{"id":5808,"date":"2014-01-12T18:33:43","date_gmt":"2014-01-12T18:33:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5808"},"modified":"2014-01-12T18:33:43","modified_gmt":"2014-01-12T18:33:43","slug":"rolling-heads","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5808","title":{"rendered":"Rolling Heads"},"content":{"rendered":"\n<p>O que os olhos n\u00e3o veem, o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente. Um cataclisma na Indon\u00e9sia comove menos do que um vizinho que machuca o dedo. N\u00e3o fosse isso, ficar\u00edamos alarmados a cada dois dias, quando, longe das nossas vistas e das c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas, um prisioneiro das masmorras medievais brasileiras, vulgo sistema prisional, \u00e9 assassinado por seus pares. Em 2013, foram 218 homic\u00eddios. N\u00famero subdimensionado, pois n\u00e3o inclui as mortes violentas em carceragens de delegacias. Pessoas sob cust\u00f3dia do Estado, empilhadas e vivendo em condi\u00e7\u00f5es degradantes, viram animais. Alguma surpresa ? Nenhuma. O surpreendente \u00e9 que n\u00e3o haja rebeli\u00f5es di\u00e1rias. O sangue est\u00e1 no ar.<\/p>\n<p>O que acontece no complexo de Pedrinhas, no Maranh\u00e3o, \u00e9 um microcosmo da realidade penitenci\u00e1ria, radicalizada por sucessivos governos omissos. A barb\u00e1rie no burgo dos Sarney tem v\u00e1rias formas de express\u00e3o. A que emergiu com a decapita\u00e7\u00e3o de presos \u00e9 uma delas. Tomamos conhecimento de que o complexo de Pedrinhas responde por quase um ter\u00e7o de todos os homic\u00eddios cometidos em cadeias no pa\u00eds. \u201cAqui \u00e9 um caldeir\u00e3o do inferno\u201d, disse um interno. Num espa\u00e7o onde caberiam quatro detentos, acotovelam-se promiscuamente treze. Na terra de dona Roseana, a chance de ser morto num pres\u00eddio \u00e9 quase 60 vezes maior do que do lado de fora.<\/p>\n<p>Outra express\u00e3o \u00e9 a verbal. A governadora, num cinismo que beira o deboche, garante que seu governo n\u00e3o cometeu qualquer ato contra os direitos humanos. Completa afirmando que a piora da seguran\u00e7a se deve &#8230; ao aumento da riqueza do estado ! Quer dizer que o Maranh\u00e3o est\u00e1 se aproximando da Dinamarca e n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos ? Madame coronel perdeu, definitivamente, a compostura. As estat\u00edsticas n\u00e3o perdoam. O \u00cdndice de Desenvolvimento Humano do Maranh\u00e3o est\u00e1 me pen\u00faltimo lugar no Brasil. A mortalidade infantil l\u00e1 \u00e9 quase o dobro da m\u00e9dia nacional. Das 100 cidades com melhor IDH no Brasil, nenhuma \u00e9 maranhense. Mais de 20% dos maranhenses vivem em extrema pobreza. Como \u00e9 praxe nas elites caboclas, o discurso Poliana vem regado a luxo e ostenta\u00e7\u00e3o. A soberana faz quest\u00e3o de manter na despensa bacalhau de primeira, camar\u00f5es variados (o gosto da doutora \u00e9 refinado), lagosta, patinhas de caranguejo, salm\u00e3o e oito sabores de sorvete. Tudo pago pelos cidad\u00e3os, que recebem, em contrapartida, servi\u00e7os b\u00e1sicos calamitosos. Socorrei-os, s\u00e3o Virgulino !<\/p>\n<p>Revolta o sil\u00eancio obsequioso do governo federal. \u00c9 bom lembrar que, num surto de franqueza, o ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, disse, em 2012, que &#8220;entre passar anos num pres\u00eddio brasileiro e perder a vida, eu talvez preferisse perder a vida&#8221;. A calamidade, portanto, \u00e9 bastante antiga e conhecida. Por que, dada a como\u00e7\u00e3o nacional, a presidente n\u00e3o convoca uma cadeia nacional de televis\u00e3o para demonstrar solidariedade aos parentes das v\u00edtimas, reconhecer a gravidade da situa\u00e7\u00e3o e anunciar medidas concretas ? Por que sempre se adia uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre a realidade penitenci\u00e1ria no Brasil ? Por que s\u00f3 ouvimos governantes irem \u00e0 TV para falar abobrinhas, vomitar obviedades e repetir autoglorifica\u00e7\u00f5es ? Ser\u00e1 que o c\u00e1lculo pol\u00edtico-eleitoral prevalecer\u00e1 sempre sobre os imperativos \u00e9ticos ?<\/p>\n<p>Abra\u00e7o<\/p>\n<p>Jacques<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJacques Gruman\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5808\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-5808","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5808\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}