{"id":5821,"date":"2014-01-16T20:03:55","date_gmt":"2014-01-16T23:03:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5821"},"modified":"2017-11-09T13:05:39","modified_gmt":"2017-11-09T16:05:39","slug":"rosa-luxemburgo-a-flor-mais-vermelha-do-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5821","title":{"rendered":"Rosa Luxemburgo, a flor mais vermelha do socialismo"},"content":{"rendered":"\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 magnifica&#8230; Tudo o mais \u00e9 um disparate.<\/p>\n<p>Carta de Rosa Luxemburgo a Emmanuel e Matilde Wurm (18\/Julho1906)<\/p>\n<p>O socialismo n\u00e3o \u00e9, propriamente, um problema de comer com faca e garfo, mas um movimento de cultura, uma grande e poderosa concep\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Carta de Rosa Luxemburgo a Franz Mehring (Fevereiro\/1916)<\/p>\n<p>Porque, precisamente hoje, nos reencontramos com ela?<\/p>\n<p>Vivemos tempo de crises, rupturas, rompimentos e realinhamentos. O que parecia est\u00e1vel e eterno, treme, fende-se, degrada-se, so\u00e7obra. O Estado de bem estar, os direitos sociais, as institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas do p\u00f3sguerra, o sistema pol\u00edtico-partid\u00e1rio tradicional, os &#8220;pactos sociais&#8221; entre as burocracias sindicais e o patronato. Tudo se p\u00f5e em quest\u00e3o. Ningu\u00e9m fica \u00e0 margem. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o isolamento. O mundo capitalista unifica-se explosivamente. Cresce em extens\u00e3o e profundidade.<\/p>\n<p>Desde o seu aparecimento, o capitalismo passou por muitas crises. At\u00e9 agora sempre as resolveu da \u00fanica maneira poss\u00edvel, a \u00fanica que conhece: genoc\u00eddio, barb\u00e1rie, guerras, matan\u00e7as, explora\u00e7\u00e3o e saques. Os custos das recomposi\u00e7\u00f5es capitalistas pagaram-nos invariavelmente os trabalhadores, as classes subalternas, os povos submetidos e todos os oprimidos da hist\u00f3ria. A violenta recomposi\u00e7\u00e3o que na Europa e nos EUA se seguiu \u00e0s rebeli\u00f5es dos anos 60 e \u00e0 crise dos anos 70 na Am\u00e9rica Latina veio pela m\u00e3o das piores ditaduras militares da hist\u00f3ria, que esmagaram a insurrei\u00e7\u00e3o armada com mais de 100.mil desaparecidos, centenas de milhares de prisioneiros torturados e v\u00e1rios milh\u00f5es de exilados, n\u00e3o \u00e9 a excep\u00e7\u00e3o. Constitui t\u00e3o s\u00f3 um pequeno elo da corrente ferrugenta com que o capital nos vem oprimindo desde h\u00e1 demasiado tempo. A mundializa\u00e7\u00e3o capitalista, como processo hist\u00f3rico e social, e o neoliberalismo, como sua legitima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, s\u00e3o produtos desse avan\u00e7o sangrento do capital sobre os trabalhadores e da sua inten\u00e7\u00e3o de disciplinar e submeter todos os sujeitos potencialmente contestat\u00e1rios \u00e0 escala global. O aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o, a marginaliza\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o&#8221; acidentes&#8221;, &#8220;erros&#8221; ou excessos, mas a alma viva deste sistema de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria esquerda, nas suas diferentes vertentes, n\u00e3o ficou imune a essas violentas transforma\u00e7\u00f5es sociais ocorridas durante o \u00faltimo quarto de s\u00e9culo. A queda do muro de Berlim e o derrube ideol\u00f3gico que o acompanhou foram apenas a ponta do iceberg de uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as muito mais profundas.<\/p>\n<p>A crise terminal do estalinismo, outrora reinante nos pa\u00edses de Leste, n\u00e3o veio s\u00f3. A social-democracia dos principais pa\u00edses capitalistas ocidentais navegou durante os \u00faltimos anos entre a corrup\u00e7\u00e3o descarada e a adapta\u00e7\u00e3o ao discurso e \u00e0 pr\u00e1tica neoliberal. Enquanto na maioria dos pa\u00edses do terceiro mundo os projectos nacional-populistas terminavam, fagocitados pelas reformas neoliberais, os ajustes permanentes, a reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa e a agressividade militarista do imperialismo.<\/p>\n<p>Este panorama sombrio, marcado pela contra-revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, pol\u00edtica, cultural e militar que nublou o final do s\u00e9culo XX, come\u00e7ou a dissipar-se. N\u00e3o por artes m\u00e1gicas nem por &#8220;mandato inelut\u00e1vel da hist\u00f3ria&#8221;, mas pelas lutas sociais, as rebeli\u00f5es populares e as mobiliza\u00e7\u00f5es maci\u00e7as. Hoje respira-se outro ar. Voltam a discutir-se os grandes problemas sobre as alternativas ao capitalismo, que havam ficado fora da agenda da esquerda durante demasiados anos. Na Venezuela e em Cuba colocadas cara a cara com o imperialismo norte-americano; nas rebeli\u00f5es populares que derrubaram os governos t\u00edteres no Equador e na Bol\u00edvia; no Brasil, Argentina e Uruguai perante as frustra\u00e7\u00f5es crescentes pelas promessas incumpridas dos governos &#8220;progressistas&#8221;; mas tamb\u00e9m no movimento altermundista das grandes capitais europeias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso, ent\u00e3o, que nesse horizonte de rebeldia e esperan\u00e7a reapare\u00e7a o interesse por Rosa Luxemburgo [1871-1919] em todos aqueles e aquelas que se sentem parte do leque da esquerda radical, anti-capitalista e anti-imperialista.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 ningu\u00e9m se recorda dos velhos pusil\u00e2nimes da social-democracia e dos c\u00ednicos jerarcas do estalinismo, nem dos grandes ret\u00f3ricos ardilosos do nacional-populismo, o pensamento de Rosa Luxemburgo continua a provocar pol\u00e9micas te\u00f3ricas e a apaixonar as novas gera\u00e7\u00f5es de militantes. O seu esp\u00edrito insubmisso e rebelde assoma \u00e0 cabe\u00e7a \u2013 coberta por um elegante chap\u00e9u, naturalmente \u2013 em cada manifesta\u00e7\u00e3o juvenil contra a mundializa\u00e7\u00e3o dos mercados, as guerras imperialistas e a domina\u00e7\u00e3o capitalista das grandes firmas transnacionais sobre todo o planeta.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m que tenha sangue nas veias e um m\u00ednimo de independ\u00eancia de crit\u00e9rio perante os discursos do poder pode ficar indiferente perante ela. Amada e admirada pelas e pelos jovens mais radicais e combativos em todos os lugares do mundo, Rosa continua a ser, no s\u00e9culo XXI, sin\u00f3nimo de rebeli\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o, esses fantasmas atrevidos que &#8220;a nova ordem mundial&#8221; n\u00e3o p\u00f4de domesticar. Nem com tanques e invas\u00f5es militares, nem com a ditadura da TV. Actualmente, a sua mem\u00f3ria desatina e desafia a triste mansid\u00e3o que propagandeiam os med\u00edocres com poder.<\/p>\n<p>A simples recorda\u00e7\u00e3o da sua figura provoca uma incomodidade insuport\u00e1vel naqueles que tentam emplastrar e remendar os &#8220;excessos&#8221; do capitalismo&#8230; para que funcione melhor. Os que reciclam e maquilham as velhas utopias reaccion\u00e1rias tentando &#8220;convencer&#8221; pacificamente e com bons modos ao capital a que nos explore \u2013 um pouquinho \u2013 menos, e as suas institui\u00e7\u00f5es para que sejam \u2013 um pouquinho \u2013 mais democr\u00e1ticas. Quando os desinsuflados e arrependidos da revolu\u00e7\u00e3o entoam os antigos cantos de sereia, hoje disfar\u00e7ados com a roupagem de &#8220;terceira via&#8221; ou o &#8220;capitalismo de rosto humano&#8221;, a heran\u00e7a insepulta de Rosa resulta num formid\u00e1vel ant\u00eddoto.<\/p>\n<p>As suas demolidoras cr\u00edticas ao reformismo \u2013 que ela estigmatizou sem piedade em Reforma ou Revolu\u00e7\u00e3o e em A Crise da Social-democracia \u2013 n\u00e3o deixam t\u00edtere com cabe\u00e7a. Constituem, seguramente, um dos elementos mais perdur\u00e1veis das suas reflex\u00f5es te\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Voltar a respirar o ar fresco dos seus textos permite admirar a imensa estatura \u00e9tica com que ela entendeu, apregoou, militou e viveu a causa mundial do socialismo. Um \u00e9tica incorrupt\u00edvel que n\u00e3o se deixa comprar, nem afixar-lhe pre\u00e7o algum. Uma \u00e9tica que levanta o seu dedo acusador contra a corrup\u00e7\u00e3o, mediante a qual o neoliberalismo do Tio Sam asfixiou o mundo durante o \u00faltimo quarto de s\u00e9culo, acompanhado pela sua obediente e servil sobrinha, a social-democracia europeia e latino-americana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de refutar e combater apaixonadamente o reformismo em todas as suas vertentes, Rosa tamb\u00e9m foi uma dura impugnadora do socialismo autorit\u00e1rio. Num folheto sobre a nascente revolu\u00e7\u00e3o russa que escreveu na pris\u00e3o em 1918, enterrou o bisturi nos potenciais perigos que entranhava qualquer tipo de tenta\u00e7\u00e3o de separar o exerc\u00edcio do poder sovi\u00e9tico da democracia oper\u00e1ria e socialista.<\/p>\n<p>Perante o vergonhoso derrube da burocracia sovi\u00e9tica \u2013 que delapidou o imenso oceano de energias revolucion\u00e1rias oferecido pelo povo sovi\u00e9tico, tanto no assalto ao c\u00e9u em 1917 e na guerra civil, como na sua her\u00f3ica vit\u00f3ria sobre nazismo \u2013 aquelas premonit\u00f3rias advert\u00eancias de Rosa merecem ser seriamente repensadas.