquecer) de homens e mulheres inflex\u00edveis, que nunca pecaram, que nunca erraram. Homens e mulheres do <em>Poema Em Linha Reta<\/em> de Fernando Pessoa. Sim, \u00e9 claro, saudemos, louvemos, respeitemos os que resistiram, especialmente os que foram presos, torturados, assassinados.<\/p>\n<p>Exaltemos e glorifiquemos a generosidade e a coragem de quem se atirou \u00e0 luta pouco se importando com as consequ\u00eancias da decis\u00e3o. Porque um valor mais alto se alevantava.<\/p>\n<p>Mas, como n\u00e3o se tratava de uma aventura, de uma gincana ou de uma festa n\u00e3o podemos virar as costas e seguir em frente carregando apenas as medalhas do hero\u00edsmo, as cita\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias elogiosas, negligenciando ou mesmo recusando um balan\u00e7o dos caminhos que percorremos; ou ent\u00e3o, fazendo-o, mas de forma complacente e autocomplacente.<\/p>\n<p>S\u00e3o poucas (uma ou duas?) as rememora\u00e7\u00f5es que buscam uma reflex\u00e3o sincera, honesta, militante. Cite-se uma, <em>Em C\u00e2mara Lenta,<\/em> de Renato Tapaj\u00f3s. Mesmo que se discorde da escolha final dos personagens, que tendem a outro descaminho, o escritor e cineasta n\u00e3o negaceou com a verdade dos fatos e muito menos agitou a bandeira branca, capitulando, como fizeram (e fazem) quase todos os memorialistas daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fala aqui dos que apostataram, dos que se arrependeram e passaram a menoscabar, ridicularizar ou mesmo denegrir toda a milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Hoje, no Parlamento e no Executivo, h\u00e1 razo\u00e1vel quantidade de \u201ccompanheiros de armas\u201d. O que eles pensam, como avaliam a milit\u00e2ncia? Por que n\u00e3o s\u00e3o mais militantes de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, onde a cr\u00edtica e a autocr\u00edtica estava incorporada \u00e0 vida, est\u00e3o isentos da pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>A resposta parece clara. Basta ver como e para quem governam. Essa a trag\u00e9dia da esquerda brasileira. Erra uma, duas, tr\u00eas vezes, persiste errando mas n\u00e3o d\u00e1 o bra\u00e7o a torcer. Impostura, jact\u00e2ncia, irresponsabilidade. Mas segue em linha reta para o abismo, lentamente, em c\u00e2mara lenta.<\/p>\n<p>*Jos\u00e9 Benedito Pires Trindade \u00e9 jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJos\u00e9 Benedito Pires Trindade*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5798\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-5798","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5798"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5798\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}