<\/p>\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o de corpo e alma <\/strong><\/p>\n<p>A sua energia impetuosa e sempre no ar aguilhoava os que estavam cansados e abatidos, a sua intr\u00e9pida aud\u00e1cia e a sua entrega faziam corar os timoratos e medrosos. O esp\u00edrito atrevido, o cora\u00e7\u00e3o ardente e a firme vontade da &#8220;pequena&#8221; Rosa era o motor da rebeli\u00e3o. Clara Zetkin<\/p>\n<p>Que dif\u00edcil deve ter sido no seu tempo participar na pol\u00edtica, sendo mulher e actriz! No entanto, violentando a mediocridade patriarcal da sua \u00e9poca, Rosa Luxemburgo converteu-se numa das principais dirigentes e te\u00f3ricas do socialismo&#8230; a n\u00edvel mundial! N\u00e3o s\u00f3 combateu o machismo da sociedade capitalista, mas tamb\u00e9m questionou as hierarquias e rela\u00e7\u00f5es de poder \u2013 de g\u00e9nero, de idade, de nacionalidade \u2013 que impregnavam e manchavam o socialismo europeu daqueles anos. Jamais aceitou cair na armadilha da direc\u00e7\u00e3o do SPD (Partido Social-Democrata Alem\u00e3o), quando lhe sugeriu que se ocupasse, exclusivamente, dos problemas da mulher, deixando &#8220;a grande pol\u00edtica&#8221; nas m\u00e3os da velha hierarquia parlamentar. Pensavam assim tir\u00e1-la da frente. Ela n\u00e3o caiu no anzol.<\/p>\n<p>Como o relatam v\u00e1rias biografias e aquele memor\u00e1vel filme de Margarethe von Trotta, protagonizada pela bela actriz Barbara Sukowa que a representa, j\u00e1 de muito jovem Rosa envolveu-se totalmente no Partido Social-Democrata Alem\u00e3o. Corria em desvantagem. Era judia e polaca (duas palavras malditas para a cultura alem\u00e3&#8230;). N\u00e3o s\u00f3 publicou artigos e livros na imprensa do SPD, como foi uma das principais instrutoras das escolas pol\u00edticas do partido (principalmente de temas econ\u00f3micos).<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, entrou em colis\u00e3o com os principais ide\u00f3logos desta organiza\u00e7\u00e3o: Eduard Bernstein [1850-1932], principal vulto do &#8220;socialismo revisionista&#8221;, e mais tarde Karl Johann Kautsky [1854-1938], l\u00edder do chamado &#8220;marxismo ortodoxo&#8221;. Com argumentos diversos, os dois opunham-se \u00e0s mudan\u00e7as sociais radicais e revolucion\u00e1rias. Tal como Lenine, Rosa polemiza com ambos. Primeiro entrar\u00e1 em choque com Bernstein, em 1898, e depois com Kautsky, em 1910.<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o estava s\u00f3. Enquanto polemizava com os chefes da burocracia parlamentar do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o (SPD) e os seus principais ide\u00f3logos, travava estreita amizade com Franz Mehring [1846-1919], o c\u00e9lebre bi\u00f3grafo de Karl Marx, e Clara Zetkin [1846-1919], seus grandes companheiros de luta.<\/p>\n<p>Quando em 1905 ocorreu a primeira revolu\u00e7\u00e3o russa, ela tentou extrair todas as consequ\u00eancias te\u00f3ricas para o mundo ocidental. Que rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre os movimentos sociais de contesta\u00e7\u00e3o e as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias? Um debate que, ainda hoje, quando se cumpre um s\u00e9culo daquela revolu\u00e7\u00e3o continua aberto e latente.<\/p>\n<p>Mais tarde, Rosa saudou a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917 de maneira entusiasta. Ali via realizado o grande sonho de liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos. Mas a sua defesa dos bolcheviques n\u00e3o foi acr\u00edtica. Enquanto apoiava, polemizou com Lenine. F\u00ea-lo antes e depois do triunfo revolucion\u00e1rio. Este \u00faltimo, em Fevereiro de 1922, chegou a dizer dela que &#8220;pode acontecer que as \u00e1guias voem mais baixo que as galinhas, mas uma galinha jamais pode voar t\u00e3o alto como uma \u00e1guia. Rosa Luxemburgo enganou-se (&#8230;) mas apesar dos seus erros, foi \u2013 e para n\u00f3s continua sendo \u2013 uma \u00e1guia (&#8230;) no p\u00e1tio detr\u00e1s do movimento oper\u00e1rio, entre os montes de esterco, as galinhas tipo Paul Levi, Scheidemann e Kautsky cacarejam \u00e0 volta dos erros da grande comunista. Cada um faz o que pode&#8221;.<\/p>\n<p>A vida de Rosa foi apaixonante. Rompeu com os moldes trilhados. Nunca aceitou baixar a cabe\u00e7a. Revoltou-se e, confiando na sua pr\u00f3pria personalidade, entregou o melhor da sua energia \u00e0 nobre causa da revolu\u00e7\u00e3o mundial, a causa da classe trabalhadora, dos explorados e oprimidos do mundo.<\/p>\n<p><strong>Velhos e novos reformismos, enfermidades senis do socialismo <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode lan\u00e7ar contra os oper\u00e1rios insulto mais grosseiro, nem cal\u00fania mais indigna que a frase &#8220;as pol\u00e9micas s\u00e3o para os acad\u00e9micos&#8221;. Rosa Luxemburgo, em Reforma ou Revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Desde que surgiram os protestos oper\u00e1rios contra a sociedade capitalista, duas correntes conviveram no seio do campo popular.<\/p>\n<p>Uma primeira tend\u00eancia, conhecida como &#8220;reformismo&#8221;, acredita que o capitalismo pode ir melhorando pouco a pouco. Reforma ap\u00f3s reforma, os trabalhadores podiam ir avan\u00e7ando lentamente para uma sociedade melhor. Esta iria mudando segundo um padr\u00e3o linear: a evolu\u00e7\u00e3o, do pior ao melhor, passito a passito sem nunca dar um salto. Nos seus come\u00e7os hist\u00f3ricos esta tend\u00eancia sustentava que a evolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e gradual do capitalismo conduziria a uma sociedade mais racional, o socialismo. A passagem do capitalismo ao socialismo deveria dar-se paulatinamente.<\/p>\n<p>Hoje em dia esta ideologia foi-se modificando de forma not\u00e1vel. Entre o reformismo de ontem e o de hoje muita \u00e1gua correu debaixo das pontes. A degrada\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica desta corrente \u2013 sempre apresentada com novas roupagens e vestimentas \u2013 multiplicou-se. Comparados com os actuais expoentes do reformismo, os mais t\u00edmidos ide\u00f3logos do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o do princ\u00edpio do s\u00e9culo passado pareceriam jovens incendi\u00e1rios e tresloucados \u00e0 procura de adrenalina.<\/p>\n<p>Actualmente, o reformismo j\u00e1 n\u00e3o acredita que no final da marcha evolutiva e pac\u00edfica da sociedade nos espera o socialismo. Os seus partid\u00e1rios conformam-se apenas com a obten\u00e7\u00e3o de reformas \u2013 mais ou menos avan\u00e7adas \u2013 dentro da pr\u00f3pria ordem capitalista. Mas a diminui\u00e7\u00e3o das expectativas de mudan\u00e7a e o aprofundamento da sua adapta\u00e7\u00e3o ao statu quo correm paralelas com o seu crescente malabarismo verbal. Toda a aud\u00e1cia e arrojo que n\u00e3o aplicam na sua actividade e nas suas an\u00e1lises pol\u00edticas, substituem-nos por uma crescente pirotecnia discursiva. Como se um novo palavreado pudesse ocupar o espa\u00e7o deixado vago pela aus\u00eancia de perspectiva pol\u00edtica anti-sist\u00e9mica. E ent\u00e3o, encobrindo as alheias cantilenas moderadas, aparecem na conversa dos neoreformistas as &#8220;nodosas&#8221; propostas de uma &#8220;democracia radical&#8221; (Ernesto Laclau), uma &#8220;democracia absoluta&#8221; (Toni Negri) ou uma democracia participativa (Heinz Dieterich). Sempre tratando de iludir ou esconder a quest\u00e3o do socialismo e da confronta\u00e7\u00e3o com o poder do capital. Por isso, at\u00e9 Bernstein teria parecido um &#8220;ultra&#8221; ao lado destes reconhecidos te\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A segunda tend\u00eancia, de car\u00e1cter revolucion\u00e1rio, faz cr\u00edticas radicais contra o capitalismo. Diferentemente do reformismo, aspira a mudar radicalmente a sociedade para acabar n\u00e3o s\u00f3 com os &#8220;excessos&#8221;, mas com a explora\u00e7\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 outra via para o socialismo. Ter em conta essa perspectiva, ainda que n\u00e3o goze do aplauso dos suplementos culturais dos di\u00e1rios &#8220;s\u00e9rios&#8221;, da consagra\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios editoriais ou de benepl\u00e1cito das principais Academias, deve continuar a ser a estrela que guia o c\u00e9u das esquerdas radicais do nosso tempo.<\/p>\n<p>Desde a sua idade juvenil at\u00e9 ao seu assassinato, Rosa Luxemburgo foi precisamente uma das mais brilhantes desta segunda corrente e uma aguda polemista com a primeira. Todos os seus textos, sejam os temas quais forem, s\u00f3 se podem compreender a partir desta perspectiva apaixonadamente cr\u00edtica do reformismo.<\/p>\n<p><strong>O marxismo revolucion\u00e1rio de Rosa, a dial\u00e9tica e o problema do poder <\/strong><\/p>\n<p>Na nossa \u00e9poca, produto de v\u00e1rias derrotas populares, das frustra\u00e7\u00f5es das experi\u00eancias do &#8220;socialismo real&#8221; e da debandada ideol\u00f3gica que as acompanhou, ganhou certa notoriedade a peregrina ideia de que os trabalhadores e as pessoas de esquerda n\u00e3o devem aspirar \u00e0 tomada do poder.<\/p>\n<p>Da pena de v\u00e1rios pensadores p\u00f3s-estruturalistas \u2013 Toni Negri \u00e9 talvez o mais famoso de todos eles, mas de forma alguma o \u00fanico \u2013 o que sobressai \u00e9 uma vis\u00e3o pol\u00edtica de tintas marcadamente reformistas. Uma orienta\u00e7\u00e3o encoberta que impregna o dito empreendimento filos\u00f3fico, pretendendo lavrar por decreto o enterro da dial\u00e9ctica, o falecimento de todo o sujeito revolucion\u00e1rio, o abandono da l\u00f3gica das contradi\u00e7\u00f5es explosivas e o cancelamento de toda a perspectiva de confronta\u00e7\u00e3o com o Estado, pelo seu car\u00e1cter supostamente &#8220;autorit\u00e1rio&#8221; ou jacobino. Uma velha ilus\u00e3o que sonha, &#8220;ingenuamente&#8221;, mudar a sociedade&#8230; sem que se coloque a revolu\u00e7\u00e3o nem a tomada do poder. (Jonh Holloway dixit ). A \u00faltima verdade desta &#8220;nov\u00edssima teoria&#8221; constitui, do nosso ponto de vista, a legitima\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica da impot\u00eancia pol\u00edtica. Converter a necessidade em virtude, a debilidade moment\u00e2nea num projecto estrat\u00e9gico, um momento particular da hist\u00f3ria numa defini\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Esta legitima\u00e7\u00e3o, nos nossos dias, j\u00e1 n\u00e3o se faz apelando \u00e0 ing\u00e9nua linguagem de Juan B Justo [fundador do Partido Socialista argentino no final do s\u00e9culo XIX, seguidor de E. Bernstein e J Jaur\u00e9s, um dos pensadores da social-democracia sul-americana no in\u00edcio do s\u00e9culo XX], ou de qualquer outro socialista moderado de ent\u00e3o. O caso de Negri \u00e9, nesse sentido, muito expressivo. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nada melhor que recorrer a Rosa para resgatar a dimens\u00e3o libert\u00e1ria e rebelde do marxismo (que t\u00e3o opaca esteve durante o estalinismo) sem, ao mesmo tempo, ceder a essa mescla acad\u00e9mica de palavreado neo-anarquista, ilus\u00f5es reformistas e fantasias encobertamente liberais.<\/p>\n<p>Se o socialismo autorit\u00e1rio, que pela m\u00e3o do estalinismo tanto dano causou \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial, j\u00e1 n\u00e3o convence ningu\u00e9m nem apaixona nenhum jovem com sangue nas veias, a dita mescla acad\u00e9mica pseudo-anarquista, essa sim, goza ainda de certo prest\u00edgio e proximidade \u00e0 juventude.<\/p>\n<p>As metaf\u00edsicas &#8220;post&#8221; \u2013 que dando um verniz te\u00f3rico ao autonomismo, afloraram na Europa ocidental depois da derrota de 1968 \u2013 mais n\u00e3o fizeram do que girar e voltar a girar em torno da pluralidade de rela\u00e7\u00f5es cristalizadas e congeladas na sua dispers\u00e3o. Enalteceram o seu car\u00e1cter de singularidades irredut\u00edveis a toda a converg\u00eancia pol\u00edtica que as articule contra um inimigo comum: a explora\u00e7\u00e3o generalizada, a subordina\u00e7\u00e3o (formal e real) e a domina\u00e7\u00e3o do capital. Desta forma, sob a apar\u00eancia de ter superado, por antiquada, a teoria marxista da luta de classes em fun\u00e7\u00e3o de uma supostamente &#8220;radicalizada&#8221; teoria da multiplicidade dos pontos em fuga e uma variedade de \u00e2ngulos dispersos, a \u00fanica coisa que se obteve, como resultado palp\u00e1vel, foi uma nova frustra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao n\u00e3o poder identificar um inimigo concreto contra o quem dirigir os nossos embates e as nossas lutas. As metaf\u00edsicas &#8220;post&#8221; elevaram a verdade universal, inclusivamente com categoria ontol\u00f3gica, a impot\u00eancia de uma determinada \u00e9poca.<\/p>\n<p>Desta forma, sob o dialecto &#8220;pluralista&#8221; e pseudo libert\u00e1rio, acabou recriando-se em termos pol\u00edticos a velha heran\u00e7a liberal que situava no \u00e2mbito do singular a verdade \u00faltima do real. Pela m\u00e3o de uma g\u00edria neo-anarquista meramente discursiva e puramente liter\u00e1ria (que pouco ou nada tem a ver com a combatividade dos her\u00f3icos companheiros oper\u00e1rios anarquistas que na Argentina, para dar um s\u00f3 exemplo, encabe\u00e7aram as rebeli\u00f5es de classe da Patag\u00f3nia durante os anos 20 ou em Espanha durante os anos 30) termina-se relegitimando o antigo credo liberal de recusa de qualquer tipo de pol\u00edtica global e de ref\u00fagio no \u00e2mbito aparentemente ass\u00e9ptico da esfera privada.<\/p>\n<p>Com menos inoc\u00eancia que no s\u00e9culo XVIII&#8230; agora, este liberalismo filos\u00f3fico ressuscitado \u2013 que se vale do fraseado libert\u00e1rio, unicamente como alibi legitimador, para apresentar na bandeja da &#8220;esquerda&#8221; velhos lugares ideol\u00f3gicos da direita \u2013 j\u00e1 n\u00e3o luta contra a nobreza e a monarquia. Aponta as suas espingardas com o objectivo de neutralizar ou prevenir toda a tenta\u00e7\u00e3o que aponte para condescender no seio dos conflitos contempor\u00e2neos com qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que exceda a mera luta reivindicativa de gueto ou o inofensivo poder local. Que muitos dos motivos ideol\u00f3gicos p\u00f3s-estruturalistas, formalmente neo-anarquistas, correspondem na realidade ao liberalismo n\u00e3o \u00e9 apenas a nossa opini\u00e3o. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>A grande diferen\u00e7a entre a \u00e9poca e as pol\u00e9micas em que interveio Rosa contra o reformismo e os actuais debates entre o marxismo revolucion\u00e1rio e o p\u00f3s-estruturalismo consiste em que naquela \u00e9poca n\u00e3o se punha em discuss\u00e3o a perspectiva do socialismo. Hoje em dia sim. Antes havia uma diverg\u00eancia \u00e0 volta dos m\u00e9todos, n\u00e3o dos fins. Presentemente, o que est\u00e1 em discuss\u00e3o \u00e9, antes de tudo, se queremos e desejamos, ou n\u00e3o, o socialismo. Em segundo lugar, se para realiz\u00e1-lo faz falta ou n\u00e3o uma revolu\u00e7\u00e3o, a tomada do poder e um projecto estrat\u00e9gico de alcance global, n\u00e3o meramente local ou microsc\u00f3pico. Em ambos os planos a reflex\u00e3o de Rosa \u00e9 inequ\u00edvoca. Unicamente com o socialismo se poder\u00e1 construir um modo de vida e conviv\u00eancia social mais racional e humano. Para isso n\u00e3o h\u00e1 outro caminho sen\u00e3o a tomada revolucion\u00e1ria do poder e a transforma\u00e7\u00e3o permanente \u00e0 escala global da sociedade.<\/p>\n<p>Rosa n\u00e3o albergava nenhuma ilus\u00e3o em mudar a sociedade iludindo a quest\u00e3o da tomada do poder. Tampouco se pode ocultar aos olhos do povo trabalhador a necessidade de responder \u00e0 viol\u00eancia do sistema \u2013 viol\u00eancia de cima \u2013 com a viol\u00eancia popular \u2013 viol\u00eancia de baixo.<\/p>\n<p>As suas an\u00e1lises sobre o poder e a viol\u00eancia na hist\u00f3ria nunca se limitaram a uma quest\u00e3o de mera agita\u00e7\u00e3o, propagand\u00edstica, verbalista, nem assente nas maiores ou menores oportunidades de uma conjuntura. As suas an\u00e1lises sobre a viol\u00eancia e o poder, n\u00e3o s\u00f3 fazem parte medular da sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica anticapitalista como tamb\u00e9m, ao mesmo tempo, constituem um eixo central da sua leitura da concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria e da sua cr\u00edtica da economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual nem um capricho que Rosa aprofundou em O Capital de Marx, aclarando as leituras brutalmente economicistas que se fizeram daquela obra, assinalando em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia que: &#8220;N\u00e3o se trata j\u00e1 da acumula\u00e7\u00e3o primitiva [origin\u00e1ria] mas de uma continua\u00e7\u00e3o do processo at\u00e9 hoje. [&#8230;] Do mesmo modo que a acumula\u00e7\u00e3o do capital, com a sua capacidade de expans\u00e3o s\u00fabita, n\u00e3o pode aguardar o crescimento natural da popula\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria nem conformar-se com ele, tampouco poder\u00e1 aguardar a lenta decomposi\u00e7\u00e3o natural das formas n\u00e3o capitalistas e a sua passagem \u00e0 economia de mercado. O capital n\u00e3o tem, para esta quest\u00e3o, outra solu\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da viol\u00eancia, que constitui um m\u00e9todo constante de acumula\u00e7\u00e3o de capital no processo hist\u00f3rico, n\u00e3o s\u00f3 na sua g\u00e9nesis, mas ao longo do tempo, at\u00e9 hoje&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>A sua conclus\u00e3o \u00e9 taxativa. Para os que leram \u2013 e continuam a ler \u2013 a obra magna de Marx como um simples tratado &#8220;vermelho&#8221; de economia, onde a viol\u00eancia, o exerc\u00edcio da for\u00e7a material e as rela\u00e7\u00f5es de poder ficavam inclu\u00eddas unicamente nos alvores iniciais da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 durante a chamada acumula\u00e7\u00e3o &#8220;origin\u00e1ria&#8221; \u2013 Rosa destaca que a viol\u00eancia continua nas fases maduras do desenvolvimento do capital. N\u00e3o s\u00f3 continua&#8230;, aprofunda-se! N\u00e3o h\u00e1 pois acumula\u00e7\u00e3o de capital \u2013 o seu objecto de investiga\u00e7\u00e3o \u2013 sem viol\u00eancia. N\u00e3o existe &#8220;economia pura&#8221; sem poder. N\u00e3o haver\u00e1 pois supera\u00e7\u00e3o do capital sem que o povo apele a uma resposta contundente face a esse poder e a essa viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Rosa traz-nos uma imprescind\u00edvel e arguta observa\u00e7\u00e3o da sociedade contempor\u00e2nea que supera amplamente as diferentes fases e sucessivas reciclagens do velho equ\u00edvoco reformista de &#8220;mudar a sociedade sem tomar o poder&#8221;. Tanto no caso de Bernstein (princ\u00edpios do s\u00e9culo), no da doutrina sovi\u00e9tica da &#8220;coexist\u00eancia pac\u00edfica&#8221; (anos 50 e 60), no do eurocomunismo (anos 70), como no da actual moda acad\u00e9mica.<\/p>\n<p><strong>O m\u00e9todo dial\u00e9tico e a totalidade <\/strong><\/p>\n<p>Rosa Luxemburgo \u00e9 a mente mais genial entre os herdeiros cient\u00edficos de Marx e Engels. Franz Mehring<\/p>\n<p>Apesar do seu exasperante reformismo, paradoxalmente, Bernstein tinha raz\u00e3o. A estrat\u00e9gia pol\u00edtica do marxismo revolucion\u00e1rio \u00e9 insepar\u00e1vel dos seus pontos de vista metodol\u00f3gicos. Toda a obra de Rosa \u2013 onde se articulam as suas reflex\u00f5es sobre o poder e as suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o m\u00e9todo \u2013 serve para corroborar essa tese de Bernstein.<\/p>\n<p>Nenhuma categoria foi mais repudiada, castigada e exclu\u00edda nas \u00faltimas d\u00e9cadas que a de &#8220;totalidade&#8221;. As vertentes mais reaccion\u00e1rias do p\u00f3s-modernismo franc\u00eas e do pragmatismo norte-americano assimilaram qualquer vis\u00e3o totalizadora com a metaf\u00edsica. A esta \u00faltima igualaram-na, por sua vez, com o pensamento &#8220;forte&#8221;, donde deduziram que com esse tipo de racionalidade encontra-se impl\u00edcita a apologia do autoritarismo.<\/p>\n<p>Deste modo tentaram excluir dos grandes relatos e narrativas da hist\u00f3ria, todo o projecto de emancipa\u00e7\u00e3o, a categoria &#8220;supera\u00e7\u00e3o&#8221; (aufhebung) e qualquer vis\u00e3o totalizadora do mundo.<\/p>\n<p>Ora bem, essa categoria t\u00e3o vilipendiada \u2013 a de totalidade \u2013 \u00e9 central no pensamento dial\u00e9ctico de Rosa e na sua cr\u00edtica da economia capitalista. Ela considerava que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista constitui uma totalidade. Nunca se pode compreend\u00ea-lo se se fragmentarem qualquer dos seus momentos internos (a produ\u00e7\u00e3o, a distribui\u00e7\u00e3o, a troca e o consumo). O capitalismo engloba-os todos numa totalidade articulada, segundo uma ordem l\u00f3gica que, por sua vez, tem uma din\u00e2mica essencialmente hist\u00f3rica. Por isso, quando tenta explicar nas escolas do partido (SPD) o problema de &#8220;Que \u00e9 a economia?&#8221;, dedica uma boa parte da sua exposi\u00e7\u00e3o a desenvolver n\u00e3o s\u00f3 as defini\u00e7\u00f5es da economia contempor\u00e2nea, mas particularmente a hist\u00f3ria da disciplina.<\/p>\n<p>Essa decis\u00e3o n\u00e3o era arbitr\u00e1ria. Estava motivada pela mesma perspectiva metodol\u00f3gica que levou Marx a conjugar o que ele denominava o &#8220;modo de exposi\u00e7\u00e3o&#8221; com o &#8220;modo de investiga\u00e7\u00e3o&#8221;, duas ordens do discurso cient\u00edfico cr\u00edtico que remetiam ao m\u00e9todo l\u00f3gico e ao m\u00e9todo hist\u00f3rico. Para o marxismo revolucion\u00e1rio que procura decifrar criticamente as ra\u00edzes fetichistas da economia burguesa n\u00e3o h\u00e1 simples enumera\u00e7\u00e3o dos factos \u2013 tal como aparecem \u00e0 consci\u00eancia imediata no mercado, segundo nos mostram as revistas e jornais de economia \u2013 sem l\u00f3gica. Mas por sua vez, n\u00e3o existe l\u00f3gica sem hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A categoria que permite articular no marxismo a l\u00f3gica e a hist\u00f3ria \u00e9 a de totalidade, nexo central da perspectiva metodol\u00f3gica que Rosa aprendeu em Marx (como bem se encarregou de destacar detalhadamente Luk\u00e1cs em Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe ). N\u00e3o importa se as suas correc\u00e7\u00f5es aos esquemas de reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo que Marx descreveu no tomo II de O Capital s\u00e3o correctas ou n\u00e3o. O importante \u00e9 o m\u00e9todo empregue nessa an\u00e1lise. Rosa talvez se tenha equivocado nalgumas conclus\u00f5es de A Acumula\u00e7\u00e3o do Capital mas n\u00e3o se enganou ao empregar o m\u00e9todo dial\u00e9ctico.<\/p>\n<p>Toda a reflex\u00e3o de Rosa anda metodologicamente \u00e0 volta deste horizonte. Reactualizar hoje esse \u00e2ngulo parece-nos de vital import\u00e2ncia, sobretudo se tomarmos em conta que, no \u00faltimo quarto de s\u00e9culo, se tentou fracturar toda a perspectiva de luta contra o capitalismo no seu conjunto em altares dos &#8220;micropoderes&#8221;, em &#8220;micro enfrentamentos capilares&#8221;, com uma apologia acr\u00edtica centrada no poder local, etc, etc. Sem questionar a totalidade do sistema capitalista, qualquer reclama\u00e7\u00e3o e qualquer cr\u00edtica ao sistema tornam-se impotentes e pass\u00edveis de neutraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Impulso revolucion\u00e1rio e burocracia sindical: os debates sobre a greve de massas <\/strong><\/p>\n<p>Um dos maiores equ\u00edvocos que se desencadearam \u00e0 volta de Rosa reside no seu suposto &#8220;espontaneismo&#8221; e na pretensa subestima\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que se encontraria nos seus textos. Particularmente, no que respeita \u00e0 greve de massas e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905.<\/p>\n<p>O debate sobre a greve de massas instala-se e come\u00e7a a circular na literatura marxista da II Internacional entre 1895 e 1896. Foi Parvus [Aleksandr Helfand] o primeiro publicista que encarou o tema da greve pol\u00edtica, vinculando-o \u00e0 discuss\u00e3o sobre o golpe de estado. F\u00e1-lo numa s\u00e9rie de artigos publicados na revista te\u00f3rica do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o (SPD) a prop\u00f3sito das amea\u00e7as golpistas de um general chamado V. Boguslawski. Mais tarde, em 1902, tem lugar uma greve geral pol\u00edtica na B\u00e9lgica que pedia o sufr\u00e1gio universal e igualit\u00e1rio. Fracassou. A discuss\u00e3o sobre esta greve constituiu a segunda etapa do debate sobre a greve de massas. Participaram nele Emile Vandervelde, Franz Mehring e a pr\u00f3pria Rosa. At\u00e9 que sobreveio a primeira revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905. Esse foi o detonador para a maior contribui\u00e7\u00e3o de Rosa a este debate, condensado na sua obra Greve de Massas, Partido e Sindicatos, redigida no ex\u00edlio na Finl\u00e2ndia em Agosto de 1906.<\/p>\n<p>Adoptando como modelo de inspira\u00e7\u00e3o a recente revolu\u00e7\u00e3o russa, Rosa interv\u00e9m desde o princ\u00edpio, trazendo para a discuss\u00e3o a burocratiza\u00e7\u00e3o dos poderosos e ao mesmo tempo impotentes sindicatos alem\u00e3es, que tinham verdadeiro p\u00e2nico \u00e0 greve geral. Como em qualquer debate, n\u00e3o se entende nada das teses de Rosa se se abstrai de com quem se est\u00e1 a discutir. O interlocutor da pol\u00e9mica marca grande parte do terreno e o tom dos argumentos ao longo de todo o debate. Se n\u00e3o se sabe ou directamente se desconhece o objecto da sua pol\u00e9mica, ent\u00e3o pode-se construir uma Rosa Luxemburgo ao gosto e prazer de cada um&#8230;, pot\u00e1vel para qualquer coisa. Inclusivamente para enfrent\u00e1-la com o marxismo.<\/p>\n<p>Mas ela era muito concreta, muito expl\u00edcita, quando assinalava que estava a polemizar contra: &#8220;os fantoches burocr\u00e1ticos que vigiam zelosamente o destino dos sindicatos alem\u00e3es&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Estes funcion\u00e1rios de carreira, que h\u00e1 anos tinham abandonado a perspectiva revolucion\u00e1ria, temiam mais a greve de massas que a morte, pois esta f\u00e1-los-ia perder a estabilidade das suas posi\u00e7\u00f5es, conquistadas nas negocia\u00e7\u00f5es com o patronato e o Estado. Algo n\u00e3o muito diferente do que experimentou o sindicalismo burocr\u00e1tico europeu entre 1945 e os come\u00e7os do neoliberalismo e o latino-americano desde meados dos anos 30 at\u00e9 ao princ\u00edpio dos anos 70. Porque, convenhamos, a suposta &#8220;panaceia&#8221; do Estado benfeitor de que alguns ainda tem nostalgia&#8230; garantia certas conquistas laborais na condi\u00e7\u00e3o de manter manietada, neutralizada, institucionalizada, e em \u00faltima inst\u00e2ncia reprimida, a rebeldia colectiva e antisist\u00e9mica da for\u00e7a colectiva do trabalho. Nunca como na \u00e9poca do Estado de bem-estar keynesiano se p\u00f4de observar a justeza da f\u00f3rmula gramsciana que define o Estado capitalista como a conjun\u00e7\u00e3o da coer\u00e7\u00e3o e o consenso, da viol\u00eancia e a hegemonia.<\/p>\n<p>Ora bem, contra essa institucionaliza\u00e7\u00e3o e essa domestica\u00e7\u00e3o pelejava Rosa, quando defendia as virtudes pol\u00edticas da greve de massas ou da greve geral pol\u00edtica: &#8220;a greve de massas, que foi combatida como oposta \u00e0 actividade pol\u00edtica do proletariado, aparece hoje como a arma mais poderosa da luta pelos direitos pol\u00edticos&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Contra aqueles que vociferavam que a greve geral destruiria os sindicatos, ela replicava apelando ao exemplo emp\u00edrico da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905, argumentando que o movimento sindical russo \u00e9 filho da revolu\u00e7\u00e3o: &#8220;Do furac\u00e3o e da tormenta, do fogo e da fogueira da greve de massas e da luta nas ruas, surgem, como V\u00e9nus das ondas, sindicatos frescos, jovens, poderosos, vigorosos&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Falsamente se poderia contrapor Rosa a Lenine, ainda que entre ambos tenham existido matizes diversos sobre este debate. Quando Lenine, no seu famoso Que Fazer?, coloca em discuss\u00e3o o culto da espontaneidade e defende a necessidade de superar a etapa econ\u00f3mico-corporativa, defendendo a consci\u00eancia socialista e a luta ideol\u00f3gica, est\u00e1 a discutir contra outra frente, totalmente diferente de Rosa. No caso de Lenine, a discuss\u00e3o do Que Fazer? vai pelo caminho de questionar a limita\u00e7\u00e3o economicista do movimento socialista russo, a sua limita\u00e7\u00e3o a t\u00edmidas reformas econ\u00f3micas e \u00e0 restri\u00e7\u00e3o de toda a perspectiva pol\u00edtica, \u00e0 conjuntura espont\u00e2nea e artesanal do dia a dia. S\u00f3 tendo em conta, concretamente, os diversos interlocutores contra quem polemizavam Rosa e Lenine \u2013 ambos \u00e1cidos cr\u00edticos do oportunismo e do reformismo \u2013 se pode compreender a fundo a perspectiva comum que os unia, mesmo que, insistimos, n\u00e3o se possa confundir o posicionamento revolucion\u00e1rio dos dois numa identidade absoluta.<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o podemos esquecer que foi precisamente Lenine que tomou abertamente partido por Anton Pannkoek contra Kautsky, fazendo refer\u00eancia ao debate sobre a greve de massas de 1912. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_8\">[8]<\/a> Ent\u00e3o, o dirigente m\u00e1ximo bolchevique assinalou que: &#8220;Pannkoek manifestou-se contra Kautsky como um dos representantes da tend\u00eancia \u00abradical de esquerda\u00bb que contava nas suas fileiras com Rosa Luxemburgo, Carlos Radek e outros, e que defendendo a t\u00e1ctica revolucion\u00e1ria, tinha como elemento aglutinador a convic\u00e7\u00e3o de que Kautsky se passava para o \u00abcentro\u00bb, e que, de costas para os princ\u00edpios, vacilava entre o marxismo e o oportunismo. Que esta aprecia\u00e7\u00e3o era acertada veio a demonstr\u00e1-lo plenamente a guerra, quando a corrente do \u00abcentro\u00bb (erroneamente denominada marxista) ou de \u00abkaustkismo\u00bb se revelou em toda a sua repugnante mis\u00e9ria. [&#8230;] Nesta controv\u00e9rsia \u00e9 Pannkoek quem representa o marxismo contra Kautsky&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_9\">[9]<\/a> Uma postura n\u00e3o muito distinta da de Rosa&#8230; pois ali tinha mudado o interlocutor da pol\u00e9mica de Lenine. Grav\u00edssimo, imperdo\u00e1vel e mal-intencionado erro o de converter o Que Fazer? de Lenine num manual pretensamente antiLuxemburgo!<\/p>\n<p>De todas as formas \u00e9 ineg\u00e1vel e n\u00e3o pode desconhecer-se que Rosa polemizou v\u00e1rias vezes com Lenine. Tanto no seu artigo &#8220;Problemas Organizativos da Social-democracia&#8221; de 1904 como na sua &#8220;Cr\u00edtica da Revolu\u00e7\u00e3o Russa&#8221;, redigido durante a primeira guerra mundial, na cadeia. No entanto, deve situar-se cada cr\u00edtica \u2013 e cada resposta de Lenine, incluindo aquela que enviou \u00e0 revista Neue Zeit em 1904 e que Kautsky n\u00e3o quis publicar \u2013 num contexto de coordenadas bem delimitado, j\u00e1 que Rosa, como o principal dirigente bolchevique, foram modificando as suas posi\u00e7\u00f5es respectivas ao longo da hist\u00f3ria. Se em 1904 ela depositava muito mais confian\u00e7a na potencialidade autodisciplinante do proletariado que numa organiza\u00e7\u00e3o como a que Lenine promovia (Rosa temia que essa forma organizacional centralizada conduzisse na R\u00fassia \u00e0 in\u00e9rcia, \u00e0 prud\u00eancia, ao conservadorismo e ao parlamentarismo, como sucedia com a social-democracia alem\u00e3) <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_10\">[10]<\/a> , mas no final da sua vida acaba por fundar o Partido Comunista Alem\u00e3o (KPD). S\u00f3 o seu assassinato a impediu de ser co-fundadora com Lenine e Trotsky da Internacional Comunista. Por sua parte Lenine, se nos seus textos do princ\u00edpio do s\u00e9culo come\u00e7ou por defender intransigentemente a legitimidade do centralismo, o profissionalismo da milit\u00e2ncia pol\u00edtica e, inclusivamente, certos elementos da burocracia partid\u00e1ria, como algo imprescind\u00edvel para derrubar a partir da clandestinidade o czarismo, quando a revolu\u00e7\u00e3o de 1905 conquistou certas liberdades democr\u00e1ticas, deu uma forma ao Partido que tinha muito pouco a ver com o centralismo exagerado. E mais, no final da sua vida, Lenine acaba a questionar abertamente a burocracia do Estado e do Partido, deixando esses desesperados sinais de alerta ditados \u00e0s suas secret\u00e1rias, como seu testamento pol\u00edtico. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_11\">[11]<\/a> Portanto, ambos foram mudando as respectivas posi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode cristalizar nenhum deles numa f\u00f3rmula r\u00edgida para que entrem num f\u00e1cil esquema dicot\u00f3mico.<\/p>\n<p>Marcando ent\u00e3o as nossas dist\u00e2ncias e reservas frente ao esquematismo que pretende por, a todo o transe, Rosa contra Lenine e Lenine contra Rosa, para aprofundar esse campo problem\u00e1tico devemos perguntar-nos como definia Rosa a greve de massas? Como uma conjuga\u00e7\u00e3o de lutas pol\u00edticas e econ\u00f3micas, interpenetradas entre si, n\u00e3o unicamente como uma luta meramente econ\u00f3mica. Se se delimita estritamente contra quem est\u00e1 a discutir e se analisa em toda a sua complexidade a sua an\u00e1lise \u00e0 greve de massas como uma greve pol\u00edtica, v\u00ea-se qu\u00e3o longe est\u00e1 de realidade a contraposi\u00e7\u00e3o extrema que se pretendeu levantar entre a reflex\u00e3o de Rosa e a de Lenine. A sua argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai contra a deste \u00faltimo. Da\u00ed que Rosa afirmasse o seguinte: &#8220;As greves pol\u00edticas e as econ\u00f3micas, as greves de massas e as parciais, as greves de protesto e as de luta, as greves gerais de determinados sectores da ind\u00fastria e as greves gerais em determinadas cidades, as pac\u00edficas lutas salariais e os massacres de rua, as pelejas nas barricadas, todas se entrecruzam, correm paralelas, se encontram, se interpenetram e se sobrep\u00f5em; \u00e9 uma variada mar\u00e9 de fen\u00f3menos em incessante movimento. E a lei que rege estes fen\u00f3menos \u00e9 clara: n\u00e3o reside na greve de massas em si pr\u00f3pria nem nos seus detalhes t\u00e9cnicos, mas nas proposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais das for\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. <a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/rosa_kohan.html#nota_12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>Rosa n\u00e3o subestimava, pois, as instancias pol\u00edticas no desenvolvimento da greve de massas. O que punha em discuss\u00e3o era a in\u00e9rcia do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o e a sua burocracia sindical para encabe\u00e7ar a luta. Ao mesmo tempo, ela apelava ao esp\u00edrito revolucion\u00e1rio e \u00e0 iniciativa das massas contra a passividade do funcionalismo do partid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aqueles debates em que Rosa interveio n\u00e3o ficaram sepultados no passado, nem interessam unicamente aos historiadores do pensamento socialista. Voltar a pensar o nexo entre os movimentos sociais e a consci\u00eancia pol\u00edtica socialista \u2013 assim como tamb\u00e9m o papel de trav\u00e3o das burocracias sindicais \u2013 \u00e0 luz da actual luta contra a globaliza\u00e7\u00e3o do capital, a ofensiva do imperialismo, a crise do reformismo e dos pactos sociais do Estado de bem-estar, continua a ser uma tarefa que temos pela frente.<\/p>\n<p><strong>&#8220;De fora&#8221; da economia, mas dentro dos movimentos sociais <\/strong><\/p>\n<p>Rosa Luxemburgo, figura internacional e intelectual e din\u00e2mica, tinha tamb\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o eminente no socialismo alem\u00e3o. Via-se e respeitava-se nela a sua dupla capacidade para a ac\u00e7\u00e3o e para o ensino, para a realiza\u00e7\u00e3o e para a teoria. Ao mesmo tempo, Rosa Luxemburgo era um c\u00e9rebro e um bra\u00e7o do proletariado alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3&#8221; (20\/Julho\/1923)<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 controvertida rela\u00e7\u00e3o entre &#8220;espontaneidade&#8221; e vanguarda, entre impulso popular espont\u00e2neo e organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria consciente, podemos apreciar a sua irrefut\u00e1vel actualidade.<\/p>\n<p>Esta s\u00e9rie de interroga\u00e7\u00f5es reaparece hoje com outra linguagem e outro registo. N\u00e3o \u00e9 j\u00e1 o problema da greve de massas \u2013 que, insistimos, Rosa analisou a partir da primeira revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905 \u2013 mas antes o dos movimentos sociais (a subjectividade popular) e a sua vincula\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica. Aqui os seus textos, relidos a partir das nossas inquieta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, t\u00eam muito para nos dizer e ensinar.<\/p>\n<p>A leitura dos trabalhos de Rosa permitir-nos-\u00e1 recuperar Lenine de outra forma, despojado j\u00e1 de todo o lastro dogm\u00e1tico que impediu utilizar o arsenal pol\u00edtico do grande revolucion\u00e1rio bolchevique. Aquele a quem Gramsci, nos seus Cadernos do C\u00e1rcere, n\u00e3o duvidou em catalogar como &#8220;o maior te\u00f3rico da filosofia da praxis&#8221;.<\/p>\n<p>A partir de uma compara\u00e7\u00e3o entre as posi\u00e7\u00f5es de Rosa e Lenine, pode entender-se que quando este \u00faltimo falava em &#8220;levar a consci\u00eancia socialista desde fora&#8221; ao movimento oper\u00e1rio n\u00e3o estava a defender uma exterioridade total face ao movimento social &#8220;espont\u00e2neo&#8221;, mas uma exterioridade restrita, tomando como marco de refer\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o entre a economia e a pol\u00edtica. Isto quer dizer que o &#8220;fora&#8221;, a partir do qual Lenine defendia a necessidade de se organizar um partido pol\u00edtico socialista, remetia para mais al\u00e9m do que a economia. &#8220;Desde fora&#8221; de onde? Pois desde fora da economia, n\u00e3o desde fora da pol\u00edtica nem dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Lenine pensava que da luta econ\u00f3mica n\u00e3o surge automaticamente a consci\u00eancia socialista. Das reivindica\u00e7\u00f5es quotidianas n\u00e3o emerge uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. H\u00e1 que transcender o estreito limite dos conflitos econ\u00f3micos (reivindica\u00e7\u00e3o de emprego ou de subs\u00eddios para aqueles que o n\u00e3o t\u00eam, melhores sal\u00e1rios, f\u00e9rias, redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho para aqueles que o t\u00eam) para alcan\u00e7ar um ponto de vista cr\u00edtico do capitalismo no seu conjunto. Se o povo se limita unicamente a fazer reivindica\u00e7\u00f5es pontuais, n\u00e3o conseguir\u00e1 mais do que remendar o capitalismo, melhor\u00e1-lo, embelez\u00e1-lo e sobreviver o dia a dia, mas nunca acabar\u00e1 com o sistema, nem com a sua miser\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto era o que ele pensava e predicava. Mas muitos pensaram que Lenine estava a defender uma pol\u00edtica alheia aos movimentos sociais, completamente \u00e0 parte das lutas quotidianas. Esta \u00faltima deforma\u00e7\u00e3o e caricatura do pensamento de Lenine derivou para uma concep\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do partido, fechado em si mesmo, cego e surdo ao sentimento e \u00e0 consci\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Nem Lenine nem Rosa \u2013 recordemos que os dois fundaram, cada um em pa\u00edses diferentes, organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, Lenine o Partido Bolchevique, Rosa a Liga Esp\u00e1rtaco e o Partido Comunista Alem\u00e3o (KPD) \u2013 acreditavam que o partido tinha de estar a olhar o seu pr\u00f3prio umbigo ou a pregar desde &#8220;fora&#8221; ao movimento social. Os revolucion\u00e1rios e as suas organiza\u00e7\u00f5es devem ser parte imanente dos movimentos sociais (do movimento oper\u00e1rio, do movimento das mulheres, dos movimentos juvenis, dos movimentos de trabalhadores desempregados, dos movimentos dos direitos humanos, etc), nunca um &#8220;professor&#8221; autorit\u00e1rio que desde fora leva uma teoria esmerada e redonda que n\u00e3o se &#8220;amassa&#8221; no ir e vir do movimento de massas.<\/p>\n<p>Em sentido comum, entre a ideologia &#8220;espont\u00e2nea&#8221; do movimento popular e a reflex\u00e3o cient\u00edfica, quer dizer, a ideologia do intelectual colectivo, n\u00e3o deve haver ruptura absoluta. Quando esta \u00faltima se d\u00e1, perde-se a capacidade hegem\u00f3nica dos partidos e organiza\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras e cresce a capacidade hegem\u00f3nica do inimigo \u2013 a burguesia, os donos do poder, o imperialismo \u2013 que conta no seu haver com as tradi\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o, com as institui\u00e7\u00f5es do Estado e, hoje em dia, com o monop\u00f3lio ditatorial dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas.<\/p>\n<p>De modo que, apesar das v\u00e1rias discuss\u00f5es, as posi\u00e7\u00f5es de Rosa e Lenine \u2013 ainda que com matizes distintos, j\u00e1 que, provavelmente ela punha maior \u00eanfase nos movimentos e Lenine no partido revolucion\u00e1rio \u2013 em \u00faltima inst\u00e2ncia seriam complementares e integr\u00e1veis, em fun\u00e7\u00e3o de uma dif\u00edcil mas n\u00e3o imposs\u00edvel dial\u00e9ctica da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, entendida como consequ\u00eancia e ao mesmo tempo como impulsionadora do movimento social.<\/p>\n<p>A hegemonia socialista constr\u00f3i-se desde dos movimentos! A consci\u00eancia de classe \u00e9 fruto de uma experi\u00eancia de vida, de valores sentidos e de uma tradi\u00e7\u00e3o de luta constru\u00edda que nenhum manual pode levar desde fora, pois chocar-se-\u00e1 inevitavelmente \u2013 como muitas vezes sucedeu na hist\u00f3ria \u2013 com um muro de sil\u00eancio e incompreens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Sobre a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e a filosofia pol\u00edtica marxista <\/strong><\/p>\n<p>O seu c\u00e9lebre folheto cr\u00edtico sobre a revolu\u00e7\u00e3o russa foi publicado postumamente, com inten\u00e7\u00f5es pol\u00e9micas por Paul Levi \u2013 um membro da Liga Esp\u00e1rtaco e do Partido Comunista Alem\u00e3o (KPD), depois dissidente e filiado no Partido Social-Democrata (SPD). \u00c8 preciso acrescentar que Rosa mudou de opini\u00e3o sobre o seu pr\u00f3prio folheto ao sair do c\u00e1rcere e participar, ela pr\u00f3pria, na revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3. No entanto, aquele texto foi utilizado para tentar opor Rosa \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o russa e contra Lenine (da mesma forma que depois se repetiu essa manobra, colocando Gramsci contra Lenine ou Che Guevara contra a revolu\u00e7\u00e3o cubana). Quiz-se, desse modo, construir um luxemburguismo descolorido e &#8220;pot\u00e1vel&#8221; para a domina\u00e7\u00e3o burguesa que pouco tem a ver com a Rosa de carne e osso.<\/p>\n<p>Ao resumir as suas posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, cuja perspectiva revolucion\u00e1ria geral partilhava intimamente, Rosa centrou-se em tr\u00eas eixos problem\u00e1ticos. Questionou a cataloga\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter da revolu\u00e7\u00e3o, a sua concep\u00e7\u00e3o do problema das &#8220;guerras nacionais&#8221; e a complexa tens\u00e3o entre a democracia socialista e ditadura prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se \u00e9 certo que aquele texto padece de equ\u00edvocos \u2013 como argutamente assinalou Gyorgy Lukacs no seu cl\u00e1ssico a Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe (1923) \u2013, tamb\u00e9m \u00e9 insofism\u00e1vel que Rosa acertou ao assinalar algumas lacunas, cuja sobreviv\u00eancia ao longo do s\u00e9culo XX provocaram n\u00e3o poucas dores de cabe\u00e7a aos defensores do socialismo.<\/p>\n<p>Rosa sim, teve raz\u00e3o quando sustentou que sem uma ampla democracia socialista \u2013 base da vida pol\u00edtica crescente das massas trabalhadoras \u2013 s\u00f3 resta a consola\u00e7\u00e3o de uma burocracia. Segundo as suas pr\u00f3prias palavras, se este fen\u00f3meno n\u00e3o se pode evitar, ent\u00e3o &#8220;a vida extingue-se torna-se aparente e o \u00fanico activo que resta \u00e9 a burocracia&#8221;. No caso do socialismo europeu a hist\u00f3ria, lamentavelmente, deu-lhe raz\u00e3o. N\u00e3o foi outra a conclus\u00e3o do pr\u00f3prio Lenine no final da sua vida, tanto no di\u00e1rio ditado \u00e0s suas secret\u00e1rias, como nos seus \u00faltimos artigos, onde ajuizou o crescente aparelho de estado e o seu progressivo afastamento da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A necess\u00e1ria vincula\u00e7\u00e3o entre socialismo e democracia pol\u00edtica e os riscos de eternizar e tomar como regra universal o que era na realidade produto hist\u00f3rico duma situa\u00e7\u00e3o particular de guerra civil, quer dizer, o perigo de fazer da necessidade virtude no per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, constitui um dos eixos do seu pensamento que, provavelmente, mais resistiu \u00e0 passagem do tempo. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o socialista do futuro poder\u00e1 fazer caso omisso das advert\u00eancias que Rosa formulou contra as deforma\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e burocr\u00e1ticas do socialismo.<\/p>\n<p>Mas as suas reflex\u00f5es n\u00e3o se at\u00eam a uma experi\u00eancia pontual, como a trag\u00e9dia hist\u00f3rica que experimentou esse her\u00f3ico assalto ao c\u00e9u encabe\u00e7ado pelos bolcheviques, com o qual ainda hoje continuamos a aprender. T\u00eam um alcance mais geral no campo da filosofia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se a pergunta b\u00e1sica da filosofia pol\u00edtica cl\u00e1ssica da modernidade se interroga pelas condi\u00e7\u00f5es da obedi\u00eancia ao soberano, o conjunto de perguntas do marxismo apontam para o seu contr\u00e1rio. Partindo daqui, o essencial reside nas condi\u00e7\u00f5es que legitimam n\u00e3o a obedi\u00eancia, mas a insurrei\u00e7\u00e3o e a rebeli\u00e3o; n\u00e3o a soberania que coroa o poder institucionalizado, mas a que justifica o pleno exerc\u00edcio do poder popular. Antes, durante e depois da tomada do poder.<\/p>\n<p>Ali, nesse novo terreno que permanecia ausente nos fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos da teoria do direito contratual do s\u00e9culo XVIII, em Hegel e no pensamento liberal do s\u00e9culo XIX, \u00e9 onde a teoria pol\u00edtica marxista, em que se insere Rosa, situa o eixo da sua reflex\u00e3o. Assim, o socialismo n\u00e3o constitui o herdeiro &#8220;melhorado&#8221; e &#8220;aperfei\u00e7oado&#8221; do liberalismo moderno, mas a sua nega\u00e7\u00e3o antag\u00f3nica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se tiv\u00e9ssemos que situar a filia\u00e7\u00e3o que une a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica iniciada por Marx e que Rosa Luxemburgo desenvolveu no seu esp\u00edrito \u2013 contradizendo muitas vezes a sua letra \u2013 a partir da utiliza\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria metodologia, poder\u00edamos arriscar que o socialismo contempor\u00e2neo pertence \u00e0 fam\u00edlia libert\u00e1ria e democr\u00e1tica mais radical. Opositor e inflamado polemista contra o liberalismo, ao mesmo tempo \u00e9 \u2013 ou deveria ser \u2013 o herdeiro privilegiado da democracia directa teorizada por Jean Jacques Rousseau.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista \u2013 bem distinto do autoritarismo burocr\u00e1tico daqueles que legitimaram os &#8220;socialismos reais&#8221; europeus \u2013 tornam-se intelig\u00edveis os pressupostos a partir dos quais Rosa Luxemburgo desenhou as linhas centrais da sua cr\u00edtica aos perigos do socialismo burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>Socialismo ou barb\u00e1rie, mais que uma palavra-de-ordem <\/strong><\/p>\n<p>Quando Rosa acaba de cortar os seus v\u00ednculos, j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 com o oportunismo reformista de Bernstein, mas tamb\u00e9m com a tradi\u00e7\u00e3o determinista &#8220;ortodoxa&#8221; de Kautsky (ambos expoentes m\u00e1ximos da II Internacional), formula uma alternativa que tem hoje absoluta actualidade: &#8220;Socialismo ou barb\u00e1rie&#8221;. Esta alternativa resume seguramente o mais explosivo da sua heran\u00e7a e o mais sugestivo da sua mensagem para o socialismo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma simples palavra de ordem de agita\u00e7\u00e3o. Prop\u00f5e uma ruptura radical com todo o modo determinista de compreender a hist\u00f3ria e a sociedade (na qual ela pr\u00f3pria tinha acreditado at\u00e9 esse momento, pois os seus textos anteriores encontram-se pejados de refer\u00eancias \u00e0 &#8220;necessidade hist\u00f3rica&#8221; e \u00e0 suposta &#8220;inevitabilidade&#8221; da crise econ\u00f3mica do capitalismo, da greve de massas prolet\u00e1ria, da revolu\u00e7\u00e3o e do socialismo).<\/p>\n<p>Inserida no seu &#8220;folheto de Junius&#8221; (A Crise da Social-democracia, 1915), essa s\u00edntese hist\u00f3rica faz a supera\u00e7\u00e3o do determinismo fatalista e economicista, assente no desenvolvimento, imparavelmente ascendente, das for\u00e7as produtivas. Ali inscreve-se uma ruptura epistemol\u00f3gica que no seio da tradi\u00e7\u00e3o marxista abre esta alternativa formulada por ela. De acordo com o fatalismo determinista, durante d\u00e9cadas considerado a vers\u00e3o &#8220;ortodoxa&#8221; e oficial do marxismo, a sociedade humana marcharia de maneira necess\u00e1ria, inelut\u00e1vel e indefect\u00edvel para o socialismo. A subjectividade hist\u00f3rica e a luta de classes n\u00e3o teriam aqui papel algum. Quando muito, poderiam acelerar ou atrasar essa ascens\u00e3o do progresso linear, &#8220;final feliz&#8221; assegurado de antem\u00e3o pelo advento do comunismo no final da pr\u00e9-hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p>Mas em plena guerra mundial Rosa rompe com esse dogma e coloca que a hist\u00f3ria humana \u00e9 contingente e tem um final em aberto, n\u00e3o predeterminado pelo progresso linear das for\u00e7as produtivas (esse velho grito moderno e secularizado do mais antigo &#8220;Deus queira!&#8221;, tal como ironicamente afirmava Gramsci). Por isso, o futuro s\u00f3 pode ser resolvido pelo resultado da luta de classes. Podemos ir para uma sociedade desalienada e uma conviv\u00eancia mais radical e humana, o socialismo, ou podemos continuar fundindo-nos na barb\u00e1rie, o capitalismo. Ambos os horizontes de possibilidades permanecem potencialmente abertos. Actualizar um e outro depende da actividade humana.<\/p>\n<p>Quando hoje falamos de &#8220;barb\u00e1rie&#8221; estamos a pensar na barb\u00e1rie moderna, quer dizer, a civiliza\u00e7\u00e3o globalizada do capitalismo. Nunca houve mais barb\u00e1rie que durante o capitalismo moderno. Como exemplos contundentes podem recordar-se o nazismo alem\u00e3o com as suas f\u00e1bricas industriais de morte em s\u00e9rie, o apartheid sul-africano \u2013 regime pol\u00edtico perfeitamente inserido na modernidade branca, europeia e ocidental \u2013 ou os regimes militares da contra-insurrei\u00e7\u00e3o da Argentina e do Chile, que realizaram durante a d\u00e9cada de 70 um genoc\u00eddio burocr\u00e1tica e mecanicamente planificado, aplicando torturas cient\u00edficas e deixando como sequela dezenas de milhares de desaparecidos.<\/p>\n<p>Muito antes de que tudo isto sucedesse, Rosa tinha advertido o perigo que se abria perante n\u00f3s. Lucidamente, tinha identificado a equa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que marcou e continua a marcar o ritmo dos tempos actuais: [capitalismo civilizado = barb\u00e1rie].<\/p>\n<p><strong>Socialismo marxista e teologia da liberta\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Outro dos campos pol\u00e9micos que Rosa invadiu com not\u00e1vel arg\u00facia foi a complexa e irresoluta rela\u00e7\u00e3o entre socialismo e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que na ortodoxia da II Internacional \u2013 da qual foi uma clara continua\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica o materialismo dial\u00e9ctico [DIAMAT] da \u00e9poca estalinista \u2013 o marxismo era concebido como uma ci\u00eancia &#8220;positiva&#8221; an\u00e1logo \u00e0s naturais, cujo modelo paradigm\u00e1tico era a biologia.<\/p>\n<p>A partir destes par\u00e2metros ideol\u00f3gicos n\u00e3o \u00e9 casual que se tentasse tra\u00e7ar uma linha ininterrupta de continuidade entre os pensadores burgueses ilustrados do s\u00e9culo XVIII e os fundadores da filosofia da praxis. Neste espec\u00edfico contexto filos\u00f3fico-pol\u00edtico, a religi\u00e3o era concebida \u2013 numa leitura apressada, enviesada e unilateral do jovem Marx (1843) \u2013 simplesmente como o &#8220;\u00f3pio do povo&#8221; (uma express\u00e3o que Marx efectivamente utilizou, mas que n\u00e3o tem o sentido simplista que habitualmente se lhe atribui). Ainda que inicialmente educada nessa suposta &#8220;ortodoxia&#8221; filos\u00f3fica \u2013 com a qual romper\u00e1 as amarras cerca de 1915 \u2013 Rosa Luxemburgo op\u00f4s-se a uma leitura t\u00e3o simplista do materialismo hist\u00f3rico \u00e0 volta do problema da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1905, perante o estrondo da primeira revolu\u00e7\u00e3o russa, Rosa escreveu um curto e angustiado folheto sobre &#8220;O Socialismo e as Igrejas&#8221;. Nele, como parte dos socialistas polacos, questiona o car\u00e1cter reaccion\u00e1rio da igreja oficial que tentava separar os oper\u00e1rios do socialismo marxista, mantendo-os na docilidade e na explora\u00e7\u00e3o (uma hist\u00f3ria bem conhecida na Am\u00e9rica Latina). At\u00e9 ali o seu texto n\u00e3o se diferenciava, em absoluto, de qualquer outro da \u00e9poca da II Internacional.<\/p>\n<p>Mas ao mesmo tempo \u2013 e aqui reside o mais not\u00e1vel do seu empenho \u2013 tenta reler a hist\u00f3ria do cristianismo a partir de \u00f3ptica historicista. Assim, afirma que os &#8220;crist\u00e3os dos primeiros s\u00e9culos eram fervorosos comunistas&#8221;. Nessa linha de pensamento reproduz longos fragmentos que resumem a mensagem emancipadora de diversos ap\u00f3stolos como S\u00e3o Bas\u00edlio, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e Greg\u00f3rio Magno.<\/p>\n<p>Desse modo Rosa retoma o sugestivo impulso do \u00faltimo Engels que, no pr\u00f3logo de 1895 a As Lutas de Classes em Fran\u00e7a, n\u00e3o tinha tido medo de homologar o af\u00e3 crist\u00e3o de igualiza\u00e7\u00e3o humana com o ideal comunista do proletariado revolucion\u00e1rio. Engels j\u00e1 o havia feito muito antes em As Guerras Camponesas na Alemanha, onde \u00e0 vis\u00e3o burguesa de Martinho Lutero se op\u00f5e o resgate do cristianismo de Tomas Munzer. Uma leitura cuja imensa actualidade n\u00e3o pode deixar de nos assombrar quando \u2013 na Am\u00e9rica Latina e noutras partes do mundo \u2013 grandes sectores populares religiosos se rebelam contra o car\u00e1cter hier\u00e1rquico e autorit\u00e1rio das igrejas institucionais, para assumir uma pr\u00e1tica de vida intimamente consubstanciada com o comunismo daqueles primeiros crist\u00e3os.<\/p>\n<p>O assassinato de Rosa<\/p>\n<p>O que ficara com as massas e que partilhara o seu destino aquando da derrota do levantamento de Janeiro \u2013 h\u00e1 anos claramente previsto por ela, no plano te\u00f3rico, e tamb\u00e9m claramente no pr\u00f3prio momento de ac\u00e7\u00e3o \u2013, \u00e9 uma t\u00e3o directa consequ\u00eancia da unidade da teoria e da pr\u00e1tica na sua conduta, como o merecido \u00f3dio mortal dos seus assassinos, os oportunistas sociais-democratas.<\/p>\n<p>Gyorgy Luk\u00e1cs: Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/p>\n<p><a name=\"nota_1\"><\/a><a name=\"nota_2\"><\/a><a name=\"nota_3\"><\/a><a name=\"nota_4\"><\/a><a name=\"nota_5\"><\/a><a name=\"nota_6\"><\/a><a name=\"nota_7\"><\/a><a name=\"nota_8\"><\/a><a name=\"nota_10\"><\/a><a name=\"nota_11\"><\/a><a name=\"nota_12\"><\/a><a name=\"asterisco\"><\/a> A 9 de Novembro de 1918 (um ano depois do levantamento bolchevique na R\u00fassia) come\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3. Foram dois meses de agita\u00e7\u00e3o ininterrupta. Depois de uma greve geral, os trabalhadores insurrectos \u2013 dirigidos pela Liga Esp\u00e1rtaco \u2013 proclamaram a rep\u00fablica, formaram conselhos revolucion\u00e1rios de oper\u00e1rios e soldados. Enquanto Kautsky e outros socialistas mostravam vacilar, o grupo maiorit\u00e1rio na social-democracia alem\u00e3 (comandado por Friederich Ebert [1870-1925] e Philip Schleidemann [1865-1939] enfrentou com viol\u00eancia e sem contempla\u00e7\u00f5es os revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Foi assim que Gustav Noske [1868-1947], membro deste grupo (o SPD), assumiu o Minist\u00e9rio da Guerra. A partir desse cargo e com a ajuda de oficiais do antigo regime mon\u00e1rquico alem\u00e3o, organizou a repress\u00e3o dos insurrectos espartaquistas. Entretanto o di\u00e1rio oficial social-democrata Vorwarts [Avante] publicava editais chamando os Freikorps \u2013 &#8220;corpos livres&#8221;, nome dos comandos terroristas da direita \u2013 para combaterem os espartaquistas, oferecendo-lhes &#8220;sal\u00e1rio, tecto, comida e cinco marcos extra&#8221;.<\/p>\n<p>A 15 de Janeiro de 1919 Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo s\u00e3o capturados em Berlim pelos encolerizados soldados. Horas mais tarde s\u00e3o selvaticamente assassinados. Pouco depois, Le\u00f3n Jogiches [1867-1919], companheiro de amor e milit\u00e2ncia de Rosa Luxemburgo durante muitos anos, \u00e9 igualmente assassinado. O corpo de Rosa, j\u00e1 sem vida, \u00e9 deitado pela soldadesca a um rio. O seu cad\u00e1ver foi encontrado em Maio, cinco meses depois.<\/p>\n<p>A responsabilidade pol\u00edtica que a social-democracia reformista teve no cobarde assassinato de Rosa Luxemburgo e dos seus companheiros j\u00e1 nenhum historiador a discute. Esse acto de barb\u00e1rie ficou como uma mancha moral que dificilmente se apagar\u00e1 com o tempo.<\/p>\n<p>Mas a mem\u00f3ria imortal de Rosa, o seu pensamento marxista, a sua \u00e9tica revolucion\u00e1ria e o seu inflex\u00edvel exemplo de vida, continua vivos. Afectuosamente vivos. Na ponte onde os seus assassinos arrojaram o seu corpo \u00e0 agua continuam a aparecer, periodicamente, flores vermelhas. As novas gera\u00e7\u00f5es, envolvidas em for\u00e7a na luta contra o capital globalizado e o imperialismo, n\u00e3o a esquecem.<\/p>\n<p>Depois do ocaso do estalinismo e da crise do neoliberalismo, e face \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ideol\u00f3gica e moral de toda a gama de reformismos contempor\u00e2neos, recuperar Rosa torna-se uma tarefa inadi\u00e1vel. Ela representa o cora\u00e7\u00e3o vermelho do socialismo, a garantia de que a bandeira da rebeli\u00e3o \u00e0 escala mundial n\u00e3o se manchar\u00e1 pelo cinzento med\u00edocre da burocracia, nem pelo amarelo t\u00edmido do reformismo. Voltar a Rosa tornou-se urgente! T\u00e3o urgente como recuperar a heran\u00e7a insubmissa e rebelde dos bolcheviques, de Che Guevara, de Mariat\u00e9gui, de Gramsci, do jovem Luckacs e de todo o marxismo acumulado pelas gera\u00e7\u00f5es que nos precederam. Sem contar com essa imensa experi\u00eancia de luta e toda a reflex\u00e3o pr\u00e9via, o pensamento radical dos nossos dias terminar\u00e1 fagocitado, neutralizado e cooptado pela trituradora de carne das institui\u00e7\u00f5es que garantem e reproduzem a hegemonia do capital.<\/p>\n<p><strong>Notas <\/strong><\/p>\n<p>[1] Remetemos para o nosso livro Toni Negri y los Desafios de \u00abImperio\u00bb. Madrid, Campo de Ideas, 2002. Traduzido para italiano com o t\u00edtulo Toni Negri e gli Euivoci di \u00abImperio\u00bb. Bolsena, Massari Editore, 2005.<\/p>\n<p>[2] Que o pensamento libert\u00e1rio e anti-autorit\u00e1rio de Rosa n\u00e3o se inscreve na tradi\u00e7\u00e3o anarquista mas na marxista revolucion\u00e1ria pode corroborar-se lendo simplesmente os seus textos, em vez de construir sobre ela lendas e mitos ao gosto do bom consumidor (algo que n\u00e3o se reduz a Rosa como um caso especial, recordemos a quantidade de &#8220;usos&#8221; que se fizeram sobre o pensamento de Gramsci&#8230;). Por exemplo em Greve de Massas, Partido e Sindicatos, Rosa assinalava que: &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o Russa [de 1905, nota de N.K.], a primeira experi\u00eancia hist\u00f3rica da greve de massas, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o aparece como uma reivindica\u00e7\u00e3o do anarquismo como na realidade implica a liquida\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do anarquismo [sublinhado de Rosa]. (&#8230;) A R\u00fassia foi o ber\u00e7o hist\u00f3rico do anarquismo. Mas a P\u00e1tria de Bakunine vai converter-se no t\u00famulo dos seus ensinamentos&#8221;. Ainda que ali reconhe\u00e7a as &#8220;her\u00f3icas ac\u00e7\u00f5es do anarquismo&#8221;, Rosa afirma que &#8220;a carreira hist\u00f3rica do anarquismo est\u00e1 pouco menos que liquidada (&#8230;) o m\u00e9todo geral e os pontos de vista do marxismo s\u00e3o os que saem vencedores&#8221;. Ver Rosa Luxemburgo: Huelga de massas, partido y sindicatos. In Rosa Luxemburgo, Obras Escogidas, Buenos Aires, Ediciones Pluma, 1976, tomo I, p\u00e1ginas 187-189.<\/p>\n<p>[3] Tamb\u00e9m o colocou Alex Callinicos quando, referindo-se \u00e0 controversa leitura que Foucault faz sobre a rebeli\u00e3o europeia de 1968, sustenta que a sua: &#8220;implica uma interpreta\u00e7\u00e3o particular de Maio de 1968 que recusa a inten\u00e7\u00e3o de consider\u00e1-lo uma reivindica\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico projecto revolucion\u00e1rio socialista. Pelo contr\u00e1rio, sustenta Foucault: \u00abo que ocorreu desde 1968 e, poderia argumentar-se, o que o tornou poss\u00edvel \u00e9 profundamente anti-marxista\u00bb 1968 envolve a oposi\u00e7\u00e3o descentralizada ao poder, mais que um esfor\u00e7o por substituir um conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais por outro. Uma inten\u00e7\u00e3o semelhante s\u00f3 podia ter conseguido estabelecer um novo aparelho de poder-saber em lugar do antigo, como o demonstra a experi\u00eancia da R\u00fassia p\u00f3s-revolucion\u00e1ria. Foucalt procura dar a este argumento \u2013 em si mesmo pouco original, pois trata-se de um lugar comum do pensamento liberal desde Tocqueville e Mill \u2013 um novo cariz, oferecendo uma explica\u00e7\u00e3o distinta do poder&#8221;. Ver Alex Callinicos: Contra el pos-modernismo. Edi\u00e7\u00e3o em espanhol de Julho de 1993. No s\u00edtio web <a href=\"http:\/\/socialismo-o-barbarie.org\/formacion\/formacion_callinicos_posmodernismo_00.htm\" target=\"_new\">http:\/\/socialismo-obarbarie.org\/<\/a><\/p>\n<p>[4] Ver Rosa Luxemburgo: La acumulacion del capital, M\u00e9xico, Grijalbo, 1967, p\u00e1g. 285. Edi\u00e7\u00e3o brasileira: A acumula\u00e7\u00e3o do capital, Rio de Janeiro, Zahar, 1976, 516 pgs.<\/p>\n<p>[5] Ver Rosa Luxemburgo: Huelga de massas, partido y sindicatos, obra citada, p\u00e1gina 210.<\/p>\n<p>[6] Obra citada, p\u00e1gina 189.<\/p>\n<p>[7] Obra citada, p\u00e1gina 210.<\/p>\n<p>[8] Ver os documentos da pol\u00e9mica em Luxemburgo, Kautsky e Pannkoek. Debate sobre la huelga de massas, C\u00f3rdoba, Passado e Presente, 1976.<\/p>\n<p>[8] Ver Vladimir I. Lenine: El Estado y la Revoluci\u00f3n em Obras Completas, Buenos Aires, Cartago, 1960, tomo XXV, pgs. 477-479.<\/p>\n<p>[10] Tentando fazer um balan\u00e7o amadurecido da discuss\u00e3o de 1904-1905 acerca da organiza\u00e7\u00e3o, Le\u00f3n Trotsky, outro dos participantes da dita pol\u00e9mica (interveio em 1904 no debate com o artigo &#8221; As Nossas tarefas pol\u00edticas &#8220;) no final da sua vida afirmou: &#8220;Toda a experi\u00eancia posterior me demonstrou que Lenine tinha raz\u00e3o, contra Rosa Luxemburgo e contra mim&#8221;. Balan\u00e7o reproduzido por Mary Alice Waters na sua introdu\u00e7\u00e3o a Rosa Luxemburgo: Obras Escogidas. Obra citada, tomo I, p\u00e1gina 33.<\/p>\n<p>[11] Ver Paul Frolich: Rosa Luxemburg. Vida y obra, Madrid, Fundamentos, 1976, p\u00e1ginas 140-141.<\/p>\n<p>[12] Ver Rosa Luxemburg: Huelga de massas, partido y sindicatos, obra citada, p\u00e1gina 216.<\/p>\n<p>[*] Ensaista, argentino.<\/p>\n<p>Nota: resistir.info n\u00e3o concorda com algumas das opini\u00f5es expressas pelo autor do artigo. Decidiu public\u00e1-lo, no entanto, devido \u00e0 sua import\u00e2ncia e \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o que d\u00e1 ao debate de ideias.<\/p>\n<p>O original encontra-se em: <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/docs\/17281.pdf\" target=\"_new\">http:\/\/www.rebelion.org\/docs\/17281.pdf<\/a> .<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_new\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/p>\n<p>14\/Set\/05<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nNestor Kohan*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5821\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-5821","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1vT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5821","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5821"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5821\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5821"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5821"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5821"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